A desvinculação da responsabilidade do governo na Educação e na Saúde

Visão do Rio de Janeiro e do Pão de Açúcar no Corcovado, pelo pintor do HMS Beagle Augustus Earle. Não foram poucos os viajantes que se impressionaram com nossas potencialidades e, ao mesmo tempo, perdas de oportunidade. Inauguramos os temas do “país do futuro” e do “salvador da pátria”, e jamais os deixamos para trás.

Paulo Guedes é figura importante e histórica de diversos grupos de investimento (como a Bozano), e um de seus focos históricos de especulação é a educação. Tais investimentos estão diretamente vinculados à educação superior privada e à produção de material didático. São interesses privados diretamente vinculados com decisões públicas. As cifras movimentadas figuram na ordem dos bilhões, e investimentos recentes estão na área de saúde e na especulação financeira de cursos como os de Medicina.

Nisso, é flagrante a notícia: após a Reforma da Previdência, o próximo passo será um projeto de desvinculação radical das receitas obrigatórias do Estado, como as de Saúde e Educação. Isso significa que sistemas como o SUS e a Educação Pública estão sob sério risco de extinção: a desvinculação ataca-os no coração, isto é, no financiamento público mínimo. Conforme já disse Guedes muitas vezes, “não vamos subir o teto, mas quebrar o piso“.

Quando impelido a dizer algo, Guedes não diz que haverá desprivilégio em áreas importantes como saúde e educação. Ele desvia o assunto. Por exemplo:

  O significado das passagens é claro: “não vamos tirar dinheiro de área nenhuma”, apenas “somos escravos do dinheiro carimbado” e “vamos descarimbar”. Em tese a idéia é ótima: ao invés de ligar os gastos a valores fixos, “carimbados”, seria preciso contextualizá-los, adequá-los a cada situação, às necessidades locais e decisões do gestor. “Mais Brasil e menos Brasília”.

O problema é precisamente a passagem disso para a prática. Pois a outra palavra de ordem é a privatização, pura e simples. Privatizar tudo, não deixar resquício de coisa pública. Em suma: entregar tudo à especulação em bolsa. A desvinculação radical não representa, então, um ajuste contextual dos gastos ou a tentativa de arrecadar mais para o que mais importa.

É o que a palavra “desvinculação” diz: Guedes quer tirar o Estado da reta, tornando o Brasil um experimento de anarcocapitalismo puro: ao Estado nada resta, os cidadãos que se joguem às próprias sortes (um pouco como nas zonas de milícia carioca ou em filmes como Bacurau), embora, como se sabe, Guedes é bastante afim ao que se fez no Chile: um governo de forte repressão ligado a uma liberdade irrestrita de especulação financeira (até a água, por lá, é privatizada).

As idéias e os fatos concretos

O povo tem recebido tais notícias sob outro viés. Fala-se em “pacto federativo” ou em “aliviar as verbas para estados e municípios”, ou ainda “obedecimento aos ajustes fiscais”. Fala-se em emenda constitucional. Novamente, a idéia abstrata é muito interessante.

Mas na prática, a medida esvaziará a Constituição de 1988. Para quem não sabe, a Constituição é conhecida como Constituição Cidadã, pois visa garantir direitos básicos do povo e do país. É do princípio de cidadania que deriva a obrigatoriedade dos gastos com saúde e ducação, não à toa porque o Brasil sempre foi um dos países mais desiguais do mundo. É por isso que existe o SUS e a Educação Pública e os investimentos que Guedes chama de “gasto carimbado” (aliás, é curioso ver as pessoas chamando gasto privado de investimento, e investimento público de gasto, que inversão!).

Guedes e Bolsonaro surfam numa onda que condena o SUS e a Educação Pública a uma espécie de “gasto excessivo” do governo. São, segundo eles, elefantes brancos no meio da sala. Ora, qualquer pessoa concorda que gasto tem que ser reduzido.

Mas aí, novamente, os dados e os fatos não concordam com as idéias. Vejamos a tese: a privatização e a entrega dos serviços à iniciativa privada vai desonerar a esfera pública, favorecer o investimento privado e todos ganharão, certo?

Já temos à disposição casos interessantes e concretos para responder a isso. A educação privada está aí para o dizer. O ensino superior privado movimenta bilhões em bolsa (e, como vimos, é a menina dos olhos de Paulo Guedes). Como o ensino privado tem se comportado como alternativa ao ensino público? Afinal, os lucros são ótimos. E o ensino privado tem um diferencial: imagine o leitor que 1/3 de todos os ganhos de seu negócio estivessem garantidos com dinheiro público. Alguém poderia dizer que não é à toa que atacam tanto o ensino público. Como também não é à toa que gente como Guedes diz que as universidades federais deveriam ser desfeitas e as pessoas deveriam ganhar financiamento para cursar as privadas.

O ensino privado superior suplanta o ensino público?

O ENADE de 2018 está aí para o mostrar: apenas 6% das universidades brasileiras atingiram nota máxima no ENADE. É um índice muito baixo. Mas o leitor repare nos dados, retirados de um universo de 8520 cursos (as notas variam de 1 a 5):

  • 492 cursos obtiveram nota máxima. Destes, 252 são de instituições públicas, 123 de privadas sem fins lucrativos e 117 com fins lucrativos.
  • 2509 cursos obtiveram nota baixa (1 e 2), abaixo do critério mínimo (nota 3). Destes, 1397 são de privadas com fins lucrativos, 864 de privadas sem fins lucrativos e 239 de públicas.

