Expondo-se pelas próprias palavras

Segundo anúncio da Veja, Ali Kamel publicou mais um livro: Dicionário Lula – Um presidente exposto por suas próprias palavras. Como esses dois nomes – Ali Kamel e Lula – nunca se colocariam lado a lado sem alguma curiosidade, vamos às considerações:

Ao contrário de seus dois trabalhos anteriores, Não Somos Racistas, de 2006, e Sobre o Islã, de 2007, nos quais Kamel firmava pontos de vista tão racionais quanto intrépidos sobre os temas abordados, neste não há julgamento ideológico e moral. Ele não opina se Lula está certo ou errado, não aponta se mente ou se atém à verdade. Também não se dedica a coligir os erros de português, as falhas de lógica e as metáforas pedestres do presidente. Não é um Lula de anedotário, o que emerge no livro de Kamel. A intenção é registrar, com o máximo de objetividade e, não menos essencial, organização, o que o presidente diz pensar a respeito de uma série de assuntos, inclusive ele próprio e sua trajetória.
O princípio é interessante: um presidente nunca deixou de ser matéria privilegiada para compreender um país. Mesmo concebendo um presidente que pede em algum momento para o eleitorado "esquecer" seus ditos e escritos, tais mudanças discursivas (ou mesmo alguma continuidade) nunca ocorrem por acaso. O discurso de um presidente (e mesmo as atribuições do que ele supostamente disse) tem, sempre, implicações políticas.
 
Mas olhando com um pouco mais de atenção, não é a isso que Kamel parece se atentar. E o primeiro parágrafo da Veja entrega tudo de lambuja: Kamel emprega "ponto de vista racional", não "julga" em termos ideológicos ou morais. E mesmo quando o presidente pobre, retirante e sem estudo erra com seu linguajar e pensamento "pedestres", não se lançará juízo algum de valor.
 
Se o uso de "pedestre" é escolha da Veja ou de Kamel, a revista não afirma. Mas tudo, tudo é muito objetivo, sem preconceito algum, sem anedotário.
Desenhada a linha, Kamel desprezou os discursos protocolares de Lula, para concentrar-se naqueles improvisados no todo ou em parte. Para além de o presidente ser o rei do improviso, aspecto incancelável de seu passado de líder sindical acostumado a mobilizar assembleias de trabalhadores, o autor explica que, a seu ver, é na fala espontânea que aparece o Lula por inteiro, "mais real".
Mantendo seu ponto de vista "objetivo", Kamel faz o primeiro recorte: não os discursos formais, mas o "Lula real". Bem entendido: o Lula "real", o dos erros de lógica e discurso "pedestre".
 
O "Lula real", portanto, não se expressa na posição integral de um Presidente da República, homem privado e homem público. O "Lula real" é o líder sindical, sem estudo, com bom traquejo em mobilizar trabalhadores. O "Lula real", para além do Lula fictício, ou do Lula formal, é esse. E a visão "objetiva" emenda as metades da maçã: o presidente "real", além do pensamento pedestre, é tudo o que resta caso retiremos a esfera formal.
(…) Em 2007, resolvido a enfrentar o desafio de montar um "léxico Lula", Kamel chamou o historiador Rodrigo Elias para ajudá-lo. Na fase inicial, que consumiu cinco meses de trabalho, foi colocado num único arquivo de computador tudo o que Lula falou entre janeiro de 2003 e março deste ano – um total de 1 554 textos, dos quais 847 discursos, 503 entrevistas e 204 programas radiofônicos. Depois, (…) Kamel contratou o analista de sistemas Wilson Pacheco de Albuquerque. Ele levou um mês para desenvolver um programa que permitia não apenas contar palavras, mas localizá-las e relacioná-las.
Segundo recorte: as falas de Lula compreendidas entre jan/03-mar/09
Ao final, o autor chegou a um vocabulário básico das 540 palavras mais usadas pelo presidente. Para refinar ainda mais esse repertório, Kamel contou com a ajuda de uma pesquisadora, Ana Frias, para separar os momentos em que Lula enunciava frases relevantes sobre um assunto de outros instantes em que só citava o vocábulo ou um derivado em contextos desprovidos de importância.
 Como o método é objetivo, sem julgamentos prévios, vamos torcer para Ana Frias não ser Ana Paula Frias, autora de passagens como "Eu tentei fazer campanha anti-PT nas eleições passadas, e fui pouco ouvida com argumentos do tipo ‘vamos dar uma chance’, alegaram que era preconceituosa e elitista", ou "Se não fizermos nada, se ficarmos só assistindo, estaremos colaborando para a reeleição deste governo".

 

Se as duas são a mesma pessoa, talvez  alguém poderia conjecturar sobre a "objetividade" da pesquisa se corromper. Mas sobra todo o resto, "real": Lula, o homem de idéias "pedestres" e fala errada, orador logicamente capenga, mas inflamador da massa operária; o Lula não formal, não presidente… e porém presidente.

