Memes, espaços urbanos e sensibilidade

O vídeo acima é de uma enquete feita em NY com um dos maiores violinistas norte-americanos, Joshua Bell. Nas vésperas da enquete ele havia lotado um teatro com ingressos caríssimos e público de “notáveis”. Agora executava suas mesmas peças, só que no metrô.

Alguma diferença? A resposta é sim: durante a execução, pouquíssimas pessoas pararam para apreciar as interpretações.

O evento estourou em mais um meme do Facebook. É curioso ver os comentários sobre a moral da história: “a maioria” das pessoas não dá valor à verdadeira arte, prefere o “tempo” e o “dinheiro”, porque enfim tempo é dinheiro.

A avaliação é correta. Mas ela termina aí? Via de regra o tom desse tipo de meme é acusatório: “as pessoas são”, “a maioria é”, “povo acha”… logo “eu não”. Mas um pouco como nesse texto de Alex Castro sobre o racismo, ou esse outro sobre o papai noel de plástico no natal, é importante notar algumas coisas.

Onde?

Em primeiro lugar, “nossa” avaliação (a avaliação de todos nós, não “da maioria”, pois antes de pararmos em um metrô para eventualmente ver um músico estávamos lá exatamente para fazer o que a “maioria” fez) sobre o lugar e o músico é bastante clara: escolhemos espaços todo momento, separamos interesses, fatiamos o mundo inteiro em graus de sensibilidade, fruição, desprezo, consciência, análise etc. Enfim, dividimos o tempo e os espaços de nossa vida em valorações do que “deve” ser vivido ou não.

E isso é muito curioso, pois o espaço da enquete é o metrô. Adoramos estar ao lado da pessoa amada ou diante de uma praia (ou o que quer que seja). Mas a função do espaço do metrô é a do deslocamento. E mesmo que nos desloquemos durante tempo considerável durante o dia (às vezes horas), comportamo-nos como se tudo aquilo não nos dissesse respeito. Tudo opera como se tempo cronológico considerável se jogasse fora, em nome de um tempo psicológico constituído como se vivêssemos eternamente ou o tempo não existisse: gasto horas dentro de um veículo, mas essas horas e tudo aquilo ao redor (trânsito, outros passageiros, sujeira, concreto e eventualmente músicos geniais) não me dizem respeito, é tempo morto, obstáculo a superar. Daí a profusão de celulares e outros aparelhos (substituindo a antiga opção pelo livro) são a negação mesma do caminho, a constituição de outras “trajetórias” mais importantes dentro do espaço estéril no qual me coloco, mas definitivamente não estou.

Eu, indivíduo, sou destituído e me destituo do lugar a que pertenço e estou, quando não me reconheço nele. Tudo funciona como se vivêssemos imagens de algum mundo, separado do próprio universo no qual estamos com nossos corpos, mas universo diante do qual de algum modo nos separamos. Não me reconheço como agente da poluição da cidade, do sistema exclusório, da corrupção e do egoísmo reinante, mesmo que efetivamente eu produza tudo isso (pois pertenço mesmo sem querer a essa massa que o produz) e ao mesmo tempo não participe (pois me vejo separado disso tudo, enredado em imagens que propicionam justificativas para me retirar dessa situação).

(Vale o esforço de imaginação: São Paulo, 18h, Estação Sé, um mundaréu de indivíduos abarrotados. Há tanta gente, que erguer o braço ou fazer qualquer outro movimento significa incomodar alguém. Então o metrô chega e a turba começa a se movimentar. Cada um é reduzido ao estatuto de mero “corpo”, conduzido pelo movimento geral à porta do metrô. Uma vez dentro, as portas fecham. Os corpos se colocam lá dentro do mesmo modo como na estação, cada corpo ocupando apenas o espaço de seu corpo, cercado ao redor de todos os outros corpos. O metrô segue no subterrâneo, alternando espaços escuros e iluminados. Cada corpo permanece ali, sem ter algo que olhar a não ser outros corpos ou a passagem da parede escura. Cada um está ali, desperto – mas está onde?)

Quem?

Em segundo lugar, dentro daquele espaço e tempo, um dos melhores violinistas do mundo tocando uma peça difícil não é muito mais do que um obstáculo. Salvo limitações acústicas, a peça é exatamente a mesma tocada nos grandes teatros de ingresso caro e aplaudida pelos grandes figurões. Mas quem toca música em metrô? Ou é um músico de segunda tentando tirar você de platéia involuntária, ou é um pedinte.

É importante que a ênfase se coloque no quem: Quem é grande não toca ali. Diante de tudo, a forma da música é o fator menos importante. Não importa se a composição é difícil ou bem interpretada, mesmo preservando as limitações das condições; importa quem é aquele. E se está ali, se ele toca para todos e inclusive para mim, só pode ser ninguém.

Isso depõe contra nossa própria ida ao teatro. Vai-se ao teatro pela garantia alardeada de prestígio. Mas o prestígio é, antes de tudo, o da forma: em tese, quem toca ali pagou o preço de uma vida dedicada à bela forma que – sob muito esforço – tomou sua música. Sua conquista ou é da interpretação “perfeita” (afim às tradições), ou da interpretação singular e única. Nesse sentido, o prestígio é segundo em função da forma, pois – em tese – se conquistou a partir dela.

