Sinal (sonoro) dos tempos

Curitiba é uma cidade engraçada. No ano passado, o Jornal da Comunicação da UFPR publicou o seguinte informe, sobre poluição sonora na grande "capital da gente":

Em paralelo a todos os seus benefícios, a urbanização e a industrialização trouxeram complicações difíceis de enfrentar para quem mora em uma metrópolo como Curitiba. Dentre elas está a poluição sonora, com efeitos nocivos difíceis de mensurar.

(…) Em março de 1990, o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) publicou duas resoluções que visam a reduzir o problema da poluição sonora no Brasil. Ambas estabelecem limites para as emissões de ruídos, sendo os governos municipais e estaduais os responsáveis pelo monitoramento desse tipo de poluição. Aparentemente, porém, a fiscalização é insuficiente.

“Reduzir o fluxo de veículos numa rua excessivamente movimentada, pelo visto, não é viável, e os moradores da região se vêem obrigados a se acostumar o barulho”, avalia o estudante Leonardo Rocha Malinowski, que há quinze anos mora num apartamento na rua Nicolau Maeder. Embora reconheça a dificuldade de se reduzir o trânsito, Leonardo acredita que, no período da madrugada, deveria haver uma fiscalização nas ruas. “É muito comum a disputa de ‘rachas’[corridas de rua] nesses horários, o que atrapalha o sono de todos”, diz.

A matéria cita uma tese de doutorado de Angela Ribas, intitulada "Reflexões sobre o ambiente sonoro da cidade de Curitiba". Ribas demonstraria como boa parte das vias estruturais, conforme o plano diretor da cidade, teriam índices de poluição sonora mais altos do que os estipulados pela lei municipal 10.625.

Planejamento impreciso, unido ao descaso dos moradores e ausência de fiscalização, gerariam tanto mal estar quanto sentimento de impotência. A própria lei 10.625 parece em alguns pontos ambígua, quando não define adequadamente as circunstâncias nas quais se pode variar os limites de medição.

Mas o curioso, o verdadeiramente espantoso, é ver onde a Prefeitura lança os olhos para fiscalizar sobre "irregularidades" acústicas:

A Rádio Corneta do padre Leocádio Zytkowski, da paróquia da Barreirinha, em Curitiba, foi fechada. Na quarta-feira (15), fiscais da secretaria municipal do Meio Ambiente foram até a igreja e proibiram o sacerdote de ligar o alto-falante. O som emitido pelo equipamento, segundo a prefeitura, ultrapassou o nível máximo de ruído permitido para a região.

A rádio transmitia música e informações diariamente em dois horários, às 11h e às 15h. Segundo o padre Leocádio, a Rádio Corneta prestava um serviço de utilidade pública para a população. “Nós anunciamos documentos perdidos, crianças desaparecidas, todo tipo de informação útil para a população. Já fizemos até entrevistas com o prefeito e com vereadores”, explica.

O rigor para com a rádio corneta – enfim, uma iniciativa comunitária, e no seio da comunidade caberia pesar os prós e contras – destoa dos padrões de fiscalização da prefeitura. Inclusive, existem diversas reclamações na Central 156 contra poluição sonora em vias públicas. Eu mesmo já fiz várias, durante o último ano. Pedidos simples, de sinalização e radares (uma das feridas de Curitiba). Citei leis, portarias, decretos. Qual foi o resultado? Até agora, em meio às esperadas respostas cômicas nas quais uma das pontas da burocracia anula a outra, segue a medida mais concreta encontrada:

 

Alguém acha que isso é um paliativo? Shakespeare dizia "to sleep, perchance to dream" – sem a chance de dormir, leis e teses como a de Angela Ribas são prato cheio para os insones 😉

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3 comentários sobre “Sinal (sonoro) dos tempos

  1. Sabe que nunca tinha parado para pensar na poluição sonora como “poluição” até que, em Jurerê Internacional, Florianópolis, vi uma placa bem grande dizendo ser proibido utilizar som alto no carro, etc, pois poluição sonora era Crime Ambiental!

    Desde lá, tenho prestado mais atenção nos ruídos à minha volta. Belo post.

    RE:
    Esse “conforto acústico” é um daqueles “bens” que só damos realmente valor quando perdemos.
    O mais curioso ao ler material sobre isso é a questão do “desamparo” dos incomodados, como se agir nunca funcionasse.
    Eles tem uma boa dose de razão (já imaginou acionarmos as burocracias públicas nesse sentido?), mas desamparo aprendido nunca resolveu nada, rssss

  2. Como músico, tenho grandes birras com a poluição sonora.

    No livro “O ouvido pensante”, Muarray Schaeffer desfia um pouco do que são as implicações para a saúde dos níveis excessivos de som a que nos submetemos na vida moderna.

    Agora, a experiência mais cruel que já tive a este respeito foi subir o Anhangava em busca de sossego e encontrar lá gangues com rádios de pilha em altíssimo volume.

    É um grave problema em Curitiba, do qual só me consolo quando vou a São Paulo. Acho que não precisaríamos caminhar tão céleres no mesmo rumo.

    RE: Pois é, já ouvi dizer que já houve até pitboy levando pitbull para subir o Anhangava. Infelizmente não me admira esse pessoal que, quando sobe o morro, faz tudo, menos subir o morro.
    Agora, São Paulo, compartilho da tua posição! Estamos nos tornando uma São Paulo, talvez nos adequando mais à paulistanidade – o problema é definirmos o que é isso
    😉

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