Hipertexto, Complexidade, e Blogs

Olha só como eu gostaria que fosse o nível das discussões atuais sobre blogs, especialmente após o debate entre blogueiros e o Estadão]

Hipertexto e Complexidade
Por Marcelo Bolshaw

Semiótica de Rede

Há no novíssimo folclore de ‘causos’ e estórias duvidosas da internet, uma que define bem o espírito do Hipertexto. Conta-se que há no Massachusetts Institute of Technology – MIT um concurso anual entre os alunos-hackers em que o primeiro lugar é conferido a quem estabelecer as mudanças mais significativas em sistemas informacionais  e que o grande vencedor até os nossos dias foi alguém que colocou o quadro de avisos da escola em frente a sala do diretor. Com esse ‘hipertexto’, o aluno estabeleceu um maior nível de interatividade entre a direção e a escola, mais eficaz e democrático do que todos recursos tecnológicos utilizados (sites, chats, listas, etc) até o momento.

Assim, o hipertexto seria, independente de seu conteúdo temático ou suporte físico, uma forma de mudar a forma das pessoas interagirem, entre si e diante da autoridade. Ele ‘cria’ novos universos e ‘enterra’ velhos paradigmas.

Pelo menos, é nesse patamar que se coloca a discussão teórica contemporânea. Porém, de um ponto de vista geral, existem pelos menos três sentidos distintos para a noção de ‘hipertexto’:

1) O hipertexto é o texto em HTML (HyperText Markup Language) – ou a linguagem usada para criar documentos em Hipertexto para uso na World Wide Web. HTML parece muito com os códigos antigos, em que cercava-se um bloco de texto com códigos (tags) que indicavam como ele devia parecer. Ainda, no HTML pode-se especificar se um bloco de texto ou palavra serve como um link para outro arquivo na internet. Nessa definição, o hipertexto se subdividiria em três gerações de sites e homepages: os indiciais (listagens de links de arquivos e programas); os icônicos (ou aqueles que se organizam em torno de um conceito e que querem ‘representar a realidade’ de um determinado púbico alvo); e, finalmente, os metafóricos (também chamados de ‘artísticos’ porque trabalham diretamente com o simbólico e utilizam recursos multimídia).

2) O hipertexto é um texto coletivo. Essa definição esteve em voga antes da internet e foi muito utilizada como ferramenta didática para elaboração de textos coletivos. O texto jornalístico, por exemplo, sobrepondo os discursos do pauteiro, do repórter e do editor, é, nessa definição, um hipertexto industrial. Como tanto pode ser um discurso escrito quanto audiovisual, costumo chamá-lo de Multitexto – em uma analogia aos termos multimídia e hipermídia.

3) O hipertexto é aquele em que o leitor interage com o discurso. Essa terceira definição para mim é a mais precisa porque abarca tanto o essencial das mudanças tecnológicas (a interatividade) como a tradição literária sob a ótica da leitura e do receptor (e não de sua produção autoral ou maquínica). De forma que o hipertexto, como estrutura aberta de múltiplo sentido, é aquele texto que beira a polissemia e permite o máximo de interpretações (2). Dessa lógica, Julio Cortazar e Ítalo Calvino são hiperescritores porque deixam aos seus leitores o direito de participação na estrutura narrativa.

A  professora Eni Orlandi (3), dentro de sua teoria geral de Análise do Discurso, propõe três categorias de discurso em relação à participação do referente entre os interlocutores de uma mensagem, deslocando a discussão do tradicional debate sobre forma/conteúdo/contexto para ressaltar o modo como os discursos são produzidos.

