Lula, extravagante

Ontem o Jornal Nacional enunciou um incrível, formidável "dito pelo não dito". Caso daqueles para o estudioso de comunicação fazer análise discursiva:

No Rio, durante uma cerimônia em que lançou o Fundo Setorial do Audiovisual, o presidente Lula falou, longamente, sobre a crise financeira internacional e de uma forma extravagante.

“O que aconteceu com o famoso mercado onipotente? Quando o mercado teve a dor de barriga – e não foi uma dor de barriga simples, foi uma diarréia daquelas, braba, insuportável – quando o mercado teve essa diarréia, quem é que eles chamaram para salvá-lo? O Estado, que eles negaram durante 20 anos”, declarou o presidente Lula.

O presidente criticou os que defendem cortes de despesas e reiterou que o governo manterá os investimentos, mas que controlará os gastos com a máquina pública.

“Nós não vamos investir nenhum centavo em custeio enquanto tiver dificuldade, mas vamos investir todos os centavos possíveis em coisas produtivas, que possam gerar emprego e distribuição de renda, salário e poder de compra do povo brasileiro”, disse Lula.

O presidente Lula voltou a dizer que o Brasil não quebrou e nem vai quebrar. Ele explicou por que defende uma postura otimista diante da crise.

“Imaginem vocês, se um de vocês fosse médico e atendesse um paciente doente. O que vocês falariam para ele? Olha, você tem um problema, mas a medicina e a ciência já avançaram demais, nós vamos dar tal remédio, você vai se recuperar. Ou você diria: ‘Meu… Sifu!’. Vocês falariam isso, para um paciente de vocês? Vocês não falariam”, alegou o presidente.

Leia-se bem: a "extravagância", segundo Bonner, não reside no palavreado de Lula, falando sobre diarréias do mercado e outras metáforas afins. Ela reside na crítica aos "que defendem cortes de despesas".

Pode-se dizer que o Brasil não vive, e nem viveu um "capitalismo" por excelência, ou ainda que o próprio "primeiro mundo" não o viveu.  Discurso totalmente possível para certos ditos "funcionalistas". Mas isso é bem diferente de negar que, nos últimos 20 anos, defendeu-se de fato ou de direito um discurso de enxugar a máquina estatal, e ao mesmo tempo afirmar que quem aponta o dedo para isso é "extravagante".

Aí reside o que a Globo enxerga em Lula como "extravagante": em tempos de crise, lá estão os jornalistas da Globo falando com a boca cheia em "cortes de gastos". Quando não havia crise alguma, sobre o que falavam? Em corte de gastos.

Quando Bush discursava sobre as invasões no Iraque e no Afeganistão, a cobertura era bem neutra, nada passava a mínima idéia de uma extravagância, nem pelo menos a mesma desconfiança que, afinal, todos tinham. Algo faz com que certas extravagâncias passem por insuspeitas, e outros acontecimentos automaticamente permitam falar de boca cheia: são "extravagantes".

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3 comentários em “Lula, extravagante

  1. Realmente, é de uma desfaçatez a forma como a grande imprensa tenta impor um pensamento único a golpes de martelo.

    Mas, por outro lado, eu acho que a Rede Globo tem mostrado uma visão bastante crítica das últimas aventuras militares dos Estados Unidos. Talvez por modismo, talvez por ser maria vai com as outras, mas o fato é que eles têm se redimido um pouco.

    RE: É verdade, Marcus! Em tempos em que o próprio Bush revê as posições, é previsível. O problema é precisamente esse jogo de pesos e medidas da imprensa, as oportunidades em que ela é mais ou menos incisiva, não é mesmo?

  2. O problema, a meu ver, é que Lula não guarda a menor coerência do discurso de hoje com o discurso da semana passada. Caso grave de logorréia, seja isso o que for, e ainda lembrando que cabe ao chefe de Estado manter compostura, coisa que o próprio esquece gostosamente, sempre.
    Parece pensar que sua origem o “blinda” (tomei abuso dessa expressão) quanto à qualquer enormidade.

    Isso facilita milhões a ação da Globo e congêneres, ainda que aí, eu também tenha minhas reservas.

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