A transição segundo o “companheiro” Fidel, o passado de Cuba, e Eduardo Galeano

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Com a eleição de Raul Castro, alguns veículos "lamentam" a ausência de "renovação" do poder cubano. Sobre isso, o primeiro texto de Fidel Castro assinado sem o "comandante" (Via BBC) já comentava sobre a "mudança":

Concordo com isso, mudança!, mas nos Estados Unidos. Há tempo que Cuba mudou e continuará seu rumo dialético. Não regressar jamais ao passado!, exclama nosso povo.

Anexação, anexação, anexação!, responde o adversário; é isso que pensa bem no fundo quando fala em mudança.

Independente do teor do regime de Castro, "El Comandante" certamente se refere à história anterior à Revolução. Sobre isso, Eduardo Galeano comenta, em As Veias Abertas da América Latina (link para download, e permita o leitor a extensa citação):

A proximidade geográfica e o surgimento do açúcar de beterraba, aparecido durante as guerras napoleônicas, nos campos da França e Alemanha, converteram os Estados Unidos em principal cliente das Antilhas. Já em 1850, os Estados Unidos dominavam a terça parte do comércio de Cuba, vendiam e compravam mais do que a Espanha, embora a ilha fosse uma colônia espanhola, e a bandeira das listras e estrelas ondulava nos mastros da metade dos navios que ali chegavam. Um viajante espanhol encontrou por volta de 1859, no interior, em remotas aldeias cubanas, máquinas de costurar fabricadas nos Estados Unidos27. As principais ruas de Havana foram calçadas com blocos de granito de Boston.

Quando despontava o século XX, se lia no Louisiana Planter: "Pouco a pouco, a ilha de Cuba vai passando para mãos de cidadãos norte-americanos, o que é o meio mais simples e seguro de conseguir a anexação aos Estados Unidos.” No Senado norte-americano, se falava já de uma nova estrela na bandeira; derrotada a Espanha, o general Leonard Wood governava a ilha. Ao mesmo tempo, passavam às mãos norte-americanas as Filipinas e Porto Rico28. “Outorgaram-nos pela guerra – dizia o presidente Mckinley incluindo Cuba -, e com a ajuda de Deus e em nome do progresso da humanidade e da civilização, é nosso dever responder a esta grande confiança.” Em 1902, Tomás Estrada Palma teve de renunciar à cidadania norte-americana que havia adotado no exílio: as tropas norte-americanas de ocupação o converteram no primeiro presidente de Cuba. Em 1960, o embaixador norte-americano em Cuba, Earl Smith, declara diante de uma subcomissão do Senado: “Até a chegada de Castro ao poder, os Estados Unidos tinham em Cuba uma influência de tal maneira irresistível que o embaixador norte-americano era a segunda personalidade do país, e às vezes ainda mais importante do que o presidente cubano.”

Quando caiu Batista, Cuba vendia quase todo seu açúcar nos Estados Unidos. Cinco anos antes, um jovem advogado havia profetizado corretamente, ante aqueles que o julgavam pelo assalto ao quartel Moncada, que a história o absolveria: havia dito em sua vibrante defesa: “Cuba continua sendo uma feitoria de matéria-prima. Exporta-se açúcar para importar caramelos…”29 Cuba comprava nos Estados Unidos não só automóveis e máquinas, produtos químicos, papel e roupa, mas também arroz e feijão, alhos e cebolas, banha, carne e algodão. Vinham sorvetes de Miami, pães de Atlanta e até jantares de luxo de Paris. O país do açúcar importava cerca da metade das frutas e verduras que consumia, embora só a terça parte de sua população ativa tivesse trabalho permanente, e a metade das terras das centrais açucareiras fossem extensões baldias onde as empresas não produziam nada30. Treze engenhos norte-americanos dispunham de mais de 47% da área açucareira total e ganhavam por volta de 180 milhões de dólares em cada safra. A riqueza do subsolo – níquel, ferro, cobre, manganês, cromo, tungstênio – formava parte das reservas estratégicas dos Estados Unidos, cujas empresas apenas exploravam os minerais de acordo com as variáveis exigências do exército e da indústria do norte. Havia em Cuba, em 1958, mais prostitutas registradas do que operários mineiros31. Um milhão e meio de cubanos sofria o desemprego total ou parcial, segundo as investigações de Seuret y Pino que cita Nuñez Jiménez.

A economia do país movia-se ao ritmo das safras. O poder de compra das exportações cubanas entre 1952 e 1956 não superava o nível de 30 anos atrás32, embora as necessidades de divisas fossem muito maiores. Nos anos 30, quando a crise consolidou a dependência da economia cubana em lugar de contribuir para rompê-la, havia-se chegado ao cúmulo de desmontar fábricas recém instaladas para vendê-las a outros países. Quando a Revolução triunfou, no primeiro dia de 1959, o desenvolvimento industrial de Cuba era muito pobre e lento, mais da metade da produção estava concentrada em Havana e as poucas fábricas com tecnologia moderna eram teledirigidas dos Estados Unidos. Um economista cubano, Regino Boti, co-autor das teses econômicas dos guerrilheiros da serra, cita o exemplo de uma filial da Nestlé que produzia leite concentrado em Bayamo: “Em caso de acidente, o técnico telefonava a Connecticut e observava que em seu setor alguma coisa não funcionava. Recebia em seguida instruções sobre as medidas a tomar e as executava mecanicamente… Se a operação falhasse, quatro horas mais tarde chegava um avião transportando uma equipe de especialistas de alta qualificação que consertavam tudo. Depois da nacionalização, já não se podia telefonar para pedir socorro e os raros técnicos que poderiam reparar os defeitos secundários haviam partido”33. O testemunho ilustra cabalmente as dificuldades que a Revolução encontrou desde que se lançou à aventura de converter a colônia em pátria.

