A Cambridge Analytica e o Brasil

Photo by Manuel Geissinger on Pexels.com

Quando Brittany Kaiser escreveu Manipulados1, ela descreveu os encontros iniciais nos quais conheceu Alexander Nix, executivo da Cambridge Analytica. Lá ela mencionou como, nas corridas eleitorais, determinados países seriam mais ou menos suscetíveis a estratégias virtuais de microssegmentação para marketing político.

Seria o Brasil um candidato a receber a essas estratégias? Parece haver uma resposta “sim” e outra “não”.

A resposta “não” é contada pela própria Brittany Kaiser, conforme presenciamos no site Tilt2. Os executivos da CA pareceram frustrados em constatar pouca responsividade de marketeiros e políticos por aqui. Além disso, em 2018 o escândalo da CA sobre o Brexit e as eleições americanas estourava. Outro motivo é que, até 2018, o número de dados ou “pontos de acesso” disponíveis por indivíduo brasileiro eram muito menores do que os disponíveis em países como os EUA.

Por outro lado, a resposta também é “sim”, pois os marketeiros envolvidos eram tudo, menos ingênuos. Um deles, bem antes de 2018, cogitava sobre estratégias até então não empregadas (nem pela CA): usar também o whatsapp como alvo de campanhas3.

Deu no que deu, e quem parece descrever bem os feitos é Patricia Campos Mello4. E além disso, algo que também vale notar é certa precisão brasileira em prever o futuro5.

(1) KAISER, Brittany. Manipulados: como a Cambridge Analytica e o Facebook invadiram a privacidade de milhões e botaram a democracia em xeque. RJ: HarperCollins, 2020. Disponível em: <https://www.google.com.br/books/edition/Manipulados/rT7CDwAAQBAJ?hl=pt-BR&gbpv=1&printsec=frontcover>.

(2) Cambridge Analytica no Brasil? Emails vazados contam história de fracasso. https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/01/03/cambridge-analytica-no-brasil-emails-vazados-contam-historia-de-fracasso.htm. Acessado 1 de setembro de 2021.

(3) F.M, M. R. “O marqueteiro brasileiro que importou o método da campanha de Trump para usar em 2018”.EL PAÍS, 15 de outubro de 2017, https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/11/politica/1507723607_646140.html.

(4) MELLO, Patricia Campos de. A máquina do ódio – Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital. SP: Companhia das Letras, 2020.

(5) “A Ponte Estratégia levanta tendências para os próximos 10 anos”.propmark, 13 de dezembro de 2011, https://propmark.com.br/mercado/a-ponte-estrategia-levanta-tendencias-para-os-proximos-10-anos/.

As “falácias” do sociointeracionismo em educação

Photo by Julia M Cameron on Pexels.com

Tenho encontrado livros que tentam “desconstruir” as abordagens interacionistas em educação. Estas não seriam válidas e, mais do que isso, seriam responsáveis pelos males nos quais vivemos. Afinal, não é raro ver gente entrando na universidade com sérias dificuldades de leitura ou cálculo.

Há, obviamente, inúmeros fatores envolvidos nisso. Que a educação não vá bem das pernas, isso é um fato. Mas me parece que há, nessas avaliações, um erro crucial.

O erro consiste no seguinte: pensa-se que o ensino em geral tem fracassado porque, ao menos nos últimos 20 ou 30 anos, prezaram-se políticas de educação baseadas em educação “sociointeracionista” (dita assim, em termos amplos). Ora, é um fato que o ensino tem, em alguns sentidos, fracassado; mas para que tenha fracassado em função da educação sociointeracionista, é preciso sustentar que esta tenha sido também de fato aplicada.

Desde que fiz minha licenciatura, há mais de 20 anos, tenho acompanhado tudo o que vai da crítica ao “ensino tradicional” ao que hoje se configura como “crítica ao ensino interacionista”. E o fato é que jamais, nunca, de maneira alguma, vi o dito “ensino interacionista” ter sido implementado de fato. O que vi, para dizer em bom português, é uma série de políticas educacionais oportunistas empregando um palavreado interacionista de direito, enquanto jamais – ou raramente – houve prática interacionista de fato.