Portanto, antes de ir ao teatro ver um “quem”, vai-se ver um “como”. Ou pelo menos é o que uma das marcas mais caras do Ocidente nos legou. Boa parte da História narra a conquista dos grandes valores como um exercício em direção a qualquer coisa de outro e único. O famoso Mito da Caverna descreve a ascese da alma (áskesis significa dentre outras coisas “exercício” e não é um termo exclusivo de Platão), das sombras constitutivas de nossa situação à conquista de uma excelência que nos aproxime de algo outro e, no Mito, mais luminoso. Não à toa o termo topos utilizado por Platão para caracterizar o que se convencionou chamar de “mundo” (sensível, inteligível) teve suas ressonâncias no uso de utopias ou, sob alguma dose de humor, heterotopias.

Dado o fundo histórico, certamente houve e há artistas ou escritores que conquistam certo “capital subjetivo” – como dizem os termos da moda – em torno do próprio nome, como se qualquer enunciação sua recebesse automaticamente notoriedade. Mas de algum modo, nossa época inverteu a História. A passagem das sombras ignaras à “luz” (alcançável por certo tipo de preparação ou exercício), cedeu hoje lugar a espécies de sujeitos que se comportam como verdadeiras fontes solares, emanando seus “raios” de posições bastante confortáveis. Vai-se ver a posição conquistada, não as virtudes resultantes da conquista. Ia-se ao palco ver intérpretes transfigurando o mundo imediatamente dado (pela música, a representação ou as outras artes); hoje não há transfiguração alguma, o que vale é a posição estabelecida, o prestígio pelo simples prestígio (que se veja por exemplo o mercado musical em detrimento da própria música, a notoriedade dos chamados “artistas da TV” etc….).

Daí a impossibilidade de nós, meros indivíduos reduzidos à individualidade, encontrarmos uma interpretação genial no metrô.

Como?

É tentador inverter os termos e dizer que nós mesmos – indivíduos – reduzimos os espaços corriqueiros e convencionais (como o do metrô) à impossibilidade mesma de nosso compromisso. Afinal, foi preciso uma enquete encenada pela TV para gerar o “choque” responsável pelo meme e seus efeitos. Não fosse a TV, um violinista genial tocando no metrô não passaria de um artista de segunda ou um pedinte, mesmo sendo no fundo um violinista genial. Por isso, a probabilidade do choque desse meme gerar nada é tão grande quanto a probabilidade de que amanhã retomaremos as mesmas relações de sempre com o mundo ao redor.

“Tudo é assim mesmo, o mundo não muda”, certo? O que parece curioso é precisamente o modo como a indiferença para com o mundo ao redor “se reflete” (por assim dizer) na indiferença da própria cidade. Essa formulação é tão evidente que não passa de cliché. Mas aí estão os psicólogos sociais para nos informar sobre como determinadas crenças coletivas, tornadas lugares comuns e banais, auxiliaram na instauração dos maiores fascismos. Os descompromissos aprendidos para com o mendigo, a rua suja, a tão falada corrupção e mesmo a performance sublime no metrô imprimem, aos milhões, modos do indivíduo conviver com sua cidade, mesmo não admitindo conviver com ela.

O mesmo corpo que ignora o cheiro ruim e o concreto sujo da rua e submerge no celular ou no walkman é o corpo que está ali mesmo, sob o cheiro ruim e o concreto sujo. O recurso às “boas” imagens ou ao devaneio apenas denunciam um indivíduo que vive um ambiente sob certo ímpeto aprendido de não vivê-lo.

anestesia existencial, espaços povoados pela publicidade,

Constatação do século XXI

As pessoas são inseguras, “sofrem”, são “Nutella”, esquecem a “vida raiz”, vivem numa constante inconstância. Os relacionamentos são instáveis, a amizade não dura mais do que 7 anos. As moradias, que não evocam mais as famílias, são pequenas, atomizadas. Os empregos, precários. As pessoas flutuam sobre um futuro incerto. Nem onde morrerão é certo (haverá, inclusive, enterro?).

Tudo é incerto e Bauman – daquela geração ultrapassada – já dizia: tudo é líquido e se liquefaz.

Mas tem uma coisa que não é líquida, não se liquefaz e não é nada ultrapassada: toda essa angústia incerta é armazenada em Big Data, tem preço, forma padrões e dá bastante lucro a fanfarrões com mulheres turbinadas ou suicidas em potencial.

Os atrasos na educação

Faustão comenta que “a educação brasileira está 50 anos atrasada”. É surpreende que medidas de 20 anos atrás conseguiram fazer o Brasil regredir por mais 30.

Tudo começou com o governo FHC e suas medidas neoliberais. Precisando de dinheiro do Banco Mundial, seguiu à risca as incumbências recomendadas. Então os professores de ensino básico passaram a não reprovar mais, a não ser depois de longa burocracia.

O juízo sobre a educação foi passado do professor para o Conselho de Classe. Depois para a escola como entidade abstrata. Se é privada, é claro que o juízo também foi passado ao gosto do freguês.

