Requião e a mídia paranaense

O Blogoleone publicou dois posts sobre o silêncio do governador Roberto Requião, após determinação judicial que impediu seus costumeiros programas na TV Paraná Educativa. Sobre isso, Paulo Henrique Amorim entrevistou Requião dia 21/1.

Da entrevista, destaco uma passagem:

Roberto Requião – Agora, você veja, o negócio é a Globo mesmo, Paulo.

Paulo Henrique Amorim – Por quê?

Roberto Requião – Porque todas as vezes que ele publicaram uma mentira, eu botei a mentira deles e desmenti com uma reportagem, filmes e fatos. E pus no ar na Educativa. Eles estão furiosos. Eles mentiram durante a campanha eleitoral sobre o porto de Paranaguá, sobre filas no porto, mas com filmes de oito anos atrás, do Governo que me antecedeu. Daí eu mostrei que era mentira. E sistematicamente isso tem acontecido.

Paulo Henrique Amorim – Então o senhor acha que, por elipse, o Judiciário está trabalhando para a Globo, é isso?

Roberto Requião – Não, o que eu acho é que está dando guarida aos processos da rede. E a partir do momento, o Ministério Público, quando eu mostrei o salário deles. Eles estão inconformados do povo saber quanto eles ganham… É muito ruim isso. Não é ruim para mim, Paulo. É ruim para o país.

(…) Paulo Henrique Amorim – Portanto, o senhor não pode ir para o ar fazer aquele programa que o senhor fazia?

Roberto Requião – Eu posso fazer, só que eu não posso falar no programa. Eu não posso criticar a Globo, fui expressamente proibido de criticar a imprensa e a imprensa que eu critico aqui é a Globo, por causa da desinformação, não posso criticar o Judiciário, não posso falar das instituições. Ou seja, é tão maluca a coisa que como o Governo do Estado, o Executivo é uma instituição, eu não posso criticar nem o meu Governo. Não é uma instituição da República?

Paulo Henrique Amorim – É verdade. O senhor foi amordaçado?

Roberto Requião – Amordaçado. Sou um governador sem voz. Daí eles dizem: ‘não, pode falar na iniciativa privada’. A iniciativa privada não me dá espaço. Eu há oito anos no Paraná não dou uma entrevista ao vivo numa televisão.

Requião não é flor que se cheire. É um sujeito deveras estranho. Para isso, pululam notícias sobre cenas bem estranhas do governador, como uma ocasião em que ele pergunta a uma mulher se ela traiu ou trairia o marido, ou várias outras em que seu senso de humor se comprovou bem duvidoso.

Portanto, uma coisa é o Requião privado, e outra o governador Requião, homem público. De fato, em cenas como a da mulher que trairia o marido, o governador dá com os burros n´água. Especialmente quando não se é quisto por parte da sociedade, medir as palavras pode ser uma boa tática, pelo menos para seus interesses. Concluindo, o governador Requião, homem público, às vezes comete verdadeiras gafes, com juízos – e que juízos! – privados, enquanto exerce função pública.  

Daí a determinação judicial. Afirma-se ali que houve "uso indevido da TV EDUCATIVA DO PARANÁ, para sua promoção pessoal e agressão aos desafetos do Agravado Roberto Requião".

O governador apresentava com frequência um programa demorado, reunindo personalidades da política paranaense. Cada programa durava horas, exibindo dados e mais dados das contas e política, citando notas e reportagens de jornal, convidando aliados do governo para falar. As "denúncias" contra o governo eram constantes. E a cada denúncia, lá estava o governador, à noite, com essa pesada maquinaria, que reunia ao mesmo tempo justificação, prestação de contas, e uma metralhadora giratória contra os inimigos do governo.

Curioso como um programa tão anti-popular como o de Requião resultou em uma condenação judicial. Seria muito interessante um jornalista analisar como um programa tão pesado como esse, de palestras monótonas, servia como instrumento de debate – ou combate – contra as dinâmicas reportagens de alguns jornais impressos e televisivos. Tratava-se de uma maquinaria lenta, impopular e pesada, mas que procurava a exaustão das questões, contra um jornalismo dinâmico, abreviado e difundido em todo o Estado. Cada menção breve do jornal de meio-dia recebia uma resposta demorada e exaustiva, à noite. Quanto à forma, não se pode negar que esse tipo de debate é interessantíssimo, já que envolve dois meios de debate público, um da dinâmica e brevidade dos jornalistas, e outro com falas ao microfone e copos d´água em palestras demoradas.

