La Mettrie: O Homem-Máquina e A Arte do Gozo

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Existe uma corrente atual (na verdade, ela é bem mais antiga do que admitiriam seus mais fiéis defensores) de pensamento que busca subsumir os dados históricos às "descobertas", "avanços" e "temas" contemporâneos. Assim, um livro esquecido hoje teria sua justificativa de ser "esquecido" precisamente por não ter relevância alguma para historiadores ou cientistas: é algo como irrelevante, ultrapassado, demodé.
 
Um exemplo é  L´Homme Machine, de La Mettrie. De um lado, alguns o colocariam como algo semelhante a um "precursor" das ciências cognitivas. De outro, seu modelo "mecanicista" seria sumamente ultrapassado, coisa de criança, ou quase uma piada.
 

Em boa parte das duas visões, vê-se o livro antigo como algo negativo. Ou é apenas um traço fraco que permite reafirmar as crenças do presente, ou é meramente a testemunha de antigos "erros". E se ocorreram "erros", isso quer dizer que nunca se teve dúvida quanto à direção que se deveria tomar, e o presente seguiria portanto em uma surpreendente continuidade com o passado.
 
Assim, para quem compactua de visões históricas como essas, algumas perguntas sobre o livro de La Mettrie passam ao léu, desapercebidas. Um primeiro exemplo: dado que para La Mettrie existe um artificialismo mecânico, qual seria a raiz desse artificialismo? Se existe um artifício, o século XVIII não parou de buscar artífices. E se o corpo é um aparato mecânico, para garantir o próprio conhecimento nos perguntaríamos sobre onde, dentro desse corpo, poderiam se situar ítens como a liberdade humana e a certeza efetiva de qualquer conhecimento. Uma boa pergunta, sobre La Mettrie: qual o significado de considerar o corpo como um artifício mecânico, diante da eliminação de uma substância pensante cartesiana, e de uma continuidade entre matéria inorgânica e orgânica? Teríamos aí bons problemas sobre a origem da vida, e a questão da consciência, do século XVIII até hoje. Aquele estatuto de "ultrapassado" do texto antigo seria revisto, e evocaria um problema ainda aberto.
 
Assim, considerar que o passado não se presta a ser apenas "ultrapassado" levaria à conclusão de que o presente não é tão insuspeito assim. O passado teria algo a dizer sobre o presente, e não apenas de modo negativo.
 
De La Mettrie a nós, temos o evolucionismo e o nascimento das ciências humanas, passando pelo cognitivismo e a "década do cérebro" (que curiosamente já dura 20 anos). Dizer hoje que a consciência é fruto de uma projeção virtual de reações químicas que ocorrem no cérebro não soa mais tão absurdo quanto, naquela época, dizer que o pensamento é resultado de mecanismos complexos. Mas problemas como o do conhecimento, da liberdade, e da consciência, continuam abertos.
 
Moral da história: tudo isso para mencionar duas edições originais, e online, de L´Homme Machine: uma de 1921 (reprodução da de 1748), em francês (com outro escrito intitulado L´Art de Jouir, ou algo como "A Arte do Gozo"), e outra em inglês, de 1943. A Cambridge também tem a tradução ao inglês disponível, para venda. Em português, o texto de Rouanet talvez ajude a introduzir o assunto. O artigo da Wikipedia junta outros links, com bibliografia. Nas bibliotecas nacionais, nada encontrado (por enquanto), exceto os links acima.
 
Sobre L´Art de Jouir, essa belíssima edição também é disponível para download grátis.
 
Dizem as más línguas (ou talvez as "boas", já que La Mettrie era ateu convicto e crítico dos teólogos?) que o filósofo francês rompeu com o ensinamento cartesiano após algumas semanas de febre, quando, perdendo a consciência, depois perguntou-se sobre onde esta pairaria todo o tempo. Ainda, adepto de um certo hedonismo (o que talvez se exponha a contento em L´Art de Jouir), morreu após demonstrar grandes dotes "glutônicos", exagerando na dose de algo parecido com um pastel de faisão com trufas (?).
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