Entrevista com Jean Daniel

PERGUNTA – Como deve ser a relação do jornalista com o poder?
JEAN DANIEL
– Os jornalistas estão entre o poder e a história. E hão de saber como funciona o poder, com a condição de que o fascínio não caia na indulgência e na corrupção. Respeitadas essas condições, é muito interessante ver como funciona um homem que detém todos os poderes. Nesse momento é preciso desconfiar de tudo, até do mínimo detalhe. É difícil julgar com rigor e objetividade pessoas que estão à sua frente. Já me ofereceram de tudo: uma casa no México, por exemplo. Na Tunísia, também quiseram ser muito amáveis comigo. Mas a relação do poder com a imprensa é um problema nos dois sentidos. Já conheci épocas em que havia corrupção entre os jornalistas, mas conheci períodos em que os jornalistas eram acossados. Um homem com poder é um homem que esconde alguma coisa, e é preciso descobrir o que é. É um equívoco pensar que sempre há um crime. Existem os dois excessos, e hoje existe o excesso de transparência: não se sabe que crime existe, mas é preciso descobri-lo. É verdade que um ditador esconde tudo, e nosso papel é descobrir o que ele esconde. Mas já se passou dos limites: quando levada ao extremo -ou por virtude ou por vício-, a transparência chega à violação da vida privada. E há uma intromissão nova, a da fotografia na vida íntima. Quando se ultrapassam os limites, chega-se a aberrações. Veja o que aconteceu agora com Milan Kundera, o grande romancista tcheco, acusado de ter denunciado um companheiro. Ele tinha 21 anos na época; agora tem 79. Não havia provas. Os jornalistas foram a Praga e não encontraram provas. Mas saiu uma manchete junto a uma grande foto de Kundera: Kundera “teria sido”… E, com esse verbo no futuro do pretérito, mais a enorme foto e a manchete, Kundera passa a “ser”. O texto em si era honesto, mas o leitor se atém apenas à imagem e à força da condicional. Jornalismo é escrita, é texto. Mas naquela informação havia apenas a força da imagem, a força do título e a força do tempo verbal. Talvez o jornalista fosse honesto, mas veja só o resultado…

PERGUNTA – É o princípio da calúnia…
DANIEL
– Sem dúvida, só que hoje a calúnia se apoia nas novas tecnologias.

Entrevista com Jean Daniel, diretor do Nouvel Observateur, sobre jornalismo, poder, e Albert Camus (via lista oestrangeiro).

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