Para além da forma, entretanto, existe o conteúdo, e aí deveríamos perguntar sobre as relações entre o público e o privado nessas falas demoradas do governador. Em termos de discussão pública, não se pode negar que essa maquinaria pesada é uma espécie de novidade, e que de alguma forma acabou ensejando debate.

Daí haver um duplo tom, nos programas de Requião: o primeiro tom é o público, do papel público de um programa em uma TV pública que visa a prestação de contas de um governador, a partir de denúncias públicas, e segundo a visão política do próprio governador. Em termos jornalísticos, não se pode negar que um programa como esse é prato cheio tanto para inimigos, quanto para aliados. As posições do governador estão todas ali, expressas, prontas para serem avaliadas. E falando em Requião, elas são manifestamente políticas. Não é à toa que se "denunciou" muitas vezes a carga ideológica da programação da TV Educativa em seu governo. Entretanto, é curioso notar que ela é deliberadamente ideológica, manifesta-se dessa forma e busca ainda fins ideológicos. Requião é um remanescente do desenvolvimentismo com inimigos neoliberais, e faz questão de mostrar-se assim. Não é à toa que incomoda seus adversários ao mostrar-se e sustentar-se de tal modo, especialmente em uma TV estatal.

Outro tom é o privado, e aí com o Requião incisivo e lutador existe o tom agressivo, mais do que eloquente. Aqui o papel público do governador deliberadamente ideólogo se confunde com contra-denúncias e agress&otilde
;es em tom privado. Revela-se aqui outro mecanismo interessante: várias denúncias contra o governador foram falsas, como a das filas do porto de Paranaguá, que buscavam conferir tom positivo aos portos privados, enquanto os públicos – como o de Paranaguá – gerariam apenas filas e transtornos. Denúncias pretensamente desinteressadas, como essas, receberam respostas enfáticas e agressivas do governador. A cobertura "desinteressada" contra a resposta "apaixonada". Daí, em momentos de maior ou menor acerto provável, Requião ter dado a deixa para interpretações de cunho personalista.

Com tudo isso, permanece a questão: a determinação judicial que proibe as falas do governador Requião é correta? Quando atinge o tom privado, sim – Requião oferece sempre boa munição aos adversários. Mas ainda restaria encarar que a determinação não foi contra o tom privado, mas sobre fins privados que o governador obteria com a programação. Quanto aos fins, é bem claro que Requião utiliza as palestras para fins públicos e políticos, em prol de seu governo e idéias. Mas seriam estes fins privados em si mesmos, em termos de ganho pessoal privado? É pouco provável, pelo menos até que se comprove que isso efetivamente ocorre. Outro belo prato para os jornalistas, que poderia retirar a impressão de que Requião foi calado por uma espécie de medida "preventiva".

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3 comentários sobre “Requião e a mídia paranaense

  1. Eu não vejo Tv, então não tenho acompanhado muito estas discussões. Mas ao ler o jornal, fiquei muito incomodada ao saber:

    1. a justiça exigindo um pedido de desagravo que passasse de 15 em 15 mim;
    2. um governador que tira uma TV publica do ar para não passar um pedido de desagravo.

    O primeiro é absurdo. Mas o segundo é inconcebível.

    Um abraço

  2. Cara,
    sempre quando falam do requião, falam com reservas. eu não entendo.ele só não faz essa política “perfumada” que o pt faz e que leva porrada o dia inteiro. pelas declarações dele dá para saber quais são os mais novos inimigos e amigos (que muitas vezes trocam de posições). é mais sincero, mas menos “bonitinho”. sobre a programação da paraná educativa, não tenho o que reclamar. e para falar a verdade, a tv educativa é mais educativa agora do que antes. ela toca em questões que não eram tocadas e que não tem espaço em outros canais, não fica restringida à programação infantil ou programas sobre ecologia. agora debate sobre agricultura familiar, trangenicos, movimentos sociais, prestação de contas, turismo no estado, etc.
    sobre os ataques contra inimigos dele, os prejudicados que peçam direito de resposta, o processem, mas agora a justiça decidir o que o governador pode falar é um absurdo.

    abraços.

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