Da Empregada, a Portugal

Ponto pacífico na pauta dos jornalistas, durante a semana (ainda bem): é condenável o ato dos jovens cariocas que espancaram uma empregada doméstica, confundindo-a com uma prostituta. Tão condenável quanto a declaração do pai de um dos jovens, que pretendeu relativizar o crime comparando o filho com os bandidos "de verdade".
 
Dado o ponto pacífico, teremos agora as velhas querelas dos jornalistas, especialmente blogueiros: indivíduos de classe média espancando pessoas desprivilegiadas remete a problemas estruturais ou indiviuais? Junto às partes, uma turba de anencéfalos, apenas repetindo um debate que serve para nada.
 
Deixemos os jornalistas. Mas para além dessas disputas de interpretação – e de umbigos -, Maria Rita Kehl acerta na mosca (aqui, sem pertencer a qualquer dos lados dessa disputa de interpretações):
Tomemos o ato de delinqüência cometido pelos meninos "de família" da Barra, no Rio. Que a culpa seja dos pais, vá lá. As declarações do pai de Rubens Arruda são reveladoras. Não que ele não transmita valores a seu filho.
Mas serão valores relacionados à vida pública? Não terá o dr. Ludovico educado seu filho para "levar vantagem em tudo"? Esse pai não admite que o filho seja punido pelo crime que cometeu.
Há aqueles que não admitem que a escola reprove o jovem que tirou notas baixas, os que ameaçam o síndico do condomínio que mandou baixar o som depois das 22h etc.
Olham o mundo pela ótica dos direitos do consumidor: se eu pago, eu compro. Entendem seus direitos (mas nunca seus deveres) pela lógica da vida privada, como fizeram as elites portuguesas desde a colonização.
Quem disse que os jovens não lhes obedecem? Obedecem direitinho. Param em fila dupla, jogam lixo nas ruas, humilham os empregados -igualzinho a seus pais.
Em outras palavras: seja o problema "estrutural", seja "individual", há uma grave confusão entre as esferas pública e privada no Brasil; confusão projetada até mesmo no caso do espancamento da empregada. Dado que o Brasil é um país tão desigual, dado que há tantos "bandidos", "prostitutas", e "até" "pobres", de um lado, e as pessoas detentoras de "direito", de outro, o pai se pergunta se seria direito o filho ser preso em meio a tantas pessoas sem direito
 
E Kehl complementa: "como fizeram as elites portuguesas desde a colonização". "Desde a colonização" não quer dizer apenas: "somos hoje como os portugueses" de antes (e já vejo jornalistas umbigueiros tomando a passagem de Kehl como objeto de outras disputas inúteis). O problema é outro, propriamente o do direito atribuído a si mesmo de ser, na esfera pública, superior aos demais. O ponto de vista privado se sobrepõe ao público, criando os diversos tratamentos "diferenciados", jeitinhos, e afins. Nisso, Kehl compara o pai indignado de classe média à colonização do Brasil.
 
O que me faz lembrar de algumas passagens, bem mais antigas. Como a Bula Romanus Pontifex de 8/1/1454, mencionada por Darcy Ribeiro em O Povo Brasileiro (em português, e  inglês). Ou como aquele outro texto de 1575, de Pero de Magalhães, que mostrava o nome dessas terras oscilando entre o sacro "Santa Cruz" e o profano "Brasil": terra comercial, explorada, mero meio para fins situados fora daqui.
 
***
Já que considero esse outro assunto atual, mantenho o post:

Baladaboa e a mídia 

Como já se sabe, algumas fontes midiáticas condenaram, em tom de "denúncia", um grupo de pesquisas da USP chamado Baladaboa (página da USP). De tabela, a FAPESP acatou o tom da denúncia, e suspendeu as verbas do projeto. O grupo busca realizar práticas de redução de danos frente ao uso não esclarecido de drogas, tais como o ecstasy. No affair em questão, foram distribuídos vários panfletos na "balada" paulistana, orientando possíveis usuários sobre os efeitos e procedimentos relativos à droga, e prescrevendo comportamentos de redução de danos.