Ou senão, vejamos. A crítica ao papel do professor tradicional (autoritário, vertical, “transmissor” do conhecimento etc.) não significou a implementação de uma educação democrática (critério básico dos ditos “interacionismos”), mas sim permissiva: o número de exemplos de professores que são simplesmente desacreditados, desvalorizados, destituídos, desrespeitados, está aí no dia-a-dia para o mostrar (junto, aliás, com a desvalorização de seus salários).

O mesmo ocorre para a disponibilização de condições pedagógicas para que o dito ensino “interacionista” ocorra. Não há texto de pedagogo algum que diga que as salas devam estar abarrotadas de alunos ou que as redes de educação devam aumentar a capacidade de carteiras e alunos (30, 40…), e sim o contrário: o número de alunos deveria ser reduzido para maximizar as interações. E o mesmo para os materiais pedagógicos: variação de professores, de espaços, de equipamentos, de instrumentos, tudo isso deveria concorrer para a dita “interação”. Alguém vê algo assim circulando nas redes educacionais brasileiras?

Passa-se, daí, à avaliação. De um sistema tradicional que reprovava, passamos a um sistema de aprovações automáticas (abertamente ou não). Jamais houve, no dito “interacionismo”, considerações de que um professor deva simplesmente aprovar seus alunos (como não há o contrário). Agora, o que não há de modo algum em qualquer bom pedagogo na História é a idéia de uma burocracia que desencoraje as reprovações, inclusive por questões financeiras. Chegamos a ver em instituições – públicas e privadas – comparações entre aluno e verba e o discurso de que é preciso evitar evasões para que não se perca verba! E o contrário não é nada motivador: há quem julgue necessário punir aqueles que não consideram necessário “reter” alunado.

E há também o boom das instituições privadas, especialmente as das faculdades e do EAD no Brasil. Esse boom não se desvincula do discurso “interacionista”, precisamente porque se preza, aí, o discurso fácil das “novas tecnologias de educação”. O emprego de tablets, de videoaulas e de aprendizagens programadas sob o pretexto da “variação das mídias” tem demonstrado, e muito, que a lucratividade de tais negócios apenas se acompanha de uma baixa dos índices de aprendizagem. Isso tudo é facilmente ilustrado por avaliações frouxas, aprovações compulsórias, salas abarrotadas e um discurso de darwinismo social aplicado ao mercado do trabalho – aquele que esvazia a formação e transfere a responsabilidade dela ao profissional, que supostamente não teve o desejo de “qualificar-se suficientemente.

Há muito mais questões. Mas o fato, nu e simples, é: não é a Piaget, Vygotsky, Paulo Freire ou a outros ditos “interacionistas” que se deve perguntar sobre o insucesso da educação brasileira.

Anna Razumovskaya (Pintura)

“Loving The Spin”

Entrevista com Razumovskaya. Para respirar.

O saco vazio e o golpe

Bolsonaro fez pouco ou nada desde que chegou ao governo. Mas uma coisa, dentre todas, ele não deixou de fazer: não deixou de estar em toda e qualquer formatura de polícia militar que aparecesse, para espalhar seu perpétuo jogodiabólico” de criar opositores enquanto as demais ações repetem seu projeto de governo (um conjunto de 80 slides repletos de erros de português e figurinhas de wordart).

Isso rendeu frutos: não apenas há PM’s afastados por governadores que já perceberam o risco, mas certas entidades dizem que estarão presentes no dia 7 de setembro para uma “ruptura”.

Tudo isso é incrível, pois é simplesmente absurdo. Um país inteiro, afetado por 580 mil mortes de COVID-19, tem como notícia maior não a pandemia, mas um fantasioso golpe de Estado que seria perpetrado contra “inimigos” do Brasil representados pelo “esquerdismo”. E como se define o “esquerdismo”? É ao mesmo tempo “tudo isso que está aí” e todo e qualquer evento que discorde do presidente. Como todo discurso paranóico, é uma narrativa que circula no vazio mas se auto-reforça.

