Os Jornais, a Energia, e a atualidade.

Nos últimos dias, o Jornal Nacional tem realizado uma série de reportagens ("Agroenergia") sobre a recente valorização dos biocombustíveis. Por entre frases como "quem tem a energia, tem o poder", as reportagens mostram a iminência (caso se considere que já não ocorre) de uma nova crise energética. Para conter a crise, apresentam-se várias possibilidades de autonomia.
 
As reportagens do JN fazem parte de um grande movimento, contemporâneo, de constatação dessa crise vindoura. Mas é preciso atentarmos bem à "constatação". Pois, se é atual, não ocorre por uma súbita tomada de consciência da importância dos biocombustíveis. Pelo contrário, essa "constatação" faz parte de toda uma rede de outros acontecimentos, que têm conferido cada vez mais importância econômica às outras energias.
 
Por exemplo, podemos considerar a questão do etanol. O Proálcool foi criado ainda nos anos 70, como projeto de solução para qualquer dependência externa ao petróleo. Dependência do petróleo, no século XX, significa, via de regra, dependência econômica. Criar alternativas à dependência implicaria, diretamente, o desenvolvimento de uma nação soberana e autônoma. Pode-se imaginar o efeito de avalanche que a autonomia energética geraria na indústria automobilística, na economia, e no balanço das importações/exportações, apenas para dar alguns exemplos.
 
Se o Proálcool foi criado nos anos 70, como alternativa ao Petróleo, a pergunta é inevitável: se já havia demanda e condições para que os combustíveis alternativos fossem aprimorados e implementados no Brasil, porque o "boom" dos biocombustíveis ocorre apenas agora?
 
A resposta é bastante complexa. Envolve desde caracteres econômicos, a tecnológicos, políticos, e inclusive militares. Não são casuais as novas declarações do presidente dos EUA incentivando energias alternativas, dado o curto tempo de vida das reservas de petróleo, e os constantes conflitos onde a maior parte está localizada. Não é nenhuma novidade que, em grande parte, a hegemonia mundial dos EUA está ligada ao petróleo. Uma mudança no discurso indica, por decorrência, futuras mudanças radicais nas relações entre os países.
 
Outro elemento notável para a dependência persistente do Brasil é a esfera tecnológica. Dependência tecnológica está diretamente ligada a interesses externos. E não há como separar a produção das tecnologias, sejam elas próprias, ou importadas, de caracteres econômicos. Tecnologia própria implica interesses de um país a respeito de sua própria produção e consumo. Importação de pacotes tecnológicos incorre no risco da produção se vincular a interesses externos. Um bom exemplo de como a tecnologia está  ligada à energia é a recente produção de carros "flex". Refere-se, novamente, a tecnologias implementadas apenas agora, sob interesses econômicos fomentados apenas há alguns anos. Estranhamente, poderia-se ter investido nisso desde os anos 70. Mas não foi o que ocorreu.
 
Ainda, para dar conta das novas propostas energéticas, devemos considerar toda uma rede de elementos que perpassam relações de trabalho, ecologia, políticas agrárias, vida no campo, e afins. Uma coisa, por exemplo, é criar uma verdadeira federação de cooperativas de pequenos produtores de matéria-prima, ou de industrialização; outra, quando em sentido oposto, cogitamos sobre grandes corporações produtoras. O impacto da "energia" no "trabalho" já aparece em notícias como as históricas denúncias ao trabalho excessivo dos cortadores de cana paulistas, ou dos recentes escândalos de trabalho escravo no Pará. Na ecologia, os riscos são evidentes.
 
*** 
 
Gostaria de montar uma boa bibliografia sobre a questão dos biocombustíveis no Brasil. De saída, dispomos das análises de Bautista Vidal (um dos criadores do Proálcool) e Gilberto Vasconcellos [pesquisa de livros], do Instituto do Sol (vários textos no site). São as referências mais visíveis. Anteriormente, publicamos um post sobre Vidal, com algumas referências, inclusive entrevistas do autor. Sabendo que o universo dessas questões é bem mais amplo, fica a pergunta: Algo mais?
 
***
 
Atenção ao texto de hoje do Movv, também sobre energia de biomassa. 
 
*** 
 
Pesquisa de livros sobre biodiesel, etanol, Proálcool, energias alternativas, e petroleo

tags:  biodiesel biomassa etanol alcool proalcool baudista vidal

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3 comentários sobre “Os Jornais, a Energia, e a atualidade.

  1. Nossa… essa sua pergunta final foi o que acompanhou o meu pensamento ao longo do texto: o texto está ótimo, mas a análise ainda pode tomar muitos caminhos!

    Uma das primeiras coisas que pensei quando falou-se sobre porque o álcool não é ainda mais popular no Brasil, lembrei de meu pai falando: carro a álcool dá muito problema. Coisas com por exemplo não ligar imediatamente em dias frios. Ou seja: um dos problemas é que a tecnologia ainda não estava muito afinada. Outro é cultural, mesmo.

    Mais questões: sim, as reservas de petróleo não são infinitas e quanto antes começarmos a pensar em alternativas, melhor (se possível menos poluentes). Contudo elas ainda não estão acabando, e estão consideravelmente longe de acabar.

    Mais: o segundo maior pais produtor de biodisel é… é…. é???? Os EUA… quase inacreditável, né? E eles parece que eles não estão muito longe de ultrapassar o Brasil.

    Mais: a tecnologia do álcool não rende royaltes ao Brasil, pois não é nacional. Ou seja: no final é provável que se não corrermos a gente acabe apenas em mais um ciclo da cana de açucar…

    Lembrei do meu professor de geografia do ensino médio já falando sobre a questão do biodisel com uma clareza absurda, há 10 anos atrás… como tem pessoas que fazem diferença na nossa formação…

    Escrevi esse monte de coisas só para lembrar que a questão não é simples. Mas teu texto está ótimo, ótimo! Parabéns (de novo… rs)

    Beijos

    ps.: não esqueci do post sobre leitura, a demora se deve a uma viagem longa neste final de semana e que complicou a minha vida… rs

    Re: Poisé, Marcela,
    também pensei a respeito do carro a álcool. Mas não entra também no argumento da tecnologia, o fato de não haverem investimentos no setor automotivo para que os carros a álcool não tivessem mais essa desvantagem? É aquela velha história: com vontade financeira, até obra faraônica se faz!
    bjs,

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