A Ocupação de Israel – Israel’s Occupation, de Neve Gordon

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Via Foucaultblog, o informe abaixo, sobre o livro recém publicado Israel´s Occupation (aparentemente baseado nos procedimentos analíticos de Michel Foucault, parece muito interessante):

Applying the work of Michel Foucault to the contemporary Middle East, this highly theoretical book examines the “means of control used to manage” the Palestinian population in the Occupied Territories of the West Bank and the Gaza Strip. Gordon, a professor of politics at Ben-Gurion University, begins by exploring the diffuse mechanisms of power—in the political, civilian, geographical and economic arenas—used to normalize the occupation in its first years, making the ostensibly temporary occupation permanent. Later chapters take a more specific historical approach, examining a series of events that radically transformed these power structures: the first intifada, the Oslo Accords and the second intifada, which, the author argues, required a reorganization of Israeli power in the Occupied Territories, leading to the disregard of the Palestinians inhabiting those territories. Gordon focuses on the treatment of Palestinians in the Occupied Territories and writes for a decidedly scholarly audience; as a result, the book’s usefulness beyond academics will likely be limited. (Nov.)

 Informe da Amazon:

This first complete history of Israel’s occupation of the West Bank and the Gaza Strip allows us to see beyond the smoke screen of politics in order to make sense of the dramatic changes that have developed on the ground over the past forty years. Looking at a wide range of topics, from control of water and electricity to health care and education as well as surveillance and torture, Neve Gordon’s panoramic account reveals a fundamental shift from a politics of life–when, for instance, Israel helped Palestinians plant more than six-hundred thousand trees in Gaza and provided farmers with improved varieties of seeds–to a macabre politics characterized by an increasing number of deaths. Drawing attention to the interactions, excesses, and contradictions created by the forms of control used in the Occupied Territories, Gordon argues that the occupation’s very structure, rather than the policy choices of the Israeli government or the actions of various Palestinian political factions, has led to this radical shift.

Um pouco do tom do livro se expressa nesse pequeno texto, de onde destaco a citação dessa "mudança" de "gestão" dos palestinos:

The appearance and proliferation of the flag on the one hand, and the razing of trees on the other, signify a fundamental transformation in Israel’s attempts to control the occupied Palestinian inhabitants. It appears as if Israel decided to alter its methods of upholding the occupation, replacing a politics of life, which aimed to secure the existence and livelihood of the Palestinian inhabitants, with a politics of death [continua lá].

O que parece estranha é a alusão ao uso apenas "limitado", "acadêmico" das análises de Gordon, contida na primeira citação. Especialmente ao lado da menção a Michel Foucault. Será? Isso faz lembrar diversas considerações do próprio Foucault a respeito do papel do intelectual, da crítica, e das lutas possíveis, relativas às aplicações do "poder". De um lado, as "pequenas" lutas, uma analítica localizada, focada nos pontos dispersivos de apoio, proliferação, e manutenção de determinadas relações de forças. Mas de outro, a erudição. O que equivale a dizer: nunca análise meramente "acadêmica", mas análise microscópica, atenta a práticas dispersas, disjuntivas, porém correlatas e engendradas. Delimitação de práticas nunca isenta, mas sempre compromissada com certas questões também de ordem prática.

Enfim, uma crítica que pode ser erudita, porém nunca descompromissada. Pelo menos é o que esses informes nos convidam a ler e problematizar.

Mais: Wiki de Gordon (com links), página do livro (com outros artigos e links), e entrevista sobre o livro.

Comprar o livro na Amazon, ou na Livraria Cultura, ou ainda pesquisar preços.

***

Teoria e Prática, Academicistas e Ativistas

Aliás, aquela observação do valor apenas "acadêmico" da obra de Gordon revela um grande preconceito. Entre a erudição, e as "pequenas" vozes (as inspirações pelas quais hoje se pesquisam, por exemplo, monomaníacos homicidas do século XIX, ou movimentos sociais) existe uma certa tensão: Erudição se confundiria com arrogância, academicismo vazio, afastado do concreto.