Um dos principais acusadores é Reinaldo Azevedo. Mas confesso que o barulho atribuído a ele vem muito mais de algo que ele mesmo abominaria, do que aplaudiria: "no Brasil, quando há uma porfia intelectual, um debate de idéias ou um confronto, a primeira coisa que fazem os que se sentem agravados é um abaixo-assinado. Para quê? Ora, pra ganhar no grito. Até a tabuada, daqui a pouco, vai depender de grupos de pressão".

O Sr. Reinaldo, em alguns momentos, tem alguma razão, embora relativa (quando atenta à  formulação ambígua de alguns panfletos, por exemplo). Mas faz "pressão" e "gritaria" quando, ao analisar o projeto e o site do Baladaboa, mescla vários argumentos de diferentes ordens, oscilando os juízos quando lhe convém. Se tem alguma razão ao mostrar a formulação ambígua de alguns panfletos, erra ao generalizar essa ambiguidade a toda a pesquisa. Do mesmo modo, erra novamente quando julga elementos parciais e formulados ambiguamente como se ditassem o significado de todo o panfleto. Ou ainda, quando sobrepõe o debate de opinião ao metodológico. Em todo o texto, ignora todo o procedimento da pesquisa, tomando apenas um elemento preliminar (a distribuição de panfletos de orientação, para elencar sujeitos) como o fim último dela (a distribuição de panfletos, e seu caráter orientativo, é apenas o início, uma fase prévia à coleta de dados). Ainda, o Sr. Reinaldo ignora que uma
prática de redução de danos se faz tanto com usuários dependentes, quanto em orientações preventivas. Não é o Baladaboa um grupo de estudos preliminares, que permite encaminhar práticas preventivas futuras?

Isso, para enumerar alguns pontos. O principal é o julgamento moral de Reinaldo que se sobrepõe ao elemento metodológico da pesquisa. Não que pesquisa alguma seja separada de consequências éticas; o buraco é mais embaixo, precisamente na oscilação dos juízos expressos acima. O fato da FAPESP ter suspenso as verbas mostra que, antes do projeto ser revisado, foi o "barulho" ou a "pressão" que causaram a suspensão. Não o "barulho" de um mero cidadão, como o próprio Reinaldo afirma para si; mas a pressão de um sólido grupo jornalístico que manifesta as posições da Veja. Se aprecia o debate público (entre iguais), do lugar onde se manifesta o Sr. Reinaldo tem as costas bem quentes. 

De tudo isso, é curioso como as professoras responsáveis pelo projeto não resolveram (pelo menos ainda) lutar no mesmo terreno que Reinaldo arroga para si: o das idéias. Reinaldo requere de direito o terreno das idéias, quando de fato vive mesclando esse "ideal de ego" com imputações ad hominem. Mas as responsáveis pelo projeto facilmente poderiam mostrar como Reinaldo oscila seus argumentos entre juízos e preconceitos, até mesmo para justificar o Baladaboa perante a opinião pública. Só é estranho que ainda não o fizeram.

Quanto ao próprio debate, é estranho ter que discutir esse tipo de coisa. Mais do que por um debate "racional", o Baladaboa veio a público apenas por pressão de certos "jornalistas".

 

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7 comentários sobre “Da Empregada, a Portugal

  1. Catatau,

    Quero te enviar o texto aquele que o Iagê citou (caso tu ainda não o tenhas lido). Como só tenho em arquivo, vou te mandar por e-mail.
    Manda uma mensagem pra

    mardenmuller**AT**yahoo**PUNTO**com**PUNTO**br.

    Inté.

  2. Caro Catatau,

    Vou fazer uma correção no meu post, me passei e não vi que você tratava do mesmo assunto.

    Tratamos do mesmo ponto de vista, mas eu fui um pouco mais rispído, é bem verdade… 😀

    Abraços!

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