O caráter dos proctologistas

https://i1.wp.com/www.humorgazette.com/images/proctologist-sm.jpgO Animot e o Bruno publicaram observações sobre algo muito sério: o caráter de Dilma Rousseff. O "caráter" mesmo, em cunho "científico". Preocupada com a exploração pública que a própria Dilma faria de sua própria doença, Ruth de Aquino, uma editora de Época com tese de doutorado intitulada Ética versus a necessidade de vender ou a Tabloidização da imprensa britânica, publicou um texto sobre porque Dilma, antes sempre carrancuda, agora daria sempre "um jeito de aparecer rindo nas fotos".
 

Aquino, que anteriormente já se envolveu com um curioso affair no ScienceBlogs sobre mídia de ciência, consultou o "psicanalista" Francisco Daudt, para ele interpretar "o que enfim revela" Dilma:
 O que revela o rosto de Dilma?

Francisco Daudt – Antes dos 40, temos a cara que Deus nos deu. Depois dos 40, temos a cara que nós merecemos: nosso caráter marca nossa expressão facial. Dilma fez a mesma coisa que Zé Dirceu. Ela se disfarçou. Dirceu fez plástica quando caiu na clandestinidade, para se esconder. Dilma fez plástica porque a cara que ela tinha antes da plástica era assustadora, era a cara de uma pessoa agressiva, autoritária, impositiva, de dar medo. Hoje em dia você olha fotos dela e é capaz de achar até agradável, mas esta não é a Dilma Rousseff.

E o dedo para o alto? Isso a plástica não resolve. O que representa esse dedo erguido, a mão crispada?

– Há vários tipos de dedo em riste. Há o dedo na cara do outro, que é insultuoso. O dedo levemente inclinado para trás pede a atenção para um determinado ponto de vista ou um momento em silêncio. O dedo cujas costas da mão estão viradas para o interlocutor, enquanto os outros estão fechados, é um gesto stalinista, reflete o desejo de impor uma opinião. Somente um treinamento intensivo pode substituir a pele verdadeira por uma pele de cordeiro. O dedo erguido é quase um lembrete: olhe, a anágua está aparecendo. Mas alguém já deve ter dito isso para ela, porque a Dilma anda mais econômica nos gestos ultimamente.

E você, o que acha? Quem é simpático tem mais amigos. E conquista muito mais eleitores – se não parecer falso. Nessas férias, Dilma precisará de um bom tempo em frente ao espelho, com as mãos para trás, controlando as sobrancelhas que teimam em arquear, a boca que teima em exagerar para norte, sul, leste e oeste, os olhos que teimam em se indignar, às vezes esbugalhar. Sobretudo os dedos que cismam em dar um tom professoral ou autoritário e que nenhum bisturi pode consertar. Algum personal-face-stylist, algum mago do carisma conseguirá suavizar Dilma, por fora e por dentro, sem que ela perca a autenticidade?

Enfim, Dilma sorrindo não é Dilma Rousseff. E o que dizer de seu dedo em riste? É um "gesto stalinista". Alguém deve ter lembrado Dilma, mas vá lá, o que faz parte do caráter, isso não se esconde. Mesmo que se tente vestir pele de cordeiro, sempre se sente o cheiro do lobo, não é mesmo? A pele de cordeiro não esconde os dentões (ou os dedões).

E a "conclusão" de Aquino: Dilma não teve um passado na ditadura; e se teve, não pode sorrir. E se sorri, está fingindo, pois tudo "teima em se indignar", especialmente em um mundo sorridente como o mundo da política brasileira, onde basta bons sorrisos para angariar votos, certo?

O interessante parece ser essa "análise", com gosto "científico", sobre a feia, carrancuda e deduda política. Se foi o "psicanalista" quem disse, quem duvida? Dilma deve ser assim mesmo.

