Ahmadinejad nos EUA

 Como sabemos, o presidente iraniano Ahmed Ahmadinejad visita os EUA, para a Assembléia Geral da ONU. Ele foi inclusive convidado para falar na Universidade de Columbia.

 
Obviamente, Ahmadinejad foi para os EUA por motivos políticos. Entretanto,  pouco da cobertura se referia a isso. Em sua maioria, as notícias foram uma espécie de protesto contra a presença do presidente iraniano por lá. Inclusive sua ida a Columbia rendeu algumas ofensas diretas vindas de dirigentes, do tipo "você exibe todas as características de um ditador cruel e mesquinho".
 
Os temas gerais da cobertura sobre sua presença foram colocados em sentido moral: como dar voz a um líder que não admitiria a existência do Holocausto, seria contra homossexuais, financiaria o terrorismo, discriminaria as mulheres, e ainda gostaria de visitar o marco zero do WTC? Só poderia ser uma "farsa" deixá-lo fazer isso, como disse Condoleeza Rice.
 

Não se trata de dizer que o presidente do Irã é ou não flor que se cheire. O buraco está mais embaixo. Mas não seria simplificar ao limite da má fé sua visita aos EUA, reduzindo toda a cobertura a seu papel moral, e não político? Ora, Ahmadinejad de fato está cumprindo algum papel. Mas esse papel não é apresentado à opinião pública. Reduz-se tudo às questões morais. Por pior que o presidente possa ser, não se pode ignorar que, se o Irã representa uma oposição nítida aos EUA – essas são as informações que nos chegam todos os dias pelas fontes dos próprios yankes-, há certos propósitos na estadia de Ahmadinejad que deveriam ser bem elucidados.
 
Sem juízos maiores, não é difícil constatar que o significado de sua vinda foi de certo modo deslocado, como se a visita não tivesse sentido, ou Ahmadinejad fosse lá apenas para ser enxovalhado. Como nossas próprias fontes de informação já mostram, o futuro tem cheiro de guerra. Mas atentemos bem a esses argumentos vindos de nossas fontes: não eram as justificativas dadas à opinião pública para invadir o Iraque e o Afeganistão também morais, ocultando na verdade motivos políticos e econômicos?
 
Novamente: não se trata de defender o presidente do Irã. Mas que sua ida aos EUA foi mal explicada, isso foi. O que também faz pensar: se uma intervenção se justificasse apenas por motivos morais, a África não teria mais problemas.
 
***
 
É muito interessante assistir ao debate na Universidade de Columbia. Simplificações e estereotipias de ambos os lados.
 
De um lado, o presidente da universidade demandava respostas unívocas, do tipo "você defende a extinção do Estado de Israel? Sim ou não?". Ahmadinejad respondia em diversos momentos contornando a questão.
 
Por exemplo, ao ser demandado sobre sua posição de que o Holocausto não teria existido, Ahmadinejad empregou argumentos bem simplistas, sobre a relatividade do conhecimento e a impossibilidade de descobrir verdades absolutas. Argumento ingênuo, especialmente sabendo que Ahmadinejad teve declarações desse tipo logo após o caso das caricaturas de Maomé. A resposta sobre o Holocausto aparecia como uma espécie de contra-ironia, buscando devolver a ofensa da exposição do Profeta. Não havia nenhum motivo "histórico" ou "científico" para a acusação de Ahmadinejad, apenas o affair das caricaturas. Mas pelo que ele disse, parece que acredita mesmo nisso… Obviamente, Lee Bolinger treplicou se os dados históricos sobre o Holocausto não seriam bem concretos.
 
Sobre a questão do homossexualismo, novamente desencontro. "No Irã, não temos homossexuais como em seu país", declaração que se seguiu de vaias e risadas. Ora, isso não descarta nem que homossexuais sejam de fato violentamente discriminados no Irã, e nem que o estatuto da homossexualidade por lá seja diferente dos países ocidentais.
 
