Lacônico e loquaz

Alguns dias atrás conheci o Twitter. Aliás, conheci o twitter após ler um interessante informe sobre como esse instrumento pode auxiliar na educação.

Como o twitter é apenas uma plataforma, isso é interessante, o instrumento pode realmente auxiliar na educação, como qualquer outro instrumento também o pode. Mas… como um instrumento que permite digitar apenas 140 caracteres pode fornecer tal "auxílio"?

Talvez o twitter sirva de hipertexto – quadro geral, gratuito e acessível para agenciar contatos e possibilidades entre indivíduos. Mas o chamariz da plataforma é algo mais (ou menos) do que isso: "exchange of quick, frequent answers to one simple question: What are you doing?"

O que estamos fazendo? O Nelson Moraes, em post antológico, mostra com muito humor algo que fazemos: escrevemos cada vez  mais cada vez menos. A proliferação das 140 letrinhas do twitter  se multiplicou aos milhões, a ponto de alguns comentarem sobre a sobrevivência dos weblogs (sempre criticados por sua superficialidade, mesmo oferecendo bem mais de 140 caracteres). O twitter chegou até a mídia de massa, que talvez não por acaso enuncia um vocabulário cada vez mais raso, quando nos jornais televisivos se corrige ao falar "erroneamente" a palavra "matéria" ao invés de "reportagem" (o Homer não entenderia o que quer dizer "matéria"), ou coisas do gênero. "Fala aí pra galera entender", diz o Faustão. "A calculadora calcula", explicava outro repórter em algum jornal semanal. Já na melhor tradição call center, o político não lutará – ele "vai estar lutando" contra o aumento da poupança previsto por Lula.

Enfim, o twitter é uma mídia, um meio, e tanto pode servir para o emburrecimento da sociedade, quanto propiciar novos encontros, encruzilhada de toda invenção. Muito embora é curioso seu próprio nascimento, um invento que cumpre a mesma função de outras plataformas, porém oferecendo muito menos. Se nos perguntarmos sobre o valor das mídias, nesse contexto, é importante notar que dois de seus principais critérios são a acessibilidade e o próprio caráter de "meio" (e o link acima chama a atenção precisamente ao twitter desempenhar esse papel). Porém, se o critério é esse, outras plataformas menos difundidas (o multiply, por exemplo) não supririam mais possibilidades do que o twitter? Se prezamos a acessibilidade e a publicidade, a que se deve o culto à maquininha de poucas palavras, em detrimento a instrumentos com mais possibilidades?

Sobre a simplificação e o embrutecimento de nosso cotidiano, muitas vezes confundidos com acessibilidade (e devemos sempre saber distinguir os dois), Robert Fisk escreveu um texto muito interessante. O jornalista inglês é turrão, desacredita o computador e a internet, embora nitidamente não conhece a fundo tais possibilidades. Mas vale a pena ler o texto. E pelo visto, nos prolongamos demais 😉

***

Não por acaso, o Ricardo nos apresentou a Universidade SMS – tudo via celular! E desvenda a "brincadeira" publicitária.

Anúncios

9 comentários sobre “Lacônico e loquaz

  1. De tanto ouvir falar nesse troço abri um perfil lá, meio pra ver no que vai dar. Aí me apareceu um amigo disposto a “folowing me” por lá. Quase nem dormi à noite. O que mais me aterroriza nesse troço é essa insanidade de ter que ficar cada vez mais conectado.

    Xô capeta…

    Por outro lado, escrever pouco pode ser muito útil. Fisga o cara. Chama a atenção dele pra alguma coisa. Os livros não vão acabar mesmo, nem as teses. Assim como o youtube não vai acabar com o longa-metragem.

  2. Eu não acredito no Twitter como ferramenta pedagógica. Ou melhor: eu não acredito nos discursos que festejam toda nova tecnologia pelo “potencial pedagógico” que lhes acompanha.

    Educação, para mim, se faz com crítica. E crítica se faz com pensamento, o que exige atenção e aplicação. Não vejo nada disso na simplificação da linguagem nem na demanda pela constância da “vida on line”, estes itens que caracterizam o Twitter, assim como o Orkut e seus derivados.

