Piso de 950 reais por professor

Da ABN:

O piso de R$ 950 é uma antiga revindicação da categoria. O valor deverá ser pago para professores com carga horária de 40 horas semanais.  Pela proposta, o piso salarial nacional será implantado em todo o país, de forma gradual, até 2010.

De acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), existem mais de 5 mil pisos salariais diferentes para a categoria, variando entre R$ 315 e R$ 1.400. Está prevista no projeto a complementação da União para os entes federados que não atingirem o valor de piso nacional. 

Caso tomemos em conta as estatísticas da Catho, tem-se (dispondo o dado mais próximo do salário líquido):

Vendedor:

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Recepcionista:

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Segurança ("vigilante patrimonial"):

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19 comentários em “Piso de 950 reais por professor

  1. Catatau,

    Realmente só há uma palavra para o piso nacional de 950 reais: ESCÁRNIO.

    Claro que não se consegue corrigir distorções que vêm se acumulando por anos, de um dia para o outro. Mas é bem significativa a tabela que você publicou, mostrando o quão baixo se deixou chegar a remuneração a professores.

    Abraço

  2. Essa notícia deve estar errada. O professor de escola pública geralmente recebe o milhar para 20 horas de trabalho semanal. Pelo menos em São Paulo os salários não são tão ruins, embora, claro, a iniciativa privada ofereça salários melhores, a não ser que se trate da metada, que é feita de escolas particulares mais “pobres”.

    Como ex-aluno de escola pública (no noturno), numa escola do subúrbio de Santo André (E.E. Visconde de Taunay) reluto em achar que professor ganha mal; e recuso-me a achar que a grande maioria queira trabalhar ou seja minimamente qualificada.

  3. Adriano,

    Desculpe, mas trata-se do estabelecimento de um piso NACIONAL. Dia desses, o Estadão publicou uma matéria que falava em 14 estados em que se pagava menos do que isso.

    Não é minha intenção defender indiscriminadamente o desempenho dos professores, que é mesmo medíocre em muitos lugares e de várias formas.

    Mas culpá-los isoladamente, é desconhecer toda uma situação de distorções, manipulações grosseiras e várias outras coisas que comprometem o desempenho em Educação. E como comprometem!

    O caso é, pra resumir o que não dá pra escrever em poucas palavras, não há solução mágica. Havemos de nos bater com isso ainda por anos. Isso se houver um esforço honesto no sentido de formar mais e melhores professores, além de parar com as “experiências pedagógicas”, lamento, embora eu não seja, a princípio, contra QUALQUER experiência.

    Só me aborrecem certos oba-obas.:(

  4. Alba, o assunto é realmente complicado e eu não tenho todos os dados. Mas sugiro ao Catatau que use a mesma fonte do Catho para mostrar os salários dos professores (comparados a essas outras profissões).

    E que me explique — já que sou mesmo ignorante — como o 3.º quartil ali (somando-se benefícios) pode chegar a receber 6 mil reais.

    É claro que se trata de uma minoria… mas, enfim, acho que está faltando esse dado ao debate.

    E, enfim, estudei em escola pública: sei que a culpa é de professores e alunos. Sei o que é uma juventude sem motivação alguma para estudar, mas com uma vocação assustoradamente grande para procrastinar. Eu, com meus poucos 21 anos, faço parte dessa geração. Infelizmente.

  5. Putz. Será que perdi o comentário que acabei de digitar?

    De qualquer maneira peço que vejam isso.

    E digo a Alba que eu sei que a culpa não é de professores, mas de professores e alunos. Sei, porque estudei quase toda a vida em escola pública de subúrbio, o que é ninguém querer estudar, o que é todo mundo querer procrastinar, para ter o diploma, ou para ver no que vai dar a vida. Como disse no comentário anterior, faço parte dessa geração, com meus poucos 21 anos; infelizmente.

  6. É gente, a situação é complicada. Já tinha deixado a “brecha” para o exemplo dos professores na Catho, mas o que queria efetivamente era mostrar que o salário de professor (uma profissão de nível superior) é muitas vezes igual ou menor do que o de várias outras categorias, que não exigem curso superior.

