Reinaldo Azevedo, estereopata

Abro a Veja e vejo novamente várias palavras consecutivas de Reinaldo Azevedo. RA se diz adepto do "debate de idéias" e da "democracia", embora sustente um weblog repleto de análises rasteiras e palavras de baixo calão (vide a polidez de seus leitores). Em seus textos, dois fatores espantam: (1) Como análises rasteiras e palavras de baixo calão angariam tantos leitores? e (2) Que tipo de mecanismo é esse, financiador desse tipo de posição?
 
Sobre tais palavras dispostas em duas páginas da revista, uma passagem, entre todas, chama a atenção:
Ademais, quem disse que o oprimido está necessariamente certo ou tem a melhor solução? Acreditem: quase sempre está errado e tem a pior. 

Azevedo se refere ao Hamás, embora a passagem soe indigesta, e no contexto pareça se referir também aos palestinos (em jogo, a legitimidade de Israel bombardear a Faixa de Gaza, dado que o "Eretz" não bombardeou de fato uma escola da ONU). E para sustentar o "argumento", descarta as visões que – segundo ele – não tomam partido: "os arautos dessa Era da Incerteza Moral…". O que "incomoda" em seus textos – diz – é o fato de não utilizar "verbos no futuro do pretérito". Reinaldo Azevedo não conjectura, não analisa – ele sustenta.
 
E pode-se dizer que, em certo sentido, ele está correto: muita gente por aí opina que não existe realidade, tudo é "relativo", e portanto não existe nada mais do que "discurso sobre a realidade". Nessa mesma linha, evitaria-se sustentar certezas, facilmente chegando à conclusão de que não existe diferença entre a história dos vencedores e a dos vencidos, e por isso mesmo deveríamos nos ater – por um princípio duvidoso de "igualdade" – apenas aos "vencidos".
 
Esses "relativistas" – situemos bem, são aqueles que de fato ou aos olhos do blogueiro da Veja dizem que tudo é relativo, e logo caem em contradição por princípio – são inimigos de RA. Este apenas "provoca os outros com suas convicções", adquirindo – contra esses relativistas – "a má fama dos dogmáticos". Azevedo incomoda com suas posições firmes. Quase se poderia dizer que incomoda tanto quanto… gente como o Hamás. Estes, ao contrário dos "relativistas", buscam justificativas morais – enquanto "vencidos" – para "jogar um foguete no meu quintal". De um lado, os arautos da incerteza apenas utilizariam de má fé para com a posição dos "convictos"; outros, convictos demais, só tem por recurso o paredão, os foguetes, ou a degola.
 
Se Azevedo escolhe uma posição intermediária entre os convictos demais e os arautos da incerteza, ou opta por uma convicção de qualidade diferente, isso é problema dele. Mas é curioso – até engraçado – ver como, segundo RA, o "bonde dos relativistas" não é tão relativista assim. De algum modo, eles torceriam por "vencidos" que, de relativistas, não tem nada (ué, como assim?).
 As críticas [ao blogue dele] revelam um aspecto curioso: dada a certeza dos missivistas de que o articulista jamais condescenderia com os motivos dos terroristas do Hamas, cobram-lhe, então, que reconheça ao menos as "culpas de ambos os lados". Às centenas, exigem o que chamam de "meio-termo", "equilíbrio" e "isenção" – e isso significa que o querem moralmente comprometido "com o mais fraco". Os mais sagazes ousam dar aulas de como é que se faz: "Relatar a versão de todas as partes envolvidas, e o leitor que tire as suas conclusões". É o jornalismo entendido como uma vitrine de divergências para satisfação do voyeurismo ideológico. Entre os produtos expostos, deveria estar também o elogio ao terror, já que há consumidores que o desejam…

Se RA não é nem relativista, e nem um convicto duro como o Hamás (tudo bem, aceitemos que ele não jogaria um foguete em nosso jardim, pelo menos em tese), também não é alguém que aprecia o "meio termo", "equilíbrio" e "isenção". Diga-se que os adeptos da "vitrine de divergências", e do "equilíbrio", são os que advogam: "a virtude está no meio – ainda que esse ‘meio’, de fato, tenha lado". Ponderar o "meio" é logo admitir o lado dos "oprimidos". Argumento desqualificado. Apenas pode se defender a intervenção israelense: país democrático. Seria "isento", "equilibrado", importunado?

 
O que sobra? Não se pode ser relativista, nem convicto demais, e nem apreciar o meio termo. Mas de algum modo, segundo RA, sobra a … "democracia": "tão importante que, se preciso, tem de ser preservada até mesmo da vontade da… maioria" (sic).
 
