Tropa de Elite, osso duro de roer

img146/4218/posterod6.jpgO atual affair dos supostos livros didáticos "bolcheviques" brasileiros (que "manipulariam" a "alma" de "nossas crianças"), deixou mais uma vez escancarada uma idéia um tanto trivial: de que certas figuras do jornalismo brasileiro são no mínimo precipitadas para julgar o que julgam; que o rigor do julgamento não corresponde ao rigor da apuração dos dados; e que enfim, nada mais fazem do que apoiar sua suposta competência nas posições que ocupam. Escrever com mínimo rigor, que é bom…
 
Tropa de Elite não passou desapercebido por alguns desses pseudo jornalistas, intelectuais, blogueiros e "filósofos" (muitas aspas!). Não passou desapercebido, mas segundo o princípio exposto acima: muitos foram enfáticos em criticar negativamente aquilo que nem chegaram a ver.
 
Afora a violência exacerbada, e toda a montagem que se assemelha muito a filmes "da moda", Tropa de Elite tem uma série de boas idéias desenvolvidas. Se o crítico não conceder que o enredo é bom, não há como negar que o filme é bom nas entrelinhas. Por mais que o espectador possa em alguns momentos recair nos velhos hábitos de enxergar mocinhos e bandidos, o filme escancara aquilo mesmo que ocorre: uma guerra de fato, numa sociedade civil de direito; a "merda com chip´s" (a melhor expressão de Arnaldo Jabor, em toda uma carreira de duvidosas expressões) convivendo em um mesmo regime de relações com "nós, da classe média e média alta" (portanto, "nossos" modos de vida são flagrantemente comprometidos com esses outros, desprivilegiados); a corrupção generalizada e sua tênue fronteira com o "jeitinho brasileiro"; e a crônica confusão entre as esferas pública e privada.
 

Um dos primeiros sinais é dado na aula de sociologia, em que Matias fica sempre no meio-termo: naquele momento, não consegue ser nem um daqueles alunos "burgueses", nem o policial que projeta como ideal. E o elemento onde os personagens "jogam" é muito interessante: uma palestra sobre Michel Foucault. A começar pela maneira como a cena faz o espectador ver toda uma série de filósofos "da moda" (portanto, incompreendidos e pastichados). Eles é que abrirão toda a hipocrisia. Em torno de um trabalho que apresenta Michel Foucault segundo um tom bem grosseiro de hipótese repressiva (o Estado reprime e desenvolve vários mecanismos de repressão; um deles é a polícia, o que se segue a discussão sobre o papel abusivo dos policiais), os próprios personagens cumprem os papéis daquilo mesmo que apresentam. Segundo Foucault, o "poder" não é uma espécie de mecanismo centralizado no Estado, cujas máquinas ideológicas repressivas serviriam para a boa conduta das pessoas. A aposta é maior: durante os séculos XVIII e XIX apareceram toda uma série de "disciplinas" alheias ao poder "soberano"; tais disciplinas fazem circular "dispositivos" de saber e de poder; ainda, o "poder" é produtivo e positivo, não impede que a subjetividade seja "livre", mas produz sujeitos (em linhas gerais, tanto "livres" quanto "assujeitados"). 
 
Mas a palestra – conservando o tom de "repressão" – faz ver outra coisa. Toda a sequência do filme é o pastiche do curso de direito e da palestra proferida. O estudante descolado que fuma maconha e estuda Foucault coloca-se contra o policial que vive do abuso. Mas nenhum dos elementos consegue se desvinciliar de valores essencialmente conflitantes. Diante desses varios elementos, o espectador não desenvolve um critério de interpretação decisivo. O estudante sobe o morro para cuidar da ONG, encarregada de emancipar a comunidade; mas a ONG só realiza seu trabalho "social" à mercê do controle dos próprios traficantes. Cava um buraco para preencher outro. O limiar entre a assistência social, um verdadeiro trabalho social, a corrupção e a cumplicidade com o crime é continuamente desfeito. Do mesmo modo, a confusão se reflete no policial, entre o curso de direito, a conivência com pequenas contravenções, o "ideal" de policial, as torturas, e finalmente a vida privada.
 