    Ao contrário do Adriano, tenho também um punhado de experiências pessoais, em rede pública e privada, que mostram muito bem isso. Segurança e vendedor ganhando ou o mesmo, ou mais, do que um professor. E isso em mais de um Estado.

    O que não da para dizer que tudo é culpa dos professores, “a maioria não querendo trabalhar”, ou “a maioria não qualificada”. É muito mais do que mera decisão pessoal, e o que o Adriano enxerga é muito mais consequência do que causa da situação.

    Talvez foi interessante nisso tudo o comentário de Cristovam Buarque: é pouco, mas é um primeiro passo…

  7. Poxa Catatau, eu não disse que é tudo culpa dos professores. Mas, se quer saber, eles não fazem por merecer tanto quanto os alunos.

    E se o problema é só salário, por que não escolhem outras profissões? E mesmo que o salário fosse um problema tão grande, isso justifica o estado do ensino? Eu digo que não: esse motivo é mais do que insuficiente para explicar a situação.

  8. Adriano,

    Pelo seu texto, eu diria que você é um triunfo da escola pública, acredite, apesar da desmoralização continuada que a imprensa e o senso comum legaram à escola pública e que, de alguma forma, e trata-se de posição pessoal, reproduz o nosso muuuuito arraigado preconceito contra POBRES, em geral.

    Some-se a isso a ação dos pedagogos e aí a coisa fica ainda mais complicada. Mas, a título de ilustração, aí vai a transcrição de um diálogo que mantive com um amigo por e-mail:

    Vou encarar finalmente aquela discussão sobre a pedagogia. É que depois de um período inicial em que testei o terreno, querendo saber melhor que apito as pessoas tocavam, cheguei à triste, desanimadora, conclusão, de que os pedagogos e suas bobagens venceram. É um mar de clichês sobre “construção do conhecimento”, “resgate da auto-estima”, “atividades diferenciadas para crianças diferentes” – tudo para mascarar é claro, que o discurso da “inclusão” só perpetua a exclusão. Ah, sim, nós fazemos muitas reuniões pra tratar dessas coisas. Vou contar apenas o que aconteceu em duas delas.

    Na primeira, uma pedagoga (quem mais?) nos fez passar por um relaxamento, como na yoga, o que eu já acho um tanto ridículo. No final, uma professora de português, bastante comprometida, pelo que tenho observado, ficou tão desarmada que chegou a chorar, dizendo da sua impotência – “Puxa, mas eu só quero ensinar!”. Aí, relatou sua infância muito pobre, onde chegavam a faltar roupas pra ir à escola e de como acha importante que os alunos retenham conteúdos, em vez de comportamentos.A reação dos outros professores foi de olhares penalizados e repetição dos clichês.

    Na outra reunião, admitiu-se francamente que não estamos lá para formar a “elite da sociedade”, mas o pedreiro, o lixeiro, com sorte, um balconista. Se isso não é admitir um retumbante fracasso, inclusive de conceitos basilares do que deve ser uma república, onde está se negando deliberadamente ao cidadão a oportunidade de ascenção, eu não sei mais nada.Isso, para imediatamente voltar ao fraseado padrão. Fiquei triste, incomodada com esse mergulho no maravilhoso mundo da ficção.

  9. O interessante é que dentro da escola os professores também tentam encontrar os “motivos” do “fracasso” da educação: o problema é o governo? a família? a diretoria e a equipe pedagógica? Os alunos? Os pais? Ou os professores?

    Dependendo qual posição você assume (professor, diretor, etc.), virá uma resposta. E é incrível como as respostas sempre redundam nesse “círculo”. Incrível a ponto de merecer um bom estudo (de psicologia institucional, por exemplo), mas até hoje não conheci nenhum.

    O que fica complicado é sempre reduzir a situação a uma espécie de decisão individual. Ela não resolve nada. Conheço vários professores que decidiram “levantar a bandeira” da educação, e no fim da carreira sabe o que conseguiram? Uma boa depressão, problemas pessoais, e coisas do gênero. Moral da história: não é só o salário. Mas não é só a decisão individual, nem a “luta”, nem o governo. É tudo junto.

