O argumento do tacape

 img521/5474/071706esquivelil4.jpg
 

Aqui no Catatau não é raro recebermos comentários equivocados. O nível de equívoco aumenta quando o texto é um pouco maior. Um exemplo é a entrevista com Marcola. Até hoje recebe comentários elogiando a atitude de Arnaldo Jabor, ou o próprio Marcola. Como se houvesse, de fato, uma entrevista. O último chega a sugerir que, dados os conteúdos, Marcola ainda chega a ser "presidente" dessa "bosta" de país.
 
Outro exemplo, dentre muitos, é o post sobre os estereótipos do profissional de RH. Basta ver os comentários para constatar que a relação do leitor com o texto – e a discussão que pode evocar – muitas vezes não é das mais rigorosas.
 
E nem estamos considerando comentários que atacam partes já previstas, e até desenvolvidas, no próprio texto.
 
Digo isso para manifestar solidariedade ao Gravataí Merengue, no recente entreveiro com Luis Nassif. Como o Idelber Avelar mencionou, Gravataí publicou um texto convincente, bem argumentado, a respeito de um ponto da argumentação de Nassif sobre a Veja. Nassif reagiu, e junto com outros leitores vinculou a figura de Gravataí à vereadora Soninha Francine, de São Paulo. Como o Gravata trabalhava no gabinete de Soninha, no fim das contas pediu exoneração.
 
Como leitor, penso que alguns pontos iniciais deveriam ser elencados. Caso contrário, "eu" poderia ser considerado um mal leitor:
 
– Luis Nassif escreve um texto muito bem argumentado sobre os últimos tempos da Veja. Ora, o tom da argumentação não é de ofensa privada, mas simplesmente de trabalho jornalístico. Nassif faz o que alguns de seus opositores (que se conclamam "adeptos ao debate de idéias") não fazem: busca e aponta dados para sustentar o que diz. Como resposta, o que recebe? Afirma ele que até ofensas à família, para não mencionar as ações da Editora Abril. Nada de contra-argumentos. A argumentação recebe, em troca, o tacape.
 
– Gravataí analisa os pontos de Nassif, e sobre um deles publica seu texto, sugerindo que precisamenteNassif errou. Como reação, Nassif não contra-argumenta os pontos de Gravataí, associa sua voz ao da própria Soninha, e acaba movendo alguns leitores não contra  os conteúdos, mas o próprio ato de escrita. Ora, se o plano do debate deve ser o das idéias, é óbvio que não se pode dar razão ao adversário agindo também com o tacape, certo?
 
– Enfim, Gravataí respondeu com argumentos a argumentação de Nassif. Para refutar, é baixo o subterfúgio de associar o nome do autor à vereadora Soninha, especialmente quando ele deixa explícito, com todas as letras, que não é posição dela.
 
Isso é beabá. Não é a primeira vez que algo assim ocorre, e não será a última. Mas muitas discussões se comportam segundo aquele velho dizer: o cabra ergue o tacape e diz "tá vendo isso aqui? isso aqui se chama ARGUMENTO". O que é engraçado não é coisa assim acontecer, mas acontecer na ‘polida’ e ‘sacramentada’ esfera pública 😉
Anúncios

5 comentários sobre “O argumento do tacape

  1. Sempre que penso em debates, discussões e assemelhados, lembro de uma reflexão atribuída a Carl Rogers (nunca me dei ao trabalho de conferir se era dele, mas gosto dela mesmo assim):

    Segundo Rogers, para garantir que haja diálogo, seria necessário o seguinte:
    1) o primeiro diz.
    2) antes de responder ao que o primeiro disse (não importa se para discordar ou concordar), o segundo deve repetir, com as suas próprias palavras, aquilo que o primeiro afirmou. Só depois que o primeiro concordasse ter sido esse o teor do seu discurso, o segundo poderia fazer as suas considerações.

    Claro que, na prática, com essa “técnica” qualquer conversa cotidiana se tornaria insuportável, mas o princípio guarda muita sabedoria, não?

    RE: Pior que ouvi uma piada bem parecida de um professor meu. Ele dizia algo como “Certa vez um paciente foi ao Carl Rogers e disse: ‘estou pensando em me suicidar’; no que Rogers responde ‘É, você está pensando em se suicidar'”. Ao dizer isso, o professor sempre se rachava de rir, rssss

  2. Este comentário corre o risco de ser equivocado, mas foi o que me lembrei ao ler seu post.

    É mais ou menos como o contra-argumento de muitas igrejas que sofrem denúncias, como a Renascer e a Universal. Quanto mais perseguidas, mais santas. Afinal, é assim que está no evangelho. Parece que não importa muito o motivo da perseguição.

    Outra coisa, além de não escutarmos o outro, é comum nós mesmos não nos escutarmos. É um ab-surdo!

    RE: É isso mesmo. Acho que a moral da história – e do post – era dizer que a raiz do equívoco reside precisamente onde a conversa fica de lado e cede o lugar ao tacape. Ele pode ter várias nuances, como quando se busca forjar deliberadamente um equívoco onde não haveria nenhum…
    :p

  3. Pelo tom do Nassif o tacape é a parte mais avantajada do cérebro dele.
    Cada vez fica mais difícil acreditar em algo seja revelado pela imprensa, seja por blogueiros. O pior fica por conta de não ter a quem recorrer. O judiciário? Esqueça!
    A quem interessa tudo isto?

  4. Creio que o problema é que ninguém quer abrir mão dos próprios argumentos. Nisso, ao invés de ouvir o que o outro tem a dizer, já fica pensando na resposta, tentando desmoralizar o outro, para que seu argumento não tenha valor. Quanto mais o debate se alonga, mais pesado vai ficando o teor da conversa, na tentativa de fazer o outro aceitar e calar a boca. Nisso o tacape surge na mão de um, ou dos dois.

  5. tem um detalhe interessante no texto do Gravataí que me chamou atenção. É esse trecho:
    “Isso porque a Carta Capital, na penúltima edição, CONFIRMOU que Diogo Mainardi tinha quatro fontes na Itália. Vejam bem: QUATRO. Nassif diz que o documento foi produzido no Brasil, mas não há prova disso.”

    Como assinante da CartaCapital, surpreendeu-me a afirmação, porque ela nunca ocorreu – ou eu nunca li em nenhuma edição dela que confirmasse que DM estivesse correto sobre qualquer coisa. Ainda mais sobre esse documento.
    Outra coisa é a idéia de que não há prova de ele ter sido confeccionado no Brasil. Mas nisso o Nassif foi muito objetivo. Estão lá para quem queira ver as provas por ele apresentadas a esse respeito. Como o Gravataí chega a afirmar que não há provas, quase dando a entender que o Nassif não apresentou provas?
    Sei não, pareceu-me um pouco enrolado esse texto do Gravataí. Já percebi algumas obscuridades no Dossiê do Nassif, mas esse texto foi uma defesa quase passional da Janaína Leite.

    RE: Interessante, Fred. Não estou por dentro do debate (acompanhei mais o tom do que o conteúdo), mas nesses termos se você estiver correto, desmentirá o Gravataí no plano da discussão, e não do tacape – enfim, é o que importa!
    um abraço,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s