Os dados são flagrantes: entre os piores cursos, 90,1% são privados; entre os melhores, 51,2% são públicos.

Mas a estatística é a “arte de torturar os números”, e por isso vale a pena chamar a atenção a algo mais:

  • Entre as universidades federais, 29% obtiveram nota 5 (máxima); 35% nota 4 e 25% nota 3. Apenas 11% das federais receberam notas 2 e 1.
  • Quanto às privadas, apenas 3% dos cursos receberam nota 5; 18%, nota 4; 48% obtiveram nota 3, e 31% ficaram com nota 1 e 2.

É praticamente uma pirâmide invertida.

Outro dado importante: As universidades federais representam apenas 25% do universo de matrículas! Em 2017, por exemplo, tínhamos apenas 296 instituições públicas superiores e 2152 privadas. Num golpe: em muito menor número, as públicas representam muito maior qualidade.

Os dados apontam: o ensino público, embora minorizado e desfavorecido, tem índices muito melhores de qualidade de ensino e formação quando comparado ao ensino privado. Que explicação teria o ensino privado para esse dado tão conflitante, em termos de oferta de qualidade? Pois se o lucro é na ordem dos bilhões, a qualidade deixa muito a desejar.

Outro dado: a Pesquisa

Mas há mais, e outro dado é a pesquisa. É impressionante como nossos próprios governantes tentam desqualificar a pesquisa nacional. A perseguição ideológica ao INPE ou contra os “climatistas” são os casos mais macarrônicos disso. Mas há quem alegue que a pesquisa brasileira tem “pouco impacto” internacional (já comentamos algo aqui e aqui) e que isso faria não valer a pena investir em educação pública (comentamos sobre tais mentiras aqui). Índices de impacto precisam ser contextualizados, inclusive à luz da franca ascensão das pós-graduações brasileiras e sua internacionalização nos últimos anos (processo que não deveria ser interrompido para oferecer dados fidedignos).

Mas vamos imaginar que o lobby das faculdades privadas e o bolsonarista ideológico estejam corretos, e que então o impacto da pesquisa nacional, ou sua relevância, fossem baixos. Mesmo assim, restaria o fato de que 95% da pesquisa brasileira, por baixo, é feita em universidades públicas.

O cenário de um protagonismo da educação privada em termos de pesquisa é, com isso, horripilante, pois os índices são mais do que contundentes: não há qualquer interesse de incentivo à pesquisa nas universidades privadas. Lembrando da idéia de universidade (que reúne ensino, mas também pesquisa e extensão), alguém poderia até perguntar: o que fazem lá dentro?

Cruzando isso tudo com a desvinculação dos gastos, o que significa?

Em primeiro lugar, significa que a educação pública é uma espécie de obstáculo incômodo para os investimentos privados. As faculdades privadas precisam toda hora comparar-se com os índices triunfantes das públicas.

Em segundo lugar, isso significa que a desvinculação dos gastos não garantiria qualidade dos serviços prestados, pois já temos um exemplo claro, consolidado, de um mercado atuante e com lucro bilionário. As universidades públicas novamente representam competição, diante do que o setor privado não teve – apesar dos lucros – maior reação: mesmo com os serviços públicos estagnados, os serviços privados aumentaram exponencialmente os lucros, sem aumentar a qualidade.

Um ser racional se perguntaria sobre o que está por trás disso tudo. Afinal, tem bastante gente especulando e, pelo visto, também fazendo lobby.

Um Brasil com a Constituição modificada e as receitas desvinculadas tem um significado bastante claro: serviços privados comprovadamente ruins, mas que não terão mais um incômodo parâmetro de comparação (não citamos os planos de saúde privados e o quanto o SUS também representa incômodo, embora visto como inferior).

Além disso, Guedes quer transferir ao gestor a decisão sobre onde “gastar mais”. Ele só esquece que não é assim que a gestão pública se faz. Tudo se passa como se o Brasil virasse, finalmente, uma cópia dos governos municipais: revanchismos, jogos de milícia, destruição de desafetos; governantes querendo pintar a cidade com sua cor, para tudo ser depois apagado na gestão do rival; terras sem lei nas quais vivem os brasileiros. Enfim, um Brasil sem Brasília, como sempre foi.

O tema do “suicídio dos estudantes”

Está em voga o discurso de que estudantes se suicidam, ou estão passíveis de suicídio, ou que o ambiente de estudos é angustiante ou pouco acolhedor. Que situação desoladora! Um estudante pensando em suicídio é um pouco como o futuro pensando em suicídio.

Não seria inútil girar um pouquinho a perspectiva e considerar certas coisas, um pouco como um psicólogo comportamental busca o contexto no qual o comportamento de seus pacientes estão implicados, ou um psicólogo existencial busca compreender como seus pacientes se relacionam com seus mundos.

“Estar angustiado” com os estudos significa:

– em primeiro lugar, encarar os estudos como difíceis. Isso implica (1) a dificuldade real ou não deles e (2) o modo como estudantes tem se deparado com as dificuldades.