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Entre o sujeito social e o sujeito de direito, portanto, aparece um abismo escancarado, que toda a palestra e a sequência do filme fazem entrever. Diante disso, o panorama fica curioso: de um lado, manter a perspectiva do poder "repressivo" é insuficiente, permanece ainda o elemento da mistura dos valores (além da incompreensão da obra de Foucault). Do mesmo modo, diante das perspectivas abertas pela palestra, o socius brasileiro apresenta certos elementos cuja análise ainda está por ser feita, mas que são essencialmente positivos e produtivos.
 
Um desses elementos mostrados no filme é o "sistema", aquele mesmo que permite a negociação dos favores em troca de propina. Não é nem inteiramente público, nem inteiramente privado. Mas transita entre as duas esferas, criando diversos efeitos. Ele cria um complexo jogo de mecanismos que resultam ao mesmo tempo em uma aparência de segurança pública, e em ganhos privados. O policial que recebe pouco agencia mecanismos ilícitos para garantir aquilo mesmo que a esfera pública não lhe proporciona; no mesmo movimento, os problemas da alta criminalidade e segurança pública precária são de certo modo "resolvidos" com a propina paga. Resultado: o "sistema" não é repressivo, mas produtivo. Dá conta da própria relação conflituosa entre as esferas pública e privada.
 
Ainda, mantendo-nos no que se segue à palestra, o "sistema" tem outros efeitos, diante das questões do "saber" e do "poder". Visíveis pelo descaso dos policiais com os relatórios, padrões estatísticos, e normas regulamentares. Praticamente tudo é negociado, desde os relatórios de ocorrência, até as análises estatísticas sobre criminalidade, passando ainda pelas deliberações de férias e a manutenção dos carros. Tanto o decreto jurídico, quanto a análise "científica", obedecem ao sistema. Este se torna uma espécie de dispositivo suplementar e quimérico, diante da Lei e da apuração dos acontecimentos.
 
Resta ainda o BOPE e a "guerra". Cria-se o BOPE (pelo menos conforme o filme) de forma a impedir as ambiguidades mesmas da pol
cia e do setor "civil". A formação do recruta segue princípios rígidos que serviriam em tese aos fins públicos. Mas o BOPE apenas atua em uma realidade já confusa, criando no filme também toda uma série de mecanismos ilícitos para que sua ação (legal) seja legitimada. No fim das contas, a unidade de elite é o agente do filme que escancara todos os valores, por via da "guerra". Sua existência é uma espécie de evidência nua de que todos os mecanismos descritos acima são apenas a fachada de uma segurança que não existe, para indivíduos que não são cidadãos.
 
Quanto ao papel do espectador, Tropa de Elite é como Estamira: não há como assistir o filme e não se sentir de certo modo cúmplice de toda a dinâmica apresentada. Alguns elementos do filme podem ser exagerados para alguns críticos. Mas não deixam de enunciar várias boas questões.
 
*** 
 
– O Segurança Pública escreveu um post interessante, apresentando tanto link para baixar Tropa de Elite (download em formato .avi), quanto o livro Elite da Tropa. O filme teria algumas relações entrecruzadas com esse livro. 
 
– Entrevista com o cineasta José Padilha, e depoimento de um sargento da polícia sobre o filme 
 
Artigo de Wagner Moura, sobre o capitão Nascimento ser tratado como ‘herói’. 
 
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10 comentários sobre “Tropa de Elite, osso duro de roer

  1. O filme retrata muito bem a realidade. O que não acho interessante é a banalização da violência, tratada de forma conivente. O filme cria um herói, Cap Nascimento, não sei se intencionalmente (segundo o diretor, não), que combate o crime praticando crimes. Esta não seria a sociedade ideal.

