Thomas Merton no Kanchenjunga, e o misticismo católico

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Muitos montanhistas gostam desse esporte por um certo sentimento "místico". Não é raro encontrar atitudes "místicas" por quem gosta de esportes "alpinos", e mesmo alguns outros esportes de aventura.
 
Interessante ler o relato de Thomas Merton – um místico trapista – sobre a 3ª montanha mais alta, o Kanchenjunga. Visitando Darjeeling, Merton ficou doente, maldizendo a montanha por seu mal-estar. Logo depois, "fez as pazes":
O Kanchenjunga esta tarde. As nuvens desta manhã repartiram-se levemente; a montanha, o maciço dos picos anexos começaram uma grande, lenta e silenciosa dança do dorje em neve e névoa, luz e sombra, planos e forças, súbitas torres de nuvens elevando-se em espiral saídas de dentro de orifícios gelados, extensões azuis de rochas semi-elevadas, picos surgindo e sumindo, mas sempre permanecendo o topo do Kanchenjunga como destaque visível e constante de todo o vagaroso espetáculo. Durou horas. Imponente e lindo. Ao cair da tarde as nuvens afastaram-se mais; só ficou um longo avental de névoa e sombra abaixo dos picos principais. Houve discretas exibições de cor-de-rosa de prostíbulo, mas quase tudo era contorno e linha e sombra e forma. Ó Mãe Tântrica Montanha! Palácio de yin-yang, oposto da unidade! Palácio de anicca, impermanência e paciência, solidez e não-ser, existência e sabedoria. Grande acordo do ser e do não-ser; convenção que não ilude a quem não quer ser iludido. A total beleza da montanha só aparece quando se concorda com o "paradoxo impossível": ela é e não é. Quando nada mais é preciso dizer, a fumaça das idéias se desvanece e a montanha é VISTA.
 
Testamento do Kanchenjunga. Testamento do velho Melquisedec anônimo. Testamento anterior aos sacrifícios e aos touros. Testamento sem Lei. Testamento NOVO. Círculo completo! O sol se põe a Leste! E as irmãs do Loreto, só perguntavam: "Já viu as neves?" Será que falavam a sério? [ O Diário da Ásia, p. 119 – pesquisa de preços ]
Como o leitor pode perceber, e como já se vê nos outros textos, não é raro ver uma certa atitude paradoxal (para alguns), desse monge católico. E relatos como esse não são, nesse sentido, os mais impressionantes.
 
Mas talvez o paradoxo se desfaça, quando se percebe que o cristianismo católico não é um todo coerente e uniforme (para além de certos princípios que abarcam todas as diferenças). Relatos como esse, de Merton, dão uma impressão de sincretismo. Mas ela se desfaz quando se admite que no cristianismo também existem certas posturas místicas. Na história do catolicismo, há uma clara polêmica com o misticismo da gnose. Para isso, sempre se reforçou as regulae ou códices morais, ao invés das atitudes espirituais.
 
Mesmo com esses privilégios, entretanto, a atitude mística foi conservada. E a viagem de Merton à Ásia parece fazer parte de uma espécie de interrogação a respeito do misticismo em geral, vinda de um monge católico, que se admite primeiramente um místico, para depois abrir o diálogo de sua crença com outras.
 
Curiosas são as consequências que essa postura pode trazer. . .
 
 
 

😉

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