O peregrino, o deputado, o Brasil

O ex-deputado estadual paranaense Fernando Ribas Carli Filho, que em um acidente dirigindo a controversos 190 Km/h, alcoolizado e com a carteira de motorista suspensa acabou vitimando dois jovens, realizou sua primeira entrevista após o ocorrido.

A entrevista foi em Guarapuava, no Santuário de Schoenstatt.

Para quem não conhece, Schoenstatt é um conjunto de santuários espalhados pelo mundo, a partir do empreendimento do padre Joseph Kentenich (1885 – 1968). Trata-se de recantos de peregrinação e retiro, localizados em bosques remotos.

Dado o contexto, pode-se compreender o tom da entrevista. Foi inteiramente voltada aos valores cristãos do arrependimento (embora não do reconhecimento da culpa) e do tema da "nova oportunidade". "Preciso entender qual é a minha missão", diz a chamada da entrevista. Nela, o ex-deputado conjecturou sobre vida pública, pedidos de não condenação do público, e até sobre escrever um livro. Revelou leituras de cunho cristão ou de auto-ajuda, unidas a exercícios físicos. 

“Espero justiça e que as pessoas não me julguem e me condenem antecipadamente”, disse (significando "justiça" o desejo de "esclarecer"). Logo abaixo, declara: "Preciso me encontrar espiritualmente (…) entender o que aconteceu e qual é a minha missão no mundo. Foi uma bênção. Não foi à toa que fiquei aqui (vivo)".

No mesmo dia da entrevista, a imprensa anunciou a colocação de diversos outdoors em Guarapuava, com agradecimentos de Carli Filho em meio a palavras como "Agradeço a Deus pela vida e a todos que estão orando por mim".

O consultor de marketing Hudson José afirma que a sociedade começa a assistir a uma “guerra de mídia”, em que a figura do ex-deputado vai voltar aos meios de comunicação, depois de um distanciamento enquanto ele esteve internado.

Hudson José considera que as estratégias usadas por Carli Filho estão sendo corretas, do ponto de vista do marketing, para a recuperação de sua imagem. “Ele está se mostrando humano, frágil, fortalecendo sua figura como filho, e demonstrando fé”, afirma o consultor. “Tudo isso vai pesar no andamento do processo e do julgamento.” [gazeta do povo]

Sobre o "motivo" de Carli ter continuado vivo, um jornalista declarou dois dias atrás: óbvio que foi o Volkswagen blindado que ele dirigia. Privilégio não compartilhado pelas duas outras vítimas.

Mas o importante a se chamar a atenção não são as entranhas populares, ainda excitadas pelo acontecimento. Nem à estratégia de marketing, correta do ponto de vista do marketing. Deve-se chamar a atenção ao próprio acontecimento, caso exemplar e paradigmático não apenas em termos jurídicos (algo já declarado pelo advogado da família Yared), mas sobretudo um espelho do Brasil.

Em primeiro lugar, Ruth Bolognese aponta uma confusão indigesta dos outdoors:

Os outdoors espalhados pelo ex-deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho em Guarapuava foi uma atitude absurda, desastrada e tão fora de propósito que choca a sociedade paranaense. Confundiu a tragédia com a política, transformou o conforto recebido da população da cidade em propaganda pessoal e arrematou com a prepotência dos que se consideram acima do bem e do mal no julgamento do fato de o ex-deputado ter sobrevivido a um acidente, causado por ele, em que dois jovens morreram.

Se a intenção era apenas agradecer aos guarapuavanos pela solidariedade num momento tão grave para a família Ribas Carli, bastaria que o prefeito e pai fizesse isso pessoalmente, na convivência do ofício que lhe cabe. Se o objetivo era responder à frase “190 km/h é crime” que muitos carros carregam em seus vidros traseiros em Curitiba, a forma, o momento e o meio utilizado pioraram, e muito, a situação. O ex-deputado Carli Filho só tem um caminho para recuperar a normalidade da vida dele: cumprir quietamente o que a Justiça determinar para reparar o crime que cometeu.

