Watergate tupiniquim

O explosivo escândalo dos candidatos curitibanos a vereador (PRTB) que desistiram das candidaturas para apoiar o prefeito re-eleito Beto Richa (PSDB) em troca de vantagens – às vezes financeiras – já rendeu um nome bastante sugestivo na mídia paranaense: "Watergate Manassés".

O nome é muito interessante. Inclusive essa racionalização do acontecimento, dada por alguns jornalistas, tem algumas ressonâncias com outra declaração da semana passada, de José Sarney: a crise do Senado, segundo ele, se deveria a "um período de exaustão do modelo de democracia representativa".

No Paraná, vivemos um novo Watergate. Já o senado brasileiro não sofreria um caso particular – brasileiro -, mas de um movimento ou crise mundiais. É a democracia representativa como um todo que vive a "crise", e não nós, brasileiros, numa dinâmica política especificamente brasileira. Pouco importa Sarney ter declarado, também na semana passada, que “O que houve foi a falta de uma formalidade essencial”  no escândalo dos atos secretos (houve então uma "informalidade essencial?). Não importa ele pretender avaliar "se tudo é verdade", após afirmar explicitamente a contratação de uma sobrinha pelo Senador Delcidio Amaral, no PT-MS, e explicitamente optar por não comentar sobre vantagens semelhantes garantidas a um neto (se tudo é verdade, de algum modo já o foi declarado, embora ninguém pôs a questão sobre como os procedimentos judiciais acompanham ou não as declarações públicas).

Importa vivermos um "watergate" aqui e acolá, ou um "período de exaustão" da democracia representativa. Indicadores ou tipificações que "transcendem" a nós, brasileiros.

As racionalizações emprestadas acima talvez sigam o empréstimo das notícias das agências internacionais. Hoje se pode escolher ler o Le Monde, a BBC notícias ou qualquer outro. Salvo casos particulares, está ali tudo o que o jornal da TV brasileira mostrará. 

No meio disso tudo, o que faz o jornalista? Ou o que deixa de fazer, dado que até o alcance de seu diploma já se relativiza? Duas coisas se podem afirmar, pelo menos relativas aos grandes holofotes da imprensa: de um lado, eles são um requentado de algumas agências internacionais, em suma, mídia bóia-fria. De outro, não são apenas  fatos requentados, mas racionalizações requentadas.

O Sarney declara que não é a crise do Senado brasileiro, mas uma crise mundial, e o que lê em troca? Nada, nenhum jornalista considerou sobre o ritmo dos escândalos brasileiros talvez obedecer uma dinâmica brasileira. Ou mesmo o novo escândalo, dos candidatos curitibanos a vereador. Seriam casos particulares, talvez fruto de um espírito da época mundial globalizada?

Por sorte, às vezes os próprios "fatos" se impoem e oferecem ensinar o essencial. Sobre o affair curitibano, para além de financiamentos de pichações, propaganda de boca de urna, ou recibos assinados às gargalhadas com o número "171", as palavras de Neido Bonanza, um dos ex-candidatos do PRTB a vereador e destinatário de dinheiro do PSDB:

De onde vem o dinheiro eu não sei. Agora, qualquer um sabe como trabalha a política nossa, brasileira. Se está errado, que se busque (…) o poder judiciário, que sabe o que deve saber, e que busque e mostre pro povo.

 

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