 Para completar, foi preciso expurgar termos que Lula mencionou de forma recorrente, mas que o contexto revelou serem irrelevantes – e, na direção inversa, incluir na seleção palavras que, embora menos utilizadas, fossem significativas. Entre elas, "mensalão", proferida apenas 35 vezes, mas que, por quarenta motivos de uma obviedade ululante, não poderia ficar de fora. Passado o pente-fino, Kamel chegou aos 345 verbetes que compõem o Dicionário Lula. O trabalho entrou a partir daí na fase final, que consistiu em mergulhar nas falas do presidente para extrair o que o autor chama de "unidade de sentido" – uma espécie de súmula do que o presidente diz pensar sobre determinado assunto.
O informe da Veja não explica os critérios de separar e descartar palavras. Seria interessante ver o quanto a alardeada "objetividade" tem a ver com "rigor". Mas Kamel, homem objetivo, ou pelo menos os homens objetivos da Veja, atentam para a primeira: objetividade. Não se trata do cotejo cuidadoso dos dados, mas sim de um mecanismo exato. Do analista de sistemas à "pesquisadora", tudo se fez objetivamente, sem preconceito algum. E dada a ausência de preconceito, chegamos a passagens recortadas em um universo de palavras não justificado, e "unidades de sentido" não esclarecidas. Mas vá lá, isso exigiria rigor, não "objetividade&qu
ot;.
 Foi dito no início que Kamel, em seu dicionário, não emite opinião sobre o presidente. Mas ele não cumpriria integralmente a tarefa a que se propôs, expressa no subtítulo do livro, se deixasse de mostrar, tanto na introdução de 87 páginas quanto na edição dos verbetes, as contradições e idas e vindas do presidente que certa feita se autodefiniu uma ‘metamorfose ambulante’. Elas estão lá, para que leitores comuns e historiadores façam sua exegese.
Talvez Kamel explique melhor, nas 87 páginas, os critérios de seu método objetivo. Mas após elas, o jornalista da Veja já garante: lá está, o dado nu e cru, para qualquer um fazer sua "exegese". E continua:
Partidários e opositores de Lula continuarão a divergir na interpretação de um fato que, agora registrado em centenas de páginas, se torna mais evidente: o presidente adora falar sobre si próprio e de seu passado de retirante e operário. Para os primeiros, a autorreferência é iluminação; para os segundos, limitação. Equidistante de uns e outros, Kamel arremata que, ‘muito longe do estereótipo do líder da esquerda operária tradicional – geralmente ateu, arauto de um novo homem, advogado da reestruturação da família em novos moldes, proponente de um regime político-econômico em que haja supremacia dos trabalhadores em relação aos patrões –, Lula acaba exposto, por suas próprias palavras, como um brasileiro médio mais ou menos crente em Deus, defensor do modelo tradicional de família e que se vê como o proponente de uma sociedade capitalista onde haja mais harmonia entre pobres e ricos’. E poderia ser acrescentado que, como todo brasileiro médio, ou nem tanto, ele gosta de uma cervejinha, que ninguém é de ferro, companheiro. 
Nisso tudo, surpreendem algumas coisas: em primeiro lugar, o olhar todo converge para um Lula que é tudo, menos presidente. Bem poderíamos pensar em outros dicionários centrados em dados privados publicamente proferidos por outros políticos. A utilidade disso é que seria questionável. Mas por um estranho magnetismo, nunca nos interessaríamos sobre os fragmentos privados da vida de FHC enunciados em seu discurso público, por exemplo. Ou os de Serra, Kassab, ou qualquer outro. A não ser que esses fragmentos privados digam diretamente respeito à vida pública (por exemplo os de uma senadora ruralista, conivente com práticas escravocratas, ou de algum deputado ou vereador metido com milícias cariocas), não importa muito (pelo menos em termos gerais) se um presidente tem tais gostos pessoais ou mantém certas representações privadas peculiares. Mas curiosamente, em Lula tudo isso se acentua.
 
É como se a origem simples do presidente, entrevista em algumas palavras, figurasse com estatuto semelhante a alguns atos "excêntricos" de outros políticos. Para alguns, Lula fala errado do mesmo modo que Bush já foi pego com um livro de ponta-cabeça, por exemplo. Vê-se bem pela redução ad hominem: apenas "como um brasileiro médio…". Novamente o olhar: não o presidente, mas apenas o "brasileiro médio".
 
 Em segundo lugar, o recorte de Kamel – pelo menos segundo Veja – mistura duas esferas: a do homem e a do presidente. E em terceiro, Kamel concentra toda a esfera do presidente na do homem: Lula é presidente do Brasil; mas para encararmos o presidente, devemos tirar de lado tudo aquilo que é o presidente para, a partir do que o presidente não é, julgar o que o presidente é. Como se os jargões populares, os erros de dicção e as falas expontâneas revelassem não um ex-retirante que se tornou presidente, mas um presidente que fala, pensa e se expressa mal. Enfim, ele não deveria estar ali, não é mesmo?
 