    Logo, concordo em parte com o Catatau que o Twitter se trata de um “meio”, e que, como tal, pode ser usado de muitas formas. Mas não podemos esquecer de McLuhan, que tinha lá alguma razão ao dizer que os meios são as mensagens.

    Educação pelo Twitter? A um espírito inquieto, isso deve soar como um alarme: o nosso futuro será cada vez mais rápido, minimalista e, portanto, avesso à aquisição de cultura.

    Pois adquirir cultura não é algo que pode ser consumido como o são as redes de relacionamento, e como o são todas as mídias de entretenimento. Também não é algo que pode ser feito em poucas palavras. Não é algo da ordem do prazer, mas do desprazer, da exigência, da superação.

    A pior educação de hoje é feita nas instituições particulares que prometem o menor esforço e o menor tempo de aula. “Aprender brincando”. A situação é terrível. Por isso, tenho muitas ressalvas quanto à maneira como as tecnologias penetram nas salas de aula.

    Abraço!

  3. O problema desse meio, Catatau, é que em tempos de paz e sem uma bandeira mais específica, mesmo que ele pareça “economia de tempo” associada a objetividade, não só toma um tempo danado, como tb superlota a circulação ao redor dos umbigos…

    Tentei refletir um pouco sobre o assunto por ocasião daquele post onde cito o Camus (http://agora.opsblog.org/2009/04/colcha-de-pensamentos-retalhos-numa-terca-a-tarde), e ampliei para o tema da técnica dois posts adiante (“Propagandas pela metade, equívocos inteiros e… a técnica, de que somos reféns”). Tudo muito desestruturado e inconsistente, colcha de retalhos mesmo, mas de alguma forma dialoga com o que vc expôs aqui.
    Ah, para não variar, em nenhum dos dois dei conta de ser lacônico… 😛

    Abs

  4. Pois então,

    O que parece interessante não é apenas a proliferação das mensagens breves, para isso basta ter um blogue e escrever pouco. O curioso é o nascimento desse instrumento que deliberadamente é curto. E daí a pergunta: pq o twitter, e não outro?

    Não sei se vale o argumento “Pq todos usam”: o twitter, como qquer plataforma, pode ser usado como hipertexto. Um quadro negro pode ser hipertextual, na medida em que agencia contato entre as pessoas.

    Mas há outra característica do hipertexto: o fato de ser multi-meio. E daí provém a pergunta novamente: Pq o twitter, dado que é uma máquina com mais restrições que as outras?

    “Pq o twitter é mais fácil, propicia fluidez na comunicação”, talvez se responda. Mas posts como esse já mostram que o uso não é tão evidente assim, torna-se trabalhoso tirar “mais” do twitter.

    Assim a pergunta se torna: “pq o twitter, um instrumento que convida as pessoas a dizer ‘o que fazem’, dado que não oferece tantos MEIOS quanto os outros, e talvez ofereça as mesmas possibilidades de ACESSO que os outros instrumentos de net 2.0, mas é mais popular?”

    Enfim, é óbvio que esse não é um post contra o twitter ou os quadros negros, é um post a favor do hipertexto. Mas pq não outro? 😉

  5. Ainda sou uma jurássica não conectada ao twitter, embora reconheça o potencial da tal rede, principalmente depois que li aquele post muito bom, engraçado e que fala por si só, do Almirante. Talvez não esteja conectada por medo, como diz o André Egg, de me perder ainda mais, na navegação, porque parece que o troço é viciante e exige tempo.

    Por outro lado, estou com o Rodrigo Cássio quando levanta a necessidade de exigirmos MAIS e não menos dos nossos alunos, cujo vocabulário, por si só, já é muito fraturado, o que talvez explique o sucesso da própria rede.

    Mas acho que é possível pensar em formas criativas de usar esse tipo de instrumento.

    Recentemente, ao conversar com um amigo sobre a proposta de mudança nos vestibulares, pelo governo federal, para que se tornem mais parecidos ao Enem, escrevi o seguinte:
    Agora, em princípio, não sou contra os vestibulares serem substituídos por uma prova estilo Enem. Vejo todos os dias, há anos, bons estudantes, dedicados, encontrarem dificuldade em entender a rebuscada linguagem acadêmica, mesmo quando a pergunta tem uma resposta óbvia e que eles conhecem! É frustrante ver a frustração desses meninos quando se explica o que estava sendo pedido e eles respondem: “mas era só isso? Eu sabia!”. Não é uma meleca ?