– Em segundo lugar, isso tudo tem a ver com oportunidades e futuro: a percepção do estudo tem se vinculado, cada vez mais, com a percepção do emprego. Estudar agora significa empregar-se no futuro. Ou melhor, não se estuda mais para ter uma formação que garante um emprego. Estuda-se para ter um emprego que exija alguma formação. Não somos mais uma sociedade formadora com valores e ideais, mas indivíduos “sem sociedade” que fogem do desemprego.

– Em terceiro lugar, a angústia se liga ao “desempenho”: encara-se os estudos como se encara o ENEM. Não se estuda para estudar, mas para passar, para “responder certo”. Quem não “responde certo” reprova, não passa nos ENEM’s da vida.

– Em quarto lugar, a angústia tem um quê de visibilidade, de marketing pessoal. Na era das redes sociais, é impossível encarar o fracasso. Eu, que posso não estudar, não posso fracassar.

– Em quinto lugar, estudar é chato. Não estamos mais no mundo dos românticos do século XIX, no qual pessoas eram capazes de se suicidar lendo romances. Não vivemos mais num mundo no qual um Ramanujan busca uma vaga e a todo custo – até a saúde – precisa superar preconceitos para, finalmente, conseguir acesso ao saber. Agora é o sentimento de obrigação de ler textos que pode levar ao suicídio. Não vivemos mais um mundo no qual os jovens se inspiravam em Darwin ou Humboldt e nos ideais da ciência, da filosofia ou das artes. Agora essas coisas não passam de custo, despesa, coisa de “zebra gorda” ou de “vender artesanato na praia”. Quando muito, “ciência” são as reportagens sobre pinguins ou cérebros no Fantástico.

– Em último lugar, não obstante todas as questões acima, ainda se cultiva certo tema de que a educação seria uma espécie de “lugar de libertação”. Na escola criamos um meio liliputiano, separado do mundo, onde projetamos nossos ideais de uma sociedade igualitária e justa. Criamos uma pedagogia que deve ser sorridente num mundo que não sabe lidar com frustrações e fracasso. E, somando todos os fatores acima, fracasso só pode ser falta de serventia. Fracasso representa o que o mundo diz sem dizer: que as pessoas são descartáveis.

Ora, o aluno que “pensa em se suicidar” é o oposto do aluno de algum tempo atrás. Não faz muito tempo, caminhava-se muito para chegar à escola, que exigia – ao menos do pobre – alguns sacrifícios. Um grande exemplo é o de Florestan Fernandes: engraxate, garçom e estudante de filosofia lendo textos em francês e alemão na USP (detalhe: tendo aprendido sozinho). Ele é o simétrico e inverso de muito do que vemos por aí: estudantes que não estudam, que imitam o comportamento largado e pseudorebelde dos filmes da sessão da tarde, mas que “se angustiam” quando “não vão bem”.

Algum tempo atrás, também, o emprego não era visto como algo tão rarefeito. Empregar-se era uma consequência natural da vida. Dou apenas o exemplo do emprego de professor, outrora tão abundante: antigamente, um dos motivos de alguém tornar-se professor era os concursos, cujo número e estabilidade compensava os baixos salários e as condições degradantes. Hoje os salários continuam baixos, mas os concursos foram pulverizados. Não há emprego, e precisar ter um emprego é um motivo de grande angústia, pois o desemprego implica ter uma vida de possibilidades reduzidas. Na esteira da angústia sobre o emprego, vem a pressão sobre os estudos.

Mas os estudos também não tem sentido. De um lado acusam a formação generalista de inútil, chata demais. Aprender matemática, por exemplo: que utilidade tem, para além de fazer conta? E aí chegamos na mercearia e a pessoa sequer sabe contar vinte menos treze. Não ensinamos mais física, e depois achamos estranho as pessoas defenderem a terra plana. Não ensinamos mais biologia e as pessoas deixam de encarar a contradição que é dizer que Darwin está errado e tomarem antibiótico. Não ensinamos História, Geografia, e as pessoas mal conhecem os países ou sabem de economia.

O estudante navega nesse mar de lama, que de um lado acusa toda educação de inútil, e de outro põe o desemprego como perigo iminente. Ao mesmo tempo, é uma juventude ludibriada com as imagens de sucesso e facilidades das redes sociais, enquanto o mundo ao redor se deteriora, literalmente derrete.

Essa juventude vive como se tivesse um imenso corte entre o corpo e a alma. Nosso jovem projeta ideais mundanos num mundo realmente decadente. Na cabeça vivem facilidades e mundos ideais, pouco afeitos às dificuldades do mundo real. É por isso que o mundo só pode ser incompatível com esses ideais.

Então o esforço machuca, fere, angustia. Sempre tenho uma vida a mais no jogo de videogame ou uma foto melhor no Instagram. Mas o mundo ensina que não há alternativas. A escola fica encravada entre esses dois mundos, e é por isso que ali a angústia se torna mais visível.

(imagens de O Sofrimento do Jovem Werther, de Goethe)

in Feliz dia do Professor

Debret

É flagrante ver o jornal dizendo que as pessoas precisam “se qualificar”, de um lado, e os dados dizendo que o Brasil tem índices de produtividade pífios, de outro.

