Edward Said, sobre o Orientalismo

Algum tempo atrás vinculamos uma série de referências preciosas de livros de Edward Said. Depois, um informe sobre seu último livro lançado, "Humanismo e Crítica Democrática" (pesquisa de preços). Lá, apareceu a interessante posição desse autor sobre o papel do intelectual, bem como sua crítica aos humanismos. Ao invés de humanismos em desuso (todo mundo que requer algo para si passa a se auto-intitular "humanista"), a atitude apropriada segundo Said poderia envolver um verdadeiro pluralismo. Ainda, mencionamos como essa atitude pluralista, junto a outros pensamentos do século XX, pode sugerir caminhos de um livre-pensar, que não projeta os próprios temas, mas abre-se para  uma verdadeira relação com o mundo.
 
Aqui, colocamos em pauta a questão de Said sobre o orientalismo. 
 
Em primeiro lugar, ultrapassando a esfera de Said, gostaria de chamar a atenção ao blog do Sr. André Bueno, sobre "orientalismo". Bueno tem vários projetos on-line sobre esse tema. Estudou filosofia e história antiga, e sua tese de doutorado foi sobre Aristóteles e Confúcio. Junto a questões relativas a Edward Said, surpreendeu-me também encontrar no blog dele o nome de François Julien (que comentamos aqui), bem como fartas referências de sinologia.
 

Mas nos direcionando à questão desse post, o prof. Bueno tem um texto chamado "Introdução ao Orientalismo", com várias considerações e dicas bibliográficas sobre esse assunto. Dentre outras questões, ele menciona:
O estudo da Antiguidade Oriental nos possibilita, portanto: 1) Compreensão mais abrangente sobre os fenômenos sócio – políticos asiáticos; 2) Acesso a culturas diferentes e formas alternativas de pensamento; 3) revisão do próprio conceitual Ocidental, no que tange a sua aplicabilidade, universalidade e inteligibilidade.
Interessante, nisso tudo, chamar a atenção a como os 3 ítens se articulam. Mais precisamente, como o terceiro ítem é preponderante, e pode dizer respeito diretamente ao livro de Said. O título completo do livro é "Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente". Em outras palavras, construímos para nós mesmos toda uma bagagem conceitual que permite dizer "somos ocidentais"; no mesmo movimento, e com certa clareza, delimitamos outros elementos bastante heterogêneos como "orientais".  
 
Em outras palavras, afirmar que as outras culturas dizem respeito à nossa é fazer um deslocamento, frente a outras perspectivas que antes eram privilegiadas. Desde o século XIX, as visões sobre culturas exógenas sempre se dividiram pelo menos em dois momentos: ou a outra cultura mostrava insuficiências, enganos, erros, ou continha ainda uma espécie de origem nobre, ingênua e humilde que os ocidentais teriam perdido no decorrer da história. De um lado, as outras culturas seriam "primitivas"; de outro, a própria primitividade mostraria uma espécie de lugar perdido e "ideal", uma era de ouro (como comentamos aqui), um privilégio perdido pelo ocidental.
 
As duas visões colocam o oriente como o misterioso, inusitado, inacessível. Compartilham em um ponto: o oriente é aquilo que é distante, outro, irredutível.
 
A diferença é que uma visão o valoriza negativamente, enquanto a outra sobrepõe ideais ocidentais ao que o oriental poderia efetivamente dizer. Mas nos dois casos, o oriente é silenciado, pela projeção do ocidental que nele imputa seus próprios temas. Daí retornamos à definição de Said: o oriente como "invenção" do ocidente diz respeito a uma dupla operação: primeiro afastar, calar, para depois projetar os próprios temas, fator comum às duas visões do oriente legadas pelo século XIX.
 
Vê-se como isso tudo já abre ao pluralismo, e serve de sinal, no debate contemporâneo, para fugir das projeções culturais e relativismos ingênuos. E nem saímos do sub-título 😉
 
Dada a pequena apresentação, vinculo abaixo um documentário sobre Said e o Orientalismo, com entrevistas e considerações.
 
