Amizades

Este blog permanece como uma espécie de zumbi virtual (tentando não ser cibernético), gerando posts insistentes contra a maré do tempo. Mas um dos maiores motivos de eu não ter largado isso aqui deve-se às amizades obtidas nesses 16 anos (não são poucos).

Conheci gente inimaginável, que acabou por expandir imensamente meu mundo. Se um amigo é um tesouro, não tem como não dizer que o blog me deixou muito rico.

Além de amigos, consegui também inúmeros interlocutores ou “aliados” intelectuais. Estes são igualmente gente incrível, muitos dos quais também tive o privilégio de ficar amigo.

Há também os mal entendidos. Sempre dá aquele apertozinho no coração quando falo com aquela pessoa que, muito entusiasta do blog em outros tempos, acabou – por culpa que digo ser minha – ficando alheia e nesses mares da vida nos desencontramos. Penso que você, caso passe por aqui, saiba sobre quem estou falando, e entenderá que sinto muito pelo desencontro e gostaria muito, num tempo pós-pandêmico, de cultivar uma boa conversa e quem sabe conquistar ou recuperar uma amizade.

Há também os amigos que se foram, levados por outras correntes da vida. Bem entendo que nesse mar todo não é possível estar sempre junto. Tenhamos, então, a sabedoria devida para com as amizades que cultivamos e a resignação para com os amigos que também decidiram se afastar.

O fato é que a vida é por demais curta e a amizade é um de seus grandes tesouros.

As redes sociais e o achatamento das expressões no mundo privado

As redes sociais não são apenas algo que o homem “usa”, mas algo que, pelo uso, também condiciona o próprio homem. Conhecemos os fenômenos recentes nos quais as redes sociais ajudaram a vencer eleições ou cultivar políticas de ódio. Conhecemos também os fenômenos nos quais a comunicação tornou-se espontânea, os “textões” foram condenados, a lacração e a memética tomaram conta. Conhecemos talvez, um pouco menos, o fato de que toda expressão tem sido cada vez mais achatada no papel do emissor.

Alguém que posta um conteúdo o faz porque deseja compartilhá-lo. Mas o deseja por quê? Porque aquilo mobilizou o emissor e pode mobilizar mais pessoas.

Em termos de rede social isso tudo é “engajamento”. Algo que me engaja é registrado como tal e pode engajar ou “viralizar” mais pessoas. Tudo é registrado sob unidades pontuais engajáveis ou não e sob o potencial de engajamento de certos conteúdos. Conteúdos que engajaram provavelmente engajarão no futuro, por isso tendem a receber mais visibilidade pelos algorítimos. Em boa linguagem behaviorista: conteúdos sem engajamento tendem a serem assinalados como não reforçadores e, portanto, deixam de aparecer, isto é, deixam de pertencer às estratégias de controle de estímulos do algoritmo por não serem relevantes para tal, por não serem considerados estímulos discriminativos funcionais.

Tais estratégias de engajamento fazem ver o seguinte: conteúdos pontuais são passíveis de compor, com outros conteúdos pontuais, engajamentos que também são pontuais. Tudo reside num tipo de análise que é, digamos, “pessoa-a-pessoa”. E quanto ao conteúdo, não há conteúdo valorizável em si, e apenas conteúdo pontual que pode engajar mobilizações de “pessoa-a-pessoa”.

Isso significa, na raiz, a perda de qualquer aspecto público da comunicação. Não se discute mais – ou não se discute em primeiro lugar – idéias, e sim pessoas. A fonte, o emissor, vem antes do que seu significado. Se numa rede social eu reajo em protesto contra um defensor do neonazismo, a rede me oferecerá ainda mais conteúdos neonazistas pelo puro e simples engajamento – ela não censurará o conteúdo neonazista, pelo contrário: ela assinalará o emissor neonazista como fonte importante porque aumentou seu raio de engajamento (há campanhas em curso para filtrar conteúdos, mas o princípio é exatamente esse). E por isso, qualquer coisa que for expressa o vem apenas porque proveio de uma fonte detentora de certo valor, obtido por seu nível de engajamento. A idéia, em si mesma, perdeu importância, e isso quando a teve.

