Sobre a prática do psicólogo e o ensino de epistemologia e história da psicologia

Tenho acompanhado algumas questões envolvidas com o ensino de História e Epistemologia da Psicologia em faculdades particulares. É muito interessante ver como o ensino de tais disciplinas é encarado pelo “senso comum” da psicologia:

– Em primeiro lugar, as duas são disciplinas ministradas no início do curso, geralmente no primeiro ano, para “apresentar” ao aluno as disciplinas psicológicas. Isso é muito importante, embora o ensino deixa uma série de questões muito sérias do ensino de história: como ensinar aos alunos de psicologia simplesmente o modo em que a psicologia se tornou ciência, sem ter uma noção clara do que é ciência e do que está em jogo quando se fala de ciência psicológica? Há, no surgimento da psicologia, todo um diálogo envolvendo questões filosóficas, e uma série de críticas à legitimidade “científica” da instauração de uma ciência psicológica. Em suma: se a psicologia não é ciência, o que a faz diferente de outras práticas, como o curandeirismo e as religiões? E se é, qual é seu estatuto enquanto psicologia e enquanto ciência, “exata” e/ou “humana”?
– Geralmente, encara-se um curso de história e epistemologia da psicologia assim: começa-se apresentando uma série de autores que iniciaram escolas científicas, e no mesmo movimento, mostra-se como a psicologia teria ‘superado’ preconceitos filosóficos, pré-científicos, religiosos, morais e assim por diante. Essa abordagem tem uma função muito precisa: mostrar ao aluno a “legitimidade” da psicologia como ciência. Mas essa função esconde alguns outros fatores que tornam importante a presença de um especialista em história e epistemologia da psicologia para ministrar a disciplina, pois disso derivam questões muito sérias. Ensinar que a psicologia apenas se “emancipou” de problemas filosóficos, sem dar seriedade a questões de ordem histórica e epistemológica da própria psicologia (as fundações de suas diversas correntes etc.), é o mesmo que dizer que foi a princesa Isabel que libertou os escravos, ou afirmar Pedro Alvares Cabral como “descobridor” do Brasil. Isso simplifica muito a questão, mas não oferece uma resposta apropriada, bem como desconsidera que existem aí questões muito sérias para elucidar. Ensinar história e epistemologia da psicologia sem cuidados prévios significa lançar mão de um preconceito: já que o que se ensina nessas disciplinas é o curso de uma “vitória” (a emancipação da psicologia, para além dos prenconceitos morais, filosóficos etc.), qualquer psicólogo pode ensiná-la, ficando o pesquisador da área numa complicada situação, e o aluno sem aprender conteúdos importantes.

– A situação do pesquisador em história e epistemologia da psicologia se agrava quando se consideram questões da ‘prática’ do psicólogo. Um pesquisador teórico muitas vezes não é levado muito a sério por não se envolver diretamente com a prática ou com questões práticas. Mas isso é outro preconceito, pois desconsidera o tipo de preparação empregada por um pesquisador teórico, e o próprio papel da teoria junto à prática do psicólogo. Um bom professor de história e epistemologia da psicologia é um bom teórico, que deve passar uma boa base aos alunos, para que eles sejam também bons teóricos. Pois como ser um bom prático, caso minimamente não se cumpram requisitos teóricos? Em 1954, o filósofo Georges Canguilhem fez uma pergunta aos psicólogos que causa controvérsia até hoje. Dizia ele algo como: vocês poderiam dizer o que são, para que eu possa entender para onde vocês querem ir? Em suma: sem uma boa definição teórica, a prática é vazia, mero tatear. Qualquer leitura da “prática” nunca é isenta de um plano conceitual; se em algum momento os dados não se adequam aos conceitos prévios, deve-se conjecturar novamente, e por via conceitual, os motivos. Sem conceitos, não há prática. Utilizar conceitos é a atividade de qualquer pesquisador de ciência, não há outro modo.

Um professor de história e epistemologia da psicologia tem, basicamente, duas funções, tal como tem a questão da teoria na formação do psicólogo:

– Em primeiro lugar, a teoria é essencialmente legisladora, diz respeito aos limites e às possibilidades da prática. A “teoria” torna possível analisar a arquitetura conceitual envolvida em cada abordagem. Mede-se, assim, a coerência interna de um plano conceitual, sua consistência, sua validade “prática” e sua relação com outros planos conceituais. Em suma: prática sem teoria é cega, não passa de receituário pré-científico – não é, por assim dizer, “legítima”.

– Em segundo lugar, para haver ciência, deve haver uma teoria da ciência. A passagem à prática apenas pode se garantir por certos requisitos formais, que conferem se a prática é efetivamente científica ou não. Isso tudo ainda sem considerar todo um outro universo de questões de ordem ética…

tags:psicologo psicologia ensino superior epistemologia historia

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5 comentários sobre “Sobre a prática do psicólogo e o ensino de epistemologia e história da psicologia

  1. Pra falar bem a verdade, fiquei tão impressionada com os dois textos que estão na categoria de Psicologia que estou linkando vocês no meu blog… parabéns de novo. Marcela Ortolan

  2. Olá Marcela,

    Fico muito feliz que você tenha gostado do blog. Estou surpreso que os textos de psicologia estão resultando em boas ressonâncias, particularmente é um dos temas que mais gosto de postar. Haverão muitos e muitos outros textos escritos nesse assunto, estou organizando artigos de opinião e referências que postei já em outras páginas, para publicar tudo aqui. Agradeço muito sua leitura e considerações

    um abraço,

  3. Muito preciso este texto, no sentido de uma necessidade e de estar certo na análise, isso sem contar os outros textos que tratam da Psicologia presentes neste blog.

    – Merecem divulgação extensa e intensa!

    Vale lembrar que as disciplinas que abordam a História da Psicologia, sua Epistemologia, além das disciplinas de Metodologia de Pesquisa, e pasme, Diagnóstico Psicológico, são consideradas disciplinas “gerais” em Psicologia, ou seja, são ministradas por professores que em sua formação estão atrelados a linhas/abordagens/referenciais específicos e têm de correr em um semestre para dar conta do assunto da disciplina em questão, abordando o maior número de correntes/referenciais possível. Talvez, no caso de Diagnóstico Psicológico e Metodologia de Pesquisa fosse melhor dividir esta disciplina em disciplinas específicas, de acordo com seus modos de funcionamento também específicos, e não seria espantoso se eles mal conseguissem tratar desse tema dentro da especificidade em que militam. Tais disciplinas são importantes e de fato ofertadas no início do curso em faculdades particulares, tratam do tema superficialmente e ajudam a confundir ainda mais a cabeça dos alunos que ali estão presentes.

    No caso das disciplinas de História da Psicologia e Epistemologia, concordo com o que diz o texto, quando aponta para a necessidade de ter uma pessoa que acompanha/pesquisa o assunto… isso tornaria mais rica a disciplina.

    Abraço.

  4. Oi Felipe,

    Com toda certeza, como você mencionou, inclusive as matérias de diagnóstico e de metodologia (principalmente essa!) são ministradas como “gerais”. Para não dizer também o pouco caso feito em disciplinas como estatística (existem psicólogos muito bons em estatística, que nem são cogitados para darem aula), e, muitas vezes, em genética. Postarei então outro texto, de um curso que acabei conhecendo, onde quase nenhum professor de psicologia era sequer psicólogo. Imagine só!

    um abraço,

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