O jornalista, entre os cartões corporativos e a menina Isabella

img81/9400/jornalistaff0.jpg
 

Deveria ser coisa de tino jornalístico: informação é sempre prato cheio. Mas os acontecimentos dos últimos tempos fazem pensar: como deve se conduzir um jornalista, diante de um conjunto de fatos? Deve olhar e privilegiar alguns, deixando outros totalmente de fora? Se toda visão é sempre comprometida, o que não dizer quando ela é manifestamente parcial?
 
Vemos aí todo um conjunto de coberturas vergonhosas sobre os cartões corporativos. Quando o "escândalo" estourou, com o afastamento da ministra da "Igualdade Racial" e os gastos da primeira dama, o debate se situava em um ponto preciso: da "direita", vinham as denúncias sobre o absurdo de um governo como o de Lula facilitar gastos públicos para necessidades básicas privadas. Da "esquerda", o elogio da transparência. Ora, se o dinheiro é público, o jornalista acerta o tino. Especialmente no governo atual, apuremos tudo.
 
Mas… talvez falte ao jornalista um senso histórico, e algumas perguntas. Como diz Robert Fisk, um jornalista deve sempre se conduzir com um livro de história "debaixo do braço". Se não faz isso, torna-se algo como um cego ou um papagaio. E a primeira pergunta, portanto, é: será que esses gastos privados com dinheiro público são exclusividade do governo Lula? E ainda, a QUEM interessa denúnciar e valorizar negativamente o governo atual, do modo preciso como se faz? Qual é o plano de pesos e medidas que permitiriam um jornalismo amplo, e não comprometido com interesses setoriais?
 
Iniciemos – "nós" jornalistas -, pois, uma investigação generalizada. A mesma motivação de escavar as informações do governo atual nos permite medir qual é a extensão de todo esse conjunto de práticas, já que qualquer brasileiro, apenas por ser brasileiro, intuitivamente já pensa que esse tipo de prática não se restringe ao governo, e nem a ESSE governo.
 
E o escândalo avança em uma segunda etapa: o suposto Dossiê organizado por Dilma Rousseff, sobre gastos do governo FHC, foi elaborado por um ato criminoso. Rousseff, desde o início, sustentou que não se tratava de um dossiê, mas de um banco de dados. O vazamento das informações é considerado crime. E a cobertura, como ficou? Os mesmos elogios à transparência, ou as críticas vorazes a que estaríamos apenas diante da ponta de um Iceberg, evaporaram. Toda a cobertura maior, agora, concentra-se não mais nos dados desse banco de dados ou dossier, mas sim em quem articulou o vazamento.
 
Não se pode negar que o esquema todo é prato cheio para o jornalista: a alguém interessou a criação de um "dossiê", ou o vazamento de informações das operações do governo anterior. E não bastasse isso, já é o segundo dossiê com as mesmas características da cobertura: não ocorreu exatamente o mesmo com o das ambulâncias? Na época, simplesmente se desconsiderou o conteúdo: toda a atenção se concentrava nos organizadores.
 
No caso atual, existe um agravante, precisamente pela atenção às informações ser manifestamente alterada: o que autoriza a cobertura a se conservar sempre contra um dos "lados" do embate? No momento de mostrar o escândalo, era tudo restrito ao governo Lula. Quando ultrapassou o governo atual, mudou o foco da atenção. O que serviria para mudar os interesses – e não ampliá-los -, tão rapidamente?
 
Para o jornalista dos grandes meios, isso é vergonhoso e comprometedor.
 
*** 
 
E o escândalo  convive com outro elemento da cobertura: a monstruosidade do assassinato da menina Isabella Nardoni. O que ocorreu? Quem deve ser condenado?
 
Vê-se na cobertura uma dupla atitude: de um lado, como mostrou Luiz Antonio Magalhães (via Inagaki), a imputação direta de culpa no pai e na madrasta. De outro, os jornalistas mais cuidadosos talvez se lembrem do caso Escola Base, paradigmático do jornalismo mal feito. No entremeio, alguns se perguntam, precisamente sobre os ‘cuidadosos’, como o pai da menina não foi enxovalhado como os assassinos do menino João Hélio.
 
Para o jornalista, talvez fosse interessante rever antigos casos e relatos: a noção de loucura moral, as criações dos monstros jurídicos, ou mais precisamente juridico-morais, o papel do direito, o do povo, e a tentativa de fazer uma justiça "neutra", afastada do escárnio popular.
 
Ora, em casos como esses, muita coisa está em jogo. A começar pelo nosso próprio julgamento – do povo, e do jornalista -, muitas vezes desconsiderado.
 
Talvez tudo isso se deva a defeitos de formação: talvez se ensine ao jornalista muita publicidade e marketing, faltando boas aulas (e professores) de psicologia, sociologia, filosofia… Ou talvez faltem outras coisas, mais sérias e fundamentais, como mostra o recente texto do Venicio de Lima (via Perrusis).
Anúncios

5 comentários sobre “O jornalista, entre os cartões corporativos e a menina Isabella

  1. A impressão que se tem, é que muitos jornalistas querem se sentir mais poderosos, dando a sentença antes. Se acertarem, louros, se errarem, ninguém mais toca no assunto. Mais um pouco e se transformarm em juíz-júri-executor…

  2. Grande texto, Catatau. Abs.

    RE: Inclusive o Venicio de Lima tem dois ótimos livros sobre a relação mídia e política. Um pouco desse texto emulou um dos argumentos do segundo livro dele 😉

  3. O problema é que agora existem filhos que perguntam para seus pais se eles vão jogá-lo pela janela, como eles viram na televisão…
    Essas informações que a mídia passa afetam diretamente o cotidiano de todos, principalmente na criação de fantasias…
    É preciso ter mais responsabilidade com relação às informações que são passadas…

    Gostei do artigo…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s