Quanto a isso, é óbvio que sempre foi assim. As pessoas sempre confiaram mais ou menos num discurso por causa de seu emissor. Mas o que nunca existiu foi a extensão disso tal como presenciada hoje, e a operacionalização disso como plataforma básica de comunicação. Pois isso tudo não consiste em escolhas de como se comunicar, mas numa plataforma prévia que já predispõe certas escolhas. A plataforma tende a tornar o conteúdo confiável apenas 1) se ele é de fonte relevante e 2) se já foi engajado por outras operações.

É esse tipo de mecanismo que torna as redes sociais uma espécie de painel de vaidades ou um muro das lamentações. Pois o que se estimula, ali, é mostrar a pura e simples individualidade, mais do que qualquer outra coisa. Se você apresenta algo belo ou feio, a beleza e feiura são exclusivamente suas. Se você quer chamar a atenção a algum aspecto público, isso também é antes de tudo lido como uma característica privada sua.

E o extremamente importante, nisso, é o uso político de tais aspectos. Idéias políticas serão também melhor favorecidas se as pessoas expuserem não o que elas dizem, mas quem é que fala sobre elas. Não discutimos mais, por exemplo, o que é comunismo, capitalismo ou liberalismo, as pessoas simplesmente desconhecem tais definições. Mas elas estarão prontas a defender tais ou quais ideários se souberem quem é o político por trás delas.

Igualmente, quando uma pessoa comum posta uma idéia política, a reação automática não é considerar a idéia e sim o emissor: quem é ele? É alguém favorável ou contrário ao que eu digo? Isso condicionará minha reação contra ou a favor do que ele diz.

E assim toda discussão pública se achata na esfera privada – o mundo inteiro se transforma num quintal do meu umbigo. Mas toda e qualquer tradição humana inventou seu “diabo”, isto é, aquele personagem que sempre soube manipular a vaidade dos outros, e não ocorre diferente hoje: os políticos que sabem se aproveitar de estratégias eficientes de engajamento – especialmente em cima de pessoas que não sabem bem como funciona uma rede social – terão sempre grandes resultados.

Enzo e Kauê no curso de Humanas

Enzo e Kauê passaram no vestibular para Humanas. Enzo entrou numa faculdade privada e Kauê numa federal.

Logo no início, ambos foram apresentados às matérias de fundamentação de seu curso. Enzo teve aulas online e híbridas para as matérias “mais teóricas” e presenciais para as “mais práticas” e Kauê teve integralmente aulas presenciais. Kauê conheceu ainda o programa de monitoria da universidade, no qual participavam vários veteranos. Kauê soube também que havia pesquisa e extensão na universidade.

As matérias de Enzo foram condensadas em núcleos temáticos, e em algumas turmas as salas ultrapassavam os 50 alunos iniciais (havia turma com até 100 alunos, especialmente as de matérias online). Kauê teve uma turma-base (embora nem todo mundo acompanhava o mesmo período) e fazia matérias específicas: aprendeu Filosofia, Sociologia, Antropologia, as matérias ligadas às perspectivas históricas etc.. Na faculdade de Enzo as matérias de base eram vistas como chatas, na universidade de Kauê eram vistas como básicas.

Enzo não lia textos longos e via de regra os textos eram chamados de “apostilas”. Muitos deles eram apostilas mesmo, senão manuais, frequentemente pré-formatados e vindos de certos grupos educacionais de grandes especuladores da bolsa. Os professores tinham alguma autonomia para escolher os textos, mas reinava o que vinha de cima. No caso de Kauê, em sua universidade não existia “apostila”. Havia muitos textos de xerox (já que os livros são caros) e muitos textos longos. Eles precisavam ser lidos antes de cada aula.

Na faculdade, Enzo ganhou desconto para pagar a mensalidade. Na universidade, Kauê tinha bandeijão e morou um ano na moradia estudantil. Kauê também teve uma bolsa de monitoria (desde o primeiro período gostou de ver a ação dos monitores-veteranos) e, depois, outra de iniciação científica e outra de extensão. Enzo precisou trabalhar por um tempo, mas na maior parte das vezes conseguiu garantir tempo suficiente para a academia e as baladas. Chegou até a fazer um curso de inglês. Kauê conseguiu largar do trabalho para receber uma bolsa que, embora medíocre, lhe deixava estudar.

