Personal Friend

Agora inventaram o Personal Friend:

Seus amigos não te ouvem? Está se sentindo só? Não tem companhia para dar uma volta no shopping? Seus problemas acabaram! Depois do personal trainer e do personal stylist, um novo profissional batizado com o modismo do prefixo em inglês chega ao mercado para atender aos solitários de plantão: o amigo de aluguel.

O personal friend (ou amigo pessoal), criação do empresário carioca Silvério Veloso, de 42 anos, surgiu em novembro do ano passado. A um preço que restringe a clientela a membros das classes média e média alta – R$ 300 por sessão, com duração de 50 minutos – ele já conta com cerca de 20 "amigos" fiéis.

– É como se eles estivessem comprando mesmo um amigo. A gente conversa sobre tudo. A pessoa fala o que quiser, é um amigo de confiança que ela tem ali, mas é tudo profissional – explica Silvério, graduado em educação física, com mestrado em gestão de negócios e especialização em empreendedorismo comportamental.

Escritório itinerante: O personal friend faz questão de enfatizar que não entra no ramo da psicologia. Seu diferencial seria o fato de ir aonde o cliente está. Sem escritório fixo, Silvério realiza as sessões em shoppings, restaurantes ou numa caminhada no calçadão

Espera aí: psicólogo é amigo em consultório? Uma relação amistosa entre cliente e serviço, na qual o serviço é a própria amizade, é uma relação de amizade?

Sempre houveram vínculos de amizade entre clientes e prestadores. Mas que estatuto damos à amizade, agora que ela é o próprio conteúdo da prestação de serviços?

O que torna uma atividade interessante imaginar como será no futuro o "mercado" de amigos: currículos nas agências de emprego, entrevistas, consultorias, amigos coletivos para motivação nas empresas, organizações terceirizadas…

Como o que vai para a entrevista com o currículo de "personal friend". Senta-se na cadeira, e para dar tom de credibilidade, menciona: "Fui indicado pelo Sr. Fulano". O entrevistador dá-se conta, e pensa: espere aí, se Fulano me indicou um personal friend, não deve ser meu amigo. Quem indicaria um personal friend? emoticon

***

Uma descrição da função (no título, "Homem- hetero, personal friend"):

Ser Amigo Profissional, de forma Ética e Moral, acompanhando pessoas individuais, família, ou grupos de negócios, nas mais variadas situações, desde uma simples caminhada nos shoppings ou parques, a passeios por outras cidades ou eventos comerciais, de forma descontraída, ouvinte e motivadora, através de uma postura séria, para que a pessoa possa sentir-se segura e confortável com privacidade e sigilo preservados.

Outra descrição ("homem hetero – personal friend (mulheres)" ):

 Você anda sem companhia para se divertir? Precisa de alguém para conversar? Sente-se sozinha? Personal Friend. Atencioso, simpático e inteligente. Qualquer dia ou horário. Roteiros personalizados. Sigilo absoluto.

Ainda, um anúncio de jornal. A coisa começa a se alastrar. Interessante também é elucidar o que significa esse "empreendedorismo comportamental".  

Anúncios

18 comentários sobre “Personal Friend

  1. Eu li sobre isso no Estadão e achei bem curioso. Parece, inclusive, que há mercado, já que existe um paulista também oferecendo o serviço, ainda que a taxas menores 😦

    Há pano pra manga, imagino, para discutir o narcisismo, a solidão, essas coisas. Seria legal que alguém da área comentasse, acho.

    RE: Ali estão dois ótimos comentários e indicações, Alba: do Artur e da Neuzi 😉
    abração,

  2. Grande Catatau, estamos numa cultura onde existe o sentimento de uma inconcebível solitude interior, para utilizar a belíssima fórmula de Weber.

    Peço licença para especular: é o preço da nossa liberdade, a solidão? A individualidade moderna não precisa de guia e referências externas. O indivíduo julga o mundo por si e de si mesmo. São indivíduos, avant la lettre, que não têm destino, fazem o seu destino; que não percebem sentido no mundo, projetam seu sentido. Sua forma de estar-no-mundo passa pela exteriorização da sua interioridade.

    Talvez, o “personal friend” signifique o fracasso do indivíduo-soberano. O indivíduo está só, mas está “livre”. Fabrica projetos, procura motivações, pede comunicação. Não vai ter mais medo da culpa, pois ficará apavorado com o fracasso. Pois é… passamos da culpa para a responsabilidade. O indivíduo começa a sentir o peso da liberdade e da soberania da individualidade.

