Devir-Jó (do livro de Antonio Negri)

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Ilustração do Livro de Jó, por William Blake 

Encontro sem querer um livro chamado Jó – A Força do Escravo. Pautado no livro bíblico, tamanha foi a surpresa ao ver que o autor é Toni Negri, um filósofo da "imanência".

Anteriormente, sobre o livro sagrado este blogue referenciou um ensaio, e as belas gravuras desenhadas por William Blake. Sobre Negri, referências do debate relativo a Multidão, e um pequeno artigo a respeito de Michel Hardt.

O livro de Jó tem papel central na Bíblia por ser um ponto de inflexão do judaísmo: nele, contesta-se toda a doutrina da retribuição temporal. O que ela significa? Que boa parte da crença na Aliança divina fundava-se, até então, na ação: se o fiel corresponde à Lei, é recompensado; se contraria a Aliança, é castigado, mesmo que possa recompor depois o voto relativo à divindade.    

Com Jó, ocorre algo diferente: o mais puro fiel talvez continue fiel apenas porque recebe a recompensa Divina. Mas… e se não recebesse? Assim é que Satã ("satã" significa "opositor", antes de ser denominado como a personificação do mal) lança o desafio a Deus. Se Jó não fosse tão divinamente contemplado, continuaria fiel? E mesmo que continue, quais são os limites de sua fidelidade?

Vê-se no livro toda uma série de questionamentos sobre a ação, a Lei, o Ser, o Mal, e a relação do homem com a desmedida da Divindade. Negri, que escreveu o livro enquanto estava preso na Itália, busca atualizar o significado desse conjunto de relações. Por isso o livro tem como subtítulo "A Força do Escravo". Como compor significações e um modo de se conduzir diante de um mundo que se apresenta inexoravelmente como desmedida?  

Curiosamente, o texto sobre Jó foi escrito antes de A Anomalia Selvagem. Para Negri, Jó desemboca em Espinosa – uma espécie de Espinosa atualizado, na linha das leituras de Deleuze. No horizonte das preocupações, todo um pensamento sobre a ação efetiva (mesmo em Jó o "embate" com Deus se dava no nível de um corpo, e não do discurso), que fuja dos modismos pós-modernos e da falta de perspectivas.

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2 comentários sobre “Devir-Jó (do livro de Antonio Negri)

  1. ^Vejo a história de Jó por um ângulo mais ateísta. Essa história diz a muitos fiéis que, quando tudo dá errado, é Deus as testando. Martiriza as pessoas que sofrem e as fazem ainda mais dependetes das religiões.

    RE: Olá Ewaldy!
    Não sei se para o ateu, mas para o materialista o livro tem uma preocupação:
    “… é certo que, hoje, o tema de uma filosofia materialista, e ainda mais aquele de uma crítica da economia política adequada às determinações do tempo, não pode deixar de ser a reconstrução de horizonte do valor e, portanto, a identificação dos momentos da exploração e do antagonismo através da equação da pot~encia constitutiva da luta e da sua determinação militante. É essa a hipótese que se nos interessa: um rompimento do horizonte de insignificância axiológica e de indiferença vital que seja capaz de reconstituir um mundo de valores…” (p. 37-38) 😉

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