Essa seria uma velha e manjada conversa, se a escola não tivesse parado de ensinar o seguinte: o fato é que o Brasil nunca foi muito afeito à produtividade, e sim à produção conforme conveniências. Nunca importou muito se somos produtivos ou damos lucro. O que importou de verdade é se o lucro foi para o senhorio do Engenho. É o que explica termos abandonado a escravidão tão tardiamente. O escravo sempre foi uma solução cômoda para o brasileiro. Basta ver o Manual do Agricultor Brasileiro, verdadeiro livro de coaching e de CEO do século XIX, misturando liberalismo econômico com pregações sobre escravidão.

Se a coisa mudou? Experimente ir a um serviço privado qualquer para ver (como se a coisa fosse exclusiva do serviço público, criado para dar cargos à gente privada).

Mas, quando insistimos que a educação é a fonte da qualificação do brasileiro, nunca deixamos de cometer uma contradição. Dizemos sempre, de um lado, que o brasileiro não deve ter uma formação generalista, e sim técnica, para servir ao mercado de trabalho. Mas de outro lado, dizemos igualmente que o brasileiro precisa ter uma formação ampla e maleável, permitindo adequar-se a múltiplas funções. A contradição é flagrante! Não sabemos direito nem o que pretendemos frente ao “Mercado”. Não tem como dar certo.

Mas essas críticas à nossa educação sempre insistem que a educação generalista e ampla, essa que sempre tivemos, se afasta muito da realidade.

Essa tese sobre a qual dizemos que “a educação ampla se afasta da realidade” esquece o projeto mesmo da educação ampla. Figuras como Humboldt, no século XIX – um dos grandes ideólogos da formação generalista – diriam precisamente o contrário do que nós, brasileiros, pregamos: o que define um verdadeiro cidadão é um verdadeiro conhecimento do Mundo, no qual o homem, aprendendo o que a humanidade lhe deixou de herança, seria capaz de ler os problemas mundanos e resolvê-los com criatividade. Para ser criativo, portanto, seria preciso ter formação ampla e rigorosa.

Em suma: não dá para ter uma formação técnica e fechada de um lado, e de outro saber resolver problemas amplos e que exigem criatividade. Uma coisa exclui a outra.

É dia do professor e os professores brasileiros permanecerão assim: sempre cobrados por aquilo que são reprovados de fazer.

***

E há mais um bocadim nisso tudo: surpreende o número de homenagens que o professor recebe nesse dia.

Nessa mesma semana, a câmara municipal de BH votou o projeto “Escola sem partido” a portas fechadas. E o projeto foi aprovado. Esses projetos não dizem muito sobre haver questões partidárias em escolas, mas dizem muito – agora sim – sobre os professores serem ainda mais tutelados, vigiados, colocados em suspeita a respeito do que fazem. Os mesmos professores que, no ensino público, são acusados de serem mini-marajás, com piso salarial de 2500 reais.

E no dia 15 de outubro recebem um tapinha nas costas.

O desempregado, o empreendedor e as estrelas

de André Dahmer
de André Dahmer

Tiaguinho era um excelente garçom, espécie rara no Rio. Ele também era mais um desses caras que votou no Bolsonaro e, na onda, disse que tudo vai melhorar. Não conhecia – como todo o resto – o plano de governo do presidente e não sabia, por exemplo, da expressão “mais empregos, menos direitos”. Achava isso tudo piada e intriga da oposição.

Nosso garçom também tinha algumas inquietudes. Participava do culto, levava a Bíblia ao pé da letra e lia com seriedade o que dizem sobre a “terra plana”. Mas ele também cometeu algumas coisas um tanto diversas: conheceu Carl Sagan e se apaixonou por observação astronômica. Estava procurando um curso de física compatível com o horário apertado e guardava dinheiro para comprar um telescópio.

Mas os ventos mudam com a conjunção dos astros, e Tiaguinho acabou perdendo o emprego. O dono quisera contratar outro garçom em regime intermitente. Para manter o contrato, queria colocar Tiago no turno da noite. Mas ele tinha o culto, os livros, a esposa e os filhos para cuidar. Por outro lado, o dono do restaurante era amigo do novo empregado, quer dizer, colaborador. O bico (quer dizer, emprego) do contratado dava algumas vantagens financeiras ao contratante – e sem precisar contratar outro -, sacumé.

Eu soube disso tudo encontrando Tiaguinho de bicicleta e com uma mochila verde nas costas. Deixou de ser garçom e virou empreendedor, quer dizer, entregador de aplicativo. Mais empregos, menos direitos. Mas ele não esperava que esses “menos direitos” viriam com o velho tema brasileiro da cupinchagem, da peixada, da puxação de tapete. Ele, Tiaguinho, também não sabia, ou não levava em conta, que somos um dos países com menor produtividade dentre os países com índices disponíveis, e que portanto o “mais empregos, menos direitos”, não tem nada a ver com emprego ou produtividade, embora tenha a ver com direitos.

E o curso de Física?, perguntei. Curto e grosso ele respondeu, arrumando a mochila e firmando o pé no pedal para mais uma entrega no Peixoto: e com física vou trabalhar no quê? você não está vendo o que estão fazendo com as universidades?

Bolsonaro deixou o PSL. E daí?

