A Razão pública na época de George W. Bush

Animado por uma conversa com o Diego Viana (e diversos de seus textos), e também pelo texto do Idelber Avelar , vinculo a pequena indicação abaixo:
 
imagem daqui
Outra questão, talvez, seja a guerra com o Iraque. Apesar de protestos, o governo Howard apoiou o ataque preventivo de Bush. Uma extensão dessa guerra contra o terror é a rasura silenciosa de nossos direitos humanos básicos, entre eles, sem dúvida, o direito à razão pública livre. Isso se justifica com o mantra de assegurar as nossas liberdades, suponho, a liberdade do medo. Então, para nos livrarmos do medo, desistimos de todas as nossas liberdades. Não há um debate público aberto. E a questão é: como definir espaço público, na era da proliferação de muitos lugares em que os cidadãos podem expressar suas opiniões? Onde está aquele espaço no qual pode-se comparar as próprias idéias com as de outrem, e no qual intelectuais debatem seu entendimento do que constitui um bom governo? Luc Ferry argumenta que, em nossa sociedade de consumo, a idéia de bem comum torna-se obsoleta. Ser livre significa, de modo geral, ter liberdade de comprar o que se quer, empenhando-se pela felicidade singular a ser obtida por diferentes bens adquiridos no mercado. O universo moral kantiano, em que a felicidade não pode ser o maior bem, pois é, por definição, singular a cada um, torna-se irrelevante. Se isso é verdade, o desafio é pensar o espaço público não como um lugar de expressão singular para certa pessoa. Esta é a definição kantiana de loucura, sempre definida pela singularidade e pela “perda de um sentido de idéias comuns a todos”, incompatível com a nossa forma de viver em comum. Precisamos pensar, mais uma vez, na possibilidade de encorajar a habilidade de pensar por nós mesmos, comparando os nossos pensamentos com os de outros, de maneira consistente. Usando o sensus communis como campo comum e pedra de toque para descobrir os erros do entendimento.

A pequena passagem é de um texto introdutório de Lubica Ucnik, intitulado Kant: sensus communis e razão pública. Chamou a atenção para trazer aqui por vários motivos: é um texto simples e introdutório, de leitura atraente, e abre algumas questões muito boas. Portanto, não se destina ao especialista (e nesse sentido um weblog deve mais apontar discussões e referências, do que as realizar).
 
Em primeiro lugar, é um texto sobre Kant, e profundamente preocupado com a política após a invasão do Iraque.  Muitos consideram Kant, à primeira vista, um filósofo "rigorista" e "clássico", como se a "pureza" da reflexão e a "distância" histórica o fizessem pouco relevante (por incrível que pareça). Contrariando isso, Ucnik mostra sua atualidade (ou legado), contraposta à política externa norte-americana. E reforça a atualidade recorrendo a figuras como Hannah Arendt e Michel Foucault.
 
Em segundo lugar, o texto diz respeito a algumas discussões recorrentes em mídia (digital e convencional), sobre o caráter efetivamente "livre" ou não da "publicidade". Não é tão fácil dizer que os indivíduos hoje se expressam com maior liberdade.  Expressar-se mais não significa necessariamente se expressar com maior liberdade. A passagem acima problematiza exatamente isso: proliferação de textos não significa proliferação de liberdades, como se simplesmente dizer algo já implicasse resultados efetivos. Isso porque o caráter essencialmente "íntimo" dos discursos não leva em consideração o papel dos outros. É claro que proliferam, em vários sentidos, "comunidades" virtuais. Mas muitas vezes essas "comunidades" (1) ou mantém-se na virtualidade, ou (2) servem apenas a uma espécie de individualismo auto-centrado e egoísta (recheado de exemplos agudos). Esse "outro" não é nada mais do que um fator particular, projetado nos outros.
 
Em terceiro lugar, as referências de Ucnik empregam um rigor e um leque de parâmetros difíceis de se encontrar nessas discussões sobre o papel das letras na esfera pública. A começar pelas revistas brasileiras de grande circulação, diversas revistas acadêmicas sobre essas disciplinas (jornalismo, publicidade e afins) pecam tanto no quesito rigor, quanto em uma discussão realmente efetiva. Situar-se meramente em posições de "direita" ou "esquerda" (*) significa desconsiderar as implicações públicas das letras. E isso é grave, dado que – para dar apenas um exemplo – poucas análises focam o propósito estratégico dos escândalos públicos. Toda cobertura – e análise – consiste em dizer que um escândalo ou uma denúncia ou são corretos, ou destituídos de conteúdo. Mas como mostram muito bem passagens semelhantes a essa, do Sergio Leo, "se a denúncia não tem resultados públicos, fique certo de que alguém, privadamente, aproveitou-se dela para tirar alguma vantagem". O jornalista – e ainda essa semana o Pedro Doria apontou o problema, embora se refira às instituições norte-americanas ao invés de citar algum intérprete do Brasil – não passa daí.
 
