Neve Gordon: Como vender guerra ‘ética’ e violar também os direitos civis dos israelenses

O gerenciamento da mídia em Israel não é só impressionante: é aterrorizante

Neve Gordon, Counterpunch, 16-18/1/2009

Um dos meus alunos foi preso ontem e passou a noite na cadeia. O crime de R. foi protestar contra o ataque de Israel contra Gaza. Foi juntado a outros mais de 700 israelenses que foram detidos desde o início desse cruel ataque a Gaza: cerca de 230 (pelas mais recentes estimativas) continuam presos. No contexto israelense, essa estratégia para impedir qualquer protesto e qualquer tipo de resistência é novidade, e impressiona que a mídia internacional não veja aí qualquer assunto a noticiar.

Simultaneamente, a mídia em Israel serve o governo, em tal grau de servilismo, que nenhuma crítica à guerra foi ouvida em nenhum dos três canais de televisão locais. De fato, a situação é tão absurda, que repórteres e âncoras são até menos críticos do que os porta-vozes militares.

Na total ausência de qualquer análise crítica nos jornais e televisões, não surpreende que 78% dos israelenses, ou cerca de 98% de todos os judeus israelenses, apoiem a guerra.

E esconder todas as vozes críticas não é o único modo pelo qual garantir apoio à guerra. Inventar argumentação lógica também ajuda.

Um dos modos pelos quais a mídia, o exército e o governo de Israel têm convencido os israelenses a manifestarem-se a favor da carnificina é ‘declarar’ que Israel luta uma guerra moral contra o Hamás. A lógica, como Eyal Weizman observou em seu livro "Hollow Land" [Terra oca], é a lógica "da moderação" (Israel seria moderado, no sentido de auto-regulado, autocontido, equilibrado, ponderado).

Para destacar a política "da moderação", a mídia aprofunda o abismo que separa o que o exército de Israel tem poder para fazer contra os palestinenses e o que efetivamente fez e faz. Aqui, alguns poucos exemplos dos slogans que se ouvem todos os dias, nos noticiários:

• Os jatos de Israel podem bombardear casas, sem qualquer aviso; mas o exército emite avisos – por telefone, acredite quem quiser – prevenindo os moradores de que têm 10 minutos para evacuar as casas que serão destruídas. O subtexto é aterrorizante: o exérctio pode destruir casas e matar civis dentro de suas casas, sem aviso; só não o faz (?) porque é exército humano e respeita os valores da vida humana.
• Israel condena o uso de bombas de fragmentação ["teaser bombs"] – aquelas que matam pessoas, mas não destróem casas –, o que não impede que minutos depois dispare mísseis letais; outra vez, para mostrar que o exército poderia matar muito mais palestinenses; não mata (?) porque não quer.
• Israel sabe que os líderes do Hamás estão escondidos no hospital al-Shifa. Assim o exército ‘declara’ que só não reduz o hospital a ruínas, sem deixar em pé uma única parede, porque não quer; quisesse, faria.
• Por causa da crise humanitária, o exército de Israel suspende os ataques durante algumas horas por dia e permite que comboios humanitários entrem na Faixa de Gaza. Outra vez, o que não se diz é que, se quisesse, Israel impediria a entrada de socorro humanitário.
A mensagem veiculada nessas frases repetidas incansavelmente tem dois significados, conforme o público-alvo.

Para os palestinenses, a mensagem é uma clara ameaça: a qualquer momento, Israel pode decidir ‘desmoderar-se’ e, assim, permanece sobre todos a ameaça de novos ataques e de ataques cada vez mais violentos.

Independente de o quanto já sejam letais, hoje, os ataques israelenses, a idéia é manter a população palestinense em estado de pânico, sempre à espera de ataques ainda mais brutais. Assim, a violência permanece sempre ativada, quando há ataques e quando não há, durante os combates e durante o cessar-fogo.

Para os israelenses, a mensagem visa o campo moral. Os generais poderiam, se quisessem, disparar sobre a Palestina todo um imensíssimo arsenal de morte e violência; mas, não, preferem não o fazer, porque, diferente do Hamás, o exército de Israel respeita vidas humanas.

