As ocupações são um campo de batalha

dreamers

Tenho acompanhado notícias de diversas ocupações no Brasil, de escolas médias a universidades. De minha parte, está fora de questão o apoio: se elas são movidas pela luta contra a reforma do ensino médio e a PEC 241-55, a meu ver elas têm mais do que razão.

Além disso, os estudantes estão lutando de forma pouco vista por aqui ultimamente. É incrível, por exemplo, nossa total morbidez frente à reestruturação produtiva do Banco do Brasil. Estão demitindo 18 mil funcionários e fechando centenas de agências de um banco que tem (tinha?) função social importantíssima, sem contar que a última grande reestruturação produtiva foi recente. Alegam “corte de gastos” de 750mi, numa instituição que, com os mesmos funcionários, rendeu 15bi em ano de crise. Apenas assistimos a tudo, bestializados.

Voltando aos estudantes e à ocupação: estar ali, firmar posição e se reunir com outras ocupações nacionais é a luta. Há muito se sabe que boa parte da luta é questão do que chamam de “opinião pública”, “publicidade” e outras palavras da moda. É preciso, sobretudo, excitar a sociedade, mobilizá-la em prol das causas. Não à toa os movimentos estilo MBL se apoiam em vídeos para tentar mostrar que as ocupações não valem nada.

A imagem é moeda de troca. Disso tudo, creio que as ocupações têm um papel muito importante, para além de marcarem posição. É mostrar a quê vieram.

Digo isso porque a impressão é a de que há um imenso esvaziamento intelectual no ensino superior. Em muito isso se deve à profusão de uni-esquinas privadas no Brasil. Há faculdades e faculdades, mas há muito as privadas imprimem um ensino raso, feito para clientes inertes e não alunos ativos. Filmes como “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, mostravam jovens descobrindo a vida em meio à intelectualidade e rebeldia dos anos 60. Relacionar a vida com a intelectualidade? Parece não haver paisagem mais distante.

Disso tudo, a direita (que agora se mobiliza e agrupa do liberalismo mais ingenuamente honesto às piores pulsões autoritárias), se aproveita soberbamente das imagens oferecidas pelas ocupações. Eles – não sou eu quem diz – acusam tudo.

E estão dando pancada.

Ouso dizer que, no centro das acusações, está certa adesão a pautas que não precisariam de estudo para existirem enquanto pautas. Que as mulheres e negros e demais minorias precisem ter lugar, basta ter um cérebro para concordar. Alguns dos ditos “direitistas” concordam, outros não estão nem aí, acéfalos. Mas há algo aqui que eu gostaria de chamar a atenção: o argumento.

O cerne da questão é que, olhando as centenas de ocupações do Brasil, dá-se muita munição ao adversário. Apenas mantendo os exemplos temáticos de gênero e cor: não se vê, por exemplo, grupos de estudos sobre a separação de gênero, questões de sexualidade ou as proveniências e funções do racismo. Menos ainda, questões detidas nas temáticas maiores da universidade, outrora tão contestadoras.

Pelo contrário, muitas pautas são diretas, rasas, do tipo “vamos deixar as minas”, “aulão sobre Foucalt” (sic!), “meditação” e “prática de empoderamento”.

Tudo isso tem lá sua legitimidade. Precisamos lembrar que os ocupantes não estudam 24 horas por dia. Mas, para quem é contra a ocupação, não ver atividades acadêmicas é prato cheio para a crítica. Afinal, não ocupam contra a baixa do nível de ensino e os cortes que atingirão a pesquisa e a extensão?

No caso das universidades públicas, elas são o último bastião onde se pode ter uma educação superior de qualidade, não voltada ao miojo do mercado, mas à grande gastronomia do conhecimento do mundo. Perigosamente, cada vez menos se compreende – à direita e à esquerda!!! – a importância de que o ensino público carrega os últimos bastiões do pensamento no Brasil.

Até a monarquia, que negociava privilégios, achava importante ver um Brasil com ensino superior, afinado às “novidades” européias. A universidade brasileira cresceu, e nos últimos anos houve muitos intercâmbios de igual para igual com inúmeras outras academias estrangeiras (não que isso seja o essencial, mas mostra o quanto houve de abertura de diálogo).

Aquele que quer ver o fim da universidade pública, ou que pretende transformar a universidade e o ensino médio numa fábrica de salsichas mentais, não percebe isso. Aliás, isso nunca foi para nós um ítem de percepção. Um país grande tem pesquisa, e pesquisa implica pesquisadores, mentes pensantes, um burburinho do qual muito ruído é gerado, mas que é também condição de possibilidade da inovação.

Estão atacando as universidades e massacrando o ensino médio. Diante disso, os alunos ocupantes são o pouco de movimento contrário. Com isso precisamos mostrar, todos nós, a que viemos.

Uma nova fuga de cérebros no Brasil?

filo

A Piauí anuncia que Suzana Herculano-Houzel, renomada neurocientista, deixa o Brasil e lecionará nos EUA. Dentre as razões, constam:

  • os poucos recursos fornecidos pelas universidades brasileiras
  • a derrocada do financiamento científico no Brasil e no RJ
  • a carreira engessada dos pesquisadores, não definível por produtividade
  • o confinamento do pesquisador na função pública de professor em universidades
  • o “nivelamento por baixo” das carreiras, sem incentivos para a produtividade
  • a burocracia ineficiente e desmotivadora

O curioso, após isso tudo, foi a divulgação, via “Partido Novo”, de que a fuga do cérebro de SHH se deveria a motivos advogados pelo partido, como a “falta de meritocracia e o excesso de burocracia”.

Dá para ver facilmente onde o Novo quer chegar. Só não dá bem para entender no quê o Partido seria efetivamente “Novo”. Sobre a dita “meritocracia”, já discutimos largamente, ponto a ponto, o assunto por aqui. O “Novo” parece mais é velho.

Dito isso, as queixas da professora têm, sim, grande fundamento.

A começar pelo fato de que um doutor bem formado, quando é admitido numa universidade pública qualquer – dando graças aos deuses de suas (não)crenças por conseguir a única oportunidade dada no Brasil a um pesquisador, a de tornar-se professor de uma universidade pública -, muitas vezes se vê sob uma carga burocrática tão grande que não consegue ocupar seu tempo de pesquisa em meio às inúmeras tarefas: reuniões intermináveis para burocracias, tarefas administrativas kafkianas e demais encargos do ensino. A própria pesquisa está tão burocratizada que é difícil mover um dedo, especialmente quando se está começando. Projetos excelentes podem muito bem ser negados por ausência de vinculação ou demais conquistas burocráticas, e não pelo puro e simples mérito.

Somando-se a isso, consta a precarização do ensino, da pesquisa e da extensão. É fato que os governos Lula ampliaram as universidades de um modo totalmente contrário às pretensões do governo FHC. Também é fato que muitas pós-graduações – responsáveis por formar nossos pesquisadores – cresceram em número e em bolsistas, pois as agências de fomento receberam muito dinheiro e muita boa gente foi formada. Mas também é fato que os financiamentos caíram vertiginosamente (por ex.) e o prognóstico é aterrador. Quem não viu ainda a notícia de que Temer pretende escolher um pastor da universal para o ministério da Ciência e Tecnologia? Aliás, exatamente o inverso do que promulgaria uma guinada “liberal”.