  • Discurso Autoritário – O emissor impõe as suas necessidades de transmissão à realidade-referente da linguagem. O discurso tende à ‘paráfrase’, ou seja, à repetição da identidade do sentido e da ordem subjacente à sua transmissão. O resto é ‘ruído’. Esta tendência à causalidade caracteriza a linguagem como redundância.
  • Discurso Lúdico – O receptor (ou a percepção) se apropria da realidade-referente, submetendo a transmissão a fatores aleatórios e/ou às necessidades da própria linguagem. O discurso aqui tende à mudança, à polissemia e à multiplicidade do sentido. Aqui surgem as diferenças e o novo.
  • Discurso Polêmico – O sentido é construído pela reversibilidade dialógica entre os pólos interlocutores da linguagem. O discurso, neste caso, é uma ‘tensão’ entre a paráfrase e a polissemia, entre a identidade e a multiplicidade. Esta tensão caracteriza, devido ao seu efeito estruturante do sentido, à reorganização da linguagem.

Seguindo essa lógica, diríamos que o hipertexto se situa entre os discursos ‘quase-não-autoritários’, em que a ditadura do emissor na construção dos referentes é menos acentuada, e em que o lúdico e polêmico se misturam. Mas muitas outras abordagens trabalham diferenças semelhantes às da Análise do Discurso. A interpretação hermenêutica, por exemplo, chamará de ‘Ciência’ os discursos do EU na terceira pessoa; de ‘Arte’, o discursos do EU na primeira pessoa e de ‘Política’, os discursos do EU na segunda pessoa. Atualizando as idéias sobre Análise do Discurso da professora Orlandi pelas Tecnologias da Inteligência de Pierre Levy (4) poderíamos comparar o discurso autoritário ao advento da escrita e da unilateriedade da linguagem (e também do tempo histórico e do armazenamento contínuo de informações) – em que a produção do discurso segue sempre o modelo do ‘um-muitos’, como na Comunicação de Massa.

Podemos também comparar o lúdico aos discursos
míticos e cíclicos, à simultaneidade sagrada da oralidade e de suas imagens arquetípicas.  O discurso aqui é produzido no modelo do ‘um-a-um’, da ‘Dialógica Clínica’ de Sócrates e Freud. Mantida a analogia, o polêmico representaria a terceira tecnologia da inteligência, o terceiro paradigma comunicacional que encontramos. É o discurso da ‘Dialógica Ternária’ de Cremilda Medina (5),  em que o público ou o grupo media a relação entre os diversos interlocutores reversíveis: o modelo ‘muitos-muitos’ – a que se associam tanto a noção de ‘Cibercultura’ quanto o conceito de ‘Complexidade’. A diferença entre a dialógica clínica (a transferência analítica) e a dialógica comunicacional (o hipertexto) é em parte política, em parte técnica. É política porque a polêmica subentende a polis como audiência e é técnica porque é amplificada através de instrumentos e artefatos que paradigmatizam a produção do discurso dentro de determinadas características.

Mas o lúdico e o polêmico sempre lembram as preferências etárias: as crianças brincam, os adultos brigam. Durante o império da escrita, o lúdico e o polêmico se confundiram e intercalaram em vários níveis. Ressalto dois: quando os adultos brincam e quando as crianças brigam. Adultos brincam: Os jogos olímpicos foram inventados pelos gregos para evitar a guerra entre as cidades-estados. Este dispositivo permanece até hoje: o lúdico é uma sublimação do polêmico. As crianças brigam: Quem é o dono do objeto-referente? É o conflito que na brincadeira que permite aos egos aprenderem o coletivo. Mas sem os discursos autoritários, tanto o polêmico descamba para o conflito quanto o lúdico grassa à loucura e à incomunicabilidade. É por isso que o código sempre institucionalizou a nível de sua transmissão.

Hoje, no entanto, chegamos ao Hipertexto, em que os receptores (a percepção) despertam da passividade para construção interativa de um referente. E não se trata apenas de fomentar polêmicas (como fazem, por força de seus ofícios, há um bom tempo, jornalistas e educadores). Com o advento do Hipertexto, a  generalização do modelo ‘muitos-muitos’ deve, em escala ampliada, produzir uma nova forma de democracia.

