As “primeiras impressões” de Vladimir Arseniev

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Esse homem me interessou. Algo nele era especial, original. Ele soava simples, paciente, mantendo-se modesto, sem insinuações. Conversamos juntos. Ele contou várias coisas sobre sua vida, e quanto mais me contava, mais inclinava minha simpatia. Eu via diante de mim um caçador primitivo, que durante a vida inteira viajou na taiga e estava livre desses vícios que a civilização das cidades traz. Por suas palavras eu soube que ele obtinha seus fundos para viver com sua arma, trocando objetos de caça por tabaco, munição e pólvora. Obteve seu rifle por herança do pai. Contou ter agora 53 anos; nunca teve uma casa, e viveu sempre  sob o céu aberto,  apenas montando no inverno abrigos temporários de cascas e palha. Os primeiros clarões de suas memórias de infância eram: um rio, uma cabana rústica e o fogo, o pai, a mãe, e uma pequena irmã.

"Todo mundo morreu tempos atrás", ele terminou o relato e se perdeu em pensamento. Permaneceu brevemente silencioso e continuou: "Antes eu também tive uma esposa, um filho e uma filha. A varíola terminou com todos. Agora permaneço sozinho…"

Sua face se entristeceu pela lembrança dos sofrimentos. Tentei confortá-lo, mas que era meu consolo para esse homem sozinho, de quem a morte levou a família, a única consolação na velhice? Ele não reagiu e apenas baixou um pouco mais a cabeça. Eu tentava de algum modo expressar minha simpatia, fazer algo, mas não sabia exatamente o que fazer. Finalmente pensei em algo: ofereci a ele trocar sua velha arma por uma nova. Mas ele recusou, dizendo ser a berdanka prezada por evocar a memória do pai, que ele a usava e ela ainda atirava muito bem. Alcançou-a escorada na árvore, e começou a acariciá-la.

Assisti Dersu Uzala, o filme de Akira Kurosawa vencedor do Oscar em 1975, por dica de Ricardo Cabral e Diego Viana. O filme trata de uma forma belíssima, e até mesmo esquecida, as relações entre o homem e a natureza. "Esquecida" por apresentar certos modos de expressão dessa relação em desuso, devido a 100 anos de "avanços tecnológicos". Hoje, dos esportes de aventura às invasões militares, a palavra de ordem é "rendimento", em termos de material e sua durabilidade, preparo físico, etc. Dersu traz muito do que esquecemos: uma relação imediata com o meio, de onde travamos experiências e colhemos frutos.
 
Além das relações entre o homem e a natureza, o filme trata, também de uma bela maneira, da amizade.
 
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Além do filme, há também um site sobre Dersu Uzala. Kurosawa se inspirou no relato "real" de Vladimir Arseniev, publicado em um livro clássico na Rússia e na URSS. A citação acima é uma tradução livre de uma pequena passagem. Por lá não consta a informação, mas temos já uma tradução do livro de Arseniev, encontrável em livrarias virtuais e na Estante Virtual.
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2 comentários em “As “primeiras impressões” de Vladimir Arseniev

  1. Fico feliz que tenha assistido, meu caro, e não me surpreendeu ler essas reflexões sobre a amizade, e de um certo tipo de relação com a natureza que se vê algo eclipsada por essas noções de rendimento e da mediação tecnológica. Há um ali um tipo de saber-de-si-no-mundo que anda tão fora de moda, não é?

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