    É muito curioso que, em termos de decisão pessoal, entramos em dilemas semelhantes a esse. Ou “ser ético”, e sofrer as consequências, ou trabalhar em função do “sistema”. Interessante é encontrar meios de subverter isso, e subverter não no discurso de panos quentes das ONG´s, mas subverter de fato 😉

  10. Ah sim, quanto ao papel dos salários, ousaria dizer que é muito importante. Mas não só salário. Fiscalização também, diante dos professores, das escolas, e dos alunos. Fiscalização para que os professores efetivamente recebam, e campanhas para que recebam mais. E, recebendo, para que trabalhem bem.

    No fim das contas, nem se tem fiscalização, e aí a brecha abre para as decisões individuais, para se “omitir”, “corromper”, ou “ir para a guerra” 😉

  11. O comentário da Alba é excelente, justamente porque faz querer fugir dos clichês; mas não basta só querer fugir dos clichês, é preciso entender o que acontece. Há quem diga que a educação não deveria ser compulsória, por exemplo. Eu não sei. Sei que a maior parte absoluta do que aprendi foi fora da escola.

    Quanto ao comentário do Catatau, o último, sobre os salários, só posso considerá-lo absurdo. A fiscalização deve girar em torno de pagar maiores salários para os professores? E só depois cobrar resultados?

    Parece haver um pressuposto escondido aí, que é o de que professores não dão aula porque ganham mal. Mas eu digo que não dão aula porque são majoritariamente incompetentes. Pode ser feio dizê-lo, mas é um fato. E em qualquer lugar que se procure (da elite) também se encontrará muitos incompetentes.

    Para averiguá-lo, sugiro consultarem o resultado médio no Enem (um exame relativamente fácil, porque básico) das dez escolas mais bem posicionadas.

    Quantos brasileiros “da elite” sabem bem o português ou dominam a matemática elementar? Mas, oras bolas, esse é o mínimo que qualquer cidadão deveria saber…

    (ah, sempre me esqueço da solução: chama-se federalismo real, ou seja, a comunidade cuidando da comunidade, pais, filhos e mestres exigindo e fazendo uma escola melhor. e daí por diante. sem esse estreitamento federalista não há saída. a saída não é formar “cidadãos do mundo”, mas cidadãos da sua comunidade, que devem zelar por ela. porque o Tejo é o maior rio do mundo, etc., se é que me entendem.)

  12. É Adriano,

    Vc n leu bem o comentário. Quando disse “fiscalização para que efetivamente recebam”, você nem tem idéia do que acontece por aí… Tanto em relação a baixos salários, quanto a trabalho irregular, sem garantia alguma, com diversos tipos de assédio moral… Não é clichê, é real.

    Um pequeno exemplo: nos últimos tempos, encontrei duas escolas infantis que NÃO ASSINAVAM a carteira dos professores. Até aí, sem muitas coisas a impressionar. Mas qual a diferença entre um professor e um estagiário, por exemplo? Simplesmente entre 50 e 100 reais a mais no ordenado, e a tal da “confiança” da diretora. Mas funcionalmente, professores e estagiários tinham as mesmas tarefas. Ou, o que dá no mesmo: contratava-se professor, com salário de estagiário. E estagiário, com função de professor. E salário esse, meu caro, bem menor do que o ‘piso’ agora promulgado. Nas duas escolas.

    O problema é simplesmente da decisão ou incompetência individual, como você quer fazer ver? Ou, o que dá no mesmo, milhares de professores incompetentes, cujo resultado é uma associação de incompetências justapostas, que resulta no mundo de hoje? Absolutamente não! A incompetência individual é meramente um dos resultados da situação do professor (aqui você pode utilizar a hipótese da escolha individual), e não a causa dos problemas da educação. Ora, ela é sim fruto de uma dupla situação do professor: (1) não ganho bem, logo não faço bem (e os exemplos aí abundam: excesso de faltas, atividades “complementares”, permissividade ou autoritarismo em excesso, avaliação falha…); (2) ninguém me fiscaliza, não há formação continuada, então tudo se resume à minha escolha (ser um bom professor, ou não estar nem aí).

    Não se reduz a solução à escolha do professor, ou a perguntas do tipo “então o que você faz aí, se é tão ruim?”. Ora, a questão perpassa sim o alto índice de desemprego, a alta demanda de professores, e o problema de que professores e policiais são as maiores folhas de pagamento que todo governo tem.

