A Mitologia dos Instintos

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"Sempre tivemos o pressentimento, escreve [Freud] aos setenta e seis anos, que atrás desses inumeráveis instintos pequenos se oculta algo grave e poderoso, algo a que desejamos nos aproximar com cautela. A teoria dos instintos é, por assim dizer, nossa mitologia; os instintos são seres místicos grandiosos em sua indeterminação. Em nosso trabalho não podemos retirar a vista deles por um instante sequer, e não obstante, nunca estamos seguros de vê-los com claridade".

Aqui vemos o incessante assombro do investigador da natureza ante a gravidade e o poder da vida e da morte a ela imanente, o assombro diante de uma vida que, como pensou Freud, "todos sofremos muito", sofrimento para o qual não há compensação nem consolo, mas cuja tolerância segue sendo "o primeiro dever de todos os seres vivos". Só é possível cumprir com esse dever se nos orientamos até a morte, si vis vitam, para mortem, pois a vida se nos faz mais "suportável" quando concedemos mais valor à verdade, em particular frente à morte. (BINSWANGER, L. La Concepción Freudiana del Hombre. Articulos y Conferencias Escogidas. Madrid: Gredos, s/d)
 
 
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 “… o mundo, monturo de forças instintivas, que em todo o caso brilha ao sol com tons palhetados de ouro claro e escuro. (…) Um terramoto e um massacre não têm para mim diferença senão a que há entre assassinar com uma faca e assassinar com um punhal. O monstro imanente nas coisas tanto se serve – para o seu bem ou o seu mal, que, ao que parece, lhe são indiferentes – da deslocação de um pedregulho na altura ou na deslocação do ciúme ou da cobiça num coração”.
 
“há momentos em que a vacuidade de se sentir viver atinge a espessura de uma coisa positiva. Nos grandes homens de ação, que são os santos, pois que agem com a emoção inteira e não só com parte dela, este sentimento de a vida não ser nada conduz ao infinito. Engrinaldam-se de noite e de astros, ungem-se de silêncio e de solidão. Nos grandes homens de inação, a cujo número humildemente pertenço, o mesmo sentimento conduz ao infinitesimal; puxam-se as sensações, como elásticos, para ver os poros da sua falsa continuidade bamba. E uns e outros, nestes momentos, amam o sono, como o homem vulgar que nem age nem não age, mero reflexo da existência genérica da espécie humana. Sono é a fusão com Deus, o Nirvana, seja ele em definições o que for; sono é a análise lenta das sensações, seja ela usada como uma ciência atômica da alma, seja ela dormida como uma música da vontade, anagrama lento da monotonia”.
 
(…) “A persistência instintiva da vida através da aparência da inteligência é para mim uma das contemplações mais íntimas e mais constantes. O disfarce irreal da consciência serve somente para me destacar aquela inconsciência que não disfarça.
Da nascença à morte, o homem vive servo da mesma exterioridade de si mesmo que têm os animais. Toda a vida não vive, mas vegeta em maior grau e com mais complexidade. Guia-se por normas que não sabe que existem, nem que por elas se guia, e as suas ideias, os seus sentimentos, os seus actos, são todos inconscientes – não porque neles falte a consciência, mas porque neles não há duas consciências.
Vislumbres de ter a ilusão – tanto, e não mais, tem o maior dos homens.
” (Livro do Desassossego, nº 133, 155 e 149)
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4 comentários em “A Mitologia dos Instintos

  1. Meu amigo, que belas pontes você levantou! Volto mais tarde, quero reler e pensar mais sobre elas, mas precisava deixar logo o registro sobre a maravilha que são esses teus recortes.

    Grande abraço

    P.S. Te devo um email, que dado o atraso, não conseguirá chegar aos pés quanto ao “grau de fraternidade” daquele que você me mandou…

    RE:E a bibliografia, conhecida? 😉

  2. Faz-me lembrar daquela frase de Talleyrand: cuidado com seu primeiro impulso. Normalmente, é o bom. É o impulso instintivo, moral, por assim dizer autêntico, mas perigoso porque irrefletido, bestial, e vá juntando adjetivos.

    RE: Pois é, e aí você toca em um mundaréu de questões. O Binswanger fala aquilo do Freud, mas logo depois o critica. Tudo perpassa mais ou menos o seguinte: ou Freud, com a descoberta do inconsciente, mostra um fundo comum da ignorância e finitude humanas, reatando com algumas tradições a questão do douto que assume a própria ignorância para poder seguir a vida e não viver conforme ilusões (um pouco como nas opções fornecidas por Soares); ou Freud lança mão de uma espécie de dualismo, cuja separação entre refletido e irrefletido põe o problema do impulso/animalidade, das imputações biologizantes e “mecanicistas”, de um lado, e o problema da liberdade e da autenticidade de outro.

  3. Freud escreveu o que escreveu sabendo o que sabia sobre o cérebro: nada.
    Atirava em muita coisa e às vezes acertava.
    A culpa não é dele, claro, mas tá na hora de estudar Freud nas aulas de história, vocês não acham?

    RE: Não achamos não, Justin, pelo fato de que 1) epifenomenismo cerebral nunca respondeu nada (e no século XIX ou no XXI nunca deixou de ser ingenuidade), 2) um bom neurocientista nunca seria dogmático assim, 3) Freud não era neurocientista, mas não há como encarar nenhuma disciplina “psicológica” do século XX sem a influência de Freud, e 4) Onde você viu o primado da neurociência no assunto abaixo?

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