Cunhadismo, Mamelucos e Bandeirantes

(…) Vocês percebem que a visão do mundo é diferente, são povos diferentes. Mas os índios tinham de encontrar um modo, e o modo que encontraram de obter esses objetos foi dentro da tradição indígena: é a instituição do cunhadismo. Quando chegava um estranho na aldeia, davam a ele uma mulher. Isso eles aplicaram: começaram a levar uma moça de cada aldeia. E como não havia comando geral para os índios em região nenhuma, pois cada aldeia era uma unidade autônoma, cada aldeia levava uma moça para o branco que se aproximasse mais deles. E como muitas aldeias levavam muitas moças, surgiu o cunhadismo. Quando um branco recebia essa moça, passava a ter cunhados, que eram os irmãos dela. Pelo sistema de parentesco classificatório, todos eram cunhados; e, com isso, o branco podia aliciar todos os homens de várias aldeias para cortar pau-de-tinta, levar nas costas e carregar uma nau. Uma nau dava 3.000 dólares, ou coisa assim, e era impossível pagar salário àquela gente. Portanto, foi o cunhadismo que permitiu estabelecer um parentesco, prover esses cunhados de facas, de miçangas.

Depois de algum tempo, porém, essa gente já tinha tudo o que queria e não estava tão estimulada. É quando surge a outra etapa, a do açúcar: era necessário aprisionar o índio como escravo para a produção de açúcar, e assim se estabeleceu uma guerra aberta. Mas vejam: no período anterior, o que há? Cada homem recebendo muitas mulheres. Os espanhóis foram mais cuidadosos: chegaram a fazer listas; um espanhol de Assunção teve oitenta mulheres. Pelos meus cálculos, o avô de vocês, João Ramalho, fundador da paulistanidade, não tinha menos de trinta mulheres índias. Fala-se de João Ramalho e Bartira, mas Bartira era coisa de jesuíta; levaram uma índia, deram a João Ramalho e fizeram uma cerimoniazinha. E o filho era dele, mas ele, pela importância que tinha, devia ter umas trinta mulheres. As descrições dele são poucas, mas deixam ver que Santo André era um covil de criminosos, uma coisa terrível. Os jesuítas descrevem isso: cada qual com muitas mulheres e muitos filhos, todos reproduziam em todas; era um carnaval.

Assim, o cunhadismo multiplica fantasticamente a população e dá origem a uma coisa nova, que se chama "mameluco". O filho da índia prenhada por um branco, quem era? Não era europeu nem indígena; era um ser que os jesuítas apelidaram de mameluco.

Aliás, "mameluco" é uma palavra para o menino criado na casa árabe. Os árabes tinham casa de criação de cavalo e casa de criação de gente. Tomavam meninos de dois anos de idade e os criavam; se era muito bruto, capavam e servia como eunuco; se era bom cavaleiro, guerreiro, podia ser um janízaro ou xipaio. Mas os que revelassem talento para exercer o mando alcançavam a alta condição de mameluco. Este era devolvido ao seu povo para administrá-lo; tinha, então, a cara de seu povo, mas a alma árabe.

Este apelido é a designação que o padre Montoya, autor da Conquista Espiritual, dá aos mamelucos paulistas, relatando o padecimento das missões jesuíticas paraguaias assaltadas pelos bandeirantes. Lá, acabaram com 300 mil índios catequizados pelas Missões. Isso é coisa dos paulistas também, a Bandeira.

É difícil hoje fazer uma idéia de uma Bandeira. Às vezes eram duas mil pessoas andando e acampando, como uma cidade. De vez em quando faziam uma roça para comer, depois caminhavam mais três, quatro meses. Assim puderam percorrer distâncias enormes e ofereceram combate prenhando gente. Os homens para o trabalho, e as mulheres, todas as que podiam trazer. Essas cidades móveis trouxeram um número enorme de mulheres; não há cálculo. Para formar o primeiro milhão de brasileiros, quantas mulheres índias foram prenhadas? Talvez duzentas mil, para um número muito menor de europeus.

Vemos então essa coisa espantosa: como Portugal, com apenas um milhão de habitantes, consegue dominar esse mundo enorme? Primeiro, com o cunhadismo; depois, pela ação do bandeirante. E o bandeirante, quem é? É o mameluco parido por uma índia, que não se identificava com a mãe, mas falava a língua da mãe. (…)

Darcy Ribeiro, "Sobre a mestiçagem no Brasil

 

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2 comentários em “Cunhadismo, Mamelucos e Bandeirantes

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