Daí que o PSL inteiro, de cabo a rabo, mudou a essência mesma do partido e foi reestruturado para receber Bolsonaro como candidato a presidente.

Antes de Bolsonaro, o movimento majoritário do PSL era o Livres. Ainda em 2018, com o falatório da possível vinda dele ao partido, emitiram a nota:

O projeto político de Jair Bolsonaro é absolutamente incompatível com os ideais do LIVRES e o profundo processo de renovação política com o qual o PSL está inteiramente comprometido

Mas com a vinda de Bolsonaro, o Livres – majoritários – decidiram sair do barco. Disseram:

Agora, infelizmente, Livres e PSL tomam caminhos separados. A chegada do deputado Jair Bolsonaro, negociada à revelia dos nossos acordos, é inteiramente incompatível com o projeto do Livres de construir no Brasil uma força partidária moderna, transparente e limpa.

Além das origens e objetivos comuns que nos identificam com os ideais da liberdade, nós, do Livres, temos em comum também o mesmo inimigo: a velha política que satura o cidadão brasileiro.

Recusamos a reciclagem do passado. Não vamos arrendar nosso projeto à velha política de aluguel. Nosso compromisso não é com a popularidade das pesquisas da semana passada, mas com a população de um país que exige a transformação da política partidária. Não queremos servir a um grande nome, mas sim à grande massa de batalhadores de nosso Brasil. Se hoje a velha política nos derrota é porque ela não conseguiu nos conquistar.

Bolsonaro deixou o PSL por suspeitas de corrução e caixa 2 que o ligaram ao partido. E daí? Daí que o PSL é Bolsonaro. Não é à toa que Major Olímpio acabou de dizer que a saída de Bolsonaro do partido representa o mesmo que “morar sozinho e fugir de casa“.

Essa porra de reforma

Hoje é um dia histórico, mas é um dia para a História do Esquecimento. O senado acabou de aprovar a “nova” reforma da previdência.

No apartamento ao lado, o pedreiro faz a reforma e baterá seu martelo até o fim do dia. À noite, os vizinhos é que farão o aparelho de ar condicionado bater até de manhã, verdadeira britadeira noturna. Amanhã o ciclo se renova, e a notícia da reforma (no caso, a da previdência) passará como se nada tivesse ocorrido.

Mas a reforma da previdência vai interferir na vida do pedreiro e do vizinho, de uma forma muito mais drástica do que o incômodo de suas britadeiras e martelos. O pedreiro terá que se arranjar para bater muito mais martelo. O vizinho vai ter que se virar para pagar a conta do ar condicionado-britadeira. Pois nada se discutiu sobre essa reforma, exceto o fato – repetido diariamente – de que seria preciso fazer uma reforma.

O Brasil tem vivido coisas inacreditáveis. Ontem, nosso presidente disse que o interesse na Amazônia não se refere “ao índio ou à porra da árvore”, mas à mineração.

Simples assim: índios não valem e essas “porras de árvore” ficam atrapalhando o essencial, isto é, a concessão da Amazônia para as mineradoras americanas.

Mas isso não é o mais grave. O mais grave é um presidente achar que pode dizer isso, menosprezar o capital de seu povo (o índio!) e seus bens mais preciosos, visados no mundo inteiro.

Se um presidente pode adotar esse tipo de linguajar, então é de duas, uma:

  • é porque ele não tem qualquer credibilidade e o povo pode adotar o mesmo princípio contra o presidente: o que significa que Bolsonaro, essa “porra de presidente”, deveria ser deposto.
  • é porque o povo não está nem aí mesmo e esse lugar não merece mais ser vivido, pois se tornou uma porra de país.

A Psicologia de Ad Astra

(Esse post contém Spoilers)

Filmes de ficção científica geralmente carregam consigo discussões filosóficas e também ligadas às “ciências humanas”. Mas a mídia científica ou de cinema, nessas ocasiões, entrevista muitos cientistas naturais e pouca gente ligada às “humanidades”. Um exemplo é Interestelar, que propagou explicações de Neil Tyson ou Stephen Hawking, sem ouvir outros especialistas. Interestelar diz que o homem é capaz de viajar no espaço, entrar num buraco negro e resolver os problemas mais difíceis da Física (o das relações entre a Relatividade Geral e a Física Quântica), mas sem ser capaz de resolver os próprios problemas domésticos (uma contradição e tanto!).

Em Ad Astra, um dos pontos mais importantes é a psicologia do astronauta. Ela determina o sucesso da missão, até mais do que os aparatos tecnológicos. Do início ao fim do filme, o protagonista é examinado. Ele confessa, o aparelho mede sua voz e outros índices fisiológicos, sempre estáveis e conformes às missões e espectativas, e então uma voz anuncia a “aprovação” no teste.

Mas há momentos nos quais o protagonista titubeia, e são os principais momentos do filme. Esses momentos são precisamente os que oferecem dúvida e colocam o protagonista em contradição com sua missão. E nesse ponto, chegamos a um resultado curioso: o filme mostra um tempo no qual o exame psicológico é muito preciso, como se ele avançasse a tal ponto que fosse possível uma espécie de prevenção e precisão contra qualquer eventualidade. Um exemplo é a cena na qual os membros de uma missão usam uma pílula para dar estabilidade emocional, e seguem a missão em aparente “felicidade”.