Eis. Hoje as pessoas não sabem fazer conta, precisam da calculadora para diminuir 20 – 13.

As aventuras de um astronauta na Terra Plana

Imagine os dramas de Marcos Pontes no Ministério da Ciência e Tecnologia. Já foi acusado de ter ido ao espaço apenas para plantar feijão, e agora enfrenta um ministério em meio a pessoas que negam a física clássica e moderna, acreditam que os evangélicos foram omissos em deixar os cientistas ocupar a ciência ou ainda defendem que a Terra é plana.

Mas isso mostra bem a essência do governo Bolsonaro. Quais linhas o costuram? É fácil de dizer.

A primeira linha é “deixar Paulo Guedes como posto Ipiranga”. E para compreender a segunda, basta abrir o projeto de governo das eleições 2018 (um conjunto de slides com erros de português e legendas feias): os alvos do governo são combater “o socialismo” (um inimigo imaginário que justifique a própria existência) e a educação “paulofreireana” (outra ilusão justificadora). Outra linha, ainda, é “armar” a população.

Vai demorar um pouco, mas já há gente, inclusive no meio liberal e conservador, mostrando certeiramente a que esse governo veio.

Mas enfim, até a Terra Plana dá voltas (esperemos que não muitas até o fim disso tudo).

Comer e estudar

Entro no restaurante e peço uma refeição. Quer eu seja liberal, marxista, anarquista, um padre ou o que o valha, não tomo a colher do cozinheiro para fazer minha comida. E o mesmo ocorre no hospital, na concessionária, em qualquer lugar onde se presta algum tipo de serviço: não passo na frente do cozinheiro, do médico ou do vendedor para dizer que estão errados e seu produto deve ser oferecido para mim do jeito que eu digo que deve ser e ponto. O limite de minha intervenção é a decência do serviço alheio, e não a iniciativa de meter a mão nele.

Mas na Escola e na Universidade as coisas não se passam mais assim. Parece que os lugares onde se educa viraram espécies de casas-da-mãe-Joana, onde qualquer um pode dar piti sobre o que quiser – os professores e o debate pedagógico que se danem. No restaurante posso dizer que a comida foi mal feita ou, no hospital, reclamar do mau atendimento do médico, mas não reclamo da culinária ou da medicina. Em contrapartida, na educação qualquer pessoa se julga capaz de arbitrar mais do que o professor.

A fala daquele policial ou juiz pode ser injusta ou desmedida, aquele vendedor pode querer “te passar a perna”: todos os casos se aplicam a pessoas que falham, não a funções falhantes. Mas basta ocupar uma função de professor e pronto: uma espada de Dâmocles pesa sobre a cabeça (nem o técnico de futebol lida com tanta gente “mais qualificada”).

Sempre fez parte da educação o fato de ser criticável. Conforme demonstra o bom argumento de um livro chamado Vigiar e Punir, faz parte das “disciplinas” (as técnicas de “distribuição no espaço”, “disposição em séries”, “controle das ‘gêneses'” e “composição das ‘forças'”, multiplicadas em nossa sociedade desde ao menos o século XVIII), e com elas o próprio nascimento da Pedagogia, o fato da educação ser criticável. Desde que a Pedagogia moderna existe, novos métodos não são apenas possíveis, mas recomendáveis. É inerente à Pedagogia ser repensada, porque é inerente à “disciplina” ser aprimorada ao infinito (ou, mais precisamente, ao infinitesimal).

Mas de um tempo para cá, parece que acontece algo novo. Também poderíamos dizer que os restaurantes – para manter nosso exemplo – se “disciplinarizaram” (a cozinha, o garçom e o gerente que os vigiam, o espaço das mesas e os controles de qualidade nada devem às velhas tabernas). Mas, conforme entredito acima, um restaurante faz comida e um hospital cura pessoas. Mas não se sabe mais com tanta certeza o que as pessoas fazem numa escola ou universidade.

Pois, de fora da educação, tem gente achando que ela se reduz a mera cifra (são os economistas, inclusive escalados a ministérios da educação sem experiência de gestão educacional). Outros, que ela tem que ser “religiosa” contra o “ateísmo vigente”. Ou ainda, que ela deve “combater as doutrinações esquerdistas” entrevistas até nas aulas de eduação sexual durante a puberdade. Ou ela deve ser “tecnológica” contra todo esse primitivismo sem computador. Sempre há uma receita extra-pedagógica para meter o bedelho na pedagogia, alguém para falar dela melhor que o pedagogo.

Não se busca mais a Pedagogia para que ela se posicione sobre certas questões extra-pedagógicas; elas é que se impõem de fora ao pedagogo.

Mas não é exagero também dizer que, se há quem queira explodir os modelos atuais de escola “por fora”, não falta quem, diariamente, também a implode por dentro. É incrível o número de pessoas que entram na universidade para fazer outras coisas que não estudar. Os professores, que deveriam ser pedagogos e pesquisadores, são constrangidos por questões que vão de certo assédio contra a reprovação (pois aluno = verba) a discursos “da moda” sobre gestão educativa. Isso quando o professor não é afogado em relatórios e performances: ele precisa gastar parte importante de seu trabalho não para trabalhar, mas para mostrar que trabalha. A “tele-aula” e o ensino à distância querem tornar descartáveis a presença material do professor e as discussões na turma (derruba-se, por pretexto de “tecnologia”, alguns dos pilares do pensamento do século XX: o corpo, a interação concreta e a linguagem). O dinheiro vem substituir a aula, o pagamento compra o diploma.