    Não causa surpresa que a doença do espírito nesse início de milênio não seja uma baseada no conflito. Através do conflito, o indivíduo era/é capaz de manter uma separação entre o que é possível e o que é permitido. Separando-se de si, era/é possível encontrar uma unidade. Não a encontrando, o indivíduo podia incorporar a doença-paradigma do excesso de disciplina: a histeria, a neurose do conflito.

    Agora, não, a doença do espírito é outra: entregue a si mesmo, o indivíduo sofrerá, caso fracasse, a doença do começo do milênio: a depressão, a doença da responsabilidade individual. A busca compulsiva pela felicidade e/ou a busca solitária pela realização pessoal podem ser sintomas de liberdade, mas têm um preço alto a pagar: o fracasso. A depressão, nesse sentido, é sintoma de fracasso, de déficit, de ausência, de perda da iniciativa, do malogro da responsabilidade, da tragédia da insuficiência, da história de uma individuação impossível…

    Solitários. Até a amizade escafedeu-se nesse mundo velho e enfadado. Somos um poço de frescuras (hehe…), por isso precisamos de “personal friend”!

    RE: Oi Artur,
    Excelente comentário! Especialmente na questão da exteriorização da individualidade, e da depressão como mal dessa época. Interessante a constatar que essa ‘individualidade’ exteriorizada é a privada, a dos desejos, da personalidade e da história individual. Ora, basta citar Freud para vermos como projetos de tal espécie “egoísta” são destinados ao fracasso. As pessoas deixam de lado uma relação de pessoa a pessoa, para subsumir o mundo ao desejo privado… aí todo projeto só pode dar errado, pois de saída é um projeto ilusório.
    Quanto à depressão, vem a reforçar esse aspecto, da individualidade privada projetada no mundo. Mas tem outras coisas aí, precisamente a de como o homem não se separa mais do que faz…
    abração,

  3. No volume 6 daqueles cadernos Saúdeloucura (maravilhosos), tem um artigo chamado Cidades da Falta (não lembro quem é o autor e estou sem ele aqui no momento), que já fala da existência desses serviços em Tóquio. Não só amigos, mas filhos netos, avós, pais, enfim, para que pensar sobre o vazio dos lares se é bem mais prático preenchê-los com afetos artificiais, eficazes e lucrativos… e aceita devolução, você nem precisa conviver mais com a alteridade, basta saber olhar os catálogos e encomendar um parente o mais próximo possível do seu ideal familiar.

  4. A descrição no primeiro anuncio parece mais o de um “guia turistico” ou de “promotor de passeios” ou algo que o valha. Longe de um amigo.

    O segundo… bem, tem certeza que ele não estava na sessão de “massagistas”? rs

    Estou com o Robson: vou entrar para o ramo. O que eles estão chamando de amizade, ou seja, contatos sociais superficiais, são a minha especialidade. Eu quero é ver um desses conseguir fazer com que a pessoa se sinta realmente acolhida, segura, intima.

    Algo assim:

    “… começou a falar sobre amizade. De como a amizade poderia atravessar as décadas e como ele poderia encontrar um amigo que fazia trinta anos que não encontrava e mesmo assim começar uma conversa como se ela tivesse sido interrompida ontem. Pois esse é o princípio básico da amizade. Amigos não fazem cobranças. Amigos não se perdem com o tempo. Amigos que se conquistam não são derrubados pela insegurança do tempo, pela maledicência alheia, pela mesquinhez do dinheiro e a estupidez dos escravos do trabalho. A amizade é um sentimento puro. A amizade, essa bendita palavra derivada de amor, mas muito mais importante que o amor, pois este pode ser egoísta ou possessivo, é o sentimento que nos torna livres para sermos nós mesmos. E quanto mais uma pessoa exerce a sua própria individualidade, a sua personalidade se expandindo nas almas alheias, a sua vivência e sua dedicação, não ao convívio besta da sociedade babaca, mas sim, ao que ela realmente acredita e que é a essência do seu ser, mais essa pessoa conquista o bem maior que levamos da vida. Os amigos.” Marcelo Benvenutti – trecho do conto O Funeral

    E sobre terapeuta ser amigo em consultório dois pontos:
    1. Terapeuta não é amigo. Apesar de a terapia compartilhar de características da amizade, ela é uma relação onde um profissional capacitado busca formas de trabalhar certos aspectos da vida do cliente com os quais ele não está conseguindo lidar sozinho. (eu sei que você sabe disse, mas nunca é tarde lembrar… e lógico que está é uma “definição” bem tortinha… rs).
    2. Não necessariamente o trabalho do terateuta tem de acontecer no consultório ou em outro espaço institucionalizado. Foi lançado a pouco um livro sobre o trabalho do Acompanhante Terapeutico (AT), não tive acesso a ele ainda, mas conheço o sistema de trabalho e é interessante.
    Sobre o livro:
    http://www3.ufpa.br/scphubfs/images/sum%C1rio.pdf