Em quarto lugar, os horizontes do texto seriam interessantes para quem lê e escreve coisas como essa:
 

 
Capas como essa – e o recheio também – são mais uma proeza da turma do pensamento anti-anti: critiquemos os desatualizados com pensamentos… desatualizados. Miopia deve se combater com miopia. É engraçado que alguns desses "pensadores" – mais paranóicos – chegariam a dizer que o Brasil vive em um socialismo. Mas Vejamos só: tanto quanto o dogmático que acredit
a  em um capitalismo do século XXI ainda regido pelos princípios do fim do século XIX, lá estão os adeptos do bom pensamento, nos prevenindo  que Obama estatiza, mas não socializa!
 
Em quinto lugar, olhemos outra passagem, de Dora Kramer, muito parecida com a de Sergio Leo (e via Sergio Leo): "Essa confusão entre público e privado está na raiz da impossibilidade da entrada da política brasileira na era da modernidade". A frase vem desse texto, sobre o "constrangimento geral" no caso de se revelar certas destinações dos recursos públicos do senado. Melhor não revelar nada, supõe o senador-alvo da passagem, Heraclito Fortes.
 
Ou ainda, consideremos essa outra, do caixa zero:
A distribuição de terras no Brasil é, e sempre foi, problemática. O fato de um dos maiores proprietários rurais do país não existir – e ser, na verdade, um “fantasma” com CPF falso usado por grileiros para esconder sua face – diz muito sobre nossa realidade agrária. Há muita concentração de terras. E muita exclusão.
É isso aí, os exemplos se prolongam, e se prolongariam indefinidamente. Tudo variações picrocholinas em torno de dois princípios: o da razão pública na era de George Bush, e o da razão pública na era de George Bush com roupagem verde e amarela. 😉
 
(*) Como diria Michael Hardt, ser de esquerda não é adotar os discursos de esquerda, mas os problemas que fizeram surgir a esquerda. Logo, Hardt refere-se a algo não inserido na dualidade acima 😉
 
Como se vê, o texto seria postado na semana passada. Talvez alguns elementos favoreçam ainda a indicação, e sua atualidade 😉
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3 comentários sobre “A Razão pública na época de George W. Bush

  1. Catatau,

    Seu texto é tão rico, mas tão rico, que fica bem difícil um comentário que pelo menos arranhe esse universo de temas – desde a confusão entre liberdade como valor e “liberdade de consumo”, pressupondo que a maioria é afortunada por poder escolher o que consome, sem uma palavra sobre a renda necessária para diversificar e aumentar o consumo..

    Daí, passamos (ou eu passo) ao belo texto do Diego Viana, que afinal, e posso estar sendo muuuuito reducionista, mostra como, para algumas pessoas, o mundo desejável é um mundo onde as contradições ocupam um espaço mínimo, que não ameace algumas certezas e que preserve a sensação de conforto.

    De certa forma, e aí, num viés já muito interessado, é o acontece com o texto de revistas como a Veja, que não cessam de me lembrar o discurso do Caetano sob vaias em “É proibido proibir”: “vocês dizem que são os jovens que querem mudar o mundo? Vocês querem matar o velhote que morreu ontem!” ou coisa bem parecida, sorry. Fico impressionada com esse revival de posições políticas da Guerra Fria, como se o socialismo ainda fosse uma ameaça real. E, sem dúvida, nada contribuiu mais para isso do que os oito anos catastróficos da administração Bush e seus neocons.

    O que me lembra, para não me estender demais, da chacina patrocinada por Israel em Gaza, denunciada agora até por soldados chocados e arrependidos pelas atrocidades de que tomaram parte. Isso não impede que a opinião pública em Israel sinta-se injustiçada pelo fato de tais atrocidades estarem sob a possibilidade de serem julgados como crimes de guerra pela ONU (e que, infelizmente, não acontecerá, porque os EUA, mesmo sob Obama, vão vetar).

    Curioso é observar como o vitimismo israelense se retro-alimenta (está certo isso?). Desumanizam os palestinos para tornar suportável o trabalho de opressão e vamos lá, de matança pura e simples. Recusam-se a enfrentar fatos, desagradáveis fatos.

    Eu diria que é um triunfo da propaganda, não é?

  2. Pois é Alba, incrível como tudo está ligado.

    O papo com o Diego vinha de um texto dele, e acabou desembocando no texto do Idelber.

    Enfim, é um assunto meio recorrente na net (e o Diego sempre mostra bem isso), embora algo sempre ignorado. Muitos dos principais “blogueiros” desse país, e muitos jornalistas, ficam sempre por rodeios em torno desses mesmos princípios. Como se não devessemos considerar a raiz do problema, e apenas ficar “comentando” os problemas.

    Enfim, isso dá leitura (e muitos blogues de “sucesso” mostram isso), embora no fim das contas redunde no vazio, pois a mesma história de hoje será dita amanhã – apenas mudam os personagens 😉

    E programas do Ratinho sempre adquirem grande audiência,não é mesmo?

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