Porém não se deve esperar que o Hipertexto substitua a unidirecionalidade da mídia e das instituições sociais. Aliás, é preciso estabelecer os limites (mesmo que movediços) entre comunicação e organização. Uma rede hipertextual (ou grupo de afinidade), por exemplo, comporta diferentes ferramentas interativas (sala de chats, lista de discussão, páginas web com senha de ftp em comum) e pode não produzir um Hipertexto. Em contrapartida, como vimos, um indivíduo armado apenas de papel e caneta pode ser um hiperescritor, caso seu discurso estabeleça uma narrativa aberta aos seus leitores. A organização de uma rede é feita de procedimentos e pactos; a comunicação através do Hipertexto é menos técnica/política que afetiva e depende mais do entrelaçamento amoroso das almas que da capacidade cognitiva das máquinas.

E mais: o Hipertexto nos remete à idéia de tapeçaria. Não apenas no sentido definido por Edgar Morin, isto é, de que o hipertexto é, ao mesmo tempo, mais e menos que a soma de todos seus textos/partes; mas, sobretudo, no sentido de uma trama tecida entre pessoas e coisas – através de links, referências e vínculos – em uma costura e descostura de bits e bytes que lembra o mito do Manto de Penélope. Nem perene como o suporte gráfico, nem instantâneo como o audiovisual; o Hipertexto é um constante reescrever o mesmo sentido de outras formas.

Temos uma única mensagem, mas temos que comunicá-la a cada pessoa e, a cada resposta, todas as tentativas anteriores teriam que ser reformuladas e se influenciariam reciprocamente, em um eterno retorno sempre diferente.

E para entendermos melhor esse processo de ‘tecelagem sígnica’, vamos abordar a questão do hipertexto por dois caminhos, ou melhor, por uma única via de mão-dupla: ‘O Texto como um Sistema Complexo’, em que vemos melhor a questão dos níveis de interpretação, e ‘O Sistema Complexo como Texto’, em que estudamos como os próprios Sistemas Não-lineares podem ser compreendidos como parte de um sistema de produção de sentido. [FONTE]

O texto não acabou não. Continua aqui. Foi publicado por Bolshaw, em um livro chamado "Um Mapa, Uma Bússola: Hipertexto, Complexidade, Eneagrama" (2001). Se não me engano, os blogs como conhecemos hoje nem haviam nascido, ou ainda eram incipientes. Nada relacionado ao anacronismo de buscar a origem solene em algum bode expiatório.

Talvez o "blog" seja um filho de todo esse gênero de discussões sobre o hipertexto; junto a elas, tornou-se possível com o advento das linguagens "dinâmicas". Mas é realmente importante chamar a atenção não aos supostos padrinhos da criança, nem à ligeireza conceitual do texto acima. O que é realmente importante, e que condiz com as preocupações e pensamentos de Bolshaw e da época, são as próprias questões que fizeram essas linguagens nascerem. Sinto falta, hoje em dia, de discussões efetivas sobre essa ferramenta chamada "blog". Se anteriormente se discutia sobre as possibilidades mediáticas do hipertexto, e suas potencialidades de alterar a vida "concreta", atualmente pouco se fala sobre isso.

Um exemplo: alguns anos atrás, tínhamos preocupações como as de possíveis zumbis cibernéticos (criaturas deslumbradas com as possibilidades da Rede, mas que não transpassam tais possibilidades à vida "concreta", e assim "alienam" seus corpos, sem dissolver a dualidade entre o "virtual" e o "real"). Hoje o volume todo das discussões se
concentra em temas sobre eficácia, "monetização" (com e sem piada), como angariar leitores, e assim por diante.

