Bromélias em Eucaliptos

Criciumal visto a partir do Mirante da PR-405 - Guaraqueçaba-PR

A região que compreende o litoral norte do Paraná e o sul de São Paulo (grosso modo, entre Guaraqueçaba, Cananéia e arredores) é uma das maiores remanescentes da mata atlântica contínua e intocada. Ela parece, para muitos, abandonada. Mas grandes empreendimentos, em meio a características locais e interesses econômicos e políticos muitas vezes contraditórios, operam por lá.

Em primeiro lugar, ONG´s ou entidades vindas de fora (dezenas) buscam aplicar suas fórmulas na região. Por vezes as fórmulas seguem dois parâmetros: critérios discordantes entre uma e outra entidade; e receitas exteriores aos costumes e práticas das comunidades locais.

Outras vezes, a política é de isolamento. Financiadas por corporações estrangeiras, algumas ONG´s compram fatias de terra preservada em função de políticas de créditos de carbono. A preservação das grandes fatias daqui, isoladas por interesses exógenos e por vezes ambientalmente duvidosos, serve para a produção industrial de outros países.  

Em segundo lugar, alguns interesses coincidem com antigas práticas exploratórias de caiçaras por fazendeiros. As "empreitadas" (serviços de diversas espécies, ligados à roça ou à construção), de um lado, e as demandas de artesanato, por outro, criam relações semelhantes às do patrão x empregado, entre caiçaras e fazendeiros, ou representantes de outras entidades que buscam empreender na região.

Em terceiro lugar, além da questão ambiental, a região tem grande potencial turístico. E não raramente os interesses turísticos não confluem com os ambientais, muito embora os slogans sempre tendem a motivos "politicamente corretos". Isso sem contar o tipo de interferência dos turistas junto às culturas locais, especialmente de tipo cultural. Em uma região famosa pelo "fandango", hoje já se fala muito (às vezes mais) de forró. Ou nota-se por certos turistas descolês uma espécie de preciosismo consumista (como aquele do século XIX, que via no nativo um remanescente de uma era de ouro) reverenciado a idosos locais representantes da "raiz". Preciosismo que, não obstante, não se aplica para com os representantes jovens da mesma cultura.

Em quarto lugar, outro problema é o que se pretende por cultivo "ecologicamente correto". Arrasar uma grande área de mata para plantio de espécies nativas (palmito e banana, por exemplo) é algo bem diferente de plantar espécies nativas no meio, integradas à mata. Outra questão refere-se ao cultivo de espécies exógenas, como eucalipto e búfalos – dois elementos que arrasam a mata, e não permitem a recomposiçao.

No meio de tudo, fica a população local, os "caiçaras". Donos de uma cultura ímpar, remanescentes de antigos povoados indígenas e colonização portuguesa, permanecem reféns das medidas provenientes de fora. Atualmente existe um movimento de saída dos mais jovens, especialmente em busca de trabalho. Alguns pescadores reclamam da falta gradativa de peixe a cada ano, fruto da ausência de fiscalização junto a corporações de pesca maiores, e desrespeito às épocas de pescaria.

No âmbito do trabalho, um grande espectro de associações de moradores, cooperativas incipientes, e micro-empresas, joga com os elementos acima. Os exemplos pululam, da implantação de micro empresa onde antes havia projeto de cooperativa, passando pela plantação por arrasamento da mata, e a fiscalização duvidosa, frequentemente rigorosa com pequenos produtores, enquanto deixa fazendas de búfalos e outros cultivos abrirem gigantescas clareiras. Outras entidades solicitam artesanato dos moradores, para composição de lembranças de perfume – alternativas de trabalho que não resolvem os problemas locais.

Como resultado, algumas imagens curiosas depontam no caminho, próximo a Guaraqueçaba. Essas, por exemplo, mostram criações de búfalos muito perto de reservas como a do Salto Morato (conhecida nacionalmente pela Boticário). Ou cartazes de moradores com o curioso enunciado: "adote um trabalhador da cara roxa". Outros reclamam sobre o desprivilégio dos caiçaras diante das práticas locais. Quem tiver oportunidade para visitar a região, verá plantações de eucalipto e boa dose de búfalos.

Nas fatias de floresta compulsoriamente isoladas, um dos grandes nomes é a SPVS. Financiada por grandes corporações internacionais, compra porções de terra, em política de créditos de carbono. Esse informe é interessante por apontar uma tese de doutorado que explora a ideologia ambiental nas ONG´s em Guaraqueçaba (como a SPVS), introduzindo também a questão dos créditos de carbono. No scielo, diversos estudos analisam a região desde o âmbito biológico, ao sócio-ambiental.

Uma imagem hoje notável é a grande plantação de palmeira real próxima a Guaraqueçaba. Trata-se da "Fazenda Palmeira Real", da Agrosepac. Além do palmito, plantam também "3.000 hectares de Pinus spp e Eucaliptos Dunnii e 1.500 hectares de mata nativa". A "Reserva do Salto Morato" não fica longe dali. Mas a plantação cobre uma grande extensão da baixada. Estive no local há sete anos, e recordava a vista abaixo. Na época, predominava a mata. Hoje, o palmito:

https://i1.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/meio1.jpg

No meio de tudo, o caráter "sócio-ambiental" da região impõe sempre algumas questões. Aparentemente, a região está abandonada. Mas grandes forças operam por lá. De que modo tais forças (ou out
ras) poderiam tornar real um chavão tão enunciado por elas mesmas? Trata-se do "desenvolvimento justo, ambientalmente correto". Pequena expressão, com um catatau de contradições e significados…

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2 comentários sobre “Bromélias em Eucaliptos

  1. Interessante este teu ponto de vista. Estive domingo passado lá, depois de pedalar 165 km. Pedalando, pode-se ter uma noção mais exata de como a região vem se modificando, lentamente.
    Nos meus pedais por várias regiões, e Guaraqueçaba é uma delas, a minha favorita, noto a praga do reflorestamento com as espécies exóticas, pinus e eucalipto, por tudo quanto é
    canto. Ouve-se, de todo tipo de gente, que é um bom negócio, tais como os gigolôs de boi,
    pois é só deixar crescer e lá na frente tem-se um excelente rendimento econômico.
    O poder público é conivente com tal situação, quando não, é o próprio financiador. Locais
    como Tijucas do Sul, próximos as serras do Quiriri e Araçatuba, a região da Guaricana,
    também próximas da serra do mar, estão completamente tomadas por estas pragas. Nota-se
    claramente que a mata nativa foi derruba e um “reflorestamento” foi plantado em seu
    lugar.
    Os locais chamam isto de progresso, por que respinga algum emprego pela região, o poder
    público local talvez receba mais impostos, e a natureza, esta que se dane.
    Não consigo compreender por que existem facilidades para este tipo de empreendimento, que
    arrasa a terra em regiões virgens, e volta e meia aparece, na televisão, um arraia-miúda
    preso por ter passarinhos silvestres em casa.
    Enfim, tanto já vi, que já não me espanta mais, apesar da tristeza que fica, em algumas fotos que faço.
    Quanto as ONGs bem, sabendo como são formadas, e como são fiscalizadas, não dá para esperar muita coisa.

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