Quanto à carreira engessada, o fato é que, nos últimos anos, as carreiras dos docentes são constantemente reformuladas, ficando mais burocratizadas e nivelando cada vez mais para baixo. Nem de longe se trata de um projeto de valorizar a situação inicial e recompensar os avanços. A aposentadoria se aproxima cada vez mais da iniciativa privada e quase metade do salário é de “gratificações”, que podem ser retiradas a qualquer momento, dependendo apenas de vontade política. Além disso, quando um professor doutor é agora contratado, ele tem mais etapas a cumprir para chegar ao patamar mínimo de alguns anos atrás – o de Professor Adjunto. Desengessamento, maior estímulo à produtividade? Não, é o contrário: a carreira é cada vez mais escalonada para baixo, enquanto exige titulação cada vez mais para cima. Nisso, vê-se que não há incentivo ao mérito, ao menos por dois motivos:

  • Não são criadas condições de base igualitárias para a produtividade
  • O incentivo ao mérito deveria ser “para cima”, e não para sair de um buraco cada vez mais profundo. Recompensa, e não fuga da punição…

A própria noção de “produtividade”, nisso tudo, é dúbia. De um lado, há um movimento de encarar a produtividade como número: publish or perish. Isso faz com que muitos pesquisadores “produtivistas” realizem verdadeiros atentados ambientais, papéis e mais papéis publicados que não passam de auto-paráfrases, auto-cópias ou solenes inutilidades para conseguir um índice a mais nos Qualis da vida. De outro lado, o engajamento necessário a uma boa pesquisa, custe o que custar, é desencorajado. Grandes pesquisadores brasileiros já diziam que essa importação da moda dos papers apenas traria prejuízo, uma vez que os riscos e desafios necessários às grandes descobertas não possuem a velocidade dos papers publicitários e sem ineditismo. Escrever e “produzir” não é igual a postar num blog ou no Facebook. Um bom texto não se mede por backlinks ou por elogios. Muitas das grandes pesquisas exigem o tempo, a paciência e a dedicação do anonimato. Um pesquisador precisaria ter garantida também sua dedicação e solidão. Conquistas e descobertas exigem grande mérito, mas mérito não é o que a meritocracia de um lado, e as instituições (meritocratas ou não) de outro, pretendem fornecer.

Dando fundo a isso tudo, há uma gigantesca confusão do que deve significar a pesquisa em âmbito público. Confunde-se produtividade com “utilidade ao mercado”, e nesse sentido, por exemplo, o PSDB paulista começa a repreender a FAPESP por financiar pesquisas “inúteis”, especialmente chamando de inúteis as pesquisas em humanidades. Quanto a isso, é inominável a falta de informação, ou quiçá a burrice. Todos sabem que as grandes conquistas da ciência vieram dos grandes sacrifícios do conhecimento. Muitas descobertas “inúteis” propiciaram consequências inimagináveis, para o bem e para o mal. Sem contar o seguinte: experimente conversar com um engenheiro com boa formação em humanidades, e depois compare-o com outro que só aprendeu as tabelas. A diferença é abissal, como é também a diferença entre uma sociedade “com” e “sem” humanidades (os fascismos do século XX que o digam).

Um grande país se mede pelo incentivo à pesquisa, pura e aplicada. Os países pequenos se medem pela dependência de quem faz pesquisa e inovação. Aliás, os acontecimentos políticos dos últimos tempos, o naniquismo espiritual brasileiro, tem nos empurrado cada vez mais para um vergonhoso “7 a 1” existencial. Voltamos a galope ao dependentismo intelectual.

A crise atual fornece um panorama tenebroso para o ensino superior e a pesquisa. Nos anos 90, o fenômeno da “fuga de cérebros” era bastante conhecido. Nos anos 2000, alguns “voltaram”. Foi caso notório a “vinda” das pesquisas de Nicolelis ao Brasil. Agora, pelo jeito, o risco voltou, e querem nos apresentar como novo o que no passado já não deu certo.

Devo contratar/demitir um socialista?

Rapaz, estão saindo até textos com dicas para não contratar os “socialistas”, ou para demiti-los com preferência.

Disso, não sei o que consegue ser pior: se a política transformada em puro ódio ou a imensa desinformação (talvez burrice) de alguns caras. Por isso, vou começar por algo bastante trivial: não sou um desses “socialistas”, ok? E nem acho que isso teria alguma importância. Dito isso, contra os textos mencionados acima e o que eles dizem, não é inútil escrever os tópicos abaixo. Lá vai:

“A crise foi causada por esse governo E ele é socialista”

1) Sinceramente? Acho que há um bom quinhão de responsabilidade no governo Dilma sobre tudo de ruim que ocorreu a ela. Aliás, acredito que o PT colhe hoje os frutos de um pacto com o “diabo” feito desde o primeiro governo Lula (tal como esse blog já disse algumas vezes). Pacto com o “diabo”? Sim, meus caros: pacto com tudo o que existe de retrógrado na política brasileira desde os últimos 500 anos. Lembram daquele falatório sobre “pacto social” (depois de Lula ter José Alencar na chapa), depois “governabilidade” e então “governo de coalizão”? Isso é, em bom tom, a distribuição de cargos e benesses, aquilo que tornou o mensalão possível. Tais atos dizem respeito – algum historiador dirá isso no futuro – ao movimento gradativo do PT chafurdar na lama, primeiramente para sustentar seus fins sob os meios da política lamacenta brasileira, e depois apenas para se garantir no poder.

2) Mas se você é realmente honesto, deveria considerar uma coisa em termos de Realpolitik: o PT chafurdou numa lama que, infelizmente, já existia. Sim, culpa do PT. Mas sim, culpa da lama que, aliás, continuará existindo, e provavelmente mal cheirosa como nunca (por culpa de nós todos, aliás).

3) Isso envolve outra infeliz questão: como seria possível o PT, com Dilma, tornar-se um governo tão ruim, uma vez que Lula saiu do governo com esmagadora popularidade e Dilma foi total continuidade? Isso não se explica apenas  por incompetência. Não tivemos apenas um governo inviável, mas também – e talvez sobretudo – um governo inviabilizado. Ou senão, basta revisitar a posse de Dilma-1 para rever ali, ironicamente, as mesmas tentativas que se tornaram bem sucedidas após as eleições de Dilma-2. Está tudo ali, desde a tentativa de dividir o Brasil, até a busca desenfreada por algum motivo que justificasse o impeachment.

Isso dito, se você chegou até aqui, é preciso dizer algo mais. Nem o governo do PT é de “esquerda” e nem a “esquerda” é “socialista”.

4) Claro, diante da histórica oligarquia brasileira, qualquer cidadão que dividiu o pão algum dia é “de esquerda”.