Até o STF, vejam só, cai na lorota.

O contraste é surreal: o falatório completamente vazio é acompanhado de um problema mais do que concreto, o de que pessoas continuam morrendo a nossos pés.

Há algum tempo já havíamos mencionado o “jogo diabólico” dito acima: o de que, para manter-se no poder, Bolsonaro precisa criar um perpétuo jogo de oposições no qual adversários transformam-se em inimigos. Sem esse jogo, o que sobra? Nada: o governo cai como um saco vazio.

Mas o caso dos PM’s, acima, parece representar uma novidade nesse jogo de boneco de posto. É porque, conforme dizia Hannah Arendt (e a citávamos aqui), a mentira é capaz de se reavivar e criar muitos estragos, mas sempre, em algum momento, a mentira depara-se com um cinismo generalizado que a esgota como mentira e, em algum ponto, o Real acaba novamente por se impor.

Por isso, de duas, uma: ou o brasileiro ainda não usou sua cota de mentira para finalmente “cair na real”, ou não somos exatamente um tipo de cultura como aquelas descritas por Hannah Arendt. Sob quaisquer dessas duas hipóteses, haverá ainda muito vento a soprar.

A Peste e a Morte no Brasil; a Fome e a Morte no Haiti

Photo by Kelly Lacy on Pexels.com

Rumo aos 600 mil mortos e com a variante Delta batendo à porta, quem ainda lê consegue encontrar as seguintes palavras do sanitarista Gonzalo Vecina:

Nós estamos fazendo uma vacinação sem uma campanha. Isso é impressionante. É a primeira vez que isso acontece na história do Programa Nacional de Imunizações, o PNI.

O PNI foi fundado em 1973 e, desde então, está bem claro o papel do Ministério da Saúde na definição de muitas questões relacionadas à vacinação. Agora, os Estados e os municípios fazem o que podem, mas sem uma coordenação do Governo Federal. Não há campanha alguma, no sentido de existir a comunicação, a convocação dos grupos, dos dias que as pessoas devem ir aos postos ou quando voltar para a segunda dose.

E praticamente ao mesmo tempo, consegue encontrar o “presidente” do Brasil dizendo que foi prestar “ajuda humanitária” ao Haiti porque nosso país é conhecido pela solidariedade:

Os dois acontecimentos tratam de medos imemoriais do ocidente: a Peste e a Morte no Brasil, a Fome e a Morte no Haiti. E o brasileiro, predominantemente cristão, não deixaria de lembrar sua Bíblia e seus Salmos, que enchem o drama individual do fiel de consistência e o liga ao princípio do Mundo, pedindo para que o afaste das flechas, da fome, da peste e da epidemia.

Mas é incrível o contraste: de um lado, a mobilização do próprio presidente para elogiar alguns “voluntários” em ações importantes, mas localizadas e em outro lugar, lá fora; de outro, a ausente iniciativa presidencial contra a pandemia que já matou ao menos 1 a cada 400 brasileiros.

E o país, agora, está de portas abertas para a variante Delta, sem máscaras e nas ruas.

Santa Helena Kolody

O artigo abaixo é um achado: um texto de Paulo Leminski sobre Helena Kolody publicado em jornais em julho de 1985 (via Carlos Verçosa).

Photo by Cassiano Psomas on Pexels.com

A padroeira da poesia em Curitiba acaba de fazer mais um milagre. Chama-se Sempre Palavra, tem apenas cinquenta páginas e inclui uns quarenta pequenos poemas. Mas tem luz bastante para iluminar esta cidade por todo um ano. Embora seja a própria poesia encarnada, nossa padroeira está toda prosa. E com razão. Depois de onze livros de poemas editados por conta própria, é a primeira vez que é publicada por uma editora, a Criar, daqui de Curitiba mesmo, acionada pelo escritor Roberto Gomes.