Enzo ia à balada. Conhecia muita gente não ligada à universidade e conseguia arranjar tempo para não ficar só vendo coisa de estudar. Kauê ia ao bar e às festinhas universitárias. Tudo era universidade, direta ou indiretamente. Ele conheceu muita gente aleatória nas aulas e muitos autores essenciais nos papos de boemia.

Enzo viajou com a família para Orlando, Kauê fez mobilidade internacional para Angola. Enzo só tirava dez, Kauê tinha coeficiente de rendimento 7,2 (mas não dava muita bola porque as atividades excediam, e muito, a aula).

Após alguns anos, ambos fizeram estágios. Enzo vestia um uniforme padronizado e a secretaria do curso o encaminhou para algum dentre os estágios oferecidos. Kauê teve que correr atrás de um lugar, aprender a burocracia do convênio e realizar todas as negociações antes e depois do estágio.

Os dois se formaram quase ao mesmo tempo. E os diplomas diziam que eles eram graduados exatamente na mesma área.

As Forças Armadas, o voto auditável e a vergonha ao vivo

Fica para os anais da História do Esquecimento o fato de que as forças armadas brasileiras – ou aquela parte delas que vive a bad trip de apoiar Bolsonaro – e o jornalismo sem escrúpulos passaram, nesta semana, vergonha no débito e no crédito. A semana começou com um boato de que as forças armadas teriam acesso aos boletins de votação do TSE em tempo real. Uma reportagem da Folha chegou a dizer que militares tentavam anotar as informações do TSE em seus cadernos.

É quase como se, na era digital, fôssemos remetidos à burocracia do papel e do carimbo. O fato de os militares cogitarem o acesso em tempo integral é simplesmente sem sentido: ou eles precisariam acompanhar a votação uma a uma, no calor do momento, e isso violaria o direito ao voto, ou eles simplesmente não entenderam que a apuração é automática. Pior: a prática de divulgar os boletins de votação já era praticada em edições passadas e amplamente publicizada.

A Jovem Pam tentou emplacar uma discussão sensacionalista sobre o factóide e… passou vergonha ao vivo:

Olhando essas notícias dá até para entender como Pazuelo, oficial de intendência do exército (aquela área que distribui comida e lava as roupas), foi divulgado falsamente como “especialista em logística“.

Os intelectuais, da câmera ao algoritmo

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Uma das primeiras vezes que ouvi o nome de Michel Foucault foi via Paulo Leminski, filmado no Anfiteatro 100 da reitoria da UFPR, falando sobre poesia, cultura e filosofia. Lá ele citou Foucault e comentou sobre o panoptismo, aquela idéia derivada de Jeremy Bentham sobre um “olho que tudo vê”, de um projeto de controle social que cobrisse um país inteiro esquadrinhando os mínimos detalhes individuais.

Naquela época, os argumentos de Foucault pareciam contestatórios e até a ensinar algo sobre o momento presente: cuidado para com as câmeras de vigilância e os projetos envolvidos nelas, pois elas pareciam ser a apoteose do panoptismo: não se tratava mais de um vigilante numa torre observando quartos ou corredores, e sim de um observador constante e não-humano.

De lá para cá, os mecanismos de “vigiar e punir” se complexificaram ainda mais (e não à toa o livro de Foucault já previa isso quando falava em “controle infinitesimal”) e atingiram proporções não-humanas generalizadas. Eles começam quando se pega um celular na mão, ou melhor, nem é mais preciso pegá-lo para isso.

E o curioso é que não encontrei, nunca mais, nenhum Paulo Leminski para me comentar sobre tais coisas. Assuntos como o da “governamentalidade algorítmica” (Antoinette Rouvroy), do “capitalismo de vigilância” (Shoshana Zuboff) e outros existem, embora sejam secundários. Não estão nas reitorias, nos anfiteatros, nas pontas dos cigarros (isso quando esses todos ainda existem, só que um não vive sem o outro…)

Pelo contrário, o que se vê são os ditos intelectuais interessados em índices de citação que remetem à racionalidade dos blogs juvenis dos anos 2000 (como os do Technorati), ou em promover suas falas em canais do Youtube, do Instagram e quetais. O que lhes parece interessante é o número de follows e de likes, para gerar “impacto” em seus papers.