E quando a aula existe, parece que vale qualquer coisa contra. Professores são uberizados por escândalos de contratos horistas e subcontratações. Quanto às questões didáticas, a “apostila” vem substituir o texto e as contas (pois já há quem ache pesado demais que um estudante deva ler livros, estudar ou resolver exercícios). Alunos se acham no direito de interromperem ou se ausentarem ao gosto do freguês. Na pesquisa, o produtivismo supera o Pensamento, é preciso “ser citado” ou “ter número de publicações” ao invés de buscar a excelência. No dia-a-dia, o professor é sistematicamente desrespeitado e tudo vale contra. Fica, por assim dizer, jogado a si próprio e – como já ouvi certa vez – dependendo de sua própria “imposição de autoridade”.

Há algo muito errado acontecendo com a educação. Todo mundo já sabe disso. Mas acho que ninguém disse ainda o seguinte: ninguém contesta que o cozinheiro cozinha ou que o médico faz medicina, mas parece que todo mundo quer saber mais de pedagogia do que os próprios educadores.

Citações em artigos científicos representam qualidade acadêmica?

A resposta é: não necessariamente. E isso por um motivo muito simples.

Como se sabe, ao menos desde a virada dos anos 2000, o Google começou seu predomínio nas buscas da internet. Enquanto aumentava a capacidade de processamento de busca, o Google tinha um problema básico: quais páginas mostrar por primeiro. Foi aí que o Google criou o sistema de PageRank.

Basicamente, o PageRank ordena as páginas dando preferência às mais citadas, isto é, as que possuem maior número de backlinks, de links apontados para o site. Indo de 0 a 10, o PageRank começou cada vez mais a se tornar moeda de troca.

Ainda nos anos 2000, apareceram outros sistemas. Com a ascensão dos blogs, o Technorati mensurava, igualmente, os que continham mais links em retorno.

Isso tornou possível “ver” quem são os “melhores” sites. E para ter visão correta do que isso significa, também nos anos 2000 um outro fator, além do PageRank e dos blogs, ficou bem visível: a crítica dos jornais aos sites pequenos, aos veículos individuais, que tinham cada vez maior importância e influência. Aqui mesmo, no Catatau, divulgamos posts sobre jornais menosprezando os blogs. Os jornais se sentiam ameaçados porque, numa busca, começaram a disputar com “qualquer um”.

Olhando para os sites e blogs dos anos 2000, via-se um padrão. Blogs populares implicavam nichos específicos (mesmo que o próprio autor virasse uma espécie de nicho), e os assuntos principais eram os mais amplos e frívolos (como blogs com resultados aleatórios de loteria). Valia também ser político, isto é, fazer campanha de networking”para conseguir o máximo possível de backlinks. Estar no lugar certo, fazer-se visível, falar com as pessoas certas e falar assuntos de ampla repercussão era a receita de sucesso.

Dá para ver que isso não significava, nem de longe, qualidade. E o mesmo tem ocorrido com a importação do mesmo sistema de backlinks no mundo acadêmico.

Certamente há áreas nas quais o backlink é importante. Um pesquisador de biotecnologia ou de física com uma pesquisa integrada verá no backlink uma vantagem para mensurar artigos importantes: se recebe links, é porque é importante. Além disso, um pesquisador de física que publica em inglês no ArXiv certamente terá um grande público e aumentará a probabilidade de backlinks.

Mas não é assim em outras áreas. Nem todas as áreas constituem nichos semelhantes, e nem numa mesma área os diversos nichos, ou estratégias, significam backlinks ou qualidade.

Inclusive, há áreas nas quais o backlink pode demorar a vir. Uma inovação de um historiador da música ou da filosofia, por exemplo, pode não ter, ao menos imediatamente, um número amplo de interessados (e, portanto, de backlinks). Um pesquisador de antropologia no Brasil tem um nicho muito diverso de um pesquisador de cosmologia, com linguagem e número de leitores bem diverso. Nem de longe um artigo de antropologia de uma tribo isolada no Pará poderia ter o mesmo valor qualitativo de um artigo de bioquímica sobre um assunto da moda. E assim por diante, há questões de público, linguagem e visibilidade. Sem contar questões de falseamento já existentes nos blogs: backlinks por troca combinada, por networking ou até auto-referência.

Não é difícil achar exemplos no Google Scholar.

Na Academia o amigo do Rei pode ser vencedor, enquanto muita gente boa fica de lado por não pensar em tais coisas.

A desvinculação da responsabilidade do governo na Educação e na Saúde

Visão do Rio de Janeiro e do Pão de Açúcar no Corcovado, pelo pintor do HMS Beagle Augustus Earle. Não foram poucos os viajantes que se impressionaram com nossas potencialidades e, ao mesmo tempo, perdas de oportunidade. Inauguramos os temas do “país do futuro” e do “salvador da pátria”, e jamais os deixamos para trás.

