11/9

Na ocasião do 11 de setembro o presidente George Bush classificou o atentado às torres gêmeas como um "ato covarde", por não oferecer "possibilidade de defesa" às vítimas.

Classificou também o atentado como um "ato de guerra". Presenciamos as consequências até hoje.

Ato covarde, sem possibilidade de defesa, e também ato de guerra. Isso faz lembrar alguns outros acontecimentos, que acarretaram até hoje consequências não muito anunciadas.

É o limite entre o que fica para a história, e o que sem incômodo algum esquecemos. E de algum modo somos cúmplices…

Em tempo: o post do ano passado sobre 11/9:

img167/5756/sunriseio2.jpgCoisas sobre 9/11:

– a mídia fará aquele estardalhaço de sempre a respeito das vítimas norte-americanas. Virá com emotividade a mil, homenagens, lançamento de filmes e eventos.

– esqueceremos tudo o que poderia se remeter a uma análise séria sobre o terrorismo: porquê ele existe? qual é sua funcionalidade? é fruto de garotos maus e alienados, ou sintoma de algo maior, e não admitido?

– esqueceremos toda a ilegitimidade das invasões do Afeganistão (caso hoje comprovado como um tremendo sacrifício de bode espiatório) e do Iraque (um comprovado engodo…)

– veremos, reviveremos, e relembraremos o 9/11. Em contrapartida, tal visão, vivência e rememoração, é diretamente proporcional a acontecimentos não menos importantes, que não são mostrados pelas mídias maiores, todos os dias. Pois alguém duvida que há um 9/11 a cada dia, em terras desconhecidas, nas quais não há cobertura alguma pela mídia, nem interesse algum para que ocorram?

Talvez livros como o de Robert Fisk e Lawrence Wright, como vários outros, possam auxiliar em nossa ausência de compreensão sobre o 11/9…

tags: terrorismo terrorism 11/9 9/11 books livros
 

Em que mundo o Catatau vive

Em um trackback sobre esse post, um leitor escreveu algo como "minha nossa, em que mundo esse cara vive?", contestando uma posição minha que por sua vez contestaria as políticas norte-americanas. Pois bem, é interessante, nisso tudo, responder em que mundo o Catatau vive.

Em primeiro lugar, é o mesmo mundo em que 6 anos atrás ocorreu esse atentado. Depois disso, segundo razões obscuras e falaciosas, um século de história foi esquecido, e uma série de analogias foram consolidadas: todos os muçulmanos são terroristas, radicais, e afins; e os EUA foram ao Afeganistão e ao Iraque com a justificativa moral de "libertá-los".

Ora, aprendi já há alguns anos que o que a TV mostra não implica, diretamente e sem mediações, o que é a realidade. Então o mundo em que vivo é um mundo onde certos espectadores confundem muito educação com instrução. Esse tipo pensa que o que vê na TV é instrução, ou em outras palavras, algo que apenas se assimila, sem crítica alguma. Graças a Deus, consigo discriminar que a posição de alguém que acompanha informações não deve ser a do instruído, mas a do educando. Gosto de assistir o Jornal Nacional e o Boris Casoy tanto quanto ler a AlJazeera. Não importa o que dizem, o que importa é que é necessário formarmos um juízo a partir do que todos dizem, e não apenas escolher uma opinião como a óbvia e real. Opinião é doxa, não sophós.

Pois bem: esse mundo é um mundo no qual os muçulmanos são todos radicais e terroristas. Ora, esse tipo de posição já se faz de saída preconceituosa. Baseia-se em quê? É uma ofensa às mínimas inteligências dizer que isso é generalização. É óbvio. E mais, não é apenas delimitando o outro como "radical" que nos convencemos de nossa própria ausência de radicalidade. Em primeiro lugar, não assumo a posição que aponta o dedo e diz "esse é radical"; em segundo, penso que quem faz isso incorre, nas atuais circunstâncias, em ocupar a posição de "radical" diametralmente oposta.

Obviamente, não se trata de dizer que os terroristas estão certos, isso é um absurdo. Mas para compreendermos o terrorismo, não basta imputarmos tais atos como apenas a personificação de um "mal". Terroristas não são apenas bad guys desocupados que decidem estourar o próprio corpo. Há algo mais aí, não esclarecido. Deveríamos nos perguntar por pelo menos um século de história, pela formação do Estado de Israel, pelas culturas milenares que por lá habitavam, pelo petróleo, e enfim, por todo um jogo sócio-político que não se reduz à divisão tosca entre mocinhos e bandidos. Se vivemos em um mundo globalizado, é nítido que o terrorismo é um sintoma de algo maior. Bin Laden não é um vilão todo-poderoso que lança raios de uma montanha do Paquistão. É apenas um nó em uma rede, um elemento em um sistema que deveria ser deslindado, e que não se resume apenas ao papel nem dos terroristas, nem dos Estados árabes.

Ainda, a justificativa moral dos EUA para invadir os dois países é falaciosa por si só: não era o primeiro motivo justificar a invasão por tais países financiarem o terrorismo? Isso nada tinha a ver nem com mulheres usando burca, nem com ditaduras que já foram financiadas pelos próprios EUA. Mas, desde que existe soberania, não é tão fácil invadir um país por tais motivos. Para isso, torna-se necessário empregar mais uma generalização: que "todo" o país é terrorista. Como tal operação é impossível, partiram para as armas de destruição em massa, e o resultado até hoje sabemos…

O mundo em que o Catatau vive é, portanto, um mundo em que abundam certas razões de conflito, e faltam outras. Ocorre toda uma economia de visibilidade difícil de deslindar. O problema é que muitos "leitores" compram essa economia de visibilidade como fato: acreditam ingenuamente naquilo que vêem diante dos olhos, sem contestar.

Finalmente, esse mundo se configura de um modo engraçado: ao mesmo tempo em que é "globalizado", percebemos que o valor dado às palavras individuais é pouco mais do que nada. O valor exacerba
do a nós, indivíduos, convive com a total ausência de voz de nós mesmos. Somos indivíduos. Mas o pensar individual hoje em dia não serve para nada. Dá-lhe instrução. Felizmente, ainda possuímos todos razão, e podemos suspender nosso juízo para problematizar aquilo mesmo que somos…

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2 comentários sobre “11/9

  1. Sobre o tema, recomendo o Filme “Mera Coincidência” (Wag The Dog), que apesar de excelente, não é muito conhecido.
    Qualquer semelhança com a realidade…

    1 Quebra Costelas!

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