Nem uma pandemia pareceu abalar suas produtividades (vemos no horizonte eles também utilizando o Tiktok?).

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P.S: Eis, no dia de hoje, os programas de pós-graduação comemorando suas notas enquanto nunca houve tão poucas bolsas de mestrado e doutorado e elas jamais foram tão baixas. Uma bolsa de mestrado, hoje, está próxima de um salário mínimo.

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P.S.2: Acesso o Academia.edu e recebo a mensagem: “Responda a 2 perguntas para obter este artigo gratuito”

Bolsonaro, Zé Dirceu e o Centrão

Quando estourou o escândalo do Mensalão, houve uma fala de José Dirceu que jamais foi levada a sério. Ela dizia mais ou menos assim: que para que o “nosso governo” (do PT) realizasse suas finalidades de mudança social, o mensalão servia como uma espécie de meio que auxiliaria a justificar os fins. As alardeadas quantias recebidas por deputados serviam para aprovar pautas de interesse do PT.

Mas – e essa é a questão fundamental, aquela sobre a qual parece que ninguém jamais prestou atenção – as pautas de interesse do PT não eram comuns e representavam absoluta novidade no país. Eram aquelas feitas para transferir renda e mudar o Brasil (quase como se o PT usasse os meios à disposição para forçar fins aos quais os mesmos meios estavam pouco dispostos a realizar).

Afinal, o que hoje chamamos de “centrão” – reunindo os antigos “baixo-clero”, o “peemedebismo”, o fisiologismo e tantos outros termos – representava, quase sem mudanças, os mesmos deputados que extorquiam (ou recebiam, você escolhe) o dinheiro do PT.

Além disso, o paradigma então vigente – e vigente até hoje – é o chamado de “presidencialismo de coalizão”: aquele no qual o presidente precisa ter boa base no congresso para não ficar governando com medida provisória ou correr o risco de um impeachment. Dar vantagens aos parlamentares – o velho “toma-lá-dá-cá”, como diz Bolsonaro – era a linguagem de troca ontem, mas também é de hoje.

Isso ajuda a explicar tanto por que Bolsonaro foi eleito com um discurso contra o Centrão (“se gritar pega-ladrão, não sobra um, meu irmão”), mas logo depois encarregou-se de dizer que “sempre foi do Centrão” (esta última expressão, ao menos, é verdadeira, pois Bolsonaro de fato sempre foi do Centrão).

Com isso tudo, temos algo muito interessante. Para ter governabilidade, igualzinho a Temer, Dilma, Lula, FHC, Itamar e Collor, Bolsonaro precisa negociar com o Centrão. Mas se Bolsonaro “retorna” ao centrão, e mais ainda, ao centrão que representa os principais beneficiários do mensalão, seria interessante perguntar o que é que ele faz efetivamente com o centrão. Pois não são exatamente pautas sociais, como as do PT, o que ele tem buscado. E mais ainda: mais de uma vez, Bolsonaro e os filhos disseram que a escolha pelo centrão é escolha contra os partidos de esquerda.

Nesse ingrediente apenas anti-petista é possível ver algo de concreto, representado num macartismo pé-de-chinelo já cultivado antes da vinda de Bolsonaro. Mas isso não explica toda a obra. Pois essa referência antipetista também permite ver, no uso do centrão, o perfeito antípoda do que falava Zé Dirceu. O centrão, que já serviu para aprovar as pautas sociais do PT, continua com suas serventias. Mas elas não são mais – ou não são por agora – as serventias do PT.

Incrível serpente que muda a pele, essa do Centrão! E foi perfeitamente nesse sentido que Bolsonaro conseguiu falar outra verdade – mesmo que enviesada – na entrevista a Bonner e Vasconcelos: a de que, acusando o centrão, Bonner estava incentivando Bolsonaro a “ser ditador”, pois apenas um ditador poderia governar sem o centrão de um lado e a esquerda do outro.

Sabemos que esse seria, no fundo, o maior desejo de Bolsonaro, que nunca escondeu a predileção pela ditadura e seus assassinatos. Mas de algum modo também é o mesmo “Bolsonaro do centrão” quem diz isso: não estava lá ele, o centrão, também na ditadura?