Helena Kolody (ou Guélena Kolódy, para quem sabe) é filha de imigrantes ucranianos, tem 73 anos e o mais belo par de olhos azuis que já vi. Ah, se eu tivesse nascido em 1911 como meu pai! Como a precursora Gilka Machado e Cecília Meireles, sua admiração confessa, nossa padroeira foi, a vida toda, professora de escola normal, quase o único ofício fora de casa que uma mulher podia exercer naquelas épocas, quando Getulio Vargas, nosso grande déspota esclarecido, dizia na Voz do Brasil, “Trabalhadores do Brasil”, mas não dizia, “Trabalhadoras…”

Para o magistério, viveu. E, como professora, aposentou-se. Como professora, eu disse. Como poeta, ela é mais viva e atual que boa parte dessa garotada que, hoje, anda por aí, apertando uma espinha aqui, enrolando um poema ali, achando que poesia é um texto qualquer nota e se julgando, em sua infinita ignorância, o maior gênio incompreendido do planeta. Nossa padroeira é o poeta mais moderno de Curitiba, de uma modernidade enorme, uma modernidade de quase oitenta anos. Nenhum de nós tem modernidade desse tamanho.

Nossa padroeira nunca casou. E viveu a vida toda com a mãe e as irmãs, seu tesouro eslavo de afetividade e dedicação. Vida. Esse é o assunto de Helena Kolody. Não é à toa que essa nossa mestra de poesia é professora de biologia. Mas tudo isso que eu digo não passaria de uma efusão sentimentalóide, se a poesia de Helena não se sustentasse em nível de linguagem, de design, de essência. Que dizer, porém, de um poeta que chega, de repente, e, apenas, te diz num poema de duas linhas, “para quem viaja ao encontro do sol, é sempre madrugada”?

“Essências e medulas”, assim definira Pound a poesia. E esse era o nome que eu daria para um ensaio sobre a poesia da nossa padroeira. Quando, em 1941, Helena publica, em Curitiba, às suas próprias custas, a coletânea Paisagem Interior, seu primeiro buquê de poemas, Bilac ainda é um Deus, o Modernismo de 22 ainda é apenas um escândalo e a poesia só é reconhecível nos trajes de gala do soneto. Sobretudo já estava morto e enterrado o rico movimento simbolista que, presente no Brasil todo, tinha tido em Curitiba o seu centro mais ativo: É Brito Broca quem diz, em 1910, Curitiba era cidade literalmente mais importante do Brasil.

Basta dizer que oito das quinze revistas do Simbolismo brasileiro foram editadas aqui, entre 1895 e 1915. Mas, quando Helena começa a produzir e publicar, esse momento já tinha passado, deixando atrás de si apenas um perfume e uma vibração. No escuro, no silêncio, na penumbra, Helena veio então construindo sua poesia e publicando aqui mesmo, Música submersa, A sombra no rio, Era Espacial, Trilha Sonora, Infinito Presente, sempre ela, até este Sempre palavra.

Algo na poesia e na vida, no produto e no processo, de Helena, me lembram o gaúcho Mario Quintana, a mesma pureza, a mesma entrega, a mesma singeleza, a mesma santidade. Mas Helena é mais enxuta, mais rápida, mais haikai que o mestre de Porto Alegre: Helena chega no gol com menos toques na bola. Periférica como Quintana, Helena passou esses anos todos meio intocada pelas novidades que fervilharam no eixo Rio-São Paulo, alquimista mergulhando sozinha até a essência do seu fazer lírico, até o momento em que, como diz ela, “o carbono acorda diamante”.

Robert Fisk e a volta dos talibãs

O trecho abaixo traduz uma passagem de A Grande Guerra pela Civilização, na qual – no contexto da terceira entrevista com Bin Laden – Robert Fisk relata uma conversa clarificadora que teve com um jardineiro afegão.