    O que se reflete, sim, na educação privada. É inevitável ter que pagar professores (e eles são muitos), considerar titulações, etc. O que torna o dilema igual ao da esfera pública.

    A situação que a Alba narrou é quase regra universal no Brasil. Já vivi algo bem parecido sob diversos pontos de vista: junto aos professores, junto à diretoria e à equipe pedagógica, como “consultor” para precisamente evitar esse tipo de hipocrisia… E todo esse mundo de clichês e perdidos não é causa da má educação, mas mais um de seus resultados.

    Aliás, deve-se rever o clichê: o fato de ser tema recorrente pode torná-lo clichê. Mas devemos muito bem, nesse tipo de situação, avaliar onde começa o clichê (um estereótipo que apenas mostra uma repetição, mas que não diz efetivamente nada), e onde a recorrência da situação, transformada em clichê, não quer dizer alguma coisa…

    E quanto à relação comunidade x cidadão do mundo, pq vc acha que Konigsberg era formulada como “cidade cosmopolita”? 😉

  13. Então em vez de dizer que a educação é ruim porque professores são incompetentes, você diz que os professores são incompetentes porque a educação vai mal.

    E a educação vai mal por qual motivo então? Se você diz que a causa não é a incompetência dos professores, deve haver outra causa. Mas qual?

    São os baixos salários? É isso mesmo?

  14. Olha Adriano,

    Não sou “autoridade” para dar uma boa resposta. Mas me parece, dentro do comentado acima, que não se trata de apenas um fator, mas de vários. Não é apenas o salário baixo. Acima, enunciei pelo menos dois motivos: o baixo salário, e a ausência de acompanhamento do professor (tanto em termos de fiscalização, quanto de formação continuada).

    O baixo salário influencia sim na qualidade da educação. Comportamentos como deixar os alunos ao léu na sala enquanto se tricota, ou faltar excessivamente para “ir ao médico”, ou não fazer boa avaliação e boa aula, tenderiam a não ocorrer, com um bom salário. Ele não é a panacéia para todos os males, mas aumenta a probabilidade que um professor enfim dê aula, no ambiente educacional.

    Nesse sentido, a situação dos professores é um pouco parecida com a dos policiais. As folhas de pagamento são muito grandes, nas duas áreas. Por isso sempre se reduziu o salário. Mas você vê nos dois lados: quanto maior o descaso para com a categoria, maior a possibilidade de corrupção, e jeitinhos diversos para evitar trabalhar, e complementar a renda.

    Mas tem também a “fiscalização”. O descaso também está aqui. Os índices educacionais hoje são falsos, servem muito mais para mostrar o “sucesso” dos governos do que para avaliar de fato a educação. Um exemplo é o índice de aprovação na educação básica. Ora, em um lugar onde não mais se reprova, ou que a reprovação é evitada ao máximo, como não ter altos índices de aprovação? Mas agora começam a chegar na faculdade indivíduos semi-analfabetos. Existe portanto um problema de ponto de aplicação da fiscalização, para que os resultados sejam um pouco mais concretos.

    De todo modo, não é só isso. Trata-se não apenas de professor, mas de equipe pedagógica, de financiamento massivo na estrutura da escola, contratação de funcionários, formação continuada, planejamento efetivo (hoje se planeja muito, na linha do que a Alba disse, mas não se faz mta coisa), resolver a questão do transporte, da merenda, da segurança, da boa formação…

    Podemos avaliar a educação hoje dentro do que fazem as ONG´s junto a escolas carentes. Não teriam elas a pretensão de cobrir o vazio deixado pela esfera pública? Mas mais do que intervirem na educação de fato, fazem atividades paliativas, do tipo “teatro na escola”, atividades para “auto-estima”, palestras motivacionais, atividades ocupacionais (quase como terapias ocupacionais mal feitas, com artesanato e outros), e afins. Na TV, fala-se em alto e bom tom sobre recuperação da “auto-estima”, e que todos “estariam na rua”, se não estivessem no projeto. Em outras palavras, as atividades em nada correspondem a fins educacionais de fato, ou a algo que se encaminhe à vida social concreta. Enquanto o aluno riquinho estuda inglês, o da favela faz aula de circo. O que tudo isso talvez queira dizer? Que confluindo tudo, um aluno não ocupa bem a posição de aluno…

  15. Em um mundo ideal professores deveriam ganhar muito bem. Mas não vivemos em um mundo ideal. Como você mesmo diz, a folha de pagamentos para professores e também policiais é muito extensa e por isso há o costume de achatar o salário dessas categorias — afinal, uma coisa é aumentar o salário de centenas de milhares e outra aumentar o salário de só milhares ou mesmo centenas.

