Terra, escravidão e blogs

Escravidão existe no Brasil? Em um país como esse, em que a informalidade reina em maior ou menor nível até sobre as instituições, aí está um lugar onde a escravidão continua possível, e provável. 

O blogueiro Leonardo Sakamoto foi ameaçado de ser processado pela senadora Katia Abreu (PFL DEM-TO) a respeito de algumas insinuações de que ela apoiaria grandes proprietários de terra, e de quebra, indiretamente algumas práticas de escravidão.

Em uma entrevista com a senadora Abreu, destaco a passagem:

Nunca vi trabalho escravo no Brasil. Tem de diferenciar o que é irregularidade trabalhista e trabalho degradante, coisas erradas, da escravidão.”

Ora, o que isso quer dizer? Para além da opinião da senadora, há a evidência discursiva:  existe sim uma grande confusão entre irregularidade trabalhista e trabalho degradante. Isso para não falar da escravidão. Se a confusão já provém do nível formal "irregularidade trabalhista", o que não dizer dos trabalhos informais?

Deixando a questão acima provisoriamente em suspenso, a discussão atual é: a bancada ruralista do senado afirma ter encontrado "irregularidades" na fiscalização do trabalho escravo. A Comissão Pastoral da Terra, em contrapartida, acusa que tal procedimento do senado busca obstruir a atuação da fiscalização móvel, precisamente pelas ligações de senadores a grandes "empreendimentos" de agronegócio. O affair Sakamoto encontra seu sentido nesse contexto atual, como se vê em sua resposta.

Retornando à questão, as definições devem ser feitas: trabalhar de modo que cada vez mais o "funcionário" seja mais dependente do trabalho, recebendo menos do que gasta, e devendo cada vez mais aos "empregadores", isso é irregularidade trabalhista e trabalho degradante. Mas não deixa de ser trabalho escravo

Para quem quer tirar a dúvida, a CPT publica todo ano um relatório sobre escravidão e violência no campo, no Brasil. Obstruir a fiscalização móvel pelo argumento de que estaria cometendo excessos precisamente por denunciar, isso soa bem estranho.

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Um comentário sobre “Terra, escravidão e blogs

  1. Fui a livraria da UEL comprar um livro esta semana e lembrei-me de ti: lado a lado na prateleira de encomendas estava o livro do Dawkins e do Said… coincidências… rs

    Como não existe escravidão no Brasil? Talvez não exista mais a escravidão “explicita” ostentada pela elite e amparada pelas leis. Hoje o que vemos são fazendeiros que mantêm escravos em suas fazendas e, obviamente, escondidos da lei. Para encontrar escravidão no Brasil é preciso procura-la. E para procura-la é necessário um trabalho de fiscalização! É simples.

    Lógica da senadora: se a gente não vê é porque não existe.

    Como é que esse povo ainda ganha eleição???

    Beijos

    RE: Provavelmente a senadora acha que escravidão ainda é coisa de senzala, e que o que ela encontra são apenas ‘irregularidades trabalhistas’. Mas aí é que está o problema: o Brasil é o país do jeitinho, e entre o trabalhador sob ‘irregularidade trabalhista’, e aquele que é praticamente escravo, o limite pode ser bem tênue.
    Quanto aos livros, será que foi o mesmo comprador para os dois? (rsss)
    bjs,

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