Photo by Suliman Sallehi on Pexels.com

Dentro de 9 meses, em março de 1997, eu retornaria a um Afeganistão transformado, ainda mais sinistro, com o povo governado sob uma devoção tão severa e ignorante que nem Bin Laden teria imaginado. Os Talibãs finalmente haviam conquistado 12 das 15 corruptas milícias mujahedins afegãs, em todos os cantos do país exceto o noroeste, impondo sua própria legitimidade árida a esses povos. Era uma fé purista, um wahabismo sunita cuja interpretação da sharia lembrava as leis mais draconianas dos primeiros prelados cristãos. Decapitações e mãos cortadas, bem como uma perspectiva totalmente misógina, eram fáceis de associar à hostilidade dos talibãs contra qualquer forma de diversão. O Hotel Spinghar costumava ostentar um antigo equipamento de televisão que foi escondido num galpão de jardim pelo medo de destruição. Equipamentos de televisão, tanto quanto videotapes e ladrões, tendiam a acabar pendurados em árvores. “O que você espera?”, perguntou-me o jardineiro perto das ruínas do velho palácio real de inverno em Jalalabad – “Os Talibãs vieram dos campos de refugiados. Eles apenas nos estão dando o que tiveram”. E então tive o lampejo de que as novas leis do Afeganistão – tão anacrônicas e brutais para nós e aos afegãos educados – eram menos uma tentativa de renascimento religioso do que uma continuação da vida dos vastos campos imundos nos quais tantos milhões de afegãos haviam sido reunidos nas bordas de seu país, quando os soviéticos o invadiram há 16 anos. 

Os guerrilheiros afegãos cresceram como refugiados nesses doentios campos do Paquistão. Seus primeiros 16 anos de vida se passaram em cega miséria, privados de qualquer educação ou entretenimento, impondo suas próprias punições letais, suas mães e irmãs mantidas mantidas assujeitadas enquanto os homens decidiam sobre como lutar contra seus opressores estrangeiros do outro lado da fronteira, sua única diversão consistindo numa leitura obsessiva e detalhada leitura do Alcorão – o único e verdadeiro caminho num mundo no qual nenhum outro caminho podia ser contemplado. Os Talibãs não haviam chegado para reconstruir um país de que eles não se lembravam, mas para reconstruir seus campos de refugiados em escala mais larga. Por isso não devia haver educação. Nenhuma televisão. As mulheres devem ficar em casa, do mesmo modo como permaneciam em suas barracas em Peshawar.

E nós, nos importamos? Naquele mesmo momento, os funcionários da Union Oil Co do California Asian Oil Pipeline Project – UNOCAL – negociavam com o Talibã para assegurar os direitos de um gasoduto para carregar gás do Turcomenistão ao Paquistão através do Afeganistão; em setembro de 1996, o Departamento de Estado dos EUA anunciou que abriria relações diplomáticas com o Talibã, apenas para recuar esse anúncio mais tarde. Dentre os funcionários da Unocal estava Zalmay Khalilzad – cinco anos depois, ele seria indicado pelo presidente George Bush como enviado especial a um Afeganistão “libertado” – e um líder Pashto chamado Hamid Karzai.

Não admira que os afegãos tenham adotado uma atitude de suspeita em relação aos EUA. Os aliados da América originalmente apoiaram Bin Laden contra os russos. E então os EUA transformaram Bin Laden em seu Inimigo Público Número Um – um posto que era reconhecidamente difícil de manter na roda da fortuna do Pentágono, visto que Washington constantemente descobria novos monstros, muitas vezes na proporção inversa de sua capacidade de capturar os mais antigos. 

FISK, Robert. The great war for civilisation: the conquest of the Middle East. 1st Vintage Books ed. New York: Vintage Books, 2007, p. 29-32 [comprar edição brasileira]

Pensar o Afeganistão

Photobucket Pictures, Images and Photos
No Big Picture – Vide também Seamus Murphy e Steve McCurry.

Há mais de 10 anos, tentávamos pensar o Afeganistão neste blog. Em 21/11/2010, Rodrigo Cassio comentou:

Puxa, já passaram dez anos. Será que a investida cultural se realiza? Achei boa a questão levantada no twitter. Problema é que Oriente Médio de hoje não é América Latina dos anos 1950-60.