O recado é claro: chegamos a um domínio técnico tão preciso que as empresas que levam o homem ao espaço não terão nada mais a reclamar. O mesmo com o exército, cujas missões são mais do que precisas.

Mas aí aparece uma questão muito interessante, patente em psicologia. O fato de que os mecanismos de exame sejam precisos não explica que tais ou quais características psicológicas sejam naturalmente “aprováveis” ou “reprováveis”. Via de regra, a concordância com a missão (de fins militares ou eventualmente comerciais) indica “aprovação”, enquanto o momento no qual a ação se desdobra em reflexão indica “reprovação”. Mas a reprovação se dá no momento preciso em que o protagonista começa a pensar sobre a missão, ao invés de apenas executá-la.

A Psicologia tem essa virtualidade de, há 200 anos, modular análises e exames nos quais o homem, na relação consigo mesmo, compara suas condutas e passa a definir o que, nelas, caracteriza sua identidade ou diferença, seu Mesmo e seu Outro. O filme não faz nada mais do que explorar isso, antever o momento no qual esse projeto seria bem sucedido. Michel Foucault, que fez a história dessa questão (até hoje pouco explorada), dava uma série de nomes a isso, como por ex. o de “norma” e o de “práticas divisórias“.

I love you, Mr. Trump

Tão surreal quanto o discurso de Bolsonaro à ONU foi seu comentário ao encontrar Trump por entre os corredores. Disse ele: “I love you”, no que foi respondido com um “nice to see you again“.

Diz-se, inclusive, que houve espera de uma hora para encontrar Trump. E que, embora estivessem no mesmo hotel, Trump se reuniu bilateralmente com outros países, mas não com Bolsonaro.

O caráter quase serviçal de Bolsonaro para com os EUA tem dado resultado: após sua fala à ONU, deputados dos EUA lançaram resolução para dificultar as relações entre seu país e o Brasil, tendo em vista os atentados de Bolsonaro à democracia e à natureza.

Jamil Chade chamou a atenção às reações – inúmeras – contra o discurso de Bolsonaro (vale ler seu texto).

Mas o que salta aos olhos, nisso tudo, é o nível de mentira (senão loucura, desvario puro) envolvido nas falas e atitudes de Bolsonaro. Tire-se o ódio e as acusações mentirosas, o que sobra? Um redondo zero. Mas os brasileiros que votaram nele permanecem calados, quando não o apóiam diretamente.

Nesse sentido, parecem um pouco com Trump, que não dá a mínima para o presidente lambe-botas. Quando muito, acena em retorno.

Disso tudo, precisaremos ver outro presidente tão submisso, e eu não consigo lembrar de outro na minha geração.

MEC prepara cartilha “antipolítica” para as universidades

Não bastava a farsa do "kit gay"
Não bastava a farsa do “kit gay”

Recebo admirado a notícia de que o MEC está preparando uma cartilha “contra manifestações político-partidárias em universidades“, para “orientar cidadãos, gestores e servidores”.

A medida é, obviamente, de intimidação e revanchismo, para tentar enquadrar toda e qualquer pessoa que exerça pensamento crítico ou critique o governo. É a institucionalização da transformação de qualquer discordante num dissidente, num inimigo que deve ser perseguido e rechaçado.

Mas o que me espanta de fato é a simples possibilidade de conversarmos sobre isso. Está muito claro, conforme já comentamos outras vezes, que o atual ministro não tem qualquer vivência universitária para além das confusões que já causou na universidade. Não tem idéia de que política em sentido amplo é amplamente discutida em praticamente todos os setores da universidade, e que até a política de tipo partidário também o é.

A medida de Weintraub tem, no fundo, a tese olavista (completamente furada) de que as universidades são “antros de esquerda”, petistas, venezuelanos, cubanos e o que mais couber na paranóia. Afinal, é para isso que serve o velho tema da criação do “inimigo interno”. E é aí que está o truque sórdido: toda e qualquer manifestação contrária ao governo, ou que apresente temas sensíveis ao que o governo defende, poderá ser taxada de “político-partidária”.

O leitor pense, por exemplo, sobre um curso de Filosofia que discute Marx (como se não discutisse também a tradição liberal), ou um curso de Serviço Social com atividades ligadas a movimentos sociais (incluso o MST), ou ainda, pense um curso de Psicologia que paute o erro científico e racional figurado na “cura gay” (um lobby patrocinado por igrejas evangélicas). Virtualmente, agora ou no futuro, qualquer pessoa que explore esses temas poderá ser enquadrado, acusado de estar fazendo uso “político-partidário” da universidade.

Mas o que espanta ainda mais é o fato que, sob a mesma lógica, outros discursos que poderiam ser interpretados também como de espectro político-partidário permaneceriam intocados. Ora, o Partido Novo, por exemplo, tenta fazer com que o povo acredite que suas teses são iguais às encontráveis em cursos de Administração e Economia: será que com isso com os cursos de Administração e Economia se enquadrarão como político-partidários?

Eis mais um pepino para que uma instância superior, como o STF, recuse o que vier, seja na forma de portaria, decreto etc.. Raquel Dodge já pediu para que o STF barre qualquer medida assim.

