O Homem, o Monstro e o Anencéfalo

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Monstrorum Historia (Aldrovandi, 1642)
Por uma incrível coincidência com o recente affair sobre o aborto dos anencéfalos, na semana passada vinculamos um curioso livro, escrito em 1880, que trata na introdução precisamente de um “caso” de anencéfalo. Trata-se do Histoire des Monstres depuis l’antiquité jusqu’à nos jours, de Ernest Martin.

Na Introdução, ele menciona a descoberta de uma múmia em 1826, por Etienne Geofroy Saint-Hilaire, em Hermópolis (detalhes e links no post antigo).
Até aí, tudo bem. A grande diferença é que a múmia foi encontrada em tumbas reservadas não para homens, mas para animais sagrados. Tratava-se de um “ser humano e ao mesmo tempo monstruoso”. Junto à múmia, um pequeno entalhe representando um macaco.
Tratava-se bem, com efeito, de uma dessas anomalias da organização, que ele viria a estudar com tanto cuidado e que descreveria em diversas memórias sob o nome de Anencéfalos, isto é, de seres privados de cérebro (…)
Assim, teria-se embalsamado, e depois sepultado, um ser nascido de mulher, mas cuja origem se considerava como bestial; ser assimilado a um animal, mas de uma espécie que, na simbologia egípcia, ocupava primeiro plano e que a religião prescrevia conservar piedosamente os restos; em uma palavra, honraria-se como animal sagrado; excluído das tumbas humanas, mas recolhido na necrópole de Hermópolis, para a posteridade um dia encontrar nele o testemunho indiscutível da crença dos egípcios na origem bestial de seres humanos monstruosos.
Zakiya Hanafi continua, em um curioso livro intitulado The Monster in the Machine : Magic, Medicine, and the Marvelous in the Time of the Scientific Revolution: tratava-se de um bebê, e a constatação de Martin, sobre povos orientais antigos conferirem respeito e caráter sacro ao “monstro”, contrasta com o tratamento dos povos ocidentais (ou de legado ocidental): na Lei das Doze Tábuas, permitia-se matar monstros imediatamente; em diversos povos europeus, representavam maus presságios e/ou se descartavam.

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 Monstrorum Historia (Aldrovandi, 1642)
Um dos significados principais do “monstro” desde a antiguidade que geraria o ocidente, diz Hanafi, é o da etimologia grega de “bárbaro”: é o estrangeiro, alguém que “não é um de nós”. A monstruosidade indicaria aquilo a partir do que posso dizer algo como “sou assim, sou eu, sou homem, porque não sou isso”. “Sei que sou humano porque não sou aquilo“, afirma Hanafi.
Além do mais, as etimologias latina e grega (monstrum e teratos) indicariam uma espécie de marca, desígnio ou prodígio, provindo antes das artes divinatórias do que da observação da natureza.
O monstro é o deformado, aquilo que sai das formas reconhecíveis e ordinárias, e por isso ameaça toda lei (que, jurídica, informal ou não, sempre se pretende “natural”). Além do mais, o parentesco com o sacro e com a animalidade – com os limites superiores ou inferiores da “humanidade” – advém precisamente das deformações, mais ou menos fantásticas. O monstro é uma espécie de “marca”, que ou denota a ausência e o não-ser, ou carrega um excesso de significados.
Na discussão atual, o que se nota é a ausência de recursos para qualquer parâmetro: parte-se do fato de que o anencéfalo não terá uma vida “normal”, e via de regra não terá por definição nem “vida”. Ou melhor, o parâmetro é o próprio “fato”, ligado à norma vital, e às normas cotidianas, ao ordinário. A pergunta reside muito mais em nós mesmos: não perguntamos “como deve viver (ou morrer) um anencéfalo?”, mas “o que devemos fazer com ele?”. “Ele” não terá uma vida como a nossa, está além de um reconhecimento possível, e além  demais de qualquer identidade.

Mas dado que a formação de qualquer identidade se concretiza apenas com um cérebro (mesmo que com ele depois não se forme identidade alguma), nós mesmos sabemos a resposta. Ela apenas oscila tanto quanto a certeza de que a identidade apenas se garante com o cérebro. Aí se cria o mosaico da discussão entre cientistas, religiosos e juristas.

O problema se complica ainda mais com a definição de “humano”: a tradição nos deixou a valorização negativa do anencéfalo; mas os avanços da ciência permitem hoje dizer que aquele indivíduo que não terá identidade é, positivamente, um ser humano.

O mais incrível, o maior enigma (eu queria chegar aqui ;)) que se coloca no exemplo de Martin, é como uma sociedade tão antiga conferiu (sob uma espécie de “animalidade sacra”) caráter relativamente positivo a algo que, sob o crivo biológico de inadaptabilidade, para nós mesmos é negativo.

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3 comentários em “O Homem, o Monstro e o Anencéfalo

  1. Você aponta várias questões interessantes, Catatau, fica difícil discutir todas, seja porque sobre algumas nada sei que não seja o que vc acabou de me ensinar com o seu texto, porque concordo com outras e porque só em um ponto não sei se concordo contigo. Vamos lá. Vc diz:

    “A pergunta reside muito mais em nós mesmos: não perguntamos ‘como deve viver (ou morrer) um anencéfalo?’, mas ‘o que devemos fazer com ele?’. ‘Ele’ não terá uma vida como a nossa, está além de um reconhecimento possível, e além demais de qualquer identidade.”

    Você sabe como poucos fazer as perguntas certas sobre os aspectos muitas vezes dúbios, velados e/ou contraditórios das questões. Mas o problema que vejo no parágrafo acima está na primeira frase que vc pôs entre aspas, a pergunta (que deveríamos fazer-nos) “como deve viver (ou morrer) um anencéfalo?”. A questão é que há um consenso científico e jurídico (aceito tb pela ICAR, até onde sei) sobre morte — com com critérios pré-definidos e razoavelmente seguros — que passa pela chamada “morte cerebral”. Ora, como falar em “como deve viver” “um alguém” que não tem cérebro? (Nesse sentido, fica até difícil chamá-lo de “alguém”, não é?). Isso não invalida a dinâmica que vc aponta sobre a lida com o estranho, o bárbaro, por parte do legado ocidental, envolvendo “monstros” — com os “loucos” tb, não? —, afirmando a nossa própria humanidade em função do contraste com os primeiros. Com essa sua observação só posso concordar.
    Abs.

    RE: Parece que a ICAR defende ainda o feto anencéfalo, Ricardo. Gostei mto tb do teu post e os do Sergio Leo, e ele vinculou um texto que mostra bem isso.
    Mas no caso da passagem, penso que a mesma pergunta que você fez a partir dela é a que o próprio texto põe: o juízo oscila dependendo do referencial adotado, e até mesmo dentro de um mesmo referencial. O interessante é precisamente essa nossa oscilação do juízo, não é mesmo?
    abraços,

  2. Catatau, estou realizando um trabalho sobre Anencefalia, e descobri que o primeiro anencéfalo foi descoberto por Étienne Geoffroy Saint-Hilaire, você deixa isso bem claro no seu artigo, porém fiquei com uma dúvida. Você sabe qual foi a literatura em que Étienne publicou pela primeira vez a imagem de um anencéfalo? E qual imagem é essa? Se puder me responder agradeço.
    Meu email: lorenzini1989@hotmail.com
    Att,
    Renan Lorenzini

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