Lula e o acidente aéreo da TAM

Na BBC:

Desde o choque do Boeing da Gol com o Legacy que deixou 154 mortos na Amazônia em setembro do ano passado, a crise aérea não saiu das manchetes.

Nesses nove meses, houve um quase-acidente aqui, uma greve ali, declarações desastradas de autoridades acolá e muitas filas e atrasos.

(…) Uma das acusações mais fortes que a oposição conseguiu produzir foi que Lula empurrava um problema sério com a barriga.

Não é um argumento de tanto peso quando o resultado mais visível da suposta inoperância é fila em aeroporto.

Quando o resultado são cerca de 200 mortos e o maior acidente da história da aviação no Brasil, a coisa pode mudar.

É claro que a investigação sobre as causas do acidente ainda está nos estágios inciais.

Mas, mesmo que se prove que as condições da pista de Congonhas tenham pouco a ver com o desastre, o governo vai, no mínimo, ter de ir para a defensiva. Vai ter de se explicar e torcer para que sua versão cole.

Se, ao contrário, ficar provado que a pista recém entregue pela estatal federal Infraero não tinha condições ideais e que isso foi crucial, o desgaste pode ser muito mais grave.

Vai ser mais fácil para a oposição usar o argumento da crise anunciada e tentar jogar o custo do desastre no colo do governo, e mais difícil para Lula alegar ignorância, como no início da própria crise aérea ou do escâdalo do mensalão.

Está na cara que o segundo acidente em 1 ano trará consequências graves a um já antigo debate midiático e político. Como dá a entender para muita gente, dois dos maiores acidentes aéreos em um  período tão curto mostra que o Brasil "não aprendeu com os erros".

O que agrava o mal estar do governo em relação à crise é a forte aparência dos dois acidentes pertencerem ao mesmo sistema de erros (o sucateamento do sistema aeroviário brasileiro). Frases como a de Marta Suplicy, nesse contexto, apenas pioram a impressão do descaso.

Mas, como sugere a outra reportagem da BBC, não seria inútil começar a perguntar não pelos fatos, mas pelo sistema que os gerou. Mais ou menos como Robert Fisk sugeriu, no último post, a respeito do 11/9. Mais do que buscar de saída legitimidades incontestadas colocando o governo como bode expiatório e único responsável, deveria ser levada a sério a pergunta: o que fez o sistema aeroviário brasileiro causar os dois piores acidentes no espaço de menos de 1 ano?

A resposta, como se vê, não será tão simples. Envolve desde investimentos em pessoal, em infra-estrutura, no estatuto do funcionarismo público e no serviço de forças armadas no Brasil, na questão da fiscalização (tanto de pessoal, quanto de condições das aeronaves e das pistas), e até de políticas públicas e privadas relativas à aviação. Sem deixar de lado, obviamente, a relação do governo com todas essas variáveis.

Novamente, culpar o governo pode parecer fácil, e o primeiro ímpeto, especialmente da mídia, é buscar o bode expiatório. Mas nada mudará, caso não se responda pelo sistema dos erros. E isso não quer dizer que o governo não possa, nesse sistema, ter sua parte.

O ganho de uma boa pergunta é não recair em respostas estereotipadas, e de pouca utilidade. Especialmente em momentos como esse.

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