Mais grave ainda: estamos colocando dentro do debate público pessoas que recusam o próprio debate público, a nossa própria voz pública. Estamos aceitando a fala daquele cujo discurso não aceita nossa fala. Isso tem nome. Olavo disse ainda ontem:

A coisa mais urgente no Brasil é uma militância bolsonarista organizada. Eu não disse militância conservadora, nem militância liberal. Eu falei militância bolsonarista. A política não é uma luta entre ideias, é uma luta entre pessoas e grupos

Carlos Bolsonaro acabara de dizer que “por vias democráticas, a transformação que o Brasil quer não acontecerá no ritmo que almejamos”, no que o próprio presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, complementou: “”Se fosse em Cuba ou na Coréia do Norte, já não teria aprovado tudo quanto é reforma, sem Parlamento?

Surpreendente revelação! Bolsonaro é um presidente como o de Cuba ou da Coréia do Norte, mas com sinal trocado.

Reúna-se todo o dito acima, e não é difícil unir os pontos: vamos lutar contra “eles” e ter a máquina do governo do “nosso lado”. Dentro da democracia, no coração dela, estamos abrigando aqueles que querem destruí-la.

Bacurau: um conto anarcocapitalista

(esse texto contém spoilers)

Bacurau começa com a cena na qual um dos protagonistas, no caminhão-pipa, viaja numa estrada muito acidentada rumo ao vilarejo. Cena bem diferente de muito do que se vê no Nordeste hoje.

No caminho já se começa a entrever algo do sentido do filme: no Brasil de “daqui a alguns anos”, a escola municipal está em ruínas. Tombou um caminhão com caixões. Alguns carros param, mas não para socorrer as vítimas. Os transeuntes conversam ao lado de um dos acidentados mortos. Eles não cobrem o morto, os comportamentos só  visam guardar os caixões. Não há ambulância. O caminhão-pipa, que cai aos pedaços, passa pela cena, e deixa mostrar em contraste um LCD ultra-moderno no painel, sempre com anúncios de bandidos procurados.

Passando pela barragem, alguém se apossou da água local debaixo de bala. A represa tem jagunços de alguém, e isso justifica a necessidade de Bacurau precisar do caminhão-pipa. Até a água, em Bacurau, tem dono. E a barganha é na base do tiro.

A chegada a Bacurau mostra uma típica comunidade nordestina. Só que a Igreja virou depósito, e o enterro não tem mais todas as cores de um enterro do interior do nordeste, especialmente num lugar com Igreja e aparente tradição espiritual remanescente. É, sim, um enterro nordestino, mas algo da tradição ficou para trás, restando traços de uma espiritualidade conservada, mas deslocada em outros ritos (ou ao menos tornada difusa). Muito ali mudou, provavelmente junto com a marcha do mundo: os limites do sexo já não são os mesmos (fala-se sobre ele na mesa de família, cultiva-se estilos de vida trans), e a sementinha psicotrópica mostra que entre o real e o imaginário os limites também se afrouxaram, para o bem e para o mal. Pois a médica de Bacurau também mostra uma droga “ruim”, esta incentivada pelo governo:  há uma espécie de sedativo psicotrópico utilizado no Brasil inteiro, com distribuição estranhamente gratuita. O sedativo é aplicado por via anal e vicia. Milhões de brasileiros, viciados e sedados por uma droga que enfiam diariamente no cú.

Bacurau é jogada às traças e isso se mostra com a chegada do prefeito de Serra Verde. Já houve conflito, o que justifica todos os avisos e o recolhimento da comunidade. As coisas não estão normais, a vida segue, mas com aparências de estado de sítio. A chegada do prefeito é uma espécie de “Política de Curral 2.0”: os mesmos princípios arcaicos, do voto de curral, convivem com mecanismos avançados, som alto e carro de som e vídeo. A política intimidatória – de resolver na bala – convive com o estardalhaço do carro de vídeo. O voto pode ser facilitado por um pequeno aparelhinho que recolhe impressões digitais, que beneficiará o prefeito na próxima eleição. Um caminhão literalmente despeja livros na escola local, como se fossem uma espécie de lixo. O que ninguém quer, em Bacurau criaram o hábito de separar.

Daí se seguem outras estranhezas. Bacurau já não consta mais no mapa. Como isso é possível? Por interesse privado, business. Uma rama de dinheiro pode também pagar o corte do telefone ou da eletricidade. O outro protagonista, o Pacote, ganhou o apelido pelos vídeos famosos nos quais, no Brasil do Sul, matou muita gente. Virou uma espécie de pistoleiro legendário. O assassinato também parece um limite rompido em Bacurau, não por ser Bacurau, mas porque ocorre assim no Brasil inteiro de “daqui a alguns anos”. O “Brasil do Sul”, dizem, é avançado. O mesmo Brasil do Sul no qual, no Anhangabaú, a televisão mostrará uma execução em massa.

É nesse ambiente que aparecem os “turistas”. Eles não falam português, mas tudo parece favorecê-los. Eles tem cobertura ultramoderna via satélite, contrastando com a Bacurau deixada às traças. Sob seus comandos apaga-se a luz ou o sinal, ou a cidade do mapa. Os turistas estão ali porque pagaram por um negócio, também prestado por brasileiros. Não importa se um deles é funcionário do governo federal, e a imagem é bem clara do funcionário público que, no Brasil de “daqui a alguns anos”, pode ter ganhos privados ou ganhar algum arrego sem restrições.