Bolognesi mostra muito acertadamente um fator que talvez não encontramos em nenhum outro país: Um político, homem público que cometeu irregularidades atentando à vida alheia (não por vontade, mas por inconsequência), deixa a vida pública após grande pressão popular. Deixando de lado a questão de que talvez sem essa pressão não haveria renúncia ou julgamento, Bolognesi declara: esse mesmo homem público que renunciou à vida pública e se tornou um "ex-deputado" (como insistiu declarar na entrevista concedida), retorna agora à mesma esfera pública, agradecendo o apoio popular dirigido ao mesmo fator que o fez renunciar à esfera pública por pressão popular. Nas palavras de Bolognesi,

  Confundiu a tragédia com a política,

ou o que dá no mesmo, é um ex-deputado falando ainda do lugar de deputado, mesmo declarando não ocupar tal lugar. Ou  alguém pretendendo investir em algum suposto apoio público de sua condição privada de homem arrependido (sem assumir manifestamente a culpa) para disso retirar ganhos (aprovação) públicos.

De todo modo, não há nada de errado nisso. Carli Filho tem a oportunidade de fazer o que a figura social do "ladrão de galinha" não pode: buscar assentimento público para atenuar um acontecimento de consequências terríveis. Mas notemos já no caso Carli Filho a menção de duas esferas diferentes concorrendo na mesma via: o "jovem", homem privado "cristão"  de família devota que cometeu erros morais e agradece a "nova oportunidade"; e o deputado, homem público possuidor de responsabilidades públicas e jurídicas.

O ato dos outdoors de Carli Filho simplesmente mistura as duas esferas, privada/moral e pública/jurídica. E a oscilação entre o público e o privado só vem a trazer ganhos privados: no momento da condenação pública e jurídica
, apelemos ao tema moral privado do "peregrino" cristão contrito e cioso por respostas (ou quando conveniente, do "jovem" que se envolveu em um acidente entre "jovens"); e por isso mesmo, retornemos à esfera pública não mais a imagem do deputado indecoroso público, mas do cristão contrito privado… para benefício privado em esfera pública.

Sobre isso, Bolognesi novamente complementa: talvez fosse melhor "cumprir quietamente o que a Justiça determinar para reparar o crime que cometeu". Em termos públicos, o ex-deputado só teria a prestar contas sobre como seu discurso e atuação de deputado culminou no fato irrefutável de sua embriaguez, da alta velocidade e da direção inconsequente. Mas isso, como bem ele manifestou na entrevista, cabe ao julgamento formal.

Em termos privados, como salta aos olhos, tudo isso diz respeito a um compromisso moral. O mundo tupiniquim já anda cheio desses artifícios (deliberados ou não, não importa) nos quais os políticos saltam entre as esferas dos ganhos públicos e privados em função de interesses privados (lembremos a cultura des-ideológica, se isso existe, da infidelidade partidária e dos conchavos unicamente voltados a interesses setoriais-regionais). Assumir o compromisso moral pelos erros, enfrentá-los cada qual em sua esfera específica (moral para o cristão e jurídica para o ex-deputado), aí estaria um louvável recomeço. Nesse sentido, o ex-deputado teria duas alternativas: ou o silêncio recomendado por Bolognesi, ou a colaboração com a justiça para esclarecer o ocorrido. Pois do velocímetro à apuração dos radares, aí está um caso onde estranhamente tudo é controverso.

Caso seja útil, um lembrete: o cristianismo primitivo, tornando possíveis atitudes espirituais como as responsáveis pela criação de movimentos semelhantes ao de Schoenstatt, pregava um princípio moral muito interessante, embora em desuso: a não separação entre a crença do fiel e suas ações cotidianas. Uma boa idéia para não guiar confusões, especialmente em situações tão delicadas.

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