Quando a teoria funciona

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Teoria na prática é outra?

Certo dia – como narra muito bem o romance Catatau de Paulo Leminski – chegaram alguns distintos senhores, com idéias claras e distintas, ao Brasil. Quiseram enquadrar numa perfeita geometria toda a “natura desvairada desses ares”. Se a natureza é desvairada, a teoria – que não é desvairada – poderia se desenvolver, domando, capturando e manipulando. Todo o Catatau mostra como isso tudo apareceu no Brasil sob um caráter, sobretudo, cômico. Pois, ao olhar chapado do Descartes leminskiano, tudo parecia fugir, esmorecer, escorrer das próprias mãos do racionalista europeu.

Tudo isso que escorre, como medidas singulares e palavras desconhecidas e móveis das próprias bocas dos índios, seria capturável pelo bom e reto pensamento? Há quem diga que, enfim, esses distintos planos para o Brasil, diante de olhares muito otimistas e miopes, “deram certo” (muito embora a vulgaridade do brasido superou o nome sacro, Santa Cruz). A teoria funcionou, mostrou-se aplicável à prática, e vivemos hoje num país tão harmonioso quanto as linhas de um polígono regular.  Portanto, a conclusão forçosamente é: toda teoria funciona.

Curiosamente, a proposição (teórica) “toda teoria funciona” foi muito relativizada por alguns ilustríssimos senhores que, atualmente, buscam contrariar esse postulado. Onde se viu dizer que teoria funciona na prática? “Teoria na prática é outra”. Ou, ainda, não se pode dizer que todas as teorias cabem à prática (preservando, obviamente, a boa separação entre teoria e fantasia). Teorias empregando a palavra “social”, por exemplo: nunca seriam aplicáveis. Outras, que de direito pregam a o laissez-faire econômico e de fato constróem grandes aglomerados financeiros: não há problema algum nelas, a despeito do curioso abismo entre o direito e o fato são “perfeitamente” aplicáveis.

Nesse sentido, é curioso notar – como sugeriu o Marcio Pimenta – como a aplicabilidade da teoria é considerada possível ou não a partir de certos fundos e certas práticas. Como disse o Marcio, um economista bom em teoria precisaria muito conhecer o próprio mundo em que vive. A mera formação teórica, voltada ao “mercado”, não lhe permite visualizar a realidade – que não se subsume e em muitos sentidos resiste a certos caracteres da economia vigente. Um economista que recusa a própria realidade viveria apenas a “teoria”. Mas uma teoria perfeitamente aplicável por pertencer aos interesses do Capital.

Junto ao exemplo do economista teórico, considerado já prático – pois esquece a prática do mundo e emprega a do capital financeiro neoliberal -, podem-se colocar, por exemplo, uma série de críticas cotidianas a atuações de certos cientistas humanos (psicólogos, sociólogos, antropólogos) por serem demasiadamente “teóricas”. Um cientista humano, por optar desenvolver algo muito “teórico” e sem viabilidade prática para o mercado, seria confinado no mundo acadêmico. Restaria a ele, que não conseguiria intervir na “realidade”, apenas pesquisas acadêmicas e críticas ao contexto social.

Nasce aí uma conhecida dualidade: de um lado o Mercado, e de outro a Academia. Dualidade cuja tendência atual de resolução significa, via de regra,  subsumir a segunda ao primeiro. Se a Academia condensa apenas discursos teóricos mas também pesquisa, por que não absorvê-la no Mercado, que já é por natureza “prático”?

Vejamos que o caso da dualidade, e também a situação do economista e do cientista humano, reportam-se as daus a um mesmo fator: quando oportuno, há relação entre teoria e prática. A formação teórica do economista – não prática -, é oportuna por ser empregada em certas práticas de outra ordem; já a formação do cientista humano,  quando considera uma boa relação entre teoria e prática (e isso não se resume nem de longe às aplicações ditas “voltadas ao mercado de trabalho”), cai no preconceito da não-aplicabilidade e no (suposto) confinamento a uma teória inútil, apenas “acadêmica”. Resumindo, de um lado a teoria é considerada bem-vinda e oportuna; de outro, é “mera” elucubração, inviável.

A conclusão se impõe: paradoxalmente, uma teoria não é avaliada “aplicável” por sua aplicabilidade. Há um elemento exterior à própria teoria, avaliando previamente quando ela deve ou não ser oportuna.