Paulo Guedes é figura importante e histórica de diversos grupos de investimento (como a Bozano), e um de seus focos históricos de especulação é a educação. Tais investimentos estão diretamente vinculados à educação superior privada e à produção de material didático. São interesses privados diretamente vinculados com decisões públicas. As cifras movimentadas figuram na ordem dos bilhões, e investimentos recentes estão na área de saúde e na especulação financeira de cursos como os de Medicina.

Nisso, é flagrante a notícia: após a Reforma da Previdência, o próximo passo será um projeto de desvinculação radical das receitas obrigatórias do Estado, como as de Saúde e Educação. Isso significa que sistemas como o SUS e a Educação Pública estão sob sério risco de extinção: a desvinculação ataca-os no coração, isto é, no financiamento público mínimo. Conforme já disse Guedes muitas vezes, “não vamos subir o teto, mas quebrar o piso“.

Quando impelido a dizer algo, Guedes não diz que haverá desprivilégio em áreas importantes como saúde e educação. Ele desvia o assunto. Por exemplo:

  O significado das passagens é claro: “não vamos tirar dinheiro de área nenhuma”, apenas “somos escravos do dinheiro carimbado” e “vamos descarimbar”. Em tese a idéia é ótima: ao invés de ligar os gastos a valores fixos, “carimbados”, seria preciso contextualizá-los, adequá-los a cada situação, às necessidades locais e decisões do gestor. “Mais Brasil e menos Brasília”.

O problema é precisamente a passagem disso para a prática. Pois a outra palavra de ordem é a privatização, pura e simples. Privatizar tudo, não deixar resquício de coisa pública. Em suma: entregar tudo à especulação em bolsa. A desvinculação radical não representa, então, um ajuste contextual dos gastos ou a tentativa de arrecadar mais para o que mais importa.

É o que a palavra “desvinculação” diz: Guedes quer tirar o Estado da reta, tornando o Brasil um experimento de anarcocapitalismo puro: ao Estado nada resta, os cidadãos que se joguem às próprias sortes (um pouco como nas zonas de milícia carioca ou em filmes como Bacurau), embora, como se sabe, Guedes é bastante afim ao que se fez no Chile: um governo de forte repressão ligado a uma liberdade irrestrita de especulação financeira (até a água, por lá, é privatizada).

As idéias e os fatos concretos

O povo tem recebido tais notícias sob outro viés. Fala-se em “pacto federativo” ou em “aliviar as verbas para estados e municípios”, ou ainda “obedecimento aos ajustes fiscais”. Fala-se em emenda constitucional. Novamente, a idéia abstrata é muito interessante.

Mas na prática, a medida esvaziará a Constituição de 1988. Para quem não sabe, a Constituição é conhecida como Constituição Cidadã, pois visa garantir direitos básicos do povo e do país. É do princípio de cidadania que deriva a obrigatoriedade dos gastos com saúde e ducação, não à toa porque o Brasil sempre foi um dos países mais desiguais do mundo. É por isso que existe o SUS e a Educação Pública e os investimentos que Guedes chama de “gasto carimbado” (aliás, é curioso ver as pessoas chamando gasto privado de investimento, e investimento público de gasto, que inversão!).

Guedes e Bolsonaro surfam numa onda que condena o SUS e a Educação Pública a uma espécie de “gasto excessivo” do governo. São, segundo eles, elefantes brancos no meio da sala. Ora, qualquer pessoa concorda que gasto tem que ser reduzido.

Mas aí, novamente, os dados e os fatos não concordam com as idéias. Vejamos a tese: a privatização e a entrega dos serviços à iniciativa privada vai desonerar a esfera pública, favorecer o investimento privado e todos ganharão, certo?

Já temos à disposição casos interessantes e concretos para responder a isso. A educação privada está aí para o dizer. O ensino superior privado movimenta bilhões em bolsa (e, como vimos, é a menina dos olhos de Paulo Guedes). Como o ensino privado tem se comportado como alternativa ao ensino público? Afinal, os lucros são ótimos. E o ensino privado tem um diferencial: imagine o leitor que 1/3 de todos os ganhos de seu negócio estivessem garantidos com dinheiro público. Alguém poderia dizer que não é à toa que atacam tanto o ensino público. Como também não é à toa que gente como Guedes diz que as universidades federais deveriam ser desfeitas e as pessoas deveriam ganhar financiamento para cursar as privadas.

O ensino privado superior suplanta o ensino público?

O ENADE de 2018 está aí para o mostrar: apenas 6% das universidades brasileiras atingiram nota máxima no ENADE. É um índice muito baixo. Mas o leitor repare nos dados, retirados de um universo de 8520 cursos (as notas variam de 1 a 5):

  • 492 cursos obtiveram nota máxima. Destes, 252 são de instituições públicas, 123 de privadas sem fins lucrativos e 117 com fins lucrativos.
  • 2509 cursos obtiveram nota baixa (1 e 2), abaixo do critério mínimo (nota 3). Destes, 1397 são de privadas com fins lucrativos, 864 de privadas sem fins lucrativos e 239 de públicas.