5) Mas meu amigo, informe-se: o governo Lula, e depois Dilma, beneficiaram imensamente os bancos. Sob o PT, o Código Florestal foi reformulado a favor dos ruralistas (a meu ver, o fator mais surreal disso é o apoio do… PCdoB!). Terras indígenas não foram agilmente demarcadas. Belo Monte foi construída sob corrupções e desmandos ainda a serem apurados. Mais ainda: os escândalos do PT envolvem os grandes empresários brasileiros, as empreiteiras que mobilizam a política mas ficaram tanto tempo nas sombras. E o PT já jogou as ditas “forças de segurança” contra militantes “de esquerda”. Patrocinou desocupações para a Copa e fechou os olhos para a matança dos Guarani-Kaiowá. Sob o governo do PT, é certo que as universidades federais foram de algum modo fortalecidas. Mas o contexto é complexo e existe a contraparte: sob imensos riscos, da estabilidade do servidor, da terceirização dos serviços e do avanço da precariedade, as universidades públicas tiveram sob o PT as duas maiores greves da História. Esquerda? Socialismo?

5) A esquerda não é socialista. Ah sim, certamente você vê bastante gente vestida de vermelho. Mas, do mesmo modo como os “verde e amarelos” não se resumem a apoiadores de Bolsonaro (ainda bem, não é mesmo?), os “vermelhos” não são necessariamente socialistas. Aliás, o socialismo foi mais do que revisto durante os século XX. Um “socialista” ortodoxo (?) e/ou fã do estatismo “real” de Stalin, se você achar alguém assim, por favor, interne. Pois se o cara é leitor de Marx, ele certamente não deixou de ler também os outros marxistas que, como Marx ensinou, foram sensíveis às inúmeras mudanças históricas do século XX (rapidamente: se você acredita que o “socialismo vai tirar tua propriedade” ou é contra o mérito do trabalho, é melhor sair por aí e ler um pouco). Isso para não citar aqueles que requerem independência ou alheiamento ao legado marxista. Basta citar, nisso, o “Marx mais além de Marx”, de Toni Negri, e as inúmeras questões de Foucault, bastante desenvoltas para com o marxismo. Duas outras esquerdas, mas não socialistas.

6) Mas olha só: isso não significa nem que esses tais socialistas – mesmo os ortodoxos – são “bolivaristas-venezuelanos”, e nem o contrário. Falo isso, obviamente, para evitar outra associação, a de que ser de esquerda = ser socialista e isso implica ser bolivarista-venezuelano conforme certa crendice entrevista por aí, por ex. em revistas como a Veja. Aliás, já mostramos por aqui que Marx e Bolívar não eram algo tão a ver assim. Nem o “socialismo do século XXI”, aquele que existia com Chavez, é um socialismo clássico. Talvez não passasse de um estatismo financiado a petro-dólares.

7) Disso, parece louco e vai chocar os leitores da Veja mais babões, mas… nem o governo do PT é socialista-bolivarista. Novamente, é preciso dizer: é claro que qualquer governo que teve qualquer acento social, diante de 500 anos de história de uma América Latina continuamente estuprada, pode ser visto como alguém de esquerda (o que, nesse sentido, é um belo título, inclusive até para quem quer brincar de ser liberal). Mas o Brasil não se transformou numa economia fundamentada em petrodólares, nem num estatismo dependente daquilo. Aliás, gostei do termo “neoliberalismo soft” (contra o “neoliberalismo hard“, motivo para temer, quer dizer, Temer), embora só o tenha visto num meme de Facebook.

Ser contra o impechment não é ser comunista/socialista etc.

8) É simples assim, e aqui está o principal. O processo de impeachment não se deve a uma “causa socialista”, mas aos decretos e ditas pedaladas fiscais de Dilma. Aqui constam razões inteiramente jurídicas – nem um pouco socialistas, diga-se – contra o impeachment. Curiosamente, não vi ainda uma réplica, pois os argumentos a mereciam. Além disso, diversos outros políticos cometeram e cometem as mesmas manobras que, agora, levaram ao processo contra Dilma.

Por isso, tome cuidado: aquilo que você enxerga no “socialista”, para não contratá-lo, pode não passar de sua própria imagem invertida vista no espelho.

“Devo então contratar/demitir um socialista?”

9) Minha nossa, se você chegou até aqui e ainda acha essa pergunta possível, seria preciso ler alguns textos de política. Nenhum deles dirá que a política implica o ódio e a anulação do próximo baseada num critério político. Aliás, mesmo que você seja um zeloso empresário liberal, não seria inútil notar que a própria bolsa família, contra 500 anos de miséria, tornou o brasileiro um ser um pouquinho mais individual. Isso – consumo e iniciativa individuais – fomentou o mercado, inclusive nas crises do fim dos anos 2000. De todo modo, falávamos de política, e a atitude anuladora do próximo já foi vista muitas vezes no século XX sob o nome de… fascismo.

Quando se caminhava de dia

https://i0.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/538687_427702477276184_1930413042_n.jpgDiversos Quero-quero se abrigam como podem em Araguaina, TO

Certa vez perguntei à minha avó se ela preferia os “tempos antigos” ou os atuais. Ela respondeu “os tempos antigos”. Por quê?

“Porque antigamente tinha de tudo em abundância, bastava você soltar o anzol para fora da janela e já pegava um peixe grande para o almoço. Hoje tudo exige algo de mais para que você consiga qualquer coisa.”

É incrível: hoje, “tudo exige algo de mais”. Minha avó achava melhores os “tempos antigos” em sentido bastante semelhante ao qual, 70 anos antes dela, Henry David Thoreau ficava estarrecido com certa relação que se configurava entre o indivíduo e o mundo.

Thoreau se surpreendia com o fato de que, se a América havia conquistado uma verdadeira res publica e a possibilidade de agir individualmente pela democracia representativa, a própria ação individual não foi, de fato, problematizada. Para além da res publica, ninguém nunca tocava no assunto da res privata, considerada por ele um gigantesco “ouro” inexplorado, muito mais além do “ouro” do Oeste e d’outros lugares.

Ao invés de problematizada, a capacidade de agir era inteiramente colonizada pela “maioria”, entrevista nos mundos das notícias e dos negócios. Ele via os vizinhos de Concord sentados, jornal na mão, corpos dormentes e conectados com acontecimentos longínquos durante várias horas do dia, à espera da próxima ida aos Correios (ou do fuxico do vizinho, com “cones no ouvido”) para chancelar tempos inteiros de vida distanciados daquilo que é mais precioso à própria vida: a capacidade de agir.

Thoreau também considerava estranho que alguém a dedicar várias horas por dia para caminhar a floresta (ele próprio) poderia ser chamado de vagabundo, enquanto quem gastava a vida para cortar a floresta era visto como homem de bem e trabalhador. Gasta-se a vida para ganhar a vida, dizia. Ou ainda: do mesmo modo como no aguardo das notícias, no mundo dos negócios o indivíduo inteiro se compromete em ações que não são verdadeiramente individuais, mas que poderiam ser feitas por qualquer um. Numa de suas grandes frases de efeito, Thoreau era fulminante: “Quem mata o tempo fere a Eternidade”.

“Tudo exige algo de mais”, disse minha avó. Note-se, em Thoreau, como qualquer capacidade de agir era protelada por alguma espécie de mediação: o voto medeia minha relação com as decisões políticas (que serão de uma “maioria”, isto é, todos e ninguém), o dinheiro me afasta das coisas, os jornais e o trabalho afastam o indivíduo de suas ações.

