A corrente da página 161

https://i0.wp.com/img152.imageshack.us/img152/8686/150pxlionfaceddeitywd0.jpgRecebemos dos Perrusi o "meme" da página 161. Ele é mais ou menos assim:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.”

O livro que estava mais próximo no momento de receber o meme é "Os Evangelhos Perdidos", de Darrell Bock; aquele que recebemos do Batista. Trata-se de um estudo introdutório dos evangelhos apócrifos. Sobre o assunto, Jacir de Freitas tem um belo site. Bock se apoiou na "moda" do Código Da Vinci, tipo de contexto que tende a não dar muita credibilidade a escritos relacionados. Mas também não quer dizer necessariamente que deva ser por isso um mal livro. No fim das contas, é sempre a leitura ‘quem’ resolve.

Pontos negativos: o livro tem uma série de declarações em tom de "instrução", subestimando a inteligência do leitor. Apela também às vezes a analogias bem indigestas com dinâmicas das empresas. Como chamariz editorial, comete logo na capa um pecado: Trata da "verdade por trás dos textos que não entraram na Bíblia".

Pontos positivos: o autor apresenta preliminarmente o debate acadêmico no qual vive. Cita muitos autores, percorre várias hipóteses dos estudiosos, menciona versões e traduções. Enfim, não apenas apresenta, mas também problematiza (mesmo que en passant) o que apresenta.

O livro talvez sirva a um universo de interesses que é mais ou menos o seguinte: gostaria de compreender daqui a uns 30 anos (daí o interesse incipiente em Peter Brown, a Bíblia de Alonso Schökel e seu dicionário, Norman Cohn, e outras coisas) como o cristianismo nascente se diferencia tanto da cultura greco-romana e do judaísmo, constituindo no mesmo movimento uma ortodoxia, e uma série de "práticas de si" herdadas daquelas vertentes, mas ao mesmo tempo recolocadas sobre preceitos novos. Por exemplo, como o tema da "conversão", inspirado em certas práticas da filosofia pagã, se reformula como uma espécie de auto-conhecimento e auto-decifração que alinha o fiel pela Regra à condição divina; como esse tema do auto-conhecimento se distancia das correntes cristãs gnósticas; como o cristianismo continuou como um apanhado de várias práticas, desde as que se fiam na Regra até uma série de atitudes místicas e de certo modo singulares; como certas práticas "místicas" se refletem no cristianismo contemporâneo, em figuras como Thomas Merton; quais as relações entre essas práticas e perspectivas cristãs e o judaísmo da época; e como isso tudo poderia refletir em questões contemporâneas.

Não cheguei na página 161. Mas lá consta uma citação do Discurso sobre a Cruz, de Melito de Sardes. Sustentando ao mesmo tempo o aspecto humano e divino de Jesus, diz o seguinte:

 Ele sustentou cada traço que lhe pertencia numa natureza imutável: ele estava diante de Pilatos e, ao mesmo tempo, estava sentado com seu Pai; ele foi pregado no madeiro, mas era o Senhor de todas as coisas.

***

Imagem acima: Representação do demiurgo gnóstico Yaldabaoth, por Bernard de Montfaucon

Passo a bola adiante para: Eduardo Graça, Leandro, Robson, Palatando e Marcela

Op´s… Acho que reproduzi a primeira frase, e não a quinta… emoticon 

***

Pérola do Evangelho de Tomé (no contexto dos textos ortodoxos acusados de machistas, e os encontrados recentemente, "progressistas"):

Simão Pedro disse: Seja Maria afastada de nós, porque as mulheres não são dignas da vida.
Respondeu Jesus: Eis que eu a atrairei, para que ela se torne homem, de modo que também ela venha a ser um espírito vivente, semelhante a vós homens. Porque toda a mulher que se fizer homem entrará no Reino dos céus.

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2 comentários sobre “A corrente da página 161

  1. Curioso, teus interesses são bem diversificados. Cabra voraz. Essa questão que você colocou, isto é, saber como “o cristianismo nascente se diferencia tanto da cultura greco-romana e do judaísmo” é, de fato, muito interessante.

    Bem, sou diletante no assunto, mas um bom ponto de partida (pelo menos, alguns amigos especializados em “sociologia da religião” recomendaram-no) são os estudo de Weber sobre as religiões, em particular sobre o judaísmo e o cristianismo.

    Li trechos — chega a ser estonteante a capacidade de Weber em juntar e articular pesquisa factual e histórica com discussão sociológica. Certo, no fundo, Weber interessa-se pela articulação entre economia e religião, mas, nos seus estudos, ele entra dentro da discussão propriamente religiosa, produzindo quase uma “sociologia das doutrinas religiosas”.

    RE: Muito interessante Artur, nunca imaginei e nem tinha ouvido falar! Especialmente a partte sociologica parece bem interessante, ainda mais se estiver articulada com critérios teológicos, formação das primeiras comunidades, dinâmica das comunidades antigas, e coisas do gênero.
    abração,

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