Os dados são flagrantes: entre os piores cursos, 90,1% são privados; entre os melhores, 51,2% são públicos.

Mas a estatística é a “arte de torturar os números”, e por isso vale a pena chamar a atenção a algo mais:

  • Entre as universidades federais, 29% obtiveram nota 5 (máxima); 35% nota 4 e 25% nota 3. Apenas 11% das federais receberam notas 2 e 1.
  • Quanto às privadas, apenas 3% dos cursos receberam nota 5; 18%, nota 4; 48% obtiveram nota 3, e 31% ficaram com nota 1 e 2.

É praticamente uma pirâmide invertida.

Outro dado importante: As universidades federais representam apenas 25% do universo de matrículas! Em 2017, por exemplo, tínhamos apenas 296 instituições públicas superiores e 2152 privadas. Num golpe: em muito menor número, as públicas representam muito maior qualidade.

Os dados apontam: o ensino público, embora minorizado e desfavorecido, tem índices muito melhores de qualidade de ensino e formação quando comparado ao ensino privado. Que explicação teria o ensino privado para esse dado tão conflitante, em termos de oferta de qualidade? Pois se o lucro é na ordem dos bilhões, a qualidade deixa muito a desejar.

Outro dado: a Pesquisa

Mas há mais, e outro dado é a pesquisa. É impressionante como nossos próprios governantes tentam desqualificar a pesquisa nacional. A perseguição ideológica ao INPE ou contra os “climatistas” são os casos mais macarrônicos disso. Mas há quem alegue que a pesquisa brasileira tem “pouco impacto” internacional (já comentamos algo aqui e aqui) e que isso faria não valer a pena investir em educação pública (comentamos sobre tais mentiras aqui). Índices de impacto precisam ser contextualizados, inclusive à luz da franca ascensão das pós-graduações brasileiras e sua internacionalização nos últimos anos (processo que não deveria ser interrompido para oferecer dados fidedignos).

Mas vamos imaginar que o lobby das faculdades privadas e o bolsonarista ideológico estejam corretos, e que então o impacto da pesquisa nacional, ou sua relevância, fossem baixos. Mesmo assim, restaria o fato de que 95% da pesquisa brasileira, por baixo, é feita em universidades públicas.

O cenário de um protagonismo da educação privada em termos de pesquisa é, com isso, horripilante, pois os índices são mais do que contundentes: não há qualquer interesse de incentivo à pesquisa nas universidades privadas. Lembrando da idéia de universidade (que reúne ensino, mas também pesquisa e extensão), alguém poderia até perguntar: o que fazem lá dentro?

Cruzando isso tudo com a desvinculação dos gastos, o que significa?

Em primeiro lugar, significa que a educação pública é uma espécie de obstáculo incômodo para os investimentos privados. As faculdades privadas precisam toda hora comparar-se com os índices triunfantes das públicas.

Em segundo lugar, isso significa que a desvinculação dos gastos não garantiria qualidade dos serviços prestados, pois já temos um exemplo claro, consolidado, de um mercado atuante e com lucro bilionário. As universidades públicas novamente representam competição, diante do que o setor privado não teve – apesar dos lucros – maior reação: mesmo com os serviços públicos estagnados, os serviços privados aumentaram exponencialmente os lucros, sem aumentar a qualidade.

Um ser racional se perguntaria sobre o que está por trás disso tudo. Afinal, tem bastante gente especulando e, pelo visto, também fazendo lobby.

Um Brasil com a Constituição modificada e as receitas desvinculadas tem um significado bastante claro: serviços privados comprovadamente ruins, mas que não terão mais um incômodo parâmetro de comparação (não citamos os planos de saúde privados e o quanto o SUS também representa incômodo, embora visto como inferior).

Além disso, Guedes quer transferir ao gestor a decisão sobre onde “gastar mais”. Ele só esquece que não é assim que a gestão pública se faz. Tudo se passa como se o Brasil virasse, finalmente, uma cópia dos governos municipais: revanchismos, jogos de milícia, destruição de desafetos; governantes querendo pintar a cidade com sua cor, para tudo ser depois apagado na gestão do rival; terras sem lei nas quais vivem os brasileiros. Enfim, um Brasil sem Brasília, como sempre foi.

O tema do “suicídio dos estudantes”

Está em voga o discurso de que estudantes se suicidam, ou estão passíveis de suicídio, ou que o ambiente de estudos é angustiante ou pouco acolhedor. Que situação desoladora! Um estudante pensando em suicídio é um pouco como o futuro pensando em suicídio.

Não seria inútil girar um pouquinho a perspectiva e considerar certas coisas, um pouco como um psicólogo comportamental busca o contexto no qual o comportamento de seus pacientes estão implicados, ou um psicólogo existencial busca compreender como seus pacientes se relacionam com seus mundos.

“Estar angustiado” com os estudos significa:

– em primeiro lugar, encarar os estudos como difíceis. Isso implica (1) a dificuldade real ou não deles e (2) o modo como estudantes tem se deparado com as dificuldades.

