Elogio da chuva

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senhorita chuva
me concede a honra
desta contradança
e vamos sair
por esses campos
ao som desta chuva
que cai sobre o teclado
  -Paulo Leminski-
 

Pego um ônibus do Sul ao Planalto Central do país (sem os luxos de um Hermenauta :)). Lá fora, o calor castiga.
 
Avançando o ônibus pela Anhanguera, um padrão crescente: quanto mais calor e seco, maior o número de pessoas lavando calçadas com mangueira. Todo mundo sabe que lavar calçadas não resolve o problema da humidade (talvez resolva por uns 20 minutos), mas é incrível como o padrão  aumenta quanto mais ao norte o ônibus segue.
 
Por todo lado, cana de açúcar. Às vezes uma boiada, ou soja, ou outras grandes culturas de espécies exógenas, todas de grande agro-negócio. Descampados a perder de vista. No entremeio, algumas cidades, sempre espremidas entre os grandes empreendimentos, deixam a quem vem de fora a pergunta: com tanto espaço ao redor, como tanta casinha se espreme assim? E nas casinhas, aumenta o número de mangueiras lavando calçadas.
 
À noite, perto de um pedágio, um incêndio gigantesco. Seria o ar seco? Ou queima de lavoura, ou ainda de mato para plantação?
 
Talvez quem viaja e vê essas coisas ache interessante acompanhar os boletins de tempo, com o passar dos anos. A moça bonita do tempo sempre faz cara feia quando chega a chuva. Talvez essa cara feia expresse tudo aquilo que esperamos: depois de uma semana massacrante, um bom fim de semana ensolarado para extravasar tudo, e aguentar outra semana massacrante.
 
Ainda mais nesse calor: a semana inteira a fio trabalhando no ar quente e seco exige que, pelo menos nos momentos de diversão, não fiquemos em casa. Um bom fim de semana ensolarado pede uma cerveja, e bons encontros.
 
Para que a mocinha do tempo não faça mais cara feia, e para que tenhamos bons encontros depois de uma semana massacrante, os boletins do tempo cada vez mais contribuem. Talvez não precisemos ser doutos em climatologia para perceber que a imagem acima mostra um padrão notável: a ocorrência de gigantescas massas de ar quente que impedem o avanço das antigas frentes frias, vindas do sul. E impedem cada vez mais.
 
Como se a questão não fosse apenas de dizer se estamos em clima de Cerrado, nem se as chuvas apenas provém das frentes frias, mas sim que a grande massa de ar quente, característica da região, aumentou em força e alcance, devido a fatores não muito claros. Ou mesmo, como se o perfil da região se agravasse, com os grandes empreendimentos de agronegócio dos últimos 30 anos, com a colonização massiva dos estados do centro-oeste, e com os grandes espelhões que hoje caracterizam as culturas  regionais (gado, soja, cana).
 
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Além do clima ter papel direto sobre a vegetação, sempre se soube que a vegetação também influencia diretamente o clima. Não é necessário ser cientista para saber disso. Basta visitar uma floresta em dia de calor, ou mesmo de frio. A mata sempre teve seu "frescor". Ainda mais, para corroborar muitos saberes populares, diversos experimentos comprovam que a presença de  certos tipos de vegetação influi diretamente no clima de pequenos ambientes.
 
Que dirá o papel desses gigantescos espelhões de terra arada, e do ar seco decorrente de quilômetros de plantação lisa.
 
Entre a moça do tempo, os lavadores de calçada, e nós mesmos, extravasadores dos fins de semana, talvez esse ar seco e céu cinza diga muito, ou não diga nada. Estaremos preocupados demais com soluções a curto prazo, como os lavadores de calçadas? Não queremos saber de nada além do prazer momentâneo, como os trabalhadores-alvo da moça do tempo?
 
Seguramente certa é a beleza dos dois poemas de Leminski, acima e abaixo 😉
 
 
temporal
fazia tempo
que eu não me sentia
tão sentimental
-paulo leminski-
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5 comentários em “Elogio da chuva

  1. Olá amigo catatau, como está tudo? seu blog continua interessantíssimo… uma aula de postagens intelidentes e sensíveis. Estou em novo blog, nova nomadologia. Ainda em fase de construção, em breve novas linhas_texto/imagem poderão ser avistadas/visitadas por lá. Deixo aqui o endereço: http://newnomadology.blogspot.com/

    Um grande abraço.

  2. Alias, sempre gostei de chuva. Talvez por ser filha de agrônomo e desde cedo compreender a importancia da chuva para a manutenção do mundo.

    Gosto de chuva também, simplesmente pelo clima… pela cor do céu, pela melancolia do jogo de sombra, pela alegria dos pingos tocando a pele.

    Um abraço

  3. Oi Marcela!

    Muito bom reve-la por aqui! Fique sabendo que sua falta foi muito notada.

    Tem um outro poema muito legal do Leminski sobre chuva, postaremos logo logo viu?

    abraços!

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