Finalmente, temos o diagnóstico: quanto ao conteúdo, Reinaldo Azevedo é "democrata"; quanto à expressão, é "convicto". Mas não esperemos aqui debates filosóficos! Geralmente são empregados pela turma relativista, "com sotaque francês".
 
Contudo, tem-se a "democracia". RA critica quando Vladimir Safatle escreve vagamente sobre "a invenção do terror que emancipa". Mas e então, que democracia é essa? É a do "voto da maioria", do "fortalecimento das instituições", da "economia livre"? Tudo bem, o leitor não ganhou muito mais do que "a invenção do terror que emancipa". Não se sabe, o artigo apenas dá exemplos negativos. Obama não é um democrata eleito (contra anos de Bush), é um eleito pela democracia; democracia que deve ser preservada até mesmo da vontade da maioria, e também democracia eleitora de alguém como Obama, cuja "tolerância equivocada e paternalista com o sectarismo" perceberá  bem ou mal que "está errada".
 
Contra a gangue do relativismo, Obama foi eleito pela democracia, e não por "alguma força superior"; mas ao mesmo tempo, Obama mesmo perceberá o quanto está errado, e a democracia – que não se resume ao governo da maioria – possui, diante de tudo, "superioridade moral" e "valor universal". A democracia é boa, mas escolhe mal, e logo deve-se proteger a democracia contra a maioria. Logo…
 
No que Reinaldo Azevedo está certo, ele se refere à banalização de todo tipo de debate. Ok, mas isso um estudante de jornalismo no primeiro ano já sabe… ou isso não se ensina em jornalismo? Os banais, para RA, são os de "esquerda". Ok, o debate está banalizado, e
stereotipado, tanto quanto se pode dizer em relação à "direita". Não sendo essa a questão do momento, cabe notar que Reinaldo, ele mesmo, adepto do debate de idéias, acaba – é novidade? – compartilhando aquilo mesmo que critica: estereótipos, chavões, ataques rasteiros…
 
Seria Vladimir Safatle um adepto dessas imputações "relativistas" e "esquerdistas" de Reinaldo Azevedo? Pelo que se lê no artigo, segundo RA, certamente. Mas seria Vladimir Safatle, homem e obra, um relativista grosseiro exatamente como Reinaldo Azevedo o descreve? Coloco a questão de outro modo: Reinaldo Azevedo escolhe seus inimigos, os banalizadores do debate de esquerda. Entretanto, talvez ele não saiba que para além dos leitores prós e contras seu weblog, existe vida inteligente no planeta, e ela não se reduz a suas imputações. RA escolhe o inimigo que combate: o fracote e diletante, que deu umas olhadas por aí em alguns textos. Posição que RA nitidamente parece compartilhar, e para isso basta ver quando ele solta algumas linhas de filosofia. Kant e Foucault já foram vítimas. Azevedo acertou os "estereopatas", mas… utilizando estereótipos. O leitor de meu blog que discorda de mim é um petralha-esquerdopata, um relativista auto-contraditório; logo, ele é do bonde desses "franceses" e logo, é do complexo "PUCUSP", ou um eventual Vladimir Safatle… basta escolher os termos, como faria um relativista auto-contraditório. Sublime lógica.
 
Geralmente, quando alguém emprega uma idéia grosseira, procura-se desmistificar a idéia mostrando a carência lógica, para aí iniciar o debate. Existe (ou deveria existir) um plano de debate, tornado visível quando se desfaz a doxa. Já faz 2500 anos que é assim. Não com Reinaldo Azevedo. Sua posição de jornalista e homem público é outra: ele anula o debate, reduzindo qualquer debate possível à idéia grosseira  atacada – muitas vezes grosseira devido ao que leu de maus leitores, ou à sua própria má leitura. Não existe debate para além dos "esquerdopatas", existem apenas "esquerdopatas".
 
Foi assim com Kant e com Foucault, para dar dois exemplos. Seu Kant não era Kant; era apenas Capitão Nascimento, encarnação do Imperativo Categórico ao enfiar cabos de vassoura na bunda de um torturado. Seu Foucault não era Foucault, era o "bonde do Foucault": ao mesmo tempo as crenças dos "esquerdopatas" (segundo RA), e um autor francês que "quase" (sic) chegava apreciar mais o suplício do que a prisão moderna. Os problemas de esquerda se reduzem aos estereótipos dos simpatizantes de esquerda; o pensamento que se convencionou chamar "de esquerda" se resume ao que um leitor de weblog opinou ser, e nada mais.
 