Mas… caracteriologia? Schirmer chamou a atenção sobre como essa "ciência" é tão veraz quanto a frenologia, aquela curiosa disciplina de Gall. Os "frenologistas" acreditavam encontrar todas as funções mentais nas circunvoluções do crânio. O indivíduo tem uma doença mental? Vejamos sua cabeça.

E o contrário também vale: quero contratar alguém, fazer diagnósticos de saúde, ou mesmo encontrar a sede do Cogito? Basta olhar as circunvoluções da cabeça. Um filósofo do século passado já chamou a atenção: não é estranho, tão logo apareça uma nova doutrina sobre o cérebro, toda essa sede imediata em aplicá-la, sem consultar sua legitimidade?

O Schirmer chamou a atenção à frenologia. Mas a frenologia é só um pouquinho mais recente do que os últimos golpes fatais contra a caracteriologia. Isso, por voltas de 1790 a 1810. Alguns, no fim do século XVIII, até pensavam que a caracteriologia poderia servir para alguma coisa. Por exemplo, pode não ser por acaso esse nosso interesse em insistir que podemos ler "características" interiores pelas feições exteriores – do rosto, por exemplo. Deixemos bem claro: nosso interesse em ler as "características" faciais nada tem a ver com a face de fato mostrar tais características. Essa informação, lá nos idos de 1790, tinha alguma serventia – não a favor da caracteriologia,  mas desse curioso interesse exacerbado em haver alguma, diga-se de passagem.

Mas de algum modo, cá estamos nós, em 2009, com considerações "caracteriológicas". Se o dedo de Dilma em riste pode ser um "gesto stalinista", isso quer dizer que outro político brasileiro com dedo em riste pode ter um gesto "czarista"? Entre os dedos em riste, podemos até analisar o caráter dos proctologistas. De algum modo, seguindo tais considerações, os proctologistas devem ter alguma característica pessoal, dada a fixação de uma profissão que empregue os dedos e não é a de digitador, certo?

Ou, 200 anos depois, continua interessante essa insistência em sustentar nossas observações sobre as "características" alheias como "as verdadeiras".

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6 comentários sobre “O caráter dos proctologistas

  1. Duvido que quem faça afirmações como essa tenha estudado um pouquinho que seja a frenologia. Devem se basear em conceitos mais científicos ainda, como o que diz “Quem vê cara não vê coração”.

    RE: Você se refere a quem? Eu, o Schirmer, ou o Daudt? hehhehe

  2. Só faltava citarem “O Retrato de Dorian Gray”. E, pseudociência por pseudociência, ressuscitarem aquela que analisa o caráter da pessoa pela sua letra manuscrita. Deve ter alguns memorandos da Dilma por aí que se prestem a isso…

    RE: Rapaz, e não é que essa outra análise “caracteriológica” está vivinha?

  3. Boa tarde ……
    Não que eu duvide da analise do rosto e das expressões da Dilma, mas e se ela já encenava antes?

    RE: Oi HRP!
    Será que a questão é se Dilma finge nas expressões? É muito provável que TODOS “fingem”, mais ou menos, já que utilizam as expressões segundo as conveniências. Mas será que a questão é essa? Não seria mostrar que esse argumento do “fingimento” não serve para muita coisa?
    abraços,

  4. Pode ser amigo…..só que eu espero que a turma dela se espelhe no Lula e seus objetivos para dar continuidade a governança do Lula( em suas politicas a favor do povo, tipo inclusão e distribuição de renda), o Serra não me dá qualquer esperança de continuidade dessa coisa de inclusão.
    Ele e a sua pleiade de assessores são a continuidade do Consenso de Washington!
    Não dá para aguentar essa marra anti trabalhador!
    Boa noite e alegre despertar!

    RE: Rapaz, agora uma pergunta off-topic: Você habita nessa “ilha anchieta”? Que lugar!

  5. A Ilha Anchieta é parque ecologico do governo de São Paulo…..Só habita o local os funcionários do parque.
    Quem conheçe a ilha melhor do esse que vos escreve é o Alex Proftel lá do Pedro Doria e do Pandorama.

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