Dessa constatação resultam os inúmeros paradoxos que Thoreau adorava explorar: por exemplo, o fato de que um Estado não resiste ao poder de um único indivíduo (!). Isso porque são as ações individuais de cada um, uma a uma, aquilo que, na ponta da lança, constituirão o que se configura apenas a posteriori como um Estado. O Estado não é algo que se impõe, mas aquilo que tua ação reitera… A ponto de Thoreau ser preso por acreditar que um único proprietário de terras em Concord que não escravizasse poderia libertar todos os escravos da América. Em suma: o Estado não passaria de uma ficção… Ele se define pelo que faço aqui e agora. Por isso – novamente paradoxal – “o melhor governo é o que menos governa”, dizia Thoreau.

Eis a essência daquele enunciado privado de minha avó: antigamente não se acumulavam tantas mediações… Certamente o trabalho deveria ser duro (algo que certamente seria objeto de riso por Thoreau), mas, mesmo assim, era possível pegar gratuitamente um peixe que hoje não custa menos do que 90 reais (sem contar que hoje, no Brasil, também é preciso levar o vendedor da peixaria na conversa, mediação mais além das mediações).

Em suma: não se colocavam tantas etapas intermediárias para que o indivíduo se relacione com o mundo (e para começar a pensar em etapas intermediárias basta pensar na caixa de correio com as contas do fim do mês).

E hoje percebo o seguinte: estamos em abril e a temperatura não baixa de 32ºC no aplicativo, gerando diariamente sensação térmica à beira dos 37-45ºC. O único ganho é saber que, à noite, em meio às ameaças de Zika e a tarja vermelha do consumo de luz, a temperatura da madrugada atinge a casa dos 20 e poucos graus.

Não sei bem se o leitor entende o que isso significa, mas eu o convidaria a olhar um pouco ao redor e se perguntar: durante quantas horas do dia você tem contato efetivo com o mundo efetivo ao redor, sem maiores mediações?

Digo isso porque deve ser familiar a você o fato de que durante várias horas do dia é praticamente impossível simplesmente viver ao ar livre, estar na rua, na calçada, indo para qualquer lugar, sem alguma mediação para suportar o clima – ventilador, ar condicionado, climatizador… Valendo repetir: estamos em abril e, sob chuva escassa, a temperatura raramente baixa dos 32ºC nas horas mais ativas do dia.

O Brasil a cada dia bate recordes de consumo energético (e esse link é super-antigo). Ignoramos sistematicamente que influenciamos o clima. Esquecemos o velho tema de que a vegetação tem relação direta com o microclima de uma região, do mesmo modo que fingimos ignorar que o uso do ar condicionado contribui com o aumento desse mesmo microclima. A cada dia reiteramos o inconcebível.

Seguimos uma velha tradição colonial de desvincular nosso próprio modo de ser com o clima. Ter um ar condicionado não é questão de preocupação, e sim de ostentação. O esnobismo histórico da europeização das vestes brasileiras, ironizado por Gilberto Freyre (“sobrecasaca preta, botinas pretas, cartolas pretas, carruagens pretas, quase um luto fechado. Essa europeização de nossa paisagem, de preto e cinzento, começou com Dom João e culminou com Pedro II”), agora se transformou. A república das hemorroidas agora se transformou na república do ar condicionado!

É de pensar no recado que daremos a nossos netos (caso tenhamos algum no futuro): “Sim, quando eu era jovem vivi temperaturas abaixo dos 30ºC. Era possivel inclusive caminhar nas ruas”.

Golpe e impeachment no dualismo brasileiro

Monstro marinho que Pero de Magalhães Gândavo diz ter aparecido em São VicenteO brasileiro tem uma sensibilidade cujo teor é difícil de mudar, como ele mesmo diz, “para melhor”. Durante os últimos 10 anos, este blog se espantou com isso quase todos os dias.

Por “sensibilidade” quero dizer o seguinte: o que corre nas sensações, na carne, no corpo, nem de longe acompanha o que se registra como sentimento, sensação, aquilo que virá a ser discurso, por exemplo no enunciado “senti isso“. Ou, quando o enunciável acompanha o visível, isso apenas ocorre por diversos jogos sorrateiros.

O brasileiro vive um gigantesco dualismo às avessas. Não mais aquele de um mundo sensível que delira um mundo metafísico. O mundo sensível continua delirando, mas são outras virtualidades. Quebrado, sem grana: lá está o selfie glamouroso. Debaixo de 45ºC de sensação térmica: roupa de executivo para ostentar o fato de que não sou como os outros. Protestando contra a corrupção: o dedo em riste acusa sempre alguém, outro, ele, pois eu, bem… (só se você me pegar lá nos interstícios, na transação, no flagra, no caixa, na licitação… aí brota um sorriso sem vergonha).

Não é diferente em relação ao Golpe, ao anti-golpe, ao justo impeachment, a seja lá o que for.

Chega a ser surreal ver certa “intelectualidade” brasileira criticando, hoje, quem apóia, apoiou ou pareceria apoiar Dilma. Aliás, a mesma intelectualidade que, tempos atrás, sem suspeitas dizia: “dilma é muit@s!”. Esse mesmo pessoal acusa a ingenuidade alheia de não ter percebido que o Brasil se faz mais profundamente de Realpolitik, não de idealismos.

Muitos desses dizem que o “voto crítico” impediu, por exemplo, a ascensão de Marina, mais apta ao governo, e que foi – de fato – tratorada por Dilma, sob manobras que acabaram levando Aécio ao 2º turno.

O que este blog perguntaria é: será que apenas agora, com Dilma, começa a se perceber que a política brasileira se faz negociando com o capiroto? Que isso seja trazido à sensibilidade, assim e agora, isso é muito curioso.

O dualismo entre a sensação e a narrativa é o mesmo entre apoiadores do PT (protejam-nos do golpe corrupto, contra a corrupção!) e apoiadores do impeachment (protejam-nos na corrupção, contra a corrupção!).

Novamente, valeria sair um pouco e ver a rua, o cara que cuspiu no teu caminho, o colega que quase te mijou no banheiro público, o atendente que daria inveja aos exemplos de Sartre sobre a “má fé”, o policial que põe o fuzil na mesa para almoçar, com o detalhe de que o fuzil está virado para você, tantas outras ocasiões que são tão banais que se tornaram clichê… (“ih, lá vem o chato contar coisas desagradáveis“)

Aliás, é exatamente isso. Nós, brasileiros, fugimos de nosso cotidiano efetivo como o diabo foge da cruz. Disso a encenar uma narrativa de impeachment dentro de uma república, encenar o golpe ou o anti-golpe como se vivêssemos numa república de fato e de direito, é um pulo. Todos os poros nos convidam a problematizar o fato de que não vivemos numa república e que isso aqui é uma verdadeira encenação. Mas aí chegam as imagens, o discurso e…

Veja-se o PMDB desembarcando, em massa, do governo do PT, cuja governabilidade apenas foi tornada possível sob amplo apoio transitório do próprio PMDB. Todo mundo, a favor ou contra, insiste em pensar em termos de representação ou correspondência (PT e PMDB não estão mais “afinados”), quando tudo nunca passou de estratégia.

Para que o governo Lula surgisse e perdurasse, foram amplos os acertos, como se diz na rua em cada período eleitoral. Os mesmos acertos se fazem para sustentar um impeachment.