– Em segundo lugar, isso tudo tem a ver com oportunidades e futuro: a percepção do estudo tem se vinculado, cada vez mais, com a percepção do emprego. Estudar agora significa empregar-se no futuro. Ou melhor, não se estuda mais para ter uma formação que garante um emprego. Estuda-se para ter um emprego que exija alguma formação. Não somos mais uma sociedade formadora com valores e ideais, mas indivíduos “sem sociedade” que fogem do desemprego.

– Em terceiro lugar, a angústia se liga ao “desempenho”: encara-se os estudos como se encara o ENEM. Não se estuda para estudar, mas para passar, para “responder certo”. Quem não “responde certo” reprova, não passa nos ENEM’s da vida.

– Em quarto lugar, a angústia tem um quê de visibilidade, de marketing pessoal. Na era das redes sociais, é impossível encarar o fracasso. Eu, que posso não estudar, não posso fracassar.

– Em quinto lugar, estudar é chato. Não estamos mais no mundo dos românticos do século XIX, no qual pessoas eram capazes de se suicidar lendo romances. Não vivemos mais num mundo no qual um Ramanujan busca uma vaga e a todo custo – até a saúde – precisa superar preconceitos para, finalmente, conseguir acesso ao saber. Agora é o sentimento de obrigação de ler textos que pode levar ao suicídio. Não vivemos mais um mundo no qual os jovens se inspiravam em Darwin ou Humboldt e nos ideais da ciência, da filosofia ou das artes. Agora essas coisas não passam de custo, despesa, coisa de “zebra gorda” ou de “vender artesanato na praia”. Quando muito, “ciência” são as reportagens sobre pinguins ou cérebros no Fantástico.

– Em último lugar, não obstante todas as questões acima, ainda se cultiva certo tema de que a educação seria uma espécie de “lugar de libertação”. Na escola criamos um meio liliputiano, separado do mundo, onde projetamos nossos ideais de uma sociedade igualitária e justa. Criamos uma pedagogia que deve ser sorridente num mundo que não sabe lidar com frustrações e fracasso. E, somando todos os fatores acima, fracasso só pode ser falta de serventia. Fracasso representa o que o mundo diz sem dizer: que as pessoas são descartáveis.

Ora, o aluno que “pensa em se suicidar” é o oposto do aluno de algum tempo atrás. Não faz muito tempo, caminhava-se muito para chegar à escola, que exigia – ao menos do pobre – alguns sacrifícios. Um grande exemplo é o de Florestan Fernandes: engraxate, garçom e estudante de filosofia lendo textos em francês e alemão na USP (detalhe: tendo aprendido sozinho). Ele é o simétrico e inverso de muito do que vemos por aí: estudantes que não estudam, que imitam o comportamento largado e pseudorebelde dos filmes da sessão da tarde, mas que “se angustiam” quando “não vão bem”.

Algum tempo atrás, também, o emprego não era visto como algo tão rarefeito. Empregar-se era uma consequência natural da vida. Dou apenas o exemplo do emprego de professor, outrora tão abundante: antigamente, um dos motivos de alguém tornar-se professor era os concursos, cujo número e estabilidade compensava os baixos salários e as condições degradantes. Hoje os salários continuam baixos, mas os concursos foram pulverizados. Não há emprego, e precisar ter um emprego é um motivo de grande angústia, pois o desemprego implica ter uma vida de possibilidades reduzidas. Na esteira da angústia sobre o emprego, vem a pressão sobre os estudos.

Mas os estudos também não tem sentido. De um lado acusam a formação generalista de inútil, chata demais. Aprender matemática, por exemplo: que utilidade tem, para além de fazer conta? E aí chegamos na mercearia e a pessoa sequer sabe contar vinte menos treze. Não ensinamos mais física, e depois achamos estranho as pessoas defenderem a terra plana. Não ensinamos mais biologia e as pessoas deixam de encarar a contradição que é dizer que Darwin está errado e tomarem antibiótico. Não ensinamos História, Geografia, e as pessoas mal conhecem os países ou sabem de economia.

O estudante navega nesse mar de lama, que de um lado acusa toda educação de inútil, e de outro põe o desemprego como perigo iminente. Ao mesmo tempo, é uma juventude ludibriada com as imagens de sucesso e facilidades das redes sociais, enquanto o mundo ao redor se deteriora, literalmente derrete.

Essa juventude vive como se tivesse um imenso corte entre o corpo e a alma. Nosso jovem projeta ideais mundanos num mundo realmente decadente. Na cabeça vivem facilidades e mundos ideais, pouco afeitos às dificuldades do mundo real. É por isso que o mundo só pode ser incompatível com esses ideais.

Então o esforço machuca, fere, angustia. Sempre tenho uma vida a mais no jogo de videogame ou uma foto melhor no Instagram. Mas o mundo ensina que não há alternativas. A escola fica encravada entre esses dois mundos, e é por isso que ali a angústia se torna mais visível.

(imagens de O Sofrimento do Jovem Werther, de Goethe)

in Feliz dia do Professor

Debret

É flagrante ver o jornal dizendo que as pessoas precisam “se qualificar”, de um lado, e os dados dizendo que o Brasil tem índices de produtividade pífios, de outro.