Cuba tinha as pernas cortadas pelo estatuto da dependência e não foi fácil andar por conta própria. A metade das crianças cubanas não ia à escola em 1958, porém a ignorância era, como denunciara Fidel Castro tantas vezes, muito mais vasta e muito mais grave do que o analfabetismo. A grande campanha de 1961 mobilizou um exército de jovens voluntários para ensinar ler e escrever a todos os cubanos e os resultados assombraram o mundo: Cuba ostenta atualmente, segund
o o Escritório Internacional de Educação da UNESCO, a menor porcentagem de analfabetos é a maior porcentagem de população escolar, primária e secundária, da América Latina.

Passagem que obviamente mostra a simpatia de Galeano pelo regime de Castro. Com algumas críticas, entretanto:

Todavia, a herança maldita da ignorância não se supera da noite para o dia – nem em 20 anos. A falta de quadros técnicos eficazes, a incompetência da administração e da desorganização do aparato produtivo, o burocrático temor à imaginação criadora e à liberdade de decisão, continuam interpondo obstáculos ao desenvolvimento do socialismo.

Críticas que não o fazem desconsiderar as evoluções do novo regime, em relação ao antigo:

Mas apesar de todo o sistema de impotências, forjado pelos quatro séculos e meio de história da opressão, Cuba está renascendo, com um incessante entusiasmo: mede suas forças, alegria e desmesura, ante os obstáculos.

Galeano tem uma virtude, que boa parte das discussões populares atuais sobre Fidel Castro não alcança: o autor uruguaio considera a história cubana, e a revolução de Castro; aponta limitações; e não deixa de manifestar sua posição ideológica, diante da história que lê.

Desvia-se, portanto, dos dois lados da discussão (mesmo que, no limite, adote um): diante dos ideólogos desmedidos, apóia-se em dados históricos; e pelo contrário, diante da propaganda anti-castrista, aponta valores que, com uma inocência tão desmedida que chega a ser proposital,  não se colocam em jogo pelos opositores da revolução cubana (o contexto da Cuba pré-revolucionária; a futura relação da ilha com a URSS; a influência direta e os interesses evidentes dos EUA sobre o país, desde o afastamento dos espanhóis, durante o século XIX).

O que faz retornar à pergunta, já enunciada neste blog: as mazelas de Cuba se devem exclusivamente ao regime castrista, ou ao embargo econômico sofrido pela ilha? Que referências poderiam apontar para uma resposta conclusiva?

Continuemos com Galeano – mas com o objetivo de manter aberta a questão acima:

  Cuba proporcionaba, por vías complementarias, jugosas ganancias a la Standard Oil de Nueva Jersey. La Jersey compraba el petróleo crudo a la Creóle Petroleum, su filial en Venezuela, y lo refinaba y lo distribuía en la isla, todo a los precios que mejor le convenían para cada una de las etapas. En octubre de 1959, en plena efervescencia revolucionaria, el Departamento de Estado elevó una nota oficial a La Habana en la que expresaba su preocupación por el futuro de las inversiones norteamericanas en Cuba: ya habían comenzado los bombardeos de los aviones «piratas» procedentes del norte, y las relaciones estaban tensas. En enero de 1960, Eisenhower anunció la reducción de la cuota cubana de azúcar, y en febrero, Fidel Castro firmó un acuerdo comercial con la Unión Soviética para intercambiar azúcar por petróleo y otros productos a precios buenos para Cuba. La Jersey, la Shell y la Texaco se negaron a refinar el petróleo soviético: en julio, el gobierno cubano las intervino y las nacionalizó sin compensación alguna.

Encabezadas por la Standard Oil de Nueva Jersey, las empresas comenzaron el bloqueo. Al boicot del personal calificado se sumó el boicot de los repuestos esenciales para las maquinarias y el boicot de los fletes. El conflicto era una prueba de soberanía41, y Cuba salió airosa. Dejó de ser, al mismo tiempo, una estrella en la constelación de la bandera de los Estados Unidos y una pieza en el engranaje mundial de la Standard Oil.

O que parece sugerir: junto ao embargo, algumas limitações da administração cubana serviram para atrasar o desenvolvimento da Ilha. Mas para Galeano, percebe-se que as limitações do regime são muito menores do que a antiga submissão colonial.

Muito embora outro debate posterior, com Heiz Dieterich (criador do termo "socialismo do século XXI"), segue por outros caminhos

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