E um bando de piá de prédio, que não sai à rua para sentir o mormaço da calçada e o sol batendo pesado, ainda se sente na vanguarda do Pensamento, escolha-se o lado que quiser. O sol continua pesado e os acertos ali, no fio do bigode.

***

Lá venho de novo com o Foucault. Em muitas ocasiões ele faz jogar o “visível” e o “enunciável”. As práticas cotidianas sobre o sexo na Grécia, nem de longe fazem corpo com os esquemas de austeridade dos filósofos; o “grande medo” da proliferação da loucura ocasionado pelos internamentos do século XVIII nem de longe acompanha um aumento “real” do número dos loucos; o nascimento do Hospital moderno nem de longe é ocasionado por um movimento médico.

O encontro entre o médico e o hospital, a percepção dos loucos e a efetividade da loucura, dos interditos espontâneos com as práticas de si, isso sempre é problema de como determinados fatores, disjuntivos e heterogêneos, estrategicamente resultam em situações históricas singulares.

O Brasilzão é repleto desses jogos. Basta entrar no metrô às 6 horas da tarde na Estação da Sé e notar como o corpo, transformado num pedaço de carne, é depositado com outros corpos dentro de um vagão. Os dados perceptivos de repente se embaralham e transportamos a nós mesmos para outro cenário. A mente vaga, para bem longe (o smartphone é um incrível dispositivo que se encontra com o vagão), numa verdadeira economia da separação entre o que se diz e o que se faz.

samarco

Ou ainda: viram a manchete acima? Incrível comparar o que se passa com a Samarco com o que os jornais contam e os juristas dizem a respeito de corrupções como as de Lula e Dilma.

Ross e o cardeal

Duas efemérides:

Artigo de David Hopkins sobre como, no nível da narrativa, das imagens, de todo o “conteúdo dramático” de nosso mundo, estamos criando para nós mesmos um mundo essencialmente idiota, avesso a qualquer atividade intelectual e indiferente para com qualquer outra coisa que se apresente como outra. E como esse mundo criado por nós envolve a destruição de qualquer Mundo possível. Hopkins menciona uma série de acontecimentos dos anos 2000, dentre eles o grande sucesso da série Friends.

Vídeo da agressão ao cardeal Dom Odilo Scherer, de São Paulo, em plenas comemorações de Páscoa. A agressora gritava: “Você a CNBB são comunistas infiltrados; não podem fazer isso com a minha Igreja”. Perseguição contra os supostos “vermelhos” em pleno tempo pascoal.

O ponto de contato entre essas e tantas outras é incrível. Não farei delongas sobre como estamos colocando tudo a perder. Mas é absolutamente incrível ver essa onda de perseguição a quem se veste de vermelho, no Brasil, por suposto caráter “ideológico”.

Quanto à Igreja Católica, é absolutamente incrível a insensibilidade de tal tipo de pessoa para com padres que requerem uma verdadeira guinada (de fato ou de direito) da Igreja Católica, frente a inúmeros outros alinhamentos históricos com a oligarquia brasileira.

 

A mudança das estações

zig

O fotógrafo Zig Koch, especializado em natureza, fez hoje um comentário que é um verdadeiro “libelo” à História do Esquecimento. Ou melhor: o comentário é uma lembrança, mas a lembrança isolada apenas coroa um gigantesco esquecimento, não dele mas nosso. Cito as belas palavras:

As estações do ano marcam a passagem do tempo. São mudanças sutis que nos tocam como as ondas do mar no costão rochoso. Aos poucos vão mudando sua forma até não serem mais reconhecidas, mas ainda sim são as mesmas.

Ele compartilha a foto acima, que é um lindíssimo registro. Mas por quê seria um libelo à História do Esquecimento?

Ontem a previsão do tempo do Jornal Nacional bancou mais um desses episódios incríveis do jornalismo brasileiro (também pertencentes ao Esquecimento): o Jornal nos ensinou que o Outono é a estação de transição entre o Verão e o Inverno, e por isso ocorrem diversas mudanças no clima (!!!!!!)

As estações são cada vez mais esquecidas pelos brasileiros. Isso por um movimento duplo: ano a ano o inverno perde suas características mais históricas (do frio à intercalação entre a chuva e a seca) e, praticamente ao mesmo tempo, o brasileiro vive o país sob uma distância imensa do lugar “natural” que o Brasil sempre foi.

Como se o brasileiro pudesse viver exatamente do mesmo modo em qualquer lugar.

Isso é surpreendente se compararmos a fala isolada de Zig Koch com as comunidades fotográficas mundo afora. Sites como o Flickr e o 500px abundam motivos das estações. Mas só fora do Brasil, como se aqui não existissem estações.

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Há vários modos de provar nosso esquecimento. O mais fácil e “pra já”, nessa época em que a imediaticidade acompanha o esquecimento, é a nova novela da Globo, sobre o rio São Francisco. Basta comparar as novas novelas da Globo, de época, com as antigas novelas de época, e está tudo lá:

– Antigamente muitas novelas se ambientavam em adaptações de romances ou relatos históricos; hoje elas são “obras coletivas” cujo único ímpeto é perdurar na audiência, com final ao gosto do freguês (esquecemos nossa vinculação à História, à Literatura, aos lugares…)

– N’0utros tempos as adaptações se ambientavam verdadeiramente aos ambientes: casas antigas, pessoas do lugar, lugares reais ou lugares imaginários mas sob fácil identificação geográfica; hoje, a novela parece acontecer num lugar etéreo, cuja única demarcação é o rio São Francisco, de onde brotam, como que de uma escuridão, alguns temas que reconhecemos ser nordestinos, mas um tanto quanto de longe (não nos reconhecemos nos sujeitos que vivem lá, naqueles lugares, em vista de um reconhecimento mais fácil do que nos é mais próximo)

– Isso diz respeito à linguagem da novela: uma trilha sonora que parece uma adaptação de quinta categoria da trilha de Sob o Céu que nos Protege; longas sequências em tom de fantasia, como que numa mistura entre Tim Burton e sabe-se lá o quê, para dar conta do misticismo do nordeste. Ontem foi impagável o sonho da mulher do coronel com menções impagáveis a O Exorcista. Disso tudo, a riquíssima música nordestina e seu misticismo acirrado, onde foram parar? (novamente: em nome de uma negação de características locais, projetamos um mundo de imagens remetidas a sonoridades e imagens mais próximas, mas apenas imagens!)

– O palavreado, os costumes, as roupas, tentam imitar uma época que se foi. Tirando alguns momentos quase fotográficos, o drama murcha e, de repente, percebemos: são apenas atores da zona sul do Rio, com corpo escultural, tentando esconder o sotaque chiado.

– A novela, enfim, contém muito pouco de nordeste e de Rio São Francisco, para além de um imaginário que parece mais o dos visitantes do Xingó do que dos moradores locais. A gente, a música, a cultura, aparecem pouco. O lugar é via de regra cenográfico, de amplas paisagens, algo a lembrar apenas que estamos num nordeste longínquo, idílico e irreal. Até o suor é falso. Algo muito longe de tantas séries do passado, onde os trajes eram sujos, o sotaque menos forçados e os lugares menos cenográficos.

Para fechar o exemplo: se a TV é um meio, uma mídia, é como dizer que antes ela tentava nos mediar a representação de lugares distantes. Mas hoje ela vincula, sem tentativa mas sob muita produção, lugares irreais.