Detalhe: cada turista tem álibi garantido se for pego. Mas se o brasileiro do governo morrer, ninguém virá buscar. Em comentário revelador, os turistas gringos se espantam com esses brasileiros trabalhando para eles: como são capazes de não defender os seus? Mas enfim, brasileiros “do sul” e o prefeito de Serra Verde trabalham igualmente para os turistas, tanto faz.

Esse detalhe dos brasileiros servindo aos “turistas” é quase como um comentário sobre a figura do mameluco. No Brasil, costumou-se chamar de mameluco o índio cruzado com o português. Mas na origem, o mameluco é aquele que serve o conquistador contra o conquistado. Era exatamente o papel ocupado pelo casal de motoqueiros brasileiros, não à toa fulminados pelos turistas, que pagaram pelo “serviço” e disputam pontos, isto é, mortes.

Bacurau ilustra um futuro próximo no qual liberou geral. A segurança, a água, a vida, tudo é privado. Fazer viver (água), deixar morrer (a narcose distribuída gratuitamente) e até fazer morrer, são três opções garantidas especialmente para quem for capaz de pagar ou tiver bons compadrios (e uma van aguardava os turistas com refrigeração e água mineral após o fim do negócio, isto é, da matança). No Brasil de “daqui a alguns anos” as reformas passaram com sucesso. O homem é livre para “empreender”, a liberdade econômica é absoluta, não há restrição para o que pode ser comercializado. Até os mecanismos públicos se “flexibilizaram” para ganhos privados, ou faz-se pouca causa para isso.

O país virou um Estado ultraliberal e ultrapolicial. Os bandidos são mostrados toda hora nos aplicativos, e Pacote – um bandido – tem vídeos famosos de seus “tecos” assistidos por milhares. Lunga, outro bandido procurado, também tem vínculos com a comunidade. A escolha é entre o governo que distribui entorpecentes, procura bandidos (não mais criminosos, mas inimigos) e dá de ombros (ou até promove) assassínios em massa, e a fuga para as comunidades isoladas.

No Brasil de “daqui a alguns anos”, vivemos uma verdadeira utopia anarcocapitalista sob nossas cores brasileiras, milicianas e de compadrio.

É um anarcocapitalismo à brasileira: nossos ultraliberais venceram com suas reformas e a brutal desvinculação das receitas governamentais. Tudo – até a segurança – é privado. Só que há um efeito colateral: os ultraliberais projetam sempre na cabeça um cenário abstrato de trocas livres e indivíduos iguais. São os “turistas” caucasianos que eles têm na cabeça. Bacurau é um tipo de lugar, como tantos outros, que não cabe no esquema. Mas nem por isso eles deixam de ter alguma serventia!

E é um anarcocapitalismo de milícias e compadrio: Cada um tem direito à autodefesa. Pode ter arma, desde que tenha capital para portá-la. E quem pode mais, tem mais – pode ter até a água. Bacurau é o contraefeito disso: um rincão remoto onde não sobrou às pessoas pobres senão o fato de terem apenas si mesmas e aos vizinhos. Estivessem em São Paulo, cairiam na execução em massa do Anhangabaú. Só não caem no rito geral da matança porque, além do isolamento, persistem os vínculos mais antigos da comunidade e da tradição (embora deslocados, talvez até um pouco esvaziados).

Sobre os vínculos comunitários remanescentes, não é à toa que o Museu de Bacurau fica no centro da cidade e é evocado durante todo o filme. É o que restou da Memória contra o Brasil. Memória, inclusive, caracterizada não como retorno do passado, mas ressignificação dele. Os gestos da morte ficarão estampados ali, nas paredes. Os ataques externos reforçarão os faitiches do grupo, embora se trate de um mundo no qual os deuses se foram. Por estar longe de tudo, a vila é ao mesmo tempo protegida e exposta.

Não é à toa que a linguagem do filme oferece sempre a estranheza e a dissonância. Bacurau é um ponto fora da curva, mas ao mesmo tempo ela é mais uma dessas tantas comunidades brasileiras que nunca foram verdadeiramente absorvidas pelo “Brasil do Sul”. Não era assim antes da divisão, e o fato de Bacurau manter-se unida mostra que continuará não sendo.

No Brasil de “daqui a alguns anos”, tudo ocorre como se o homem não tivesse mais o outro como um próximo, uma pessoa, um Outro. Por assim dizer, é como se o homem não pudesse mais se definir, como diriam os existencialistas, como um “ser-com“: como se a referência fundamental ao Outro se apagasse de nossas possibilidades existenciais e o outro se rebaixasse quase ao nível de um objeto de uso, uma “coisa” ao lado de outras “coisas”. O homem se tornou uma cifra, uma bola de carne, um Homo psychologicus, um indivíduo confinado ao mero ser privado, consolando a vida por meio de vídeos que se popularizam ou não, drogas enfiadas no ânus ou turismos exóticos. Nem os “turistas” se poupam: matam uns aos outros pela mesma diversão, ou também são capazes do suicídio. O que vale é o contrato, o serviço, o direito de marcar ponto com uma nova morte. “Vocês não tem idéia de quantos já matamos”, diz o turista. E nem do que está por vir, complementa o prefeito.