O Livro Negro da Psicanálise, e seus avessos

 

 

Interessante o texto de Jorge Forbes sobre um catatau intitulado "O Livro Negro da Psicanálise", que reúne diversos pesquisadores atacando Freud e seu legado.
 
Destaque para a passagem sobre o tempo das "boas críticas" (onde se pensava muito mais do que problemas simplesmente teóricos, já que estes seriam constitutivos da própria psicanálise e das mudanças na pesquisa de Freud, e perdurariam nas psicanálises do século XX) já ter "passado".
Desde o pós-guerra, muito trabalho foi feito pelos seguidores de Freud e uma crítica de dimensões inteligentes e relevantes ganhou corpo. Foi esse o tempo de Foucault, Deleuze e Guattari, Sartre, que o jornal “Nouvel Observateur” deixou passarem tão rápido. Esses críticos observaram mais que as pequenas sombras “noirs” de uma obra: debateram a liberdade e a responsabilidade do paciente e do clínico, a criação possível de sintomas nas práticas psi, suas conseqüências sociais e culturais. São críticos que dispensam apresentação, reconhecidos pela grandeza, o rigor e a perspicácia de seus trabalhos, e pela elegância de seu estilo. São ícones da cultura, parte importante de uma transformação no pensamento ocidental no século XX. A quem quer ler uma crítica à psicanálise, é desperdício ler menos que eles.
Em contexto semelhante, Rene Major comenta o lançamento desse livro, na mesma época em que preparava uma nova biografia sobre Freud:
“O livro negro da psicanálise” chocou os meios psicanalíticos franceses pela violência dos ataques contra Freud e Lacan. Qual sua opinião sobre esse livro?

Major : Na época do lançamento do livro, o jornal “Libération” me pediu uma crítica. Eu perguntei qual era a opinião deles. Disseram-me que achavam o livro medíocre, detestável. Eu lhes disse que eles é que deveriam escrever isso. E tive prazer de ver duas críticas que não vinham de psicanalistas, principalmente a do editor do jornal “Charlie Hebdo”. Cabe à imprensa tomar posições, pois os psicanalistas podem parecer que defendem seus interesses, o que não impede que desenvolvam argumentos contra o que se passa com esse gênero de fenômeno.

O que é interessante no editorial de “Charlie Hebdo” é que ele mostra que não é um fenômeno que diz respeito apenas à psicanálise, mas existe também em relação à literatura, à filosofia -no centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre, “Le Nouvel Observateur” publicou na capa “É preciso queimar Sartre?”. Jean-Luc Nancy mostrou no “Le Monde” como atacam sistematicamente Heidegger e Freud. Ora, o que os cognitivistas ressuscitam é o respeito ao código positivista com o menosprezo de tudo o que o pensamento freudiano desenvolveu e que não se reduz nem se resume à metafísica, nem à ciência, no sentido que se dá ao termo até Freud. Querem recuar um século.

O que parece interessante é o conjunto das críticas provirem das novas psicologias, e daquilo que Paul Fraisse previa ser nos anos 80 (acabou sendo nos anos 90, e ainda hoje) a "década do cérebro". Freud se apoiaria em fundamentos neurológicos, antropológicos e científicos duvidosos, tributários demais do século XIX, e já mais que ultrapassados.
 
Em contrapartida, atualmente muito se pensa a respeito de como essas novas psicologias se remeteriam a problemas também tributários do século XIX, como por exemplo o de um naturalismo ingênuo, ou hipostasias de diversas ordens (como as que confundem noções jurídicas ou significações sociais com conceitos científicos, por exemplo).
 
Enquanto nada se resolve, criaram já o "Anti-Livro Negro".
 
***
 
Síntese do livro, reação de Elisabeth Roudinesco, Charles Melman, e outros debates no Wikipedia.
– Comprar o livro na Livraria Cultura.
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5 comentários sobre “O Livro Negro da Psicanálise, e seus avessos

  1. Lembro do lançamento desse livro, Catatau, e como ele reafirma esse estilo “porrada 10, sutileza 0” que anda grassando por aí.
    Mais parece uma briga por espaço no setor de saúde do que propriamente de uma crítica consistente e válida sobre o lugar da psicanálise na contemporaneidade, i.e., sobre o que haveria nela de atual e de ultrapassado em termos teóricos e práticos, etc. Aliás, o próprio artigo publicado na página do Forbes — mas que pelo que entendi é de Andréa Naccache, não do Forbes —, comenta algo interessante sobre a matéria do Nouvel Observateur a respeito do livro:
    “Sob o título ‘É preciso acabar com a psicanálise?’, a notícia do ‘Nouvel Observateur’ reconhece o livro como parte do movimento das diversas orientações psi na França, em vista a influenciar as políticas do Ministério da Saúde.” (grifo meu)

    Coincidentemente, estou cá relendo com cuidado um belo livro do psicanalista Pierre Fédida, “Dos Benefícios da Depressão – Elogio da Psicoterapia”, que em seu prefácio já comenta sobre “(…) a lenta abrasão do trágico da experiência humana” (p. 14), essa tendência de se extirpar, à base de fármacos, a negatividade da dita experiência — que o autor traduz como “pulsão de morte, destrutividade, culpabilidade, masoquismo originário” (id.) —, e por conta do que ele diz ser “(…) uma banalização médica da depressão (…) [onde] os próprios psicanalistas sentem-se tentados a (…) promover uma psicoterapia intersubjetiva regulada por critérios de eficácia da readaptação do indivíduo” (p. 15) (grifo meu).