Mas, conforme dito, a TV é apenas um exemplo a mais para nos mostrar o quanto nos distanciamos do Brasil.

Entre coxinhas, mortadelas, ressentidos e isentões: há saída?

Debret

É realmente irônico: atualmente, qualquer posição política brasileira, inevitavelmente, fica entre:

  • Ser governista, vulgo “mortadela”: isso significa defender o PT, dizer sem ressalvas que Lula mudou o país e agora Dilma sofre injustamente um golpe.
  • Ser “coxinha”: as posições são as mais variadas, entre defender as bolsonetes, desejar o afastamento de Dilma por incompetência, proclamar contra a corrupção petista, defender um estado “liberal” (ou, de quebra, a importação do sistema político inglês) ou dizer que agora tudo vai, de fato, mudar.
  • Em terceiro lugar, o “isentão”: é o cara que “não é petista, mas…
  • Finalmente, há o que chamaríamos de “esquerdista ressentido”: ele esteve entre os grandes entusiastas dos governos PT nos tempos “áureos”, mas agora acusa os outros esquerdistas (“governistas”) de terem feito besteira com o “voto crítico” e de se omitirem em momentos nos quais o PT fez barbaridades (desapropriações para a Copa, medidas impopulares, endossamento da violência contra os índios…).

E acabou o cenário político brasileiro, não há mais escolha. Mas se é assim, que cenário é esse? Pois ele parece bastante sufocante.

Este blog já tem um tempinho de (sobre)vida e acompanhou algumas discussões dos últimos 10 anos. Nisso, não deixa de ser surpreendente o seguinte: o imenso crédito conferido a Lula nos governos iniciais, sem maior crítica, e agora a imensa condenação de seu governo. Como se, de uma hora para outra, ocorresse um corte, uma magia, um passe de mágica.

1 – O imenso crédito conferido a Lula nos governos iniciais

Há algo aí que deveria ser estranho. Basta lembrar de 2003: o PT foi apoiado pelo PCB e o PCdoB, o que não seria surpresa. Mas também foi apoiado por PMN e PL, sem contar outros como José Sarney, cuja filha Roseana era do PFL e teve a candidatura debelada por um aliado frequente do PFL, o PSDB.

O PT fez aliança com partidos de nanicos e fisiologistas brasileiros, urubus clássicos sem conteúdo partidário definido. Como se sabe, tais alianças sempre foram volúveis, mas envolveram sazonalmente inúmeros outros partidos, como o PP, PTB, PSB et caterva, guinando agora para novas correlações de forças.

Sinto-me como se estivesse redescobrindo a roda, mas vamos lá: o próprio PMDB veio para o PT e há tempos estava “dividido”. O mais incrível é ver o mesmo partido sustentando o vice-presidente e o presidente da câmara em vetores opostos, inclusive envolvendo um possível impeachment! Mas parece que a estranheza disso ficou em segundo lugar.

Vale dizer que o PSOL nasceu com o descontentamento de membros do PT e a acusação de que o partido guinava à direita, tornava-se autoritário e favorecia o velho fisiologismo. E Lula apresentou notável tom conciliador.

Não obstante, inúmeros intelectuais aplaudiam os efeitos da coalizão de Lula. Há pouco, o blog citou imensos elogios à (primeira) gestão “transformadora” de Lula, vindos de intelectuais de peso. Basta convidar o leitor a buscar os blogs brasileiros do período para ver inúmeras injunções ao apoio, mesmo quando algo deveria parecer estranho.

Aliás, as injunções de apoio do passado eram muito semelhantes às injunções de desapoio do presente.

Mas enfim, para além da eventual estranheza, foi maior o vislumbre do progresso. O Brasil efetivamente mudou. Se hoje o ex-ministro Janine Ribeiro chamava a atenção ao fato de que o brasileiro recebeu benesses, mas não educação em geral e educação política em particular, ao menos o brasileiro recebeu benesses. Novas universidades foram criadas e imensos lugares remotos, onde antes reinavam casas de pau a pique, agora possuem água, rua, luz, casas de material (coisa que todo brasileiro deveria conhecer para além da Rede Globo).

Aqui, nosso ponto é precisamente esse: a estranheza ocasional conviveu com o vislumbre do progresso. E esses dois fatores nunca foram dado como inseparáveis.

2 – A imensa condenação ao governo

Os “coxinhas” permaneceram os mesmos, mas não é exagero dizer que a “transformação” da esquerda em governistas, isentões e ressentidos foi um verdadeiro “acontecimento”. Uma vez que os isentões e os governistas parecem mais óbvios, é notável ver agora diversos intelectuais colocando-se numa atitude de condenar os outros pelo simples isencionismo ou pela adesão irrefletida a um governo que agora afunda.

Mas isso novamente deveria parecer estranho, e talvez por isso devem fazer algum sentido os quatro tipos listados acima: todos eles projetam o PT como ator solitário do cenário, ou, quando muito, ator em meio a outros autores culpáveis.

Meus amigos da mecânica quântica ;p costumam me ensinar que, se a física clássica considerava os atores móveis e o cenário imóvel, depois do século XX é impossível não ter sob conceito o fato de que atores e cenários são, igualmente, actantes.

Nisso, é absolutamente espantoso o fato de que nunca houve maior tematização das alianças do PT com os fisiologistas do Brasil e, ao mesmo tempo, a questão sobre como isso é função direta de todas as benesses conquistadas. Ninguém, até hoje, prestou atenção ao jogo que deu todo o suporte ao sucesso e ao fracasso do PT. O funcionamento da correlação de forças costurada num momento e descosturada em outro, isso nem de longe é tema para qualquer discussão, seja ela de coxinha, isentão, governista ou ressentido.

Em suma: hoje o PT é muito condenado, mas ninguém colocou seriamente o problema sobre como foi possível seu esplendor e, depois, sua condenação. Imagino que, ao pensar sobre isso, muita gente que aplaudia Lula quase romanticamente terá alguma dor de cabeça. Mas tal problema é importante porque traz consigo o futuro: o jogo que pôs o PT no governo e agora o retira não mudou, na essência, suas regras, seja lá quais forem. E outro governante está por vir.

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Para ilustrar o problema aqui colocado, recorrerei a um exemplo: o filósofo Michel Foucault aderiu ao PCF (Partido Comunista Francês) no início dos anos 50, mas por volta de 1952-1953, saiu do Partido. Em diversos de seus Ditos e Escritos, ele comenta sobre os motivos. Dentre outras, houve um certo mal estar: a URSS era pintada como o braço efetivamente comunista do mundo, a alternativa à desigualdade capitalista, e diversos debates mostravam como os sovietes já teriam alcançado progressos impensáveis aos ocidentais. Mas por outro lado, Foucault via, aqui e ali, algumas questões: estranhamente os soviéticos reduziram toda a ciência relativa à aprendizagem e ao comportamento a Pavlov (!), criaram uma estranha biologia “mitchuriana” (alternativa ao evolucionismo) e haviam rumores sobre coisas estranhas, como o culto à personalidade de Stalin e a existência de campos de concentração. Tudo se escancarou após a morte de Stalin e das comunicações de Kruschev sobre as desmedidas do regime.

