Isso Fed!

Comunicado do Federal Reserve, sobre os 85 bi que estatizaram hoje o American International Group:

o empréstimo tem respaldo do Tesouro "com termos e condições desenhadas para proteger o governo dos Estados Unidos e os contribuintes". "O propósito dessa linha de liquidez é ajudar a AIG a cumprir as obrigações à medida que vençam."

A crise – diz-se – não afetaria apenas o governo e empresas dos EUA, mas geraria uma reação em cadeia afetando diversos outros mercados.

Sobre isso, o Ryff enunciou uma passagem lapidar, sobre a estranheza de nosso novo mundo:

Este mundo está mesmo de cabeça para baixo, como já percebeu o Quiroga…  o grande defensor do livre-mercado, o governo dos EUA, resolveu apelar para a estatização para salvar a seguradora AIG; e Cuba pediu que o embargo norte-americano, que dura 40 anos, seja suspenso.

Acompanhando a observação dele, basta ver o tom de diversos dos principais jornais do mundo:

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Ou ler também o que se multiplica por aí, na linha do Josias de Souza:

São providências que, até bem pouco, pareciam impensáveis no templo do liberalismo, na meca da livre iniciativa, no Éden do mercado auto-regulado.

Recorre-se lá a uma justificativa muito encontradiça aqui, no Brasil da era FHC: o governo precisa evitar o “risco sistêmico.” O Estado encampa a encrenca, saneia o rombo, engole o prejuízo e devolve empresas financeiras saudáveis ao mercado. 

Desconheço o suficiente de economia, para não duvidar das consequências catastróficas no mercado mundial, caso não se injetasse tanto dinheiro em empresas privadas. Mas dada a medida, pareceria interessante revisitarmos o que se disse sobre a mesma economia nos últimos 30 anos, especialmente na discussão entre as noções de Welfare State e Neoliberalismo.

Desde então, proclamou-se muito o fato de que o Mercado – como em antigas doutrinas liberais – deveria ser um fim em si mesmo, sem a intervenção de algo semelhante a uma Vontade estatal. Como se aquele velho preceito de Adam Smith, sobre a iniciativa individual relacionada à "mão invisível" regedora das liberdades, reaparecesse, reeditado.
 
De todo modo, o Mercado foi desde então um fim em si mesmo, com críticas a intervenções estatais… até agora. Como se o princípio liberal se reeditasse em apenas alguns de seus caracteres exteriores e, no fim das contas, valesse apenas por certas conveniências.
 
Como se o jogo, acordado por todos, tivesse secretamente um dono, e esse dono devesse ser sempre o vencedor, mantida a regra de que é café com leite, e se não for assim todo o jogo cai por terra.
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3 comentários sobre “Isso Fed!

  1. Esse povo é uma comédia. Pregam a não intervenção do Estado na economia… mas sempre que as coisas ñ vão bem quem eles chamam para salvar seus investimentos? Bingo! O Estado. Mas só qdo é pra dividir o prejuízo, pq qdo for pra dividir o lucro…

  2. Oi Adriano!

    Entendi tua análise, mas a questão clara é – como vc tb mencionou – a das relações entre discurso e ação.

    Você está certo no que diz, sobre práticas misturadas esquerdistas e direitistas. De todo modo, é muito interessante sermos catequizados por discursos cuja validade é sempre relativa, e foi mais ou menos por aí que tentei puxar a sardinha…

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