Incrível o teor de “bola de cristal”: haveria “investida cultural” possível? A retirada urgente de Kabul entrevista nestes dias, unida com a confissão de abandono dos EUA, parece dizer que não.

Nos idos dos anos 2010, citávamos A Grande Guerra pela Civilização, de Robert Fisk, de onde nos saltava aos olhos uma passagem flagrante (no contexto da terceira entrevista de Fisk com Bin Laden):

(…) “O que você espera?”, perguntou-me o jardineiro, perto das ruínas do antigo palácio de inverno em Jalalabad. “Os talibans vieram dos campos de refugiados. Eles apenas estão nos dando o que tiveram”. Isso clareou tudo: as novas leis do Afeganistão – tão anacrônicas e brutais para nós e os afegãos educados – eram menos uma tentativa de reviver a religião do que a continuação da vida dos vastos campos imundos nos quais tantos milhões de afegãos se amontoaram, nas fronteiras de seu país, durante a invasão soviética (…) [tradução livre] 

Sobre isso, comentávamos:

O que significa: por um lado, os talibans não se definem tanto assim por seu arcaísmo, mas sobretudo pela tentativa de universalizar o arcaísmo – certas práticas locais, em muitos aspectos alheias ao Islã, nascidas na imundície da vida refugiada. Não está em jogo tanto assim as crenças locais, particulares e “retrógradas” do secto (existem tantos outros mundo afora), mas sim a tentativa – violenta – de reduzir tudo o mais a essas particularidades. 

por outro lado, não deixa de ser curiosa, por exemplo, a intervenção predominantemente bélica contra questões culturais. O belicismo se reflete até mesmo na campanha da retirada: os EUA começam a se retirar do país deixando como última tarefa formar um “exército afegão” contra os talibans. Mas 10 anos e 1,3 trilhão não eliminaram a “ameaça”. Por que será?

Fisk também via no caso do Afeganistão a velha narrativa do jornalista de má qualidade, aquela que lê qualquer problema complexo do mundo como uma briga de vizinhos que seriam meramente “pró” ou “contra” alguma coisa. Fisk já denunciava isso desde a invasão soviética: os papéis do libertador e do terrorista eram mera convenção de quem detinha ocasionalmente a voz. Sendo Taliban o termo que traduz “estudante” em pashtun, sabemos quem agora se arroga ter voz por lá.

Passados mais 10 anos, constatamos: as respostas não foram encontradas (ou, vai ver, foram negligenciadas). Quem sabe elas se devam a certos temas bem arraigados no ocidente.

Mas Fisk já alertava sobre o que estava em jogo: “Its all about oil”, ouvia ele de um entrevistado. Deixo aqui a passagem completa do trecho traduzido acima:

WITHIN NINE months, by March 1997, I would be back in a transformed, still more sinister Afghanistan, its people governed with a harsh and ignorant piety that even Bin Laden could not have imagined. The Taliban had finally vanquished 12 of the 15 venal Afghan mujahedin militias in all but the far north-eastern corner of the country and imposed their own stark legitimacy on its people. It was a purist, Sunni Wahhabi faith whose interpretation of sharia law recalled the most draconian of early Christian prelates. Head-chopping, hand-chopping and a totally misogynist perspective were easy to associate with the Taliban’s hostility towards all forms of enjoyment. The Spinghar Hotel used to boast an old television set that had now been hidden in a garden shed for fear of destruction. Television sets, like videotapes and thieves, tended to end up hanging from trees. “What do you expect?” the gardener asked me near the ruins of the old royal winter palace in Jalalabad. “The Taliban came from the refugee camps. They are giving us only what they had.” And it dawned on me then that the new laws of Afghanistan – so anachronistic and brutal to us, and to educated Afghans – were less an attempt at religious revival than a continuation of life in the vast dirt camps in which so many millions of Afghans had gathered on the borders of their country when the Soviets invaded 16 years before. 