Mas aí está o vínculo, e a necessidade de superar a tensão: para dar conta do domínio da Palestina, mais do que empunhar bandeiras e explodir corpos revoltados (um ativismo irrefletido, de consequências terríveis), torna-se necessário analisar os pontos de aplicação da gestão, a fiscalização policial, as políticas junto aos fazendeiros, a organização arquitetônica dos assentamentos judaicos…

Não existe (não deveria existir) academicismo abstrato de um lado, e militância concreta de outro. Quem considera essa separação, em trabalhos como os que discutimos, não enuncia nada mais do que um preconceito ingênuo, mascarado pura e simplesmente por arrogância. Cabe dizer isso – no Brasil, muita gente se alimenta desse preconceito. Se afastam tanto esse tipo de erudição, chamando-a de "arrogante", "abstrata", "academicista", deveríamos nos perguntar de onde vem essa arrogância mesma que chama o outro de arrogante.

Deveríamos nos perguntar sobre esse despeito para com o rigor. Se de um lado é uma crítica válida  a certas tradições eruditas-elitistas brasileiras (no caso tupiniquim, características de ilustres faladores de javanês), de outro não revelaria (quando direcionado a contextos como o em questão) um ativismo estéril, e preguiça intelectual? 😉

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Um comentário em “A Ocupação de Israel – Israel’s Occupation, de Neve Gordon

  1. Ótimo post.
    É em razão destes intelectuais “puros” e “imparciais” que tornam cada vez maior o abismo entre a teoria e a prática.
    Por outro lado, corroboram com o dito ativismo assistencialista, que na prática norteia quase todas as organizações internacionais, como o FMI, ONU, OMC.
    Poderia citar inumeros exemplos, mas vejamos a prática do FMI, sua função é “ajudar” emprestando o dinheiro aos países signatários em situações de necessidades, jamais a crítica destes academicistas será permeada do peso político e ideológico destas práticas bondosas que colonizou todos os países de terceiro mundo [ou em desenvolvimento, como queira chamar].
    De igual forma vejo as análises das questões do oriente médio [palestinos, curdos, afegãos, etc.] que chegam a nós são todas destituídas do valor histórico, cultural, político, religiosos daqueles povos, todas lidas pelo olhar do poder hegemônico ocidental… poucos são os cientistas que conseguem efetuar um trabalho que tenha uma visão diferente do senso comum, sem pressupor que lá estão os maiores bandidos da humanidade.
    Concordo com sua afirmação de trazer o mundo real para a análise acadêmica, mas confesso que temos imensa limitação de transpor estas barreiras, citando o meu caso, muito embora minha pesquisa tenha a intenção de trazer dados empíricos da realidade à análise teórica, me falta conhecimento antropológico e sociológico para esta coleta de dados, ou seja, além do trabalho ser maior, o currículo estudado até então jamais trouxe a ampliação do horizonte do pesquisador.
    Neste caso, muito além da questão de assepcia das críticas, os currículos são feitos para que não haja diálogo entre as diferentes ciências [interdisciplinaridade], assim, continuemos a operar dentro da lógica de ciência positivista acrítica e reproduzindo o senso comum científico e político.
    Pensar criticamente, como sempre digo, dá trabalho, mais trabalho cansa… e a preguiça é a mãe dos homens!!! Risos!
    Abraços,
    Dani Felix

    RE: Olá Dani!
    Então, o post tentou mostrar algo um pouco contrário disso: que é sim preciso erudição para sair do lugar comum… Que a crítica ao academicismo é válida, localizadamente aos que sustentam posição meramente academicista, mas que o rigor nunca deveria ser deixado de lado, e portanto critica-se injustamente muitas pesquisas dizendo que são “afastadas da realidade” quando o rigor é essencial… e que, enfim, denotaram a pesquisa de Gordon como meramente academicista, quando ela contribuiria (pelo menos segundo os informes acima) muito mais em discussões sobre ética, política, militância, e assim por diante.
    Enfim, tentamos chamar a atenção ao fato de que a erudição é um instrumento, e fora determinados contextos, a crítica da erudição como meramente “academicista” não é válida, e estudos como o de Gordon serviriam para mostrar isso (pelo menos segundo os informes acima). Mais ou menos por aí, o que você acha?
    abraços,

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