Atenções para o Afeganistão

afghanistan Afghanistan - begging woman
 
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É curioso o movimento dos jornais anunciando agora a retirada em breve das tropas norte-americanas do Iraque, enquanto aumentam as notícias sobre complicações na invasão afegã (que pode não ser passageira, bem como a calmaria iraquiana).

Como Robert Fisk já disse diversas vezes, o Talebã é um regime de refugiados, que conseguiu fazer com que a voz de refugiado (no mal sentido da palavra, de precariedade em todas as partes da vida) se transformasse na voz de um país inteiro.

Aí reside o caráter "radical" do regime, unido a barbaridades como suas interpretações do Islã e a derrubada de antiquíssimos monumentos budistas. Em outros tempos, esse mesmo secto já foi o "galante povo afegão" [sic], de um grande blockbuster norte-americano. Mas vendo o Talebã se reerguer, a conclusão é óbvia: guerrear com refugiados de guerra apenas os faz continuar o que são: refugiados de guerra.

Nisso, percorrendo um link via Hermenauta, pode-se encontrar uma boa lista de blogues e material sobre o Afeganistão. Talvez vários deles digam o que não se dirá por agora, nem pela frente.

***

Vale a pena citar uma extensa passagem do Great War for Civilization, a propósito da questão de Alba, sobre o caráter de "refugiados" do Talebã (que significa em Pashtu "estudante"):

WITHIN NINE months, by March 1997, I would be back in a transformed, still more sinister Afghanistan, its people governed with a harsh and ignorant piety that even Bin Laden could not have imagined. The Taliban had finally vanquished 12 of the 15 venal Afghan mujahedin militias in all but the far north-eastern corner of the country and imposed their own stark legitimacy on its people. It was a purist, Sunni Wahhabi faith whose interpretation of sharia law recalled the most draconian of early Christian prelates. Head-chopping, hand-chopping and a totally misogynist perspective were easy to associate with the Taliban’s hostility towards all forms of enjoyment. The Spinghar Hotel used to boast an old television set that had now been hidden in a garden shed for fear of destruction. Television sets, like videotapes and thieves, tended to end up hanging from trees. "What do you expect?" the gardener asked me near the ruins of the old royal winter palace in Jalalabad. "The Taliban came from the refugee camps. They are giving us only what they had." And it dawned on me then that the new laws of Afghanistan – so anachronistic and brutal to us, and to educated Afghans – were less an attempt at religious revival than a continuation of life in the vast dirt camps in which so many millions of Afghans had gathered on the borders of their country when the Soviets invaded 16 years before.

The Taliban gunmen had grown up as refugees in these diseased camps in Pakistan. Their first 16 years of life were passed in blind poverty, deprived of all education and entertainment, imposing their own deadly punishments, their mothers and sisters kept in subservience as the men decided how to fight their foreign oppressors on the other side of the border, their only diversion a detailed and obsessive reading of the Koran – the one and true path in a world in which no other could be contemplated. The Taliban had arrived not to rebuild a country they did not remember, but to rebuild their refugee camps on a larger scale. Hence there was to be no education. No television. Women must stay home, just as they stayed in their tents in Peshawar.

Did we care? At that very moment, officials of the Union Oil Co of California Asian Oil Pipeline Project – Unocal – were negotiating with the Taliban to secure rights for a pipeline to carry gas from Turkmenistan to Pakistan through Afghanistan; in September 1996, the US State Department announced that it would open diplomatic relations with the Taliban, only to retract the statement later. Among Unocal’s employees were Zalmay Khalilzad – five years later, he would be appointed President George f W Bush’s special envoy to "liberated" Afghanistan – and a Pushtun leader called Hamid Karzai. No wonder Afghans adopted an attitude of suspicion towards the United States. America’s allies originally supported Bin Laden against the Russians. Then the United States turned Bin Laden into their Public Enemy Number One – a post that was admittedly difficult to retain in the Pentagon wheel of fortune, since new monsters were constantly being discovered by Washington, often in inverse proportion to its ability to capture the old ones.

A passagem está entre as páginas 29-32 da edição Harper-Perenial, e corresponde à 3ª entrevista feita com Bin Laden. Diversas passagens foram também publicadas no site de Robert Fisk, inclusive a citação acima.

A fórmula parece muito interessante, por destituir interpretações "voluntaristas" do regime afegão – muito embora diversos elementos voluntaristas sempre estiveram bem vivos, especialmente
para financiá-los durante a ocupação russa, como bem disse a Alba. 

***

Agradeço as considerações recebidas no último post. Andei fuçando por aí, e como o Marcus disse, realmente o número de leitores RSS (que aumentou muito, em vista da grande diminuição de outros índices) é um bom motivo de continuar o blogue. No entremeio das questões que afetam o Catatau, está um novo início de LER no braço direito, alguns problemas de vista, e muito trabalho pela frente.

Mas outros comentários fizeram pensar também outra coisa, alheia à questão dos leitores, e mais próxima da vida deste que vos escreve: o mesmo motivo para parar é o melhor motivo para prosseguir 😉

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4 comentários em “Atenções para o Afeganistão

  1. O Afeganistão é uma terra dividida entre grupos étnicos, como você sabe, com predomínio dos pashtuns. Só não tenho certeza se dá pra considerar os Talebã como refugiados, não mesmo.

    Mesmo com mil desculpas pelas imprecisões, me parecem um grupo radical alimentado pela CIA, quando lhe foi conveniente e mantido, claro, como todos sabemos, pelo comércio de ópio e derivados. Ou seja, sem a menor originalidade, só posso constatar que certas ações do final da Guerra Fria, só tornaram certas regiões que já eram instáveis, em MAIS instáveis. 😦

  2. Gostei muito deste post. Percebi que preciso me inteirar mais sobre o que acontece no Afeganistão. Eu cheguei a conclusão de que o Médio Oriente, tem o poder de ir mudando cenários mundais. O que eles decidem, afeta a todos nós.
    Mas sei tambem que existe muito pré-conceito sobre aquele país, muitas vezes totalmente ignorantes, baseados apenas no que os veiculos de cominucação veiculam.. e isto é o pior.

    Voltarei aqui.
    Lerei mais sobre o Médio Oriente tambem.
    Abraços

  3. Catatau, rélpimi!!

    Escrevi um longo comentário que foi simplesmente abduzido (Hummmpfff!)

    RE: Putz! Pior que dessa vez nossos amigos irlandeses do blogsome nem conduziram o comentário para moderação. :/

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