The Taliban gunmen had grown up as refugees in these diseased camps in Pakistan. Their first 16 years of life were passed in blind poverty, deprived of all education and entertainment, imposing their own deadly punishments, their mothers and sisters kept in subservience as the men decided how to fight their foreign oppressors on the other side of the border, their only diversion a detailed and obsessive reading of the Koran – the one and true path in a world in which no other could be contemplated. The Taliban had arrived not to rebuild a country they did not remember, but to rebuild their refugee camps on a larger scale. Hence there was to be no education. No television. Women must stay home, just as they stayed in their tents in Peshawar. Did we care? At that very moment, officials of the Union Oil Co of California Asian Oil Pipeline Project – Unocal – were negotiating with the Taliban to secure rights for a pipeline to carry gas from Turkmenistan to Pakistan through Afghanistan; in September 1996, the US State Department announced that it would open diplomatic relations with the Taliban, only to retract the statement later. Among Unocal’s employees were Zalmay Khalilzad – five years later, he would be appointed President George f W Bush’s special envoy to “liberated” Afghanistan – and a Pushtun leader called Hamid Karzai. No wonder Afghans adopted an attitude of suspicion towards the United States. America’s allies originally supported Bin Laden against the Russians. Then the United States turned Bin Laden into their Public Enemy Number One – a post that was admittedly difficult to retain in the Pentagon wheel of fortune, since new monsters were constantly being discovered by Washington, often in inverse proportion to its ability to capture the old ones.

(p. 29-32 da edição da Harper-Perenial.

Sobre o atendimento online em Psicoterapia

Em 2007 este blog denunciava atendimentos online de Psicologia. Já em 2021, parece não haver mais psicoterapeuta que não recorreu alguma vez ao “remoto”.

Incrível mudança, e ocorrida tão rápido. Não somos mais os mesmos. O chão se move sob nossos pés e sequer estamos atentos.

A manobra de Bolsonaro

Deputado bolsonarista comemora desfile de tanques… chineses

Ontem os olhares se dirigiam ao festival de Fake News e ufanismos transformados automaticamente em memes em torno do desfile de tanques de Bolsonaro. Diziam: o desfile quer pressionar a votação favorável ao voto impresso.

Mas o fato, nu e cru, é que Bolsonaro não perdeu na votação, e provavelmente nem precisasse de tanques para isso.

A maior parte dos deputados votou a favor do voto impresso. Foram 229 favoráveis, contra 218. Bolsonaro apenas não “venceu” porque não atingiu o número necessário.

Os números são claros: ele tem na mão a câmara, que consiste em muito no velho Centrão do qual Bolsonaro nunca saiu, apesar do povo inepto ter construído a imagem da “ruptura com o centrão”.

Aliás, nas últimas semanas ocorreu algo muito pouco dito. Bolsonaro conseguiu realizar uma dupla manobra na mente do brasileiro.

Gráfico no qual Orleans e Bragança apresenta PSL e Novo como “direita” e todos os outros como “esquerda”

Primeiro ele conseguiu dizer-se “contra a esquerda”, diferenciou-se do centrão como Deus do diabo e identificou o centrão com a esquerda (há muitos exemplos eloquentes, como aquele gráfico do “príncipe” Orleans e Bragança situando o PSL e o NOVO à direita, contra todos os outros partidos que estariam à esquerda).

Mas agora – manobra das manobras, desfile de velhos tanques que pelo jeito foi inaudível – ele disse que nunca deixou de ser o Centrão (o que é verdade!), e disse que para continuar “combatendo a esquerda” é preciso aliar-se ao Centrão.

Essa lógica é pífia. Mas a política nunca exigiu genialidade, e eis o essencial: há tempos já estava na boca de Bolsonaro e seus asseclas essa mudança de discurso, que serve pura e simplesmente para mudar percepções.

E voltamos ao ponto inicial, aquele dos anos pré-Lula: tem-se o centrão de um lado e a esquerda de outro.