Essa seria uma velha e manjada conversa, se a escola não tivesse parado de ensinar o seguinte: o fato é que o Brasil nunca foi muito afeito à produtividade, e sim à produção conforme conveniências. Nunca importou muito se somos produtivos ou damos lucro. O que importou de verdade é se o lucro foi para o senhorio do Engenho. É o que explica termos abandonado a escravidão tão tardiamente. O escravo sempre foi uma solução cômoda para o brasileiro. Basta ver o Manual do Agricultor Brasileiro, verdadeiro livro de coaching e de CEO do século XIX, misturando liberalismo econômico com pregações sobre escravidão.

Se a coisa mudou? Experimente ir a um serviço privado qualquer para ver (como se a coisa fosse exclusiva do serviço público, criado para dar cargos à gente privada).

Mas, quando insistimos que a educação é a fonte da qualificação do brasileiro, nunca deixamos de cometer uma contradição. Dizemos sempre, de um lado, que o brasileiro não deve ter uma formação generalista, e sim técnica, para servir ao mercado de trabalho. Mas de outro lado, dizemos igualmente que o brasileiro precisa ter uma formação ampla e maleável, permitindo adequar-se a múltiplas funções. A contradição é flagrante! Não sabemos direito nem o que pretendemos frente ao “Mercado”. Não tem como dar certo.

Mas essas críticas à nossa educação sempre insistem que a educação generalista e ampla, essa que sempre tivemos, se afasta muito da realidade.

Essa tese sobre a qual dizemos que “a educação ampla se afasta da realidade” esquece o projeto mesmo da educação ampla. Figuras como Humboldt, no século XIX – um dos grandes ideólogos da formação generalista – diriam precisamente o contrário do que nós, brasileiros, pregamos: o que define um verdadeiro cidadão é um verdadeiro conhecimento do Mundo, no qual o homem, aprendendo o que a humanidade lhe deixou de herança, seria capaz de ler os problemas mundanos e resolvê-los com criatividade. Para ser criativo, portanto, seria preciso ter formação ampla e rigorosa.

Em suma: não dá para ter uma formação técnica e fechada de um lado, e de outro saber resolver problemas amplos e que exigem criatividade. Uma coisa exclui a outra.

É dia do professor e os professores brasileiros permanecerão assim: sempre cobrados por aquilo que são reprovados de fazer.

***

E há mais um bocadim nisso tudo: surpreende o número de homenagens que o professor recebe nesse dia.

Nessa mesma semana, a câmara municipal de BH votou o projeto “Escola sem partido” a portas fechadas. E o projeto foi aprovado. Esses projetos não dizem muito sobre haver questões partidárias em escolas, mas dizem muito – agora sim – sobre os professores serem ainda mais tutelados, vigiados, colocados em suspeita a respeito do que fazem. Os mesmos professores que, no ensino público, são acusados de serem mini-marajás, com piso salarial de 2500 reais.

E no dia 15 de outubro recebem um tapinha nas costas.

O desempregado, o empreendedor e as estrelas

de André Dahmer
de André Dahmer

Tiaguinho era um excelente garçom, espécie rara no Rio. Ele também era mais um desses caras que votou no Bolsonaro e, na onda, disse que tudo vai melhorar. Não conhecia – como todo o resto – o plano de governo do presidente e não sabia, por exemplo, da expressão “mais empregos, menos direitos”. Achava isso tudo piada e intriga da oposição.

Nosso garçom também tinha algumas inquietudes. Participava do culto, levava a Bíblia ao pé da letra e lia com seriedade o que dizem sobre a “terra plana”. Mas ele também cometeu algumas coisas um tanto diversas: conheceu Carl Sagan e se apaixonou por observação astronômica. Estava procurando um curso de física compatível com o horário apertado e guardava dinheiro para comprar um telescópio.

Mas os ventos mudam com a conjunção dos astros, e Tiaguinho acabou perdendo o emprego. O dono quisera contratar outro garçom em regime intermitente. Para manter o contrato, queria colocar Tiago no turno da noite. Mas ele tinha o culto, os livros, a esposa e os filhos para cuidar. Por outro lado, o dono do restaurante era amigo do novo empregado, quer dizer, colaborador. O bico (quer dizer, emprego) do contratado dava algumas vantagens financeiras ao contratante – e sem precisar contratar outro -, sacumé.

Eu soube disso tudo encontrando Tiaguinho de bicicleta e com uma mochila verde nas costas. Deixou de ser garçom e virou empreendedor, quer dizer, entregador de aplicativo. Mais empregos, menos direitos. Mas ele não esperava que esses “menos direitos” viriam com o velho tema brasileiro da cupinchagem, da peixada, da puxação de tapete. Ele, Tiaguinho, também não sabia, ou não levava em conta, que somos um dos países com menor produtividade dentre os países com índices disponíveis, e que portanto o “mais empregos, menos direitos”, não tem nada a ver com emprego ou produtividade, embora tenha a ver com direitos.

E o curso de Física?, perguntei. Curto e grosso ele respondeu, arrumando a mochila e firmando o pé no pedal para mais uma entrega no Peixoto: e com física vou trabalhar no quê? você não está vendo o que estão fazendo com as universidades?