    E no meio disso tudo, repete-se o constante movimento do revolucionário transformando-se em instituído (caso da psicanálise), tendo o seu lugar contestado (em parte de maneira legítima) para novamente voltar a carregar uma aura de revolução, em meio a novas críticas que mais parecem vindas de quem quer o seu lugar institucional…

    RE: “em vista a influenciar as políticas do Ministério da Saúde” – aí está um “argumento” para a truculência, de fato! Especialmente na França, pelo que parece, pelo forte legado psicanalítico.
    Quanto às tuas considerações, muito interessantes! Ainda mais porque, pelo que parece, o Fédida não repôs apenas uma certa espécie de debate estereotipado “subjetivo versus objetivo”, mas chamou a atenção a certos elementos que, embora envolvam algo relativo à “doença”, não fazem parte dela, como a ampla questão do trágico. Como se o psicofármaco mais perfeito deixasse um resíduo que nunca se deveu ao doente, mas que o doente não deixa de manifestar.
    Tem um texto muito interessante do Foucault sobre isso, chamado “A Loucura, ausência de Obra”.

  2. Catatau, que fique claro: sou seu leitor assíduo. Só não sei comentar aqui. Eu tento, sério. Mas fico pensando que qualquer coisa que eu escrever vai soar meio bobo. Irrelevante.
    É o que teu blog e, muitas vezes, o blog do Ricardo aí em cima, me causam.

    Um dia chego lá.

    Grande abraço,
    André

    RE: Olá André!
    Pô, se o fim de um blogue é estabelecer interlocução com seus leitores, então teu comentário indicou um grande defeito nosso!
    Abração,

  3. Eu li a versão em espanhol do livro. É bem interessante…

    A idéia é fazer como o Dawkins tem feito com as religiões, não ter dó nenhuma (ou respeito, dependendo do ponto de vista) e dizer abertamente o que se pensa do assunto, mesmo que soe agressivo.

    A agressividade é o ponto forte do livro, mais ou menos na linha: vamos convidar todo mundo que queira bater no Freud, cada em sua área um ataca um ponto fraco. Se o livro do Dawkings promete que o leitor vire ateu depois da leitura, este promete que a psicanálise nunca mais seja levada a sério.

    Se os livros conseguem isto, é outra história.

    Mas, em suma, bastante divertido! E alguns argumentos são fortes e concisos. Mas, basicamente a reedição de argumentos antigos, desta vez compilados (a idéia do Popper de que psicanálise não é ciência, por exemplo, é um dos mais citados).

    Uma vez fiz um post rápido sobre os meandros do livro negro:
    http://meandros.wordpress.com/2008/01/10/meandros-do-comportamento-humano/

    RE: Quanto a teu post, pensei na hora no Livro do Desassossego, do heterônimo “Bernardo Soares”. Existe lá todo um conjunto de questões “existenciais”, toda uma análise das sensações, que em diversos momentos se pode pensar também em figuras como Freud. Mas embora Soares faz uma analítica das sensações, nunca propôs a ninguém uma “aisthesisanálise”, rsss
    Sem contar que Proust é munição para outros críticos de Freud

  4. Grande Catatau,

    Uma crítica interessante à psicanálise, uma crítica, digamos assim, “epistemológica”, é a de Adolf Grünbaum (li seu “Les fondements de la psychanalyse” e gostei).

    Pessoalmente, quando era psiquiatra, não tinha muito simpatia pela psicanálise, muito menos por Lacan. Mas respeitava e os lia. De todo modo, acho que Wittgenstein tinha razão na sua crítica à psicanálise. Acho que a psicanálise é uma metafísica (uma das mais impressionantes do século XX) ou uma mitologia que precisa ser “desmistificada” ou “desconstruída”.

    Refiro-me a uma crítica filosófica, que supere o naturalismo ingênuo que grassa nos meios médicos e biológicos.

    RE: Você acha que alguém conseguiu fazer essa crítica, Artur? Quem sabe, Castel, ou os mencionados no artigo?

  5. Li o livro na versão em espanhol. Muito bem embasado com críticas fundamentadas e consistentes. Faço eco ao Artur. A psicanálise é uma metafísica, e cai maravilhosamente bem nos departamentos de letras e artes. Mas não vejo nada de muito consistente em saúde mental. Aqui em Porto Alegre, lugar conhecido por ótimas faculdades de medicina, percebo que os psiquiatras estão a muito preferindo as linhas cognitiva-comportamental e comportamental. Claro que falar isso para um psicanalista signfica ter que ouvir todo um discurso sobre “ser superficial” “não ir a fundo” e etc mas como sempre sem a apresentação de nenhuma evidência como manda a tradição psicanalista.

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