Há quem argumente que esse elemento exterior tem um “quê” de traços econômicos, sociais e ideológicos. Mas quando se consideram duas teorias (ou conjunto de teorias, ou mesmo alusões estereotipadas a determinadas áreas) igualmente aplicáveis em desigualdade de aplicação, o critério que decidiu sobre a aplicabilidade de uma (e não de outra) apenas pode ser de outra ordem, diferente daquela (tradicionalmente lógica, científica, filosófica etc.) de testar na “realidade” as proposições teóricas. De todo modo, sendo quais forem esses critérios exteriores, eles apenas apontam a uma outra incômoda pergunta: em dias como esses, uma teoria que funciona, funciona para quem?

 

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8 comentários em “Quando a teoria funciona

  1. Muito bem dito! e ainda melhor exposto…
    E temos por cá (Portugal) agora um excelente exemplo dessa dualidade: uma economia que cresce a 2,1% e a maior taxa de Desemprego dos últimos 21 anos, com perto de meio milhão de desempregados… É caso para dizer: quantas economias há? A nossa e a… Deles, dos teóricos?

  2. Also! Herr Einstein ist deinen Freund? Das ist ganz toll!

    Quero dizer que concordo integralmente com o que você disse dos economistas. Para grande infelicidade minha, sou formado em economia. E, de fato, não há um colega meu que tenha saído da faculdade com uma compreensão média que fosse da economia brasileira…

  3. Muito bem dito, Catatau! O curioso é como na própria academia a “teoria” tem perdido força. Já notou como na grande maioria (senão na totalidade) das propagandas de vestibular se diz que tal faculdade “prepara para o mercado de trabalho”?!

    Se o foco é o mercado, é claro que é ele quem vai ditar o que se deve ensinar…

    Ah, quando alguém me vem com essa de que “na prática a teoria é outra” eu acabo respondendo que “nada é mais prático do que uma boa teoria”. Como se o pensar e o fazer fossem opostos…

    Abração!

    Re: Com certeza, Leandro! E ainda mais: como se a prática pretensamente destituída da teoria não tivesse, ela mesma, uma teoria. A não ser que esses seres ‘práticos’ se admitam como animais. Aí o assunto é outro 😉

  4. Cara, na minha área existe verdadeira guerra entre teoria e prática. Enquanto outras áreas acadêmicas trabalham em sintonia com o mercado, na comunicação (em algumas faculdades – as que me interessam) vemos o contrário. O mercado da mídia, rico e cada vez mais poderoso, ainda não conseguiu dobrar totalmente a espinha da academia – ao menos em relação a alguns mestrados e doutorados.

  5. Teorizando…penso qude algumas teorias servem, na prática, para disfarçar práticas condenáveis…adorei seu blog…

    Re: Exato, Sandra. E outras teorias de práticas não condenáveis, seriam condenadas como não exequíveis…

  6. Olá querido, eu de novo rs

    Muito pertinentes as suas colocações. Esses dias ouvi uma entrevista que o Rubem Alvez deu à rádio Universidade FM, daqui de Londrina, e ele disse mais ou menos isso: “Conhecimento nós temos de sobra, se parassemos de pesquisar conhecimento novos e fossemos aplicar o que já sabemos provocariamos um revolução no mundo. O que falta é sabedoria”. Concordo com ele, falta começar a transpor a teoria para a prática e, mais que isso, falta pensar na teoria como indissociavel da prática.
    Mas existe um porém: nem toda pesquisa realizada – teorico ou pratica – precisa necessariamente ser aplicada a pratica como foi pensada. Se fosse assim nunca fariamos pesquisas básicas, que embasam pesquisas aplicadas que mais tarde viram as técnicas que se popularizam. E uma critica comum a pesquisa básica é que ela não é aplicavel. Mas ao fazer isso esquecemos que uma pesquisa básica vem para sanar problemas e para embasar novas teorias e tecnologias (por assim dizer).

    Ah, sim, só mais uma coisa:

    Conclusões de Aninha

    Cora Coralina

    Estavam ali parados. Marido e mulher.
    Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
    tímida, humilde, sofrida.
    Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
    e tudo que tinha dentro.
    Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
    novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

    O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
    entregou sem palavra.
    A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
    se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
    E não abriu a bolsa.
    Qual dos dois ajudou mais?

    Donde se infere que o homem ajuda sem participar
    e a mulher participa sem ajudar.
    Da mesma forma aquela sentença:
    “A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar.”
    Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
    o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
    e ensinar a paciência do pescador.
    Você faria isso, Leitor?
    Antes que tudo isso se fizesse
    o desvalido não morreria de fome?
    Conclusão:
    Na prática, a teoria é outra.

    Agora sim, vou-me
    bjo

    Re: legal que você toca em outro ponto, perfeito para outro post: o de como a pesquisa, no Brasil, se “degrada” em termos de financiamento quando vai da aplicada à pura. Pelo menos em termos quantitativos, e temos muita gente lutando contra isso…
    bjs,

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