Mas se é assim, não ficamos em melhores lençois, já que não soubemos, via RA, o que é democracia. Nosso jornalista Schwärmer não dispõe publicamente o princípio de suas críticas a tanta gente que, diante do mesmo público, ele apresenta como descrevendo "gazes abdominais" (sic).
 
RA, que é convicto, mas não é nem convicto, nem relativista, e nem "equilibrado", é um democrata. Um democrata que, ao contrário de 2500 anos de pensamento ocidental, não aprecia o debate entre iguais (nem os meios para se chegar a isso, pois para ele tem-se apenas "o jornalismo entendido como uma vitrine de divergências para satisfação do voyerismo ideológico), e nem, contra os iguais, aprecia o primado da maioria.
 
Deixando essas dúvidas sobre a "publicidade" de lado, existe um momento positivo e outro negativo, no tipo de "crítica" feita por RA: o positivo é denunciar a banalização do debate político, que muitas vezes deixa problemas sérios já parecerem resolvidos (aquilo que o estudante de jornalismo deveria aprender no primeiro ano). O negativo é esse jornalista compor, com outros jornalistas brasileiros, uma espécie de pensamento "anti-anti": se no século XX surgiram diversas críticas (envolvidas com movimentos sociais) doravante chamadas  "de esquerda", são a patota do anti-anti apenas os críticos da crítica. Ou melhor, não se avalia a crítica, apenas se desqualifica (no fundo, não se critica nada). E no circo de discursos que se delongam sobre os discursos, é curioso notar o resultado nulo. Desqualifica-se os críticos, sem que se erija qualquer crítica… o que explica RA e outros serem chamados de "direitistas".
 
Se os esquerdopatas-relativistas se resumem a sustentar que "a realidade nada mais é do que um ‘discurso sobre a realidade’", um crítico desses relativistas apontaria o erro, para então apontar o plano do debate correto. Já a turma do anti-anti faz pior do que os relativistas: além de não oferecerem nada, são discursos desqualificadores da (enfim, enxergam assim) ausência de discurso, nada por nenhuma coisa. O problema não é o abismo entre público e privado no Brasil, não se trata de industrialização tardia, importação tecnológica, diferenças sociais, ou qualquer outra coisa. São apenas os "esquerdopatas".
 
Contudo, isso não é o mais sério. O mais sério é o conteúdo da primeira citação, acima:
 Ademais, quem disse que o oprimido está necessariamente certo ou tem a melhor solução? Acreditem: quase sempre está errado e tem a pior.
Dado o contexto, isso é muito perigoso. Não se costuma chamar os opressores de oprimidos. O Hamás é opressor. O povo palestino é oprimido.  Mas o Hamás nasce no seio da opressão do povo palestino. Comete ações deploráveis, dentro de um contexto deplorável. Isso põe uma série de questões, pesos e medidas. Questões, pesos e medidas precisam de elucidação, para que um debate seja democrático, e para que relações democráticas se estabeleçam. Quem diz que o Hamás é "do bem" e Israel é "do mal" comete nada mais do que erros grosseiros, de sérias consequências. O mesmo para quem diz o contrário. Questões complexas deveriam se resolver de maneira complexa, em um grande debate público que o jornalista deveria ajudar a conduzir (a não ser que o jornalismo tenha mudado de significado). Mas olha aí nosso pecado. Na democracia obscura de RA, não existe debate público. Pelo que se vê, o caminho mais fácil é acusar o inimigo de esquerdopata… utilizando as mesmas estereotipias.

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7 comentários sobre “Reinaldo Azevedo, estereopata

  1. Reiteram e reificam sempre suas condições por meios chulos e vulgares, os mesmos que eles condemam o oprimido. Contradizem-se sempre, embora preconizem o debate “aberto e democrático”. O oprimido dá medo a eles, e mesmo que nada ameacem seus “poderes e posses”, inventam o motivo para o temor e, pelo jeito pouco discutem, impõem que o errado são os pobres e oprimidos e por culpa exclusiva deles próprios. Ora, Catatau, mas isso tanto discutimos por aí, e fica mesmo a pergunta, como vc nos lança: Como a Veja se diz séria? Ou ela já nem liga mais para isso e se ampara no cinismo atual, como analisa Slavoj Zizek? Exclente o artigo

  2. Muito bom o texto, bom mesmo, sobretudo porque sei como é duro tirar leite de uma alucinação como as do sr. colunista da veja, o RA. Um dos meus orgulhos (sinal de maturidade, talvez)é de não abrir a Veja nem mais em sala de espera de consultório odontológico. Nem conheço, portanto, o novo enfant terrible da direita local, mas tudo é tão presumível na forma e há tanta coisa interessante para ler na vida, que vou passar. Uma questão, esta sim, no nível das causas, não dos sintomas, está em investigar a partir de quando e por quais razões este tipo de descaramento provocativo, de nível intelectual tão medíocre, protagonizado por figuras como RA, passou a vender entre nós. Havia Paulo Francis, claro, mas o caso dele é bem mais complexo, a figura dele, bem mais interessante. A proliferação de fenômenos tipo RA não motiva uma reflexão sobre os limites do conceito aufgeklärt de esfera pública ?