  2. Grande Catatau, li o livro e o discuti com os alunos — mistura narrativa jornalística e antropologia política da violência. Gostei. Os alunos já piratearam o filme e adoraram. Ofereceram-me uma cópia, mas quero vê-lo na telona. Tirei cópia da tua resenha (muito boa) para os alunos lerem e opinarem. Bora ver o que acham (claro, explicarei um pouco de Foucault e outras coisitas mais, porque ainda são verdes)…

    RE: Que jóia Artur! Depois conta como foi!
    abração,

  3. Assisti o filme “Tropa de elite” por influência maligna da capa da edição de 17 de outubro da revista Veja. Gostando ou não (deixando bem claro a meu asco por isso), a revista consegue atrair a atenção por suas capas. O comentário abaixo da foto de um soldado bem resume a opinião parcial e irresponsável da matéria sobre o filme: “Tropa de elite é o maior sucesso do cinema porque trata bandido como bandido e mostra usuários de drogas como sócios dos traficantes” (sic).

    Estou longe de defender a criminalidade e não apoio a convivência “harmoniosa”, cuja origem é o medo, entre traficantes e moradores de favelas. Creio que a polícia deve ser mais bem treinada na repressão ao crime e que ela defenda quem não é bandido. Mas só isso. Além disso, cogitar que o BOPE, que é uma divisão da PM) seria a panacéia para o problema do tráfico é burrice. Mas é o que a Veja sustenta ao ufanar o filme.

    Para começar, a Veja transforma uma matéria que deveria ser plena em isenção numa salada que mistura relatos dubitáveis, opiniões autorais inseridas no meio dos parágrafos e pesquisa de opinião sem mencionar data, número de pesquisados, local da pesquisa, etc. Apelam para a passividade do leitor medíocre que não distingue texto jornalístico das matérias obscuras e equivocadas da revista.

    Em um dado momento do filme, um rapaz está deitado na cama, o BOPE invade sua casa na favela à procura de um chefe do tráfico do morro. Então, o capitão Nascimento pede educadamente permissão para executar uma revista na casa do rapaz. Após encontrar um par de tênis dentro de uma gaveta que, segundo um oficial do BOPE, era “mais caro que o meu soldo” (sic), o garoto é levado para fora de casa e submetido à tortura até que entregasse onde estaria escondido o chefe do tráfico de drogas. Tudo isso sem evidenciar ao espectador se o rapaz era ou não bandido, se era ou não ligado ao tráfico. Em outra cena, a mulher do traficante também é torturada e humilhada até que revelasse o esconderijo do marido. Na última cena do filme o traficante é morto com um tiro de calibre 12 no rosto, após ser rendido e imobilizado pelos policiais. Resumindo: ao invés de levar o bandido preso, os PM’s o executam por vingança.

    Tudo isso poderia ser os ingredientes de um filme que retratasse uma história verídica, ocorrida realmente nos morros e que apimentada e romantizada renderiam um bom filme e boa biilheteria. Mas tudo é ficção. É uma boa história, mas se encerra por aí o que propõe o filme.

    O filme é violento e a Veja quer influenciar a opinião dos leitores de que a tortura é natural e justicável, para “mitigar os criminosos”. Legitima a tortura como válvula de escape para o estresse dos policiais. Nos relembra aquele discurso de Ratinho (nos velhos tempos de cacetete batendo no balcão), de Datena e de outros programas que adoram esfolar qualquer pessoa suspeita de qualquer delito. Mesmo sem provas.

    Só para finalizar: num raciocínio de que a violência se justifica, declara a tortura como meio para atingir os fins e ainda rotula os contrários ao filme de “esquerdopatas”, a revista Veja e seus realizadores provam o tamanho de sua incompetência editorial e que querem avessar as idéias, que os “playboys” não pertencem à direita, é elitista a idéia de que a Justiça existe e deve ser cumprida e que a esquerda que tanto apedrejam é quem dita as regras.

    Falando honestamente: prefiro o Jornal Nacional.

  4. Bah, achei muito engraçado aquela parte da faculdade, em que a guria diz: “vamos fazer Foucault!”, “eu quero fazer Foucault!”. E nenhum colega puxou-a pelos cabelos e disse: “VEM CÁ, SAFADA, BORA FAZER UM FOUCAULT!”

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