Essa última idéia parece ecoar consideravelmente na sociedade de Israel. E baseia-se numa falácia moral.

O fato de que alguém mais brutal escolha não ser totalmente brutal não implica que o brutal seja moral.

O fato de o exército de Israel poder destruir toda a Faixa de Gaza, mas ter destruído ‘apenas’ 15% dos prédios, não torna moral a chacina. 

O fato de o exército de Isral poder matar milhares de crianças palestinenses, mas matado ‘apenas’ 300, não torna ética a Operação ‘Cast Lead’.

Em resumo, a falsa moralidade que o exército e o governo de Israel têm reivindicado, como justificativa para suas ações na chacina de Gaza é falsa moralidade, é moralidade oca, é amoralidade.

Esse tipo de discurso revela que Israel não é capaz, ainda, de enfrentar a fonte original da violência essencial, em Israel. Essa violência não vem do Hamás. Essa violência vem da ocupação da Faixa de Gaza, da Cisjordânia e de Jerusalém Leste.

Meu aluno, R., e outros israelenses que protestam contra a chacina de Gaza parecem já ter entendido essa verdade evidente. Para impedir que eles falem e que essa verdade evidente ‘alastre-se’, o governo israelense viola também os direitos civis de seus cidadãos. E os mete na cadeia.

Tradução: Caia Fittipaldi

Neve Gordon é chefe do departamento de Política & Governo, na Ben-Gurion University do Negev e autor de Israel’s Occupation (University of California Press, 2008 – Divulgado por nós aqui).

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2 comentários sobre “Neve Gordon: Como vender guerra ‘ética’ e violar também os direitos civis dos israelenses

  1. Há algum tempo, a Piauí publicou um texto que me parece irretocável, sobre a “novilíngua” criada em Israel. Eu salvei e prometo mostrar o link numa próxima vez.

    Era sobre um jornalista que se emprega num dos grandes jornais em Israel e, simplificando, recebe uma espécie de “manual” com as expressões a utilizar, sem esquecer a campeã de todas: Israel apenas se “defende”, jamais ataca.

    Assustador. E o mais assustador é assistir ao contorcionismo retórico das lideranças israelenses para justificar o injustificável. Para mim, fica a sensação, cada vez mais evidente, de que os israelenses, não só negam a cruel discriminação que praticam, mas até, em termos humanos, e aí o Ricardo Cabral talvez possa esclarecer melhor, craque que é, só resta a constatação de que israelenses pensam nos palestinos como em alguma espécie de “bichos”, “subumanos”, whateaver. Porque só dessa forma podem racionalizar o tratamento que reservam aos palestinos, afinal, indispensáveis a Israel: salários degradados, alojamentos infectos, etc..

    Isso tudo está num livro interessantissimo chamado “Meu inimigo sou eu”, em que um jornalista israelense, fluente em árabe, se faz passar por palestino pra sentir a barra de como é viver, como palestino, na democracia israelense. Vale muuuito a pena ler!

    Porém, apesar de lamentar e de ter azia, de verdade, lendo sobre o massacre em Gaza, só posso esperar que a sociedade israelense, de alguma forma, consiga escapar dessa paranóia sobre “o direito à existência”, para um estado que já existe a 60 anos, e comecem a pensar no inevitável: se não exterminarem os palestinos, os israelenses terão que pensar que, no futuro, bem ou mal, conviverão com palestinos. Não dá pra evocar o fantasma do Shoa eternamente.

    E tudo isso me deixa triste à vera, sabe?

    RE: Oi Alba!
    Estamos esperando o link (provavelmente ele irá para moderação pela engine do blogsome, viu?). Bom revê-la por aqui!
    Quanto à tristeza, devemos ver o quanto essas redes informais de informação agenciam redes de potencialização, de modos de não ver e não agir sobre os acontecimentos com os mesmos olhos e mãos, enfim, essas informações tristes servem para de algum modo compor forças para que outras informações tristes não mais apareçam… pelo menos é o que somos todos impelidos a fazer! Senão… para quê um weblog?
    abração,

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