A Vizinha

Algum tempo atrás a Vizinha, receptiva, divulgou uma campanha de doação para crianças carentes. Tratava-se de uma escola de crianças pobres, sem brinquedos e roupas, com pais desempregados, drogados e bêbados, lá nos confins de lugares não imaginados pela classe média.
 
Davam credibilidade à campanha solidária suas próprias palavras. Ela conhecia as crianças. Já visitou a escola, envolveu-se em outras doações. Viu o sorriso de cada uma delas quando recebia um agasalho, carrinho ou boneca.
 

A Vizinha é afeita a essas campanhas solidárias, de grandes doações sazonais. Talvez ela saiba que tal prática filantrópica serve apenas de paliativo. Concede alegria, escondendo preconceitos inconfessos, como o dos bons mocinhos de boa vida que inclinam a mão aos pobres – poderiam não as inclinar, e o gesto nobre consiste precisamente nessa consciência. 
 
Como é moda, a Vizinha pertence à ordem dos empresários e de suas esposas. Tudo, articulado em uma grande rede solidária. Talvez, em algum momento, o empresário saiba que poderia conceder um salário mais alto ao funcionário, contratar um funcionário a mais, ou não contratar um "peixe". Isso estimularia o consumo e a empregabilidade, caracterizando um compromisso público, e uma perfeita medida "social". A benfeitoria seria cotidiana, estrutural, concreta, presente na carteira do assalariado, e em outras medidas que favoreceriam a própria empresa. 
 
Idéia breve, mas fugaz. Logo sobrevêm idéias mais pomposas. Ninguém reconhece boas práticas de compromisso público. Sem contar que são onerosas. Vale muito mais aparecer na escola com um caminhão cheio de presentes, e um papai-noel contratado. Custa mais do que um ou dois salários anuais, mas é visível. O não favorecimento de possíveis pais empregados por mim em relações públicas é diretamente proporcional a meu heroísmo privado. E além do mais, eu não veria sorrisos tão belos, se os presentes viessem dos pais.
 
As palavras da Vizinha eram realmente comoventes. E como talvez fosse boa hora, reuni diversas roupas para doar. Encaixotei-as ordenadamente, e enviei.
 
No entretempo, algo inesperado aconteceu. Uma grande enchente em Santa Catarina. Sem doar para a escola, a Vizinha organizou no condomínio uma grande campanha para os necessitados do Sul. Tudo iria para lá, e muito mais gente participou, até no transporte da  remessa.
 
Hoje encontrei a heróica Vizinha, com outros vizinhos, andando pelo condomínio. Primeiramente soltou um enorme sorriso, que gradativamente, em câmera lenta, amarelou. Ela usava uma das melhores blusas da minha doação, e eu percebi. Em meio aos sentimentos que subiram à cabeça, apenas saiu uma frase: "Feliz natal!"
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5 comentários em “A Vizinha

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