    Dito isto, e levando muito a sério tudo o que você disse no comentário anterior, lanço uma questão, que é de fundo e muito mais importante do que tudo isso que estamos discutindo: todos sabemos que um ministro do STF ganha em torno de 25 mil reais nominais por mês; sabemos também que congressistas em geral ganham cerca de 17 mil reais; quando os próprios ministros do STF — se não me engano não são mais que uma dezena — tentaram e conseguiram aumentos de milhares de reais recentemente, um dos argumentos foi o de que julgam causas de milhões e até bilhões de reais, e por isso a responsabilidade deles é enorme frente a este fato; o mesmo argumentam constantemente os congressistas; não obstante, isto não significa um “me paguem bem, senão eu me corrompo?”.

    Todos, sem exceção, acham que ganham mal (e vamos conceder aqui que ganhem, dada sua profissão). Professores e policiais deveriam ganhar mais, talvez congressistas deveriam ter seus salários com o mesmo teto dos do Supremo e assim por diante.

    Porém não estamos esquecendo o ponto aqui, que é o de que uma pessoa, independente de sua situação financeira ou da sua realidade, deve simplesmente agir bem? Ou será que até isso é faz de conta?

  16. Penso que sim (ao “agir bem”), Adriano.

    Especialmente porque o “agir bem”, caso fosse considerado em sua plenitude, não conviveria com uma situação financeira ou realidade desfavorável. Vc toca na velha questão da injustiça (pq um injustiçado não reage SEMPRE às injustiças? qual seria a economia de sua ação, ou de sua conivência?).

    O que parece interessante é que teoria de motivação alguma deixaria a resposta simplesmente a cargo da consciência moral dos indivíduos, especialmente em situações desfavoráveis. Talvez exista um curto-circuito: para se ter uma ação efetiva, deveria-se ter todo o raio da ação garantida, o que não deixaria as coisas como estão… Por isso nem se muda princípio de gerência, nem o raio efetivo das ações.

    De todo modo, temos os dois lados: nem salário bom, nem fiscalização. Mas é curioso que em um banco, por exemplo, o controle do capital circulado é muito grande, o capital é gigantesco, e o funcionário que se encarrega da circulação desse capital muitas vezes também opera com grandes fortunas. E, comparado com um ministro do STF, recebe muito mal. Algo faria um bancário não ser corrupto com tanta facilidade, o que não ocorre com as possibilidades de um policial, um professor ou um magistrado (nos termos q vc mencionou).

    Uma outra questão seria aquela do “é assim pq moramos no Brasil”. Ora, o argumento de que um magistrado ganha pouco, em termos “brasileiros”, é bem menos convincente do que o do professor e do policial, não é mesmo?

  17. Acho que realmente não caberia a idéia de que “é assim porque vivemos no Brasil” — acho que realmente seria uma argumentação pobre.

    Mas um dado curioso é que (a menos que eu esteja enganado, claro) um ministro do STF no Brasil ganha paritariamente menos que um juiz da Suprema Corte americana (a paridade, do “custo de vista” nos respectivos países, dólar-real é praticamente 1); aposto minhas fichas em que um professor (pelo menos da rede pública de São Paulo) ganha paritariamente o mesmo que um professor da rede pública nos Estados Unidos. Um professor de escolas públicas do médio-fundamental ganha em São Paulo pelo menos R$ 800 por mês por 20 horas de trabalho semanais — ou R$ 1600 por 40 horas semanais.

    Por que não trabalham decentemente? Pode ser a profissão errada… pode ser o que mais? E digo mais: deve ser a auto-vitimização, embora, claro, haja casos limite, como os que você menciona — professor não receber salário ou ganhar o mesmo que um estagiário (a depender do que seja um estagiário, seu salário parece estar sobrevalorizado).

