Dantes, Dantas

Segundo Paulo Henrique Amorim, o povo brasileiro começa a se familiarizar com o nome de Daniel Dantas. Este blogue, como o povo brasileiro, de Dantas nada conhece. Mas algumas coisas são muito interessantes:

Como escreveu o Idelber, a visibilidade da prisão de Dantas foi ocasião para um José Dirceu e um Reinaldo Azevedo manifestarem opiniões confluentes. E contra a prisão. Nomes como Lulinha e Eduardo Azeredo, em diversos veículos, se aproximaram. Miriam Leitão pegou muito leve sobre a prisão e os direitos, mas a edição de ontem do Jornal Nacional, conforme PHA, "jogou Dantas às feras". E também "mostrou o dinheiro". Um curioso mosaico.

Dentre outras coisas, Dantas dantes teria fundos de 1,2 bilhão ligados ao banco Opportunity, em 2004; em 2005, nenhum tostão dessa quantia constaria nos dados do Banco Central. A mesma mágica com a esposa: 500 milhões em 2004, declarados apenas 1 centavo (!) em 2005.

Tão surpreendente quanto, foi a série de encontros agendados entre um delegado da polícia federal, e subordinados de Dantas, para subornar o delegado. Tudo gravado, comprovado, materializado. Como disse, constrangido, o próprio advogado de um dos envolvidos, "a situação foi verificada, pública, então houve essa situação inicial". Em outras palavras, a saída é difícil quando se encontra 1,2 milhão de reais em espécie, depois de dois pagamentos também em espécie a um delegado. Por trás do esquema, Dantas, mencionado com todas as letras. Ou quem sabe, os subornadores gostam de viver emoções perigosas, concentraram 1,2 milhão em dinheiro, e pretendiam apenas fazer uma brincadeira.

Ainda não é tudo: após a constrangedora declaração de Dantas sobre estar apenas preocupado com a polícia federal, pois no Supremo Tribunal Federal ele teria "facilidades", 32 horas depois da prisão lá estava o Presidente do STF, Gilmar Mendes, concedendo o habeas corpus:

Segundo nota do STF, Gilmar Mendes avaliou não haver fundamentos suficientes que justifiquem o decreto de prisão temporária de Dantas e de outras dez pessoas ligadas ao banco Opportunity e ao Opportunity Equity Partners seja por ser desnecessário o encarceramento para imediato interrogatório, seja por nada justificar a providência para fins de confronto com provas colhidas.

Mas seria a prisão apenas para "confronto com provas colhidas", no caso, aquelas provas provindas do HD do banco Oportunity, até então proibidas de investigação pela ministra Hellen Gracie? Não garantiriam evidências suficientes a tentativa de suborno? Paulo Henrique Amorim novamente faz a pergunta mais razoável: "Isso será ‘compatível com o Estado de Direito’?, soltar um quadrilheiro que tentou comprar um policial federal, senhor Supremo Presidente?".

*** 

Talvez o mais surpreendente seja a desmoralização do STF, especialmente diante da declaração tão próxima de Dantas: sem conhecê-lo, o povo brasileiro já sabe que ele tem o STF nas mãos. Ou, o que é pior, faz parte de um esquema que, com ou sem ele, tem muitas "facilidades".

E o habeas corpus? Os advogados já o pediram 28 dias antes da prisão.

***

(11/07) E prenderam novamente Dantas. Agora, sob a acusação do suborno:

Segundo a denúncia, o dinheiro teria sido oferecido ao delegado federal Vitor Hugo Rodrigues Alves por dois emissários de Dantas: Chicaroni e Humberto José da Rocha Braz –também conhecido por Guga–, assessor de Dantas e ex-diretor da Brasil Telecom, empresa que pertenceu ao grupo Opportunity. A defesa do banqueiro nega a acusação.

O link acima mostra também uma pequena entrevista, concedida por Dantas à Folha. O próprio banqueiro disse que os motivos de sua prisão seriam políticos, ligados a nomes como o de Luiz Gushiken. 

Outros analistas chamam a atenção sobre uma "disputa" entre a Polícia Federal e o STF. Alguns ainda declaram que para o povo brasileiro tudo isso é muito estranho, além de aparentar contradição.

O povo brasileiro não tem acesso privilegiado aos dados. Via de regra, pode apenas cruzar tudo aquilo que lhe é mediado pela imprensa.

E em momentos como esse, é difícil realmente não ver que tem algo estranho. A começar pelas manifestações de direita e esquerda, "nervosas" (como disse o Idelber) diante da prisão. Ou o curioso mosaico que segue da política à mídia, conjugando novas figuras a favor, ou contra a prisão. Ontem, boa parte do Jornal Nacional se dedicou ao caso, enfatizando a prisão, e a estranheza da soltura. Já o cão de guarda da Veja, Reinaldo Azevedo, dedicou vários posts contra. Chegou a dizer que a ABIN estaria por trás de tudo.

Outro elemento muito estranho foi a omissão de aproveitar uma deixa grosseiríssima. Quando, em recente caso, assessores mencionaram o "envolvimento" de Dilma Roussef no "Dossiê", imprensa e parlamentares cairam em massa sobre a ministra, expondo-a publicamente,  pedindo esclarecimentos. Na venda da Varig, novamente a cobertura não poupou menções à ministra. No caso Dantas, na ocasião do suborno do delegado da PF, os assessores mencionarem Dantas ter "facilidades" no STF. E tal menção foi seguida pelo habeas corpus de Gilmar Mendes, presidente do STF! Diante dos padrões da cobertura, é incrível a imprensa não ter explorado esse fato.

Inclusive a prisão so
a muito estranha. Seu motivo é apenas o suborno. Mas e o suborno, seria indício de quê? 

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4 comentários em “Dantes, Dantas

  1. Estamos diante de um superesquema que envolve boa parte da elite política, boa porção da mídia e setores importantes das ditas “finanças” brasileiras — daí as afinidades eletivas. Parodiando Simmel, o dinheiro produz esse jogo de proximidade e distância na estrutura de poder no Brasil. Será que nossa incipiente democracia tem fôlego para um “mãos limpas”? Não creio…

    De todo modo, é sempre interessante que o óbvio, antes completamente opacificado pelo esconde-esconde do poder, seja esclarecido e transformado em fato político. Com isso, temos a possibildade de o senso comum virar bom senso. Ou não. Mais um teste para nossa frágil democracia.

    abração
    PS: estou agora na fase Agamben — tudo é “estado de exceção”.

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