Nagasaki e a guerra absoluta

 
Hoje completam 64 anos do lançamento de "Fat Boy" sobre a cidade de Nagasaki. A respeito das bombas, muitos comentaram sobre a ocasião inaugurar novas relações entre os homens, para além de novos modos de fazer guerra. Três citações de Antonio Negri e Michael Hardt sobre o assunto:

 A guerra só se torna efetivamente absoluta com o desenvolvimento tecnológico de armas que pela primeira vez tornaram possível a destruição em massa e mesmo a destruição global. As armas de destruição global rompem a moderna dialética da guerra. A guerra sempre envolveu destruição de vida, mas no seculo XX esse poder destrutivo chegou aos limites da pura produção de morte, simbolicamente representada por Auschwitz e Hiroshima. A capacidade de genocídio e destruição nuclear atinge diretamente a própria estrutura da vida, corrompendo-a, pervertendo-a. O poder soberano que controla tais meios de destruição é uma forma de biopoder neste sentido mais negativo e terrível da palavra, um poder que decide de maneira direta sobre a morte – não apenas a morte de um indivíduo ou grupo mas da própria humanidade e talvez mesmo de tudo que existe. Quando o genocídio e as armas atômicas colocam a própria vida no centro do palco, a guerra torna-se propriamente ontológica.
Negri, A. Hardt, M. Multidão: Guerra e Democracia na época do Império. RJ, Record, 2004, p. 41 (livraria cultura, pesquisa de preços, google books)
e
 O legado da modernidade é um legado de guerras fratricidas, "desenvolvimento" arrasador, "civilização" cruel e violência nunca antes imaginada. Erich Auerbach escreveu que a tragédia é o único gênero que pode, com razão, pretender alcançar o realismo na literatura ocidental, e talvez isso seja verdade precisamente por causa da tragédia que a modernidade ocidental impôs ao mundo. Campos de concentração, armas nucleares, guerras genocidas, escravidão, apartheid: não é difícil relacionar as diversas cenas da tragédia.(…) A negatividade moderna está localizada não em qualquer reino transcendente mas na dura realidade diante de nossos olhos: os campos de batalha patrióticos da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, dos campos de extermínio de Verdun aos fornos nazistas e o rápido aniquilamento de milhares de pessoas em Hiroshima Nagasaki, os bombardeios do Vietnã e do Camboja, os massacres que incluem de Sétif e Soweto a Sabra e Shatila. A relação prossegue indefinidamente. Não há Jó que aguente tanto sofrimento!
(…) Precisamos considerar também o poder da res gestae, o poder que tem a multidão de fazer história (…) É uma questão de transformar uma necessidade imposta à multidão (…) para uma condição de possibilidade de libertação, uma nova possibilidade nesse novo terreno de humanidade.
Negri, A. Hardt, M. Imperio. RJ: Record, 2005, p. 65 (livraria cultura, pesquisa de preços, google books)
Ainda, Michael Hardt:
 A negação não-dialética é absoluta, não no sentido de que tudo que está presente é negado, mas no de que aquilo que é negado é atacado com força total e irrestrita. Por um lado, autores como Deleuze propõem esse conceito não-dialético da negação não na promoção do niilismo, mas tão somente como o reconhecimento de um elemento de nosso mundo. Podemos situar essa posição teórica com relação ao campo do "criticismo nuclear", mas não no sentido de que armas nucleares apresentam a ameaça da negação, não no sentido de que elas colocam o medo universal da morte (…) A negação da bomba é não-dialética em sua atualidade, não nos gabinetes de planejamento de Washington mas nas ruas de Hiroshima, como um agente da destruição total. Nada há de positivo na negação não-dialética, nenhuma ressurreição mágica: Ela é pura. (…)
Hardt, M. Gilles Deleuze, um Aprendizado em Filosofia. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996, p. 13 (livraria cultura, pesquisa de preços, google books)
As citações acima mencionam as implicações retoricamente "negativas" de tais "novas relações". Importante ver, nesses autores, as implicações "positivas" (nos textos, ver google books, alguns apontamentos estão próximos das citações).
 
Vale também visitar o sempre importante lembrete poético, evocado por  Patricia Palumbo, sobre as implicações das bombas.
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4 comentários em “Nagasaki e a guerra absoluta

  1. Vai,
    em haikai… condenável por várias regras, mas bem menos que as tais em questão.

    o cogumelo
    matando todo mundo
    calor da bomba

    RE: Pois é Pax,
    Digamos que você traz à luz um kigô infernal…

  2. Circunstâncias, objetivos e resultados completamente diferentes. Hardt é um “engalicado” (se não conhece o termo pergunte ao Pax).

    RE: O Curioso a notar é que Hardt não está chamando a atenção à diferença de conteúdo, mas à coincidência de formas: a destruição sem recurso e sem limites da vida não é a mesma coisa em Hiroshima e em Auschwitz; não é uma mesma coisa, mas um mesmo conjunto de acontecimentos homólogos…

  3. Bolhas de sabão tem a mesma forma de bolas de futebol, e de nada adiantam para melhorar a posição do Gremio na tabela do Brasileirão.

    RE: Mantendo-se nesse nível de debate colocado por você, é natural defender qualquer posição, da mais absurda à mais correta. Só não se defende por pensamento, apenas por achismo. Pode-se estar certo ou errado. Não porque se pensou, mas porque simplesmente se pode enunciar qualquer juízo, dos ET´s, ao Grêmio, à legitimidade de uma bomba atômica… Só que nem sempre o outro assentirá (nesse caso, raramente), pois o nível é apenas de assentir ou não, nunca de concordar…

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