  18. Okay, nessa indução me enganei feio (professors lá ganham $80 mil/ano, o mesmo que professores titulares da USP ganham paritariamente).

    Mas… “The estimated average salary of all public elementary and secondary school teachers in the 2004–05 school year was $47,602.” (fonte)

    Ou seja, se um professor no Estado de São Paulo chega a ganhar R$ 24 mil reais por ano, lá um professor do ensino público ganha em média US 48 mil dólares por ano.

    Esquecendo o câmbio e pensando novamente na paridade, um professor de escola pública lá ganha o dobro do que um professor ganha aqui. Enquanto um professor de universidade pública ganha aqui praticamente o mesmo que um professor universitário nos Estados Unidos ganha em média.

    Senão vejamos, um professor titular na USP ganha cerca de R$ 8 mil por mês (embora um professor na FEA, pago também pelas fundações, chegue a receber R$ 50 mil por mês, segundo o movimento estudantil). Isso dá R$ 96 mil ao ano, o que convenhamos fica bem próximo dos salários da tabela que eu apresentei (paritariamente falando).

    Mas chega. A proto conclusão é: um professor de escola pública realmente ganha a metade do que deveria ganhar (sem contar que, em casos extremos, falta fiscalização para que simplesmente receba seu salário).

    Acho que um bom plano para um governo de 8 anos seria dobrar o salário médio, mas instituindo o aumento num sistema de mérito: professor que mostrar melhor desempenho, ganha mais. Na razão inversa, menos.

    Mas ainda outra questão: por que afinal o bancário recebe um salário proporcional ao do professor, mas trabalha muito melhor, apesar da insalubridade do seu serviço?

    (que tal lançarmos um paper a respeito?)

  19. Olha Adriano, o argumentinho “é assim pq vivemos no Brasil” já foi muito empregado por gente da Veja, para mostrar que o salário do professor não é tão ruim relacionado a outros. “Na situação brasileira, seria um bom salário”. Acho interessante ser bem diferente comparar um salário de nível superior (e de professor) igual ao de vigias e vendedores, e comparar o salário de um magistrado da alta com a maior parte da sociedade brasileira.

    Quanto às tuas questões, salta aos olhos não a pergunta sobre “o que deu errado?”, mas sim “qual o estatuto da educação brasileira?”. Ora, a diferença entre um bancário e um professor não reside no fato do bancário cumprir as tarefas e ser fiscalizado,e o professor não, embora ambos sejam mal pagos. A pergunta talvez deveria ser bem mais embaixo: o que acontece para que o professor mal pago tenha sua educação medida apenas em função de escolhas pessoais, desconsiderando todo o sistema educacional? Ou em outras palavras, o que acontece para que o estatuto do aluno numa escola não seja propriamente de um aluno? Ora, a convergência de todas as práticas educacionais não gera uma relação de professor-aluno, gera sempre outra coisa. O “bom professor” tem sempre que lutar contra a maré, e a partir da inspiração individual. A relação professor-aluno hoje em dia apenas se estabelece a partir da decisão pessoal do professor, e não a partir de um sistema educacional que exclui os professores que se desviam essa relação.

    O problema é precisamente esse, que reduz toda questão à decisão individual (dentro do caos, é o professor que escolhe ou não pela ordem), e é por isso que linhas de gente ligada à Veja (do meritismo, do rendimento do professor, etc.) estão erradas. Não se deve dar a posteriori incentivos para a boa educação (e se fosse assim, poderíamos já prever os inúmeros jeitinhos para mascarar os dados, como já se mascara…); deve-se, sim, garantir a boa educação de saída, e só assim a “má educação” seria um desvio.

    Existe um conjunto de regras que cria a má educação, e não um aglomerado de professores irresponsáveis. A resposta não está em aproximar os professores dos bancários (a situação desprivilegiada destes só perdura pelos altos índices de desemprego), mas em criar um sistema educacional que torne a má educação uma excessão (já estando a boa educação garantida, punir os maus profissionais), e não a regra. Basta ver nas gringolândias.

    O professor que recebe como estagiário não é caso limite, mas situação corriqueira. Novamente o mesmo problema: não há um conjunto de regras efetivas que rege a boa educação: ela fica relegada a escolhas individuais, aqui e ali.

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