Comandante Che Guevara

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Che Guevara morreu há 40 anos. Na conturbada metade do século XX, El Che era um personagem exemplar. Sua existência é a confluência de uma série de questões:
 

De um lado, vivia-se todo um sonho revolucionário, atestado por vários movimentos intelectuais, que acompanhavam por sua vez movimentos bem reais. Algumas décadas depois criaram a tal "desilusão" quanto à Revolução. Mas o Che, e vários movimentos a ele contemporâneos, mostravam nesses anos que as estruturas podiam descer às ruas.
 
Outros desses movimentos de inspiração marxista surgiram como horizonte teórico de manifestações nascentes nos países pobres, notadamente na América Latina. Séculos de exploração, junto a temas bem gerais sobre a revolução russa e idéias marxistas ajudaram a unir aspirações dos movimentos sociais às inspirações da Revolução.
 
No mesmo movimento, a ascenção de Stalin e o pós-guerra mostravam uma espécie de ambiguidade: despontava cada vez mais uma URSS burocrática e estagnada diante dos critérios revolucionários, que exigiam a passagem do estatismo para um controle articulado do povo.
 
Não há como abordar a "personagem" do Che sem pelo menos esses 3 eixos: unem aspirações legítimas à bandeira comunista, e por fim aos duvidosos valores da guerra fria e de um socialismo não realizado.
 
A URSS terminou, e os marxismos do início do século XX foram revistos. Desconheço um marxista que aprove o regime de Stálin, ou mesmo que não veja sem ressalvas todo o diagnóstico de Marx para o capitalismo do século XIX, quando aplicado aos dias de hoje. Nisso é interessante uma passagem de Henry Braverman, que apontava que Marx foi tão exato no diagnóstico, que anteviu até mesmo a evolução desse regime nas décadas seguintes. Outras questões, entretanto, surgiram na História.
 
Quanto às diferenças que fizeram nascer os movimentos sociais e aspirações bem legítimas, bem… Isso mantém ainda muitas cabeças sonhantes, pensantes, e atuantes. Embora não apareça no noticiário.
 
– Che no Marxists, na seleção da Caros Amigos, na música de Silvio Rodriguez, no Vermelho, e arquivos diversos.
– Che também no Pedro Doria, no Marcio Pimenta e no Idelber
– Retirei o texto mencionado (ficou muito comprido!), mas é esse:  O Socialismo e o Homem em Cuba
 
***
Algum tempo atrás assisti um documentário que mostrava a simpatia de Che pela campanha russa dos mísseis atômicos implantados na ilha, em 1962. Lendo hoje uma entrevista com Amílcar Baiardi (via Pedro Doria), surpreendeu uma declaração a respeito de posições do médico argentino contra a ortodoxia russa:
Já como acadêmico, fiz um trabalho em que tentei entender os fundamentos do pensamento econômico de Guevara. Descobri coisas curiosas. Em primeiro lugar, uma visão que ele tinha como presidente do Banco Central e ministro da Indústria de Cuba de que o atrelamento com a União Soviética não era uma coisa boa e definitiva para Cuba. Ele tinha alguns debates com Charles Bettelhein, um economista francês, e dizia que o Comecom (Conselho para Assistência Econômica Mútua), o mercado comum socialista, de algum modo dava um tratamento a Cuba que se parecia a um grupo capitalista. Os soviéticos não se guiavam nas relações de intercâmbio pela Lei do Valor. Depois, em segundo lugar, Che defendia alguma forma de mercado, alguma descentralização. Era a mesma posição do economista polonês Oscar Lange. Flexibilização, que houvesse no tecido socialista pequenas e médias empresas. O pensamento econômico deles estava muito avançado em relação à época.
 
(…) Diria que Che anteviu o que aconteceu com alguns países do ex-bloco socialista, que se transformaram em economia de mercado, viraram o que se chama de "socialismo de mercado". Ele incomodava o "mainstream" soviético, o pensamento único. Outra coisa importante que ele pregava é a idéia do "novo homem", que produziria não apenas motivado por remunerações pecuniárias. Ele achava que tinha de chegar a um estágio do socialismo para as pessoas se movimentarem pensando na sociedade.
 
***

Upideitando Endereços 

 
Atenção aos novos endereços do Marcus Pessoa, dos Perrusi, e do Apocalipse Motorizado

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5 comentários sobre “Comandante Che Guevara

  1. Não sei é trágico, mas hoje o Che virou uma marca. Adolescentes imberbes usam a imagem mas sequer sabem o seu significado. Nos bons tempos da escola técnica (1977-1980) tive a oportunidade de ler alguns livros do Che e da revolução Cubana. Tinha uma amiga que era da Libelu (Liberdade e luta) e passávamos horas discutindo estes e outros temas.
    Hoje, professor, observo os jovens completamente sem ideais, com uma rebeldia que é apenas para se fazer notar, não é para mudar nada. Dá uma tristeza danada, mas como dizia o Tadeu, citando o Pelegrino (se não me falha a memória): vocês passarão, eu passarinho.

  2. Muito pouca gente sabe a verdadeira história de Che, porque ele virou um ícone intocável. Che tinha temperamento forte e um viés autoritário imenso. Queria porque queria e não admitia nunca levar um não. Che era daqueles que piamente acreditava que os fins justificam os meios. É claro que não podemos interpretar os fatos históricos com as lentes de nossos dias, mas Che está muito longe de ser um verdadeiro humanista. As vítimas de La Cabaña sabem bem disso.

    RE: Não sei, Maia, você mencionou duas questões:

    (1) As características pessoais, ad hominem, devem ser pesadas em função da “obra”, das ações políticas e ideológicas? Vejo por exemplo o quanto é engraçada a “independência ou morte” de pijamas. É engraçada pelo próprio fato de que o gesto solene na verdade era uma piada. Já um Che grosso, fedido e autoritário, respondendo na mesma moeda a um regime que caçava e repreendia duramente os revolucionários – um Che em guerra -, imagino que seja algo mais crível, não? Não é o Che solene das camisetas, mas duvido que alguém que vê pelo menos suas fotos pense que era um almofadinha cheiroso e exclusivamente gentil para com os inimigos.

    (2) A outra idéia é a do humanismo. O humanismo é o barco cheio de ratos que todo o pensamento da segunda metade do século XX abandonou. Não porque a idéia é ruim, mas porque todo mundo, a leste ou oeste, chamava-se de “humanista”. Qual o verdadeiro humanismo? Não era o soviético. Mas também não era o norte-americano. Qual a situação do Che, no meio disso tudo? Defendo a que retratei: alguém que estava imerso em várias vertentes que, aos nossos olhos, são contraditórias. Não se separa o Che guerrilheiro do ativista. Só não vale críticas ad hominem, o guerrilheiro só o foi assim porque foi ativista, e é fácil compreender porque naquela época o mundo não se fazia apenas de hippies.

    Mais uma coisa: sobre humanismo, esquerda e direita, a posição do Catatau 😉

    abração,

  3. Gostei muito do teu texto Catatau. Completo e os links foram bastante interessantes. Sobre o leitor acima, acho que ele tem um “q” de razão. Infelizmente muitos jovens usam camisas e outros produtos da figura do Che sem conhecer o seu legado.

    Abraços!

  4. Che Guevara foi muitas coisas….mas jamais PERFEITO…GOSTAVA DO COMBATE COM ARMAS…GOSTAVA DE ESTUDAR…GOSTAVA DE SONHAR E MATOU VÁRIAS VEZES….ME APAVORAM HOMENS que haverem matado tomam gosto pela coisa…..meu conceito sobre ele diminuiu muito…mas é inesquecivel!

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