    Abraço

    RE: Aproveitando o assunto, Alba, não é estranha essa moda das universidades alterarem a avaliação a cada ano?

  6. Catatau, obrigado pela menção ao post!
    Mas voltando ao teu raciocínio, creio que o problema que vc aponta — a pobreza do twitter frente a outras ferramentas — é que ele virou um fim, não um meio. E se existe gente usando-o criativamente, a maioria provavelmente o utilizará da maneira “esperada”, i.e., falando quase sempre sobre si mesmas… E cá entre nós, ninguém é tão interessante assim 24 horas por dia, não?

    RE: Esse é o ponto, Ricardo! E você parece ter formulado melhor que eu. Se o twitter é muito mais fim do que meio, resolvemos o problema, e a resposta é aquela mesma, de nosso “embrutecimento”.
    E curioso que teu último comentário foi feito ao mesmo tempo em que acrescentei teu link, rsss

  7. Catatau,

    Desculpe o atraso na resposta, que talvez fique “pendurada”.

    De toda forma, lá vai: acho, mas é só chute, que as mudanças nos vestibulares tem a ver com os melancólicos desempenhos no ensino fundamental e médio, na maioria dos estados, incluindo São Paulo com destaque.

    Isso, é claro, se se está falando de instituições sérias, porque as não sérias simplesmente nem fazem mais vestibular. Fazem lá um “processo seletivo” chumbrega em que literalmente TODO mundo passa.

    E quando o governo federal fala em adequar os vestibulares ao Enem, acho salutar, porque pode ajudar a quebrar a veneranda prática da decoreba, em que o indivíduo decora um certo conteúdo, faz a prova e 5 minutos depois não sabe mais do que se trata. 😦

    Salve,Ricardo Cabral! Bom te ler, viu?

    RE: Pois é, mas o problema disso é que no fim das contas para acabar com a prática decoreba deveríamos pressupor um conjunto de circunstâncias que torne a decorebice desnecessária, não é mesmo? Em outras palavras, superar o problema sem ficar na alternativa decoreba, e ao mesmo tempo não ir ao outro lado, uma espécie de avaliação solta, sem muita definição. O ruim é que as alterações dos últimos 8, 9, 10(?) anos tem precisamente esse cheiro, de avaliações que não dão efetivamente certo.

    Falando nas instituições “sem vestibular”, conheço várias que pedem para avaliação apenas uma redação em determinada língua: “os alunos devem fazer uma redação em língua portuguesa”, desse jeito mesmo, salientando os “termos”, rssss

  8. Pois é, Catatau,

    NADA em Educação funciona a curto prazo. Tudo requer ajustes, novas abordagens, até o uso de novas tecnologias que, necessariamente, devem estar atreladas a conteúdo e não soltas, só pra mostrar como a escola é muderninha.Por outro lado, o Vestibular formata o conteúdo do Ensino Médio, circunstância que leva, por exemplo, as empresas que produzem material didático, principalmente apostilado, a publicar textos E exercícios num grau de sofisticação de linguagem que o estudante simplesmente não consegue digerir e, às vezes, os professores mal-formados também não. Donde a decorebice que ainda reina, sobranceira, sobre a compreensão. Do outro jeito dá trabalho, exige tempo, os pais exigem que as danadas das apostilas sejam cumpridas no prazo estipulado, melecas mil.

    Por mim, simplesmente pulo o excesso de ridículo e já comuniquei o autor do referido material, anos atrás.

    Imagine que numa turma de 5a. série, crianças de 10, 11 anos, pretendia-se que os coitadinhos respondessem uma questão, se não me engano, da Unicamp, que era mais ou menos assim: “Com a queda do Muro de Berlim, torna-se cada vez mais evidente o acirramento de conflitos entre Wessies e Ossies, em virtude entre outras coisas, da falência das ideologias. Explique o porque deste acirramento. Pode? 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s