Quem está se lixando?

Todos já estão carecas de saber a frase de Sergio Moraes (PTB), sobre a opinião pública:

“Estou me lixando para a opinião pública. Até porque parte da opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Vocês batem, mas a gente se reelege”. E, pouco depois, afirmou: “Podem me atirar fogo que eu não tenho medo. Tenho sete mandatos e seis filhos, não é pouca vergonha eu estar aqui

Dando uma volta pela imprensa, essa é uma rara ocasião em que vemos todos concordando, sobre outro raro instante no qual um parlamentar é verdadeiramente sincero.

O Caixa Zero, acertando de novo, recua aos momentos em que tal sinceridade só aparece na literatura. E – quem diria? – até a Veja (talvez por se tratar de um político do PTB) e o Jornal Nacional desceram o sarrafo.

De fato, o Caixa Zero acerta de novo no ponto, pelo fato de declarações como essa apenas figurarem na literatura ou em breves clarões "reais".  Em outras palavras, todo mundo sabe que os políticos pensam de modo semelhante à frase de Moraes. É uma crença quieta, manhosa. Todos a consevamos ali no canto, apenas reativada por um suspiro ocasional, ou em momentos de grande comoção em massa, como no impeachment de Collor.

Até os "blogues" – vejam só, até esse! – entram no jogo.

Mas olha lá o deputado Silvio Costa (PMN-PE) defendendo o uso privado das passagens aéreas públicas, com muita ética (postamos aqui):

“Quero deixar claro que não sou a favor da farra das passagens, mas quero o direito de trazer minha mulher para Brasília. Quando o eleitor votou em mim, sabia que eu era casado”, defendeu o parlamentar. “A mesa decidiu, mas o plenário é soberano, nós somos 513”, completou.

Deixando bem claro que tanta ética envolve o mesmo deputado enviar dois filhos (os dois na política, um deles deputado estadual) e uma mulher para Londres, Santiago e Buenos Aires.

Ou então, sobre grandes empreiteiras financiarem campanhas como as de Beto Richa, Kassab e Gleisi Hoffman, e  se relacionarem diretamente a projetos atuais de tais candidatos (que por algum estranho desígnio não declararam em campanha seus doadores), um dos coordenadores de campanha de Beto Richa (Fernando Ghignone) defendeu:

“Ninguém está pensando em retorno porque toda relação com o município e empresa é feita por meio de licitações e concorrências públicas. Vence aquela que oferecer melhores condições aos municípios”, afirma. “Imagino que muitos desses contribuintes de campanha sejam idealistas que vêem na liderança do candidato a perspectiva de dias melhores.”

Tantas boas intenções se somam à do Senador Tião Viana (PT-AC), e seus gastos públicos com uso privado de um celular, devidos a "instinto paternal":

"Eu cometi um erro, paguei caro por esse erro e juro que foi a única vez em que emprestei o celular. Minha decisão foi tomada por puro instinto paternal, querendo manter contato com minha filha pelo fato de que ela e uma amiga atravessaram o México em uma viagem de ônibus" [fonte]

A economia das boas intenções gera um curioso resultado. Muito bem intencionada, uma inspetora da polícia rodoviária federal utiliza viatura para fins privados, enquanto alguns de seus subordinados, em prol do bem público e sem viatura, sentam no colo dos colegas durante as rondas. Enquanto isso, policiais tiram dinheiro do próprio bolso para fazer cursos com oficiais da SWAT, "para trabalhar melhor, sem matar ninguém".

O empenho desses policias é um pouco diverso de uma das assessoras do gabinete de Heráclito Fortes (DEM-PI), Luciana Cardoso, filha de nosso ex-presidente. Após rumores sobre ela não trabalhar no gabinete e ainda receber hora extra em período de férias, Luciana concedeu entrevista à Folha:

FOLHA – Quais são suas atribuições no Senado?
LUCIANA CARDOSO – Eu cuido de umas coisas pessoais do senador. Coisas de campanha, organizar tudo para ele.

FOLHA – Em 2006, você estava organizando os arquivos dele.
LUCIANA – É, então, faz parte dessas coisas. Esse projeto não termina nunca. Enquanto uma pessoa dessa é política, é política. O arquivo é inacabável. É um serviço que eternamente continuará, a não ser que eu saia de lá.

FOLHA – Recebeu horas extras em janeiro, durante o recesso?
LUCIANA – Não sei te dizer se eu recebi em janeiro, se não recebi em janeiro. Normalmente, quando o gabinete recebe, eu recebo. Acho que o gabinete recebeu. Se o senador mandar, devolvo [o dinheiro]. Quem manda pra mim é o senador.

FOLHA – E qual é o seu salário?
LUCIANA – Salário de secretária parlamentar, amor! Descobre aí. Sou uma pessoa como todo mundo. Por acaso, sou filha do meu pai, não é? Talvez só tenha o sobrenome errado.

FOLHA – Cumpre horário?
LUCIANA – Trabalho mais em casa, na casa do senador. Como faço coisas particulares e aquele Senado é uma bagunça e o gabinete é mínimo, eu vou lá de vez em quando. Você já entrou no gabinete do senador? Cabe não, meu filho! É um trem mínimo e a bagunça, eterna. Trabalham lá milhões de pessoas. Mas se o senador ligar agora e falar "vem aqui", eu vou lá.

FOLHA – E o que ele te pediu nesta semana?

LUCIANA – "Cê" não acha que eu vou te contar o que eu tô fazendo pro senador! Pensa bem, que eu não nasci ontem! Preste bem atenção: se eu estou te dizendo que são coisas particulares, que eu nem faço lá porque não é pra ficar na boca de todo mundo, eu vou te contar?

Sobre funcionários trabalharem no gabinete ou em casa, o secretário de Transportes do Distrito Federal e deputado federal licenciado, Alberto Fraga (DEM-DF), exonerou uma "secretária parlamentar" após ficar ciente de que tal tipo de funcionário apenas pode trabalhar no gabinete. Paradoxalmente, Fraga negou que a secretária – na verdade, uma doméstica – fazia serviços não no gabinete, mas em sua residência. Pelo menos até soltar o a
to falho:

Ela faz serviço no meu gabinete, paga contas, serve cafezinho. É uma empregada que presta serviços domésticos. Perdão. Que presta serviços externos e… Agora realmente ficou complicado de explicar.[fonte, ao que vale também consultar a resposta da empregada]

O curioso é que realmente poderíamos retirar os nomes de cada um, fazer citações anônimas, ou criar floreios literários, como o Caixa Zero mencionou. Lá vai Heráclito Fortes, no início do escândalo das passagens aéreas:

Perguntado sobre porque a Casa não divulga logo como os senadores usam as passagens, assim como fará com as notas fiscais da verba indenizatória, ele afirmou, com ironia:
– Aí não escapa nem jornalista, vai ser um constrangimento geral – e completou, em tom de brincadeira: – Assim é melhor fechar o Senado.[fonte]

Ou Jarbas Vasconcelos, no affair sobre o PMDB (e a política brasileira):

É uma confederação de líderes regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos. Para que o PMDB quer cargos? Para fazer negócios, ganhar comissões. Alguns ainda buscam o prestígio político. Mas a maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral. A corrupção está impregnada em todos os partidos.

Ou Pedro Simon:

Passou a ser a política de quem paga mais. Eles [o PMDB] ficam esperando para ver quem paga mais.

Enfim, são casos dos últimos dois ou três meses, e nem são todos. Mas e quanto a todos os outros não mencionados, alguma diferença no tom? E quanto aquela nossa crença, bem conservada no canto das consciências, ela vai bem, não vai? 😉

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