Mas antes da saída do PCF houve a estranheza, combinada ao fato do esplendor (seja ele real ou fictício).

Foucault olhava para os colegas do PCF e constatava um estranho rito. O PCF se isentava daquilo que aconteceu na URSS a respeito dos Gulags. Dizia-se, por um lado, que a URSS cometeu um desvio em relação ao que virtualmente ensinariam os textos de Marx; por outro lado, dizia-se que houve um desvio frente ao próprio caminho histórico que a URSS deveria percorrer.

Note-se, nos dois argumentos, um subterfúgio: o PCF faz com que o caso do Gulag e do culto à personalidade não sejam o caso do marxismo, não sendo também, no fundo, coisa séria para a URSS. Desviar-se negativamente do texto escrito, desviar-se virtualmente da história efetiva, isso sempre deixa o texto escrito e a história efetiva ali, possíveis e alcançáveis.

A pergunta que Foucault faz é uma verdadeira guinada, ao menos para o francês: e se… para além do desvio negativo e virtual, a URSS deveria ser encarada naquilo que mostra de “positivo e real”? Dizer que o Gulag é mero desvio da norma marxista ou do que a história deveria mostrar é simplesmente ocultar a questão mais importante: como é que tudo isso foi possível? A resposta por esse como é precisamente a chamada às condições de possibilidade históricas para que tal evento ocorra de tal forma, e não de outra. (se Foucault é hoje famoso, foi por ter colocado na obra inteira questões de ordem semelhante, coisa esquecida por inúmeros de seus, err, cultuadores)

Agora, em linguagem popular: como, sob que tipo de correlação de forças, por pretexto de obediência à revolução e ao marxismo, a URSS tornou-se uma ditadura stalinista que dispõe dos Gulags? Apenas tal questão permitiria mostrar as condições de existência do Gulag – e junto com ele as condições do próprio regime soviético. Apenas esse tipo de problema poderia implicar alguma mudança.

Uso o exemplo de Foucault porque, em todas as opções acima (ao menos as da “esquerda”), algo semelhante está em jogo. Mesmo os mais inteligentes encaram o PT como uma espécie de desvio “daquilo que deveria ser ou ter sido”. Mas ninguém junta a estranheza – aquele tipo de angústia descrita pelos fenomenólogos – e o esplendor da era Lula. A estranheza e o esplendor eram simplesmente encarados como separados, disjuntivos. O PT agenciando consigo um gigantesco agregado de partidos, e ao mesmo tempo as benesses sociais, isso sempre se viu como fatores separados.

Seria preciso fazer a pergunta pelo “positivo” e “real”: sob que correlações de forças o PT chegou ao poder e angariou certo esplendor? Sob que condições, pertencentes ao mesmo jogo, o PT foi derrubado por conjuntura similar? Como foi possível essa conjunção de estranheza e esplendor?

Mas parece que colocar esse tipo de questão é, hoje, impossível. Você precisa mostrar que está em algum dos lados.

Vamos partir pra cima da corrupção

O Brasil está em polvorosa, em meio a uma série de escândalos envolvendo o PT. A palavra de ordem, como se sabe, é “corrupção”. Todos contra a corrupção, certo? Enfim, falarei umas coisas estranhas, e mais abaixo colocarei a questão.

O que parece curioso é ver, aqui e ali, o próprio modo como a coisa é tratada. Para a manifestação do dia 13 de março, por exemplo, como encarar o fato de que há o treino para uma coreografia de axé, um trio elétrico com Bolsonaro, Feliciano e Malafaia, pedidos de intervenção para Donald Trump (?), as redes sociais temperadas de ódio e palavras de baixo calão (palavras como “seu idiota” e “seu merda” devem estar entre as mais digitadas do Facebook) e comissões organizadoras que não pretendem protestar contra a corrupção, mas sim contra a corrupção do PT? Ou senão, vejamos o que diz o organizador da manifestação do Paraná:

– Mas também há denúncias nacionais contra outros partidos. É o caso do Eduardo Cunha e de políticos do PSDB implicados na Lava Jato, por exemplo. Isso não entra [na manifestação]?
– Não. Estamos focados no conceito petista de corrupção institucionalizada, que visa a um projeto de poder totalitário. Comparados, os outros são ladrões de galinha. Não dá para comparar a destruição da Petrobras, no BNDES com as coisas do Eduardo Cunha, por exemplo. É claro que ele deve ser punido, mas em proporção é uma diferença muito grande. Aqui roubam para comprar apartamento em Balneário Camboriú, para comprar carro importado, o que é um crime, é algo terrível, é algo abominável. Mas o PT rouba para implantar um projeto de poder aos moldes cubanos, aos moldes venezuelanos.
– O sr. vai sair candidato?
– Não estou focado nisso AINDA.

Junte-se a isso a lambança do pedido de prisão preventiva de Lula, ou a condução coercitiva do ex-presidente ao aeroporto de Congonhas, com avião da PF pronta para conduzi-lo a Curitiba, sob pretexto de “segurança pública”.

Para condenar um ex-presidente e enterrar um partido, não há coisa estranha demais? Um processo condenatório desse naipe deveria ter um rigor exemplar, ou não? Não encaramos o fato de que isso tudo ficará para a História? Ou estamos nem aí para a História?

Mas esse é, talvez, o fato mais importante, e aí vem minha questão: estamos encarando de fato que isso tudo ficará para a História, e desse jeito? 

Onde começa tanta corrupção? A maior ironia, talvez, seja pensar que tanta lambança não se separa tanto assim de nosso cotidiano.

Ontem mesmo, participei de um daqueles ritos insuportáveis, quase diários, de precisar sentar ao lado de alguém no ônibus. Em certas regiões do Brasil – não pequenas -, se a pessoa ao lado é um homem, não é raro que eu me sinta num filme de Tarantino. Não poucas vezes – e ontem foi o caso – preciso chamar a atenção ao colega sobre o fato de que existe uma divisória ali, entre os bancos, e que ele não deve passar o braço e a perna “para o lado de cá”. Como sempre, após dizer isso, há uma reação agressiva do outro passageiro. Às vezes sinto que o colega pode partir pra cima e não falo. Mas experimente não falar.

Chego em casa e… não é que, não muito longe dali, coisas desse tipo ocorrem toda hora e lugar? Não que eu ou você não saibamos disso, embora não seja o tipo de informação que levamos para a cama.

Na ausência de uma esfera pública, somos a terra do “partiu pra cima” (e muito mais notavelmente se vivemos no RJ). Pode-se partir mais ainda pra cima se você é político ou prefeito. Ou, em outras palavras, tudo é pessoal, marrento, gente boa. Tudo é apelo à pessoalidade, valeu meu querido? Você quebra essa pra mim? Te vendo um imóvel legalizado. Paga aí a “taxa de administração”. Ou, não verbalmente, ficarei sentado aqui mesmo do jeito que estou.

Quando a relação entre dois brasileiros não pode ser personalista ocorre um vácuo, um buraco negro, um curto-circuito. É a impossibilidade de o brasileiro ser tudo o que é: personalista. Senão, basta lembrar do jeito idiota com que os brasileiros se comportam quando vão ao exterior (enquanto ostentam suas viagens nas redes sociais), comportando-se como se o mundo inteiro fosse obrigado a reconhecê-los como brasileiros para… pra quê mesmo?

