
Respeitando as variações, funciona mais ou menos assim: em período eleitoral ou próximo, de repente aparecem políticos e solenidades. Às vezes não precisa aparecer mais do que falatório. Prometem a construção de tantas casas populares, diz-se que muito dinheiro foi liberado…
Então chegam as máquinas e começa a obra geral. Mas por algum motivo, a dita “prática” não corresponde às expectativas e planejamentos: a obra não perdura e, de algumas ou muitas casas, fica só o esqueleto, tudo inacabado.
Nenhum burocrata examinou a aberração de uma obra ter começado e não terminado. E se alguma fiscalização chegou a visitar o lugar, o resultado foi o mesmo de tantas outras país afora: nulo.
Então chegam os pequenos bandidos, traficantes e afins. Polícia? Dependendo o lugar, eventualmente se diz que apareceu uma viatura. Mas tudo permanece ali como está, ao Deus dará, como se uma força cósmica obrigasse a cada um aceitar tal condição (“afinal é o Brasil”, “as coisas são assim mesmo”…). O monumento à aberração comum permanece a céu aberto.
Passam-se os anos. Mas então ocorre algo diferente, inesperado: famílias tentam ocupar as plantas abandonadas, construir ali moradias, às vezes articulando – malgrado o descaso público – verdadeiros bairros.
Resultado? Mais ou menos hora, depois de algum jogo burocrático em obscuros corredores, muito rapidamente toda a série de descasos (burocratas, fiscais, poderes públicos etc.) se converte em violência bastante compromissada: os moradores devem sair dali, caso contrário a polícia deve desapropriar o terreno, expulsar os moradores, garantir a “legalidade”.
Antes da ocupação, em termos de comunidade humana cada membro das famílias é um semi-animal, pois não tem direitos básicos (o da moradia, por exemplo) garantidos. Está simplesmente jogado no mundo.
Mas depois da ocupação tudo muda: o direito de alguém deve se cumprir, mas certamente não o dos moradores. Como num relampejo, de repente os moradores são recolocados no jogo social, possuindo agora “direitos”, mas como antagonistas: se um processo jurídico se faz entre cidadãos, aí estão os moradores movidos enquanto cidadãos, pois estão sob acusação por outra entidade jurídica que não os quer ali.
Aí chega a polícia e os expulsa. E saindo das casas eles saem de novo do jogo: estão de novo jogados no mundo.





Guilherme Levy
/ março 1, 2012Funciona beeeem assim, Catatau.
O homo sapiens mata ou exila todos que não sejam de sua tribo. Deve estar no DNA humano, e infecta o social. Urge desumanizar-nos, pois se não de que vale o conhecimento?
catatau
/ março 3, 2012Olá Guilherme!
Que o homem tenha tais traços, isso é inegável. Mas o que será que explica a recorrência disso aqui, nesse país chamado Brasil, e notavelmente nem tanto em outros lugares? Aí está a questão.
Abraços,
Guilherme Levy
/ março 12, 2012Pô, Catatau, cite aí então um país/povo que não é ou foi assim.
Recorrentemente.
Acho que o que varia é o grau de violência. Também há variações das “técnicas” de exclusão, mas se nos lideres da civilização ocidental, dita “laica e democrática”, a coisa está degringolando, imagine no resto. Os Estados Unidos é um país admirável, pois eleger um Negro-Obama depois do Osama do 11 de setembro não é para qualquer um, mas se o poder cair na mão de alguns extremistas, tipo a Palin, não duvido que as minorias sofram um aperto por lá. Isso sem falar no que eles fazem mundo afora com quem não comunga com os “ideais ocidentais”.
Quanto a tentar, pois não tenho cacife para tanto, explicar o caso específico, e brasileiro, será que não é da concepção de “propriedade” que vem desde o colonialismo, com as suas cortes reais e religiosas? A Europa transcendeu essa fase, mas realmente fica a incógnita do porquê nós não.