 
 
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2 comentários sobre “Edward Said, sobre o Orientalismo

  1. Emir Sader fez crítica igual há duas semanas em seu blog. Nos tempos de pós modernidade onde o egoísmo é o fluxo prioritário, o humanismo é fundamental, como assevera Luc Ferry. Sader chega ao absurdo e ao ridículo de criticar as manobras humanistas dos EUA e dos países europeus na Sérvia, movimentos fundamentais para impedir o massacre étnico, a barbárie, dos muçulmanos pelas tropas de Milosevic. Não se pode nunca generalizar, mas o humanismo é o ponto de partida de qualquer civilização. Said sempre foi meio ambiguo ao bárbaro radicalismo islâmico da maioria dos países muçulmanos, onde a civilização está bem distante.

    RE: Oi Carlos,
    Muito bom ver você por aqui, obrigado pelo comentário. Penso que teu blog pode trazer boas interlocuções, pelo nível que você coloca em várias das idéias.
    Não acompanho o blog do Emir Sader, mas seria um informe do teu blog que comentei, a respeito de humanismo e universalismo?
    Em relação a essas questões, acho interessante um filme turco chamado Kurtlar Vadisi, você assistiu? É uma espécie de ‘Rambo’ do oriente, que enfrenta a ocupação norte-americana no Iraque. O que acho realmente interessante nesse filme são os estereótipos grosseiros, mas que pegam traços muito específicos do que seria o discurso ‘humanitário’ que sustenta a guerra: para além dos valores dos povos que lá vivem, ocorre todo um discurso que desvalida esses valores, impõe-se sobre eles, e que convive com a promessa de uma espécie de caráter “salvífico”. Daí o “radicalismo” (quando imputamos radicalidade a alguém, às vezes nos colocamos no lado oposto) aparecer como uma espécie de sintoma, extravasamento: nunca justificado (mesmo no filme), mas contextualizado.
    É dentro desse tipo de dinâmica que várias atuações “humanistas” recebem sua legitimidade. Obviamente, é triste ver gente criticando (não acompanho Sader, estou falando do fato da crítica) ajuda humanitária em países necessitados. Mas não se pode nunca ignorar que essa ajuda “humanitária” sempre é um momento segundo em relação a um contexto prévio, que inclusive se relaciona a caracteres de política internacional, e a certos modos de vida e posturas “humanistas” hegemônicas. Um bom exemplo é perguntar, nesse contexto do argumento humanitário, sobre o quanto os EUA atuam em países africanos ser infinitamente menos do que fazem no Iraque, sob propósitos até hoje não justificados.
    O que esse filme turco me faz pensar, nesse contexto, é precisamente como vários modelos de ‘humanismo’ invalidam uns aos outros, precisamente por seu caráter contraditório. Aí talvez a posição pluralista que parecemos encontrar em Said ser um bom caminho: para além de humanismos locais (os humanismos do século XX pareceram como projeções universais de temas locais – não seriam esses humanismos bárbaros?), alçar a uma espécie de pluralismo universal, que é a própria suspensão dessa projeção. Não se trata de recair em um pós-modernismo ingênuo, da ausência de valores; mas como vimos nesse texto, de assumir uma espécie de “razão crítica”. O que você acha?
    abração,

  2. Carlos Maia,

    Também concordo com você que o humanismo é pré-requisito para qualquer civilização. Mas esse humanismo, principalmente por parte dos EUA, é um humanismo hipócrita. Veja o caso da invasão do Iraque. Arrasaram com o país, sem motivo algum, para depois levarem uma suposta ajuda humanitária. Na Bósnia foi a mesma coisa. As tais manobras humanistas só vieram depois do massacre. Esperaram os sérvios arrasar com os bósnios, para depois levar a tal ajuda. Na palestina é o mesmo discurso. Israel pode fazer de tudo, com a desculpa de que é uma democracia!!

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