    Beijos

    RE: Questo. No fim das contas, vc mostra que uma amizade profissional onde o conteúdo da ‘profissão’ é a própria amizade só pode ser uma contradição.
    E outra, boas chamadas de atenção quanto às diferenças, e ainda mais mencionando o AT!
    bjs,

  5. gostaria de saber onde tem cursos para formar o Persinal Friends em São Paulo, envie-me informações de escolas e pessoas Idôneas e Dentro da Lei.

  6. Na minha visão é uma pessoa digna de pena aquela que se sujeita a esse tipo de “serviço”.
    Que graça tem conversar com uma pessoa, ser motivada por ela e saber que quando você realmente precisar de um amigo você não o terá?

    Fala sério esse tipo de convivência pra mim não dá.

    Ridículo isso, tanto quem faz o “serviço”, como quem procura.

  7. e o melhor de tudo… vc nao precisa pagar uma faculdade por anos e anos e ainda ganha seus 300tinhos por hora… fala serio!!! isso é o CÚMULO do mundo moderno… será que, devido a internet, as pessoas estao perdendo a capacidade de bater um bom papo com algm e fazer novos amigos.. de “graça” e ao vivo?!

    que MEDO mesmo…

  8. Vocês são conservadores, caretas, aceitem as mudanças, mudem os paradigmas, qual o problema de se pagar para se ter alguém para conversar, sair, cinema, teatro, etc.. vc não paga para sua esposa, seus filhos, etc… tudo isso é fruto do capitalismo, viva o capital, viva o capital friend !! Mais empregos para os brasileiros !!

    RE: Olha meu “amigo”, recomendo que você leia o texto acima, e alguns dos comentários, com mais atenção. Ali existem alguns apontamentos e referências sobre em que medida a relação autêntica não é “fruto do capitalismo”, e qual é o caráter negativo disso.

  9. Olá!
    Aposto que sou melhor Personal Friends que o paulista e cobro um valor bem inferior ao dele – faço isso por hobby, pois me mudei há pouco (atualmente moro em Porto Alegre/RS) e também não tinha amigos por aqui. Além disso tenho formação em Ciências Sociais e Relações Públicas e mestrado em Comunicação, além de um imenso interesse por Psicologia. Isso me dá subsídios para manter a afirmação acima.
    Para quem leu até aqui e achou isso um absurdo, informo-lhe que a necessidade desse tipo de profissional se dá especialmente por existirem tantos “amigos da onça” ou “falsos-amigos”, àqueles que se dizem amigos e faltam quando mais se necessita deles. Por exemplo, se um cliente me liga 04h da madruga não irei incomodar-me em atendê-lho e auxiliá-lo no que necessita, diferente de um amigo, que pode chatear-se com tal atitude e deixar aquele que necessita de auxílio pior que antes. As pessoas necessitam ser ouvidas, auxiliadas, animadas, levadas a crer em seus próprios potenciais, o que um dito “amigo” pode não estar interessado em fazer.
    Pelo menos, junto ao profissional você tem a certeza que não terá que lidar com mais uma frustração (creio que essa seja a principal motivação de quem busca um personal friends) de ter sido deixado(o) de lado ou mesmo ser traído por um amigo. Saber a natureza e a motivaão da relação é o que leva alguém a buscar a dita “amizade de aluguel”. Você sabe com quem, com o que você está lidando. Não será traído, enganado ou deixado de lado pois sabe a natureza da relação que se estabeleceu entre vocês.
    A ética, presteza, sigilo e comprometimento são meus códigos de conduta.
    Quando você me pergunta: há alguma ética em ser um personal friends, respondo que sim, e é a mesma seguida pela maioria dos profissionais, a citar médicos e Relações Públicas.
    Ética há e deve sempre haver, mas se ser um personal friends ou um Coach é moralmente aceito, já é outra questão. (moral e ética são conceitos diferentes – procure sabre)
    Caso você tenha mais alguma dúvida ou esteja interessado em um personal friends ou um Coach, envie-me um e-mail: personalfriendjozi@gmail.com.
    ALERTA: Não há, nem pode haver nenhuma forma de contato sexual entre o personal friends e o contratante.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s