Ecoam aquelas falas de Zé Dirceu na soleira da história, coisa digna de uma História do Esquecimento.

Bolsonaro, a entrevista no Jornal Nacional e o podcast que chegou a defender a existência de um partido nazista

Ontem o atual presidente do Brasil concedeu uma entrevista a um podcast que ficou famoso após um fato curioso: um de seus apresentadores defendia a existência de um partido nazista no Brasil, por pretexto de “liberdade de expressão”.

Esse tipo de defesa é auto-contraditório e já foi amplamente refutado no pensamento político. Numa democracia, o uso da voz pública é e deve ser defendido sem restrições, caso contrário ela deixa de ser uma voz que é pública e, portanto, a democracia transforma-se em qualquer coisa, menos democracia. Nisso, a noção de voz pública e tudo o que ela envolve (na tradição ocidental: isonomia, isto é, igualdade de direitos; e isegoria, isto é, igualdade de voz e também voz ativa, responsável por agir para transformar o mundo e afetar a existência dos outros cidadãos) é exatamente o que é contestado quando se defende um partido que seja nazista. Dentro de uma democracia, o uso da voz pública para defender um partido que defenda a perseguição de diversos tipos de pessoa e de discordantes políticos é simplesmente um oxímoro, uma contradição pura e simples, a negação da democracia. É como, num jogo de futebol, fingir que se aceita jogar para então puxar uma arma e dar um tiro na bola.

Pegou muito mal e o apresentador que defendia a existência do partido nazista foi expulso. Algumas semanas depois, o presidente do Brasil aceitou ser entrevistado no mesmo podcast.

O detalhe, aí, é que o mesmo presidente não aceitou ser entrevistado no Jornal Nacional. Ele exigiu que a entrevista ocorresse no Planalto, enquanto as regras do JN prescreviam presença no estúdio.

Fake News, o acesso à informação e o WhatsApp

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Lá estava eu, perambulando, quando resolvi entrar numa igreja. Lá dentro eu contemplava os ornamentos, imerso em pensamentos e preces, quando de repente tocou alto uma notificação do celular: não minha, mas da senhora sentada duas fileiras à frente. Com as devidas pitadas de despeito e vergonha, ela pega o celular e desativa a notificação.

O pensamento volta a expandir com o ar envolto, mas não tarda e é outra a série de bipes escandalosos, agora com outro senhor. Um pouco irritado, esbravejei na cabeça: “minha nossa, essas pessoas sequer são capazes de desligar as notificações do celular!” E não à toa são as mesmas que não sabem lidar com seus smartphones nos ônibus, nos restaurantes e em qualquer lugar.

De repente me vem aquelas passagens de Martin Moore, segundo as quais a internet e as redes sociais demoraram para chegar nas direitas, mas quando chegaram, foram tomadas de assalto.

É óbvio que eu não acredito que aqueles senhores e senhoras com dificuldade de conter seus celulares sejam de ultradireita ou “naturalmente” de ultradireita. Mas o que parece importante é o fato de que essas pessoas são as mesmas que, não muito tempo atrás, seriam candidatas a ter um daqueles celulares com teclas grandes, feitos para pessoas mais idosas e sem muitas exigências tecnológicas. Essas pessoas, ou um gigantesco número delas, são as mesmas que, nos últimos anos, acabaram ganhando um celular na mão e se transformaram nos “tiozões do WhatsApp“: até boas pessoas, os tradicionais “tios do pavê”, que de repente se transmutaram em hubs de notícias falsas. Sem ter maior perícia com gadgets eletrônicos ou usar o celular para mais do que ligar, trocar mensagem e ver/postar foto e vídeo, elas lidam com notícias do mesmo modo como lidam com o celular, daquela maneira meio envergonhada mas com seu devido despeito. Não à toa, acabam trocando os pés pelas mãos ao acessar – e repercutir – notícias que no fundo são falsas e fazem parte de campanhas muito bem pensadas.

Seu próprio descuido, vejam só, virou objeto de estratégias de marketing político que atingem resultados muito concretos.