Se você não quebra essa pra mim, para que eu fique com as pernas e braços abertos enquanto você senta do meu lado (melhor ainda se for mulher! vide como as mulheres se transformam em reféns quando estão em ônibus), se você não “quebra essa pra mim”, o que acontece? Eu “parto pra cima” de você.

Alguém deve ter “quebrado alguma” para os promotores de São Paulo emitirem aquele pedido de prisão preventiva – tão mal feito!! – de Lula.

E o PT, como pode estar agora tão malfadado, ele que conseguia coordenar as forças do país, em alianças com os partidos mais nanicos (e corruptos?). O mesmo governo que José Dirceu chamava de “nosso governo”, como foi possível perder qualquer governança? Ora, o PT fez alguma, e não é à toa que estão agora partindo pra cima dele.

E amanhã também, dia 13 de março, cantando, dançando e se estapeando, o povo vai partir pra cima.

Onde não há uma correlação de forças suficiente para fazer certas instituições valerem, elas podem valer de todo e qualquer modo. Elas podem quebrar o galho ou podem partir pra cima.

Lula era muitos?

Desde as primeiras eleições de Lula, este blog considerava algo estranho: a fácil adesão de muita gente da “esquerda” a uma curiosa continuidade. Segundo essa gente, poderia-se fazer uma passagem direta entre a figura pessoal de Lula, seu papel social “simbólico”, por assim dizer, e as transformações que ocorreriam no Brasil.

Sob os slogans, certo marxismo heterodoxo chegava a dizer (utilizarei tais exemplos para tentar fazer a pergunta deste post, mais abaixo), sob a pena de gente graúda como Toni Negri: “Lula é muitos“. O palavreado era pomposo: “De fato, Lula foge ao controle dos poderes fortes da elite cínica e racista (…) porque expressa a capacidade de se comunicar com os muitos enquanto muitos, sem reduzi-los a um conjunto representável pela “opinião pública” (…) A elite treme. O que lhe aparecia como um monstro é, na realidade, o anjo da multidão dos “sem” (…)”

Note-se aqui uma dualidade: de um lado haveriam os devires, os “muit@s” do Brasil, aquele povo que até hoje não havia sido (e continua…) representado pelos poderes convencionais, enfim, a potência da multidão. De outro lado, a representação e seu poder do Mesmo, a cooptação da diferença em nome do que, no Brasil, seriam as oligarquias misturadas a certa importação duvidosa de alguma noção de “república”.

Era de se notar a discussão sobre a bolsa família, por ex.. Em termos convencionais, a idéia do PT poderia ser encarada como uma verdadeira revolução, embora autores mais contemporâneos, inspirados em Foucault, poderiam sentir-se na tentação de chamá-la de medida biopolítica. Ora, a “biopolítica” diz respeito a um nível de análise que não se situa mais sob as chaves de interpretação da política em termos de repressão. Disso, a política global da bolsa família poderia, mesmo assim, ser considerada benéfica ao povo e até crítica das velhas oligarquias. Mas, mesmo assim, em nome da “potência” de Lula, foi grande o esforço em provar que a bolsa família não era uma biopolítica, mas embrião de uma renda universal.

De lá para cá, houve ao menos duas ou três mudanças de perspectiva. Num primeiro momento, o “lulismo” continuou sob os auspícios da “potência” contra certo “poder” do “governismo” que se impunha como opressor (mesmo sendo Lula do próprio governo). Dilma ainda carregava o epíteto dos “muit@s” na primeira eleição, a potência da mudança contra a tristeza do poder.

Mas logo a terminologia mudou. Dilma e Lula deixaram de ser muit@s e cederam lugar à dualidade entre o “governismo”, de um lado, e os “muit@s”, de outro. Nas eleições de 2014 o “governismo” foi responsabilizado pela própria derrocada, quando afugentou Marina do 2º turno e jogou o jogo do PSDB. Toda a “potência” teria sido despotencializada ainda em 2013 (e este artigo chega a ser profético), quando os movimentos  de junho de 2013 foram reprimidos pelo governo.

Alinho essas informações apenas para tentar dizer o seguinte: de algum modo, quando Lula assumiu o poder ele foi totalmente creditado; e agora que sua imagem treme, é totalmente desacreditado. Mas, entre um e outro momento, alguém atentou à questão fundamental?

A tentação seria de perguntar: diante de tanta confiança irrefletida, quando foi que ocorreu a linha de ruptura, o corte, o abandono, a desesperança? Pois a resposta a isso poderia ter duas implicações: 1) ou o governo das “potências” de Lula teve certo momento de esgotamento após o esplendor, e acabou se entregando ao poder representativo das oligarquias, ou, 2) desde o início houve uma espécie de grande estratégia, na qual, bem ou mal (e o inferno é cheio de boas intenções), o PT tentou a) cooptar as oligarquias em nome de seus projetos, utilizando os mesmos mecanismos estratégicos das oligarquias, ou b) cooptar as oligarquias para se tornar igual ou melhor do que elas.

Sobre as últimas duas hipóteses, acho muito pouco provável a segunda, embora pareça nítido o projeto mais recente de prolongar o poder a qualquer custo. De todo modo – este blog tentaria dizer isso -, pareceria verossímil pensar que o PT jogou um péssimo jogo, uma vez que tentou vencer o diabo jogando com o tabuleiro e as peças do tinhoso. Isso se remete a inúmeras falas do Zé Dirceu, a respeito do mensalão: a compra de votos e pautas parlamentares já existia (ACM ou o golpe de 64 que o digam), o PT apenas se “aparelhou” com as táticas do inimigo, tudo servia para fortalecer o “nosso governo”, no futuro tudo será melhor compreendido, e – quero chegar aqui – no fim das contas, tudo se passaria como se a estratégia inteira consistisse em dobrar esse país corrupto, corruptamente, contra a corrupção.

Voltemos ao essencial (ao menos ao essencial deste blog esquecido): entre o crédito total e o descrédito total a Lula – temperado hoje pelas acusações de “isentismo”, pelo fracasso do “voto crítico” e pelo desejo de que Marina perdurasse na última eleição -, como foi possível a esquerda não considerar que, para além das dualidades entre “nós” e “eles”, o que há são estratégias e jogos de força? Que, para se eleger e manter-se no poder, o PT se alinhou com inúmeros partidos e políticos-anões, dos quais inclusive brotam inimigos atuais do PT, como o próprio Cunha? Que não foi fora dessas coalizões, mas no próprio jogo estratégico imanente a elas, que o PT angariou suas condições de “governabilidade”, e hoje as perde? Que todas as mudanças, positivas e negativas, visíveis no Brasil atual, vieram deste jogo?

Enquanto o brasileiro não tentar compreender como se dão as regras desse jogo, alheio aos supostos “poderes” clássicos e às “potências” vivas (e às outras metáforas da moda, vide alguns tentando importar agora o debate inglês entre liberais e conservadores), nada mudará de fato, e os últimos acontecimentos publicitários da coação de Lula apenas mostram, para além da Aletheia, mais uma correlação de forças esquecida. Leminski já fazia Descartes dizer, em pleno Brasil: “natura desvairada destes ares!” Até hoje não buscamos compreendê-la segundo o que ela própria nos oferece.