    RE: Tenho impressão de que motiva sim uma reflexão dessas, Vinicius. Você conhece os estudos de Venicio de Lima? Este é imputado pelo pessoal de RA de “esquerdista” (vide as publicações dele na Perseu Abramo, por exemplo). De todo modo, ele tem vários trabalhos que buscam mostrar os tipos de compromissos públicos do jornalista brasileiro. Mas você parece chamar a atenção a algo bem mais amplo (e tão importante quanto), mais na direção dos limites do papel público do jornalista em um país como o Brasil – retornando a velha questão do público e do privado no Brasil. Sobre isso, não conheço estudos, alguém teria referências?

  3. Catatau,

    Seu texto é maravilhoso. O que me incomoda de fato, é essa tendência a dar repercussão a gente como Reinaldo Azevedo, que já conta com uma claque de bom tamanho, gente que, desculpem, abdica da faculdade de pensar e “entra na onda”.

    Alguns, entusiasticamente. O que me faz pensar naquilo que alguns acusam o Lula, o “apedeuta”.

    Outra coisa que abdicar de pensar é uma tradição. Talvez eu esteja mal humorada, mas decorar coisas, posar de erudito, é mais uma das nossas tradições, embora não encontre muito amparo no real, já que os “doutos” só fizeram manter o país palatável para os de sempre.

    E, no caso de Gaza, não há, simplesmente, como justificar a matança, a não ser, racionalizando que palestinos são inferiores , subumanos, alguma coisa assim. E tenho lido coisas que só reforçam essa percepção. É humano e isso, respeito.

    O que não respeito é a matança travestida de “defesa”

    RE: Aí que está o ponto, Alba. Artigos como o do RA são uma verdadeira ginástica mental (e só mental mesmo) de desqualificação. Desqualifica tanta coisa que, enfim, sobra tanto quanto um “relativista” deixaria sobrar, rsss

  4. Catatau,

    Muito bom o trabalho de desconstrução do RA. Vejo que ele te incomoda mesmo! Também me incomoda.

    Vladimir Safatle publicou um livro excelente ano passado: “Cinismo e falência da crítica”. Se RA tivesse dedicado algum tempinho à leitura, talvez não escrevesse besteiras a respeio desse pesquisador – não porque concordaria com ele, certamente, mas porque perceberia que é incapaz de levar a discussão ao nível de coerência argumentativa do Safatle. Logo, pode ser que ficaria um pouco tímido.

    Bem, eu apenas torço para que RA, por algum motivo, simplesmente pare de trabalhar, o quanto antes. Seria bom pro nosso jornalismo.

    Um abraço

    RE: Olá Rodrigo,
    Não é pessoal, e nem é com o RA – e nem deveria ser nenhum dos dois! Penso que se trata de colocar uma questão relativamente importante e negligenciada, a respeito da balbúrdia que é a discussão entre “direita” e “esquerda”. Discussão tão fervorosa quanto estereotipada, e despotencializada…
    Assim o problema não é o RA, mas como o pensamento hoje denuncia estereotipias com estereótipos, e como o debate no fundo não serve para nada. Somos de algum modo reduzidos a “insumos”, como diria o Diego Viana. RA, em seus debates, não consegue perceber a diferença entre mera desqualificação ad hominem e o debate de idéias, esse é o problema. Ou melhor, o problema não é RA, mas o fato de que se crie um lugar como esse, de voz ampliada, efetiva, e entretanto apenas dada ao tacape.

  5. Catatau,

    É isso mesmo. Sei que não é nada pessoal contra RA. Não quis afirmar isso. O meu incômodo também não é com a pessoa de RA. Se não houvesse RA, poderíamos ter outros praticando o mesmo tipo de “jornalismo”. A propósito, nós já temos.

    A discussão direita-esquerda, nos limites do senso comum, sempre foi uma balbúrdia. E, como todo polemista, RA não contribui em nada para ultrapassarmos esses limites. Muito pelo contrário.

    Concordo completamente com a sua posição.

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