Para comprovar isso, basta ver o teor dessas mesmas notícias. Em primeiro lugar, elas sempre chegam pelos mesmos canais em que essas pessoas interagem com seus próximos e parentes: o whatsapp, depois as outras redes sociais e, por vezes, o youtube. Em segundo lugar, são sempre vídeos com palavras de ordem, chavões, testemunhos, mensagens de fácil compreensão, sem muita exigência mental (mamadeira de piroca, ferrari do lulinha, foro de São Paulo…). Em terceiro, são mensagens sempre recebidas de fontes qualificadas e insuspeitas: quem duvidará da amiga antiga ou do grupo das comadres? Ou ainda, quem é que, diante de uma notícia falsa, fará escândalo? Ela sempre pesca alguém (afinal, o segredo não está na notícia ser ou não verdadeira, mas em constituir uma rede de narrativas verossímeis).

Ora, não tem como errar: o pouco conhecimento técnico, somado a certo interesse sobre o instrumento sobre o qual eu não tenho controle; isso tudo somado com uma pitada de despeito e outra de falta de vergonha e… boom!, está criado o cenário perfeito para a propagação de Fake News – e a transformação de gente muito mansa no pior tipo de fascista.

A passagem de Martin Moore – segundo a qual as direitas chegaram mais tarde para ocupar a internet, mas acabaram ocupando-a melhor do que outros setores mais progressistas da sociedade – coincide perfeitamente com o mesmo timing pelo qual os tiozões do whatsapp também chegaram ao Smartphone. Não vivemos uma democracia digital, sequer os jovens – hoje tomados pelo Tiktok e outras tecnologias digitais-orais – tem acesso a ela. E nesse vácuo entre a falta de conhecimento sobre aquilo que está na palma da nossa mão e estratégias muito bem pensadas, brotam nossos piores pesadelos.

James Webb e o WhatsApp

Hoje o mundo teve a oportunidade de ver as primeiras fotos tratadas do telescópio James Webb, muito mais distante e poderoso que o Hubble. A imagem acima é tão miraculosa que as mídias científicas tiveram dificuldade de contar até mesmo sobre seu significado.

Minha imagem preferida foi: se você segurar um pequenino grão de areia na ponta do dedo e esticar o braço, a imagem acima equivale ao que o pequeno grão de areia cobre no seu campo visual. Atrás do grãozinho, portanto, naquele pequenino ponto do campo visual, figuram milhares de galáxias até há pouco não vistas, ou não vistas com tanta nitidez. Os registros, inclusive, superam os 13 bilhões de anos.

Diante de tamanha notícia, arrisquei dar um passeio nas redes sociais. Os tópicos-tendência incluíam a hérnia do Wesley Safadão, a aprovação da PEC Kamikaze em primeiro turno e muita gente defendendo político mentiroso e fascista.

Bolsonaro e o “bem” contra o “mal”

No dia 9 de julho de 2022 o presidente do Brasil foi a uma marcha para Jesus, e o foi para dividir os brasileiros. Ele disse:

“Somos a maioria do país, a maioria do bem, e nessa guerra do bem contra o mal o bem vencerá outra vez”

Bolsonaro

No dia 10 de julho, um filiado ao PT em Foz do Iguaçu comemorou o aniversário e decorou a festa inteira com motivos da candidatura de Lula. Um dito “policial” se irritou com a festa, invadiu dizendo “É Bolsonaro!” e ameaçou o aniversariante à mão armada. Disse que retornaria à festa para matar todo mundo. O filiado ao PT também era guarda municipal, e portanto também tinha uma arma. Pegou o revólver e deixou a tira-colo para prevenir qualquer absurdo.

O absurdo aconteceu: o policial invadiu a festa e atirou no aniversariante. Este revidou e também baleou o policial.

Quem não vê relação causal entre a violência das palavras de Bolsonaro e a violência feita por aqueles que o seguem, perdeu a noção do que está acontecendo.

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Nisso, é impossível não lembrar de Hannah Arendt ou Viktor Klemperer. A violência “simbólica” de hoje, aquela violência das palavras, é a violência física de amanhã.

E isso por um motivo muito simples: palavras não são abstrações, e sim ações, tanto quanto bater em alguém é uma ação. As palavras de hoje preparam o terreno para a agressão de amanhã, o que significa dizer: ações sempre preparam outras ações.