O texto de Bolshaw parece apontar a direção: Se antes haviam perigos, hoje existem oportunidades de "aproveitar" o instrumento. De possível agente de uma espécie bem definida de "democratização" ou "produção de sentido", a prática popular do hipertexto hoje beira a reprodução de sentidos já existentes. No modelo acima, os caracteres "lúdicos" e "polêmicos" sofrem a ameaça de um despotismo do sentido. Ou ainda, a linguagem hipertextual arrisca não se tornar um hipertexto por definição. Aproveita-se uma das coisas que o hipertexto oferece de melhor – a acessibilidade – para reproduzir significações despóticas, pré-definidas.

Obviamente, tais efeitos tornaram-se bem visíveis com a popularização dos blogs. O fato de serem conhecidos como "diários de adolescentes", no início, atesta isso. Entretanto, alguns movimentos múltiplos e descentralizados de blogueiros, desde para motivos fúteis (como algumas correntes ou modismos "virais") até para questões políticas bem interessantes, mostram que ainda há todo um caráter vívido ainda não explorado.

O "blog" está hoje na cruzada dos dois caminhos: um é o da fofoca, do hobbie e da "monetização" (o domínio das significações prévias que apenas fazem do hipertexto uma extensão mais ou menos fictícia da vida real); o outro caminho é o do hipertexto por definição. Dito de modo bem amplo, da planificação das relações e da produção de sentido. Pelo menos é esse tipo de pensamento que vários e vários sites enterrados na internet ensinavam alguns anos atrás. 😉

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9 comentários sobre “Hipertexto, Complexidade, e Blogs

  1. Off-topic (pode apagar dos comentários, se quiser):
    Olá!
    Cheguei ao seu blog através de um comentário seu no blog do Inagaki.
    Estou fazendo uma pesquisa sobre os blogs brasileiros, e gostaria de ter a sua participação.
    Não é spam, não pretendo vender nenhum produto ou promoção de qualquer tipo. Comprometo-me a não publicar qualquer informação que individualize seu blog, além de um link para o mesmo, e ainda assim somente se a publicação do link for autorizada por você.
    Caso se interesse em participar, por favor entre em contato comigo através do e-mail pesquisa.blogsbrasileiros.com.br (este e-mail será cancelado assim que acabar o prazo de recebimento de respostas) ou de meu e-mail pessoal, listado no profile do comentário.
    Grato pela atenção,
    Enio

  2. Pensa quais os livros que contribuiram para mudar a tua vida ou o teu olhar como leitor e sobram uma imensidade de livros interessantes dos quais nunca mais nos lembramos. Foi assim que eu pensei nesta corrente… mas tudo é possível mesmo inventar um critério … julgo que o mais importante é inter agir …

  3. Muito bom texto, Catatau.
    Eu acredito que esses dois caminhos ainda vão se alongar bastante. Tenho a impressão de que aqueles que optaram pela porta N.2 vão se tornar a maioria.
    Abraço.

    RE: Assim esperamos, Robson!
    abração,

  4. Que a internet é uma ferramenta fantástica, não temos dúvida.
    Que pode trazer prejuízos a saúde ou a vida produtiva do usuário quando mal usada, também.
    Que pode “monetarizar” quem for experto, também.

    Neste momento, para mim, uma grande dificuldade está na quantidade de informação e em como digeri-lá. O texto que você trouxe é interessante pois tenta mostrar uma definição mais precisa de alguns termos que usamos no dia-a-dia cibernética muitas vezes sem critério. E enfoca a questão da informação e como a internet pode (e já mudou) essa relação entre escritores e leitores.

    Parece que está na hora de escrever um texto pensando nas mudanças que já ocorreram e como isso já aparece no modo como as informações são construídas.

    Beijos

    ps.: tem uma professora do departamento de letras da UEL, que está fazendo doutorado sobre Hipertexto, interessante, né? bjo

    RE: Isso mesmo. É incrível como o “discurso” sobre a net mudou nos últimos anos. De entusiastas, a alguns ‘monetizadores’. Seria muito interessante ler, ou produzir algo a respeito
    bjs,

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