A impressão que fica é de um desentendimento generalizado, que simplifica questões bem complexas, e nos encaminha, como sempre, para acontecimentos ruins. Isso é típico em História, não? 
 
***
 
Sobre o homossexualismo no Irã, esse post do Pedro Doria é muito bom. Sobre ditaduras, o MacLeans publicou uma capa bem sugestiva. Sobre o Holocausto, o informe sobre essa novela iraniana é muito interessante.
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5 comentários sobre “Ahmadinejad nos EUA

  1. catatau,

    Excelente post! Na verdade, dá-se destaque às questões morais ou comportamentais, que contemplam os esquemas mentais das pessoas.

    Cada vez mais fico surpresa, depois da queda do muro, em observar como as pessoas abdicam da análise dos fatos, refugiando-se quase sempre nos velhos esquemas mentais, tanto à esquerda, como à direita.

    O que é comprovado pela citação a textos de proselitismo bem previsíveis – Olavo à direita, Emir Sader, à esquerda – cada um dos quais omitindo os dados que lhes interessam.

    É como se as pessoas abdicassem da faculdade de pensar, de usar sua experiência objetiva, o que me lembra o post sobre Tropa de Elite. Uma das coisas que me impressionou no filme, foi a descrição de como a corrupção põe a perder o operacional, inclusive. É uma descrição honesta de alguém que vive ou viveu dentro de um dos aparelhos da máquina pública.

    Mas a maioria não liga pra isso. É entediante. Na minha modesta, é justamente sobre essas descrições sobre o real é que deveriam agir as políticas públicas.

    De toda forma, parabéns por este post e pelo outro, sobre o filme! 🙂

    RE: Oi Alba,
    Poisé, ainda vemos muito essas análises passionais e individualizantes. É Bush contra Bin Laden, matando Bin Laden está tudo resolvido, julguemos o Afeganistão pelas burcas, ao mesmo tempo em que o exército está lá por outros motivos, e assim por diante. Julgamentos que não resolvem em nada: as mulheres continuam usando burca, caso matem Bin Laden o terrorismo continuará ativo (é apenas um lugar numa rede), e assim por diante.
    Lembremos o que disse aquele traficante recente que foi preso no Brasil: “podem me prender, em breve aparecerá outro em meu lugar”.
    um abraço,

  2. Olá, sou lá do Eclipse, onde vc comentou
    Achei este blog sensacional, tanto de forma quanto de conteúdo

    Desculpe querer pegar aulas grátis, mas gostei muito dessa tabela lateral onde tem links e aparecem os outros blogs, com update e tudo. Se importa de me enviar um tutorial (se tiver tempo, claro)? Muito bacana mesmo, vou linkar no Santa Bárbara e Rebouças (http://gustavodealmeida.blogspot.com )
    abraços
    Gustavo

  3. Ahmadinejad tem razão em ir aos EUA. Tem que se conhecer o inimigo de perto. ele é o “bola-da-vez” dos EUA. O que ele fala de Isaral, não tiro a razão. Se o problema dos Judeus era na Europa, porque “criar” um estado judaico no oriente? O que a ONU fez foi tirar da europa ium problema e cria-lo em outro lugar, com apoio dos EUA e com um armamento superior que existia na região. Porque não criaram um estado judaico na Europa?

    RE: Não sei se ele tem razão ou não, Henrique. Não se trata – é minha opinião – de avaliar quem tem maiores ou menores razões. Isso é o que se faz para legitimar as guerras. Penso que seja mais importante não ver quem ter razão, mas apurar as razões efetivas pelas quais cada posição faz o que faz, e se suas tomadas de posição correspondem ao que vemos diariamente. Depois disso tudo é que teríamos condição de julgar as razões. Enfim, devemos ler sempre, apurar sempre as razões, confrontar várias fontes mediáticas… O que lhe parece?
    Abração,

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