A hipostasia da opinião

Eis o que diz o "Simpaticíssimo Allegro", no blog do Pedro Doria:

O grande problema dos blogs brasileiros é o excesso, quando não a exclusividade, de opinião, como se isto pudesse compensar a falta de informação – e, sobretudo, de trabalho duro, de estudo, de esforço de compreensão do que acontece pelo mundo (mesmo que este mundo seja a esquina ou o boteco que o sujeito freqüenta). A hipostasia da opinião é o método torto da egolatria (eternamente) adolescente, da vaidade sem lastro, d0 exibicionismo estilo “ó-mamãe-que-lindo-eu-tenho-um-blog” (e-sei-lá-o-que-fazer-com-isto-mas-aí-é-problema-dos-outros)    

Talvez essa passagem (mantenho-me exclusivamente nela) traduza muito do que acontece nos blogs brasileiros.

Primeiramente, as discussões sobre o papel dos blogs enfatizam muito mais questões financeiras e  aspectos propositalmente publicitários (hypes, virais, memes e afins), do que sobre seu papel pleno como hipertexto.

Em segundo lugar, as discussões se deslocam muito para dicas simplórias (os posts de receitas estilo "5 passos para escovar os dentes"); ou para o papel do autor (cristalizam-se autores como autoridades, por aspectos populares que nem sempre denotam qualidade); ou a uma confusão entre acessibilidade e superficialidade da informação. Resultado: o interesse se desloca daquilo que efetivamente se escreve em blogs, e do papel dos blogs como multiplicadores de informação, em direção a querelas de audiência. O veículo democrático torna-se apenas (e o problema reside na tendência desse "apenas") entretenimento.

Finalmente, as melhores discussões batem na tecla de comparar blogs com jornais, como se o destino dos blogs devesse ser o jornalismo em moldes tradicionais. Blog é uma plataforma; jornalismo é um métier com uma série de papéis sociais definidos (rigidamente ou não).

Aí parece residir a hipostasia, ou as hipostasias, descritas pelo Allegro: instrumento (meio) considerado como fim; opinião privada alçada como saber público; lugar de referência confundido com lugar de saber.

O BibliOdyssey certa vez lançava mão de uma fórmula: "Caso pareça que sei tudo, então os espelhos estão funcionando". O que isso quer dizer? No blog do Mr. PK, quer dizer que aquilo que se convencionou chamar de "blogueiro" (aquele que opera uma plataforma de blog) é apenas um chaufeur, condutor do leitor em meio a inúmeras referências. Elas são tantas, que o leitor pode criar a ilusão de que o blogueiro "sabe" alguma coisa. Mas este é apenas um condutor. Se percorre tantas paragens não é porque sabe, mas porque compõe jogos: o dos elementos referidos, e o da relação com o leitor.

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6 comentários sobre “A hipostasia da opinião

  1. Você poderia ter contextualizado essa discussão que ocorreu no Pedro Dória para quem não foi, não quer, ou deu uma espiada e não tem saco de ler todo o texto que ele escreveu e os inúmeros comentários.
    Concordo com você quanto a essa discussão estar polarizada demais. No caso, o Doria respondeu a um texto que fazia apologia ao Blog, em oposição ao jornalismo. No fundo, o que ele descrevia era tão ruim quanto o pior jornalismo brasileiro. A discussão entre o Estadão e os Blogs surgiu num momento em que os blogs ocuparam um espaço que os jornais estavam deixando lacunas e não era o espaço da opinião. Lembram de quando houve aquele furacão que devastou New Orleans? Foram os blogs que passaram as primeiras informações, com localização de pessoas em partes isoladas etc. Os jornais comeram mosca. Acredito que foi um momento em que os blogs ressurgiram como algo mais do que um “diário público”, forma que se tornou popular por aqui no início da década (sim, já em 2001-2002). Antes disso, a moda era o fotolog e o blog tinha sido esquecido um pouco. Ressurgiu com força agora, porque suas possibilidades estão sendo melhor exploradas.
    O problema é justamente definir que possibilidades são elas – se é que isso é realmente necessário. Mas eu diria que ninguém tentou uma reflexão que fosse além dessa discussão a que você se refere.

  2. Até acho pior, Fred. Você acompanhava as discussões relativas à questão do hipertexto, e da explosão das páginas pessoais, no fim dos anos 90? Tinham um nível muito maior do que as querelas dos blogs, e isso deve dizer alguma coisa.

    Parece que atualmente foram esquecidas noções como a do hipertexto, e as discussões que conseguem ser mais bem feitas apenas repetem a tecla da relação blog x jornalismo.

    Parece também que quando surgiram as linguagens dinâmicas (PHP, ASP, etc.), as discussões abandonaram o html duro e ficaram menos… dinâmicas… O que leh parece?

    um abraço,

  3. Gostaria de ter um mapa mais representativo dos blogs brasileiros, que fosse além da audiência, e passasse mais pelo conteúdo — via links e fontes de referência, não saberia dizer… Aliás, queria uma espécie de google earth da blogosfera nacional, ficaria mais contente.
    Não sou dos mais ativos nessa história de escarafunchar a web para encontrar todo tipo de discussão. Talvez seja uma mistura de idade com preguiça, não sei. Por isso não compro nenhuma dessas análises, já que “fazer barulho”, como muitos blogs fazem, diz muito pouco sobre o que considero digno de nota. Deve ser novamente a idade que pesa… Ainda assim, li com razoável atenção tanto este quanto o teu outro texto, e não saberia o que acrescentar, para multiplicar os pontos que vc levantou e que considero pertinentes, devo acrescentar.

  4. Adriano, será que já não sabemos a resposta? Os bons blogs são os de conteúdo, sejam quais forem. O que tentei chamar a atenção é quando o conteúdo fica em segundo plano, em função de facilidades como autoridade e receitas simples, por exemplo. Cheiro de chulé e juízo estético privado alçado à universalidade. Troca-se conteúdo por outros cunhadismos, coronelismos e jeitinhos, e no fim das contas temos chances de repetir no hipertexto relações bem reais…

    Ricardo,
    Tem uma iniciativa muito legal da Paula Góes, que tenta organizar um mapa dos blogs em língua portuguesa pelo google maps. A cada dia a lista cresce, vale a pena adicionar.

    Quanto às outras questões que vc toca, até hoje não consegui definir um estilo de blogar. Acho tão legal ver outros blogs cada um com seu estilo e modo de ser… por aqui as coisas oscilam muito, pelo menos na forma. Mas sigamos, o negócio é sempre aprender enquanto seguimos sempre as boas tertúlias, rssss

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