Seguindo o raciocínio, Kamel não procede por exemplo como em outros possíveis estudos ou questões. Poderíamos nos perguntar, por exemplo, sob quais condições FHC enunciou o "esqueçam o que escrevi", ou como, mesmo sendo frase não proferida, manteria ou não relações com a atuação do ex-presidente; poderíamos nos perguntar, com maior rigor, em que sentido o governo de FHC se relacionou com seus escritos. No caso de Lula, poderíamos analisar se o presidente contradiz o líder sindical, entrevistado por Felix Guattari nos anos 80. Nessa linha um exemplo recente (talvez questionável) é o vídeo mostrado por Ryff, com duas falas de Lula sobre programas assistenciais do governo.
 
Mas Kamel não parece interessado em perguntar como o político continua ou não fiel ao político, como se relaciona o líder sindical com o presidente. No meio dos recortes, que afastam os discursos formais e se resumem ao período mais formal da carreira de Lula, Kamel se interessa nas relações do retirante – aquele rosto anônimo e pobre, erroneamente chamado por alguns de homem "privado" (pois para ser privado é preciso um espaço de privacidade, e não o próprio anulamento enquanto pessoa) – com o presidente.
 
É louvável que um retirante se torne presidente – e legítimo quando se critica qualquer presidente, retirante ou doutor pela Sorbonne, enquanto presidente. Mas Kamel parece, por debaixo do tapete, chamar a atenção a outra coisa: não o retirante presidente, mas o presidente que, enfim, fala como retirante… É como cogitarmos a possibilidade de um afrodescendente norte-americano, de origem pobre e relações com muçulmanos, tornar-se presidente dos EUA. Um absurdo, certo?
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8 comentários em “Expondo-se pelas próprias palavras

  1. ou de um representante dos cocaleros se tornar presidente e falar como cocalero…..é o pobrismo intelectual dominando o mundo. Os idiotas descobriram que são maioria, agora sai de baixo….

  2. Você comentou que os “idiotas” estão “massacrando” os intelecutais.

    Que intelectuais são esses que se deixam massacrar por idiotas?

  3. Quero deixar claro que não tenho nada contra intelectuais, muito pelo contrário, sou totalmente a favor dos intelectuais, mas dos verdadeiros.

    Aqueles que amam o povo e a cultura popular.

    Villa-Lobos, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Jorge Amado etc. e tantos outros.

    Mas intelectual “se achão”, exibicionista, desprezador do povo, realmente é idiota.

  4. Peraí, mas será que o pobrismo e a idiotice se identificam com esses governos de pessoas pobres que se elegeram?

    Falávamos de democracia representativa “de maiorias”, e quando ela era “riquista” ninguém reclamava (ou melhor, sabemos quem não reclamava). Só que a diferença é que por incrível que pareça, quando ela começa a funcionar e elege representantes de maiorias, alguns começam a rosnar.

    É um baita preconceito identificar esses governos ao “pobrismo” e à “idiotice”.

    Mas veja só, o governo dos “ricos” nunca saiu da idiotice. Se o governo dos pobres cairá na idiotice ou no pobrismo dentro de algumas décadas, isso é uma boa questão.

    Quanto ao pobrismo (o embrutecimento do povo, a manipulação das massas), sempre existiu. Com o governo dos ricos, entendamos muito bem. E não é o preconceito “riquista” e raivoso que responde os problemas colocados por ele, não é mesmo? 🙂

  5. Pergunto ao Chesterton: o pobrismo que ele se refere é Lula? PT? Ou Kamel-Magnoli-Globo-Veja?

    Me dá crise de riso a impotência desses setores em entender o povo brasileiro e sua vontade política em eleger o Lula. Como foi com o Getúlio, em outra encarnação política.

    Mais engraçado ainda é o verniz de objetividade científica, tão bem descascado aqui por Catatau.

    No fim, esses setores da imprensa jogam para sua própria torcida, que se julga muito letrada, mas lê apenas a Veja. E assiste o Jornal Nacional.

    E o Lula que é analfabeto.

  6. Esse velho assunto do rotulo de que lula por que pouco estudado iria fazer um mau governo ou um governo sem idéias é tão pobre de comprovações que dá dó!
    E a coisa dele não querer estudar, aprender ingles e etc etc e tal me faz rir quando me oferecem isso tudo como prova de que ele é mediocre!
    Afinal Lula fez dois programas de incentivo a educação, para a basica e para a universitária.
    Ou seja o cara quer governa tentando preencher as brechas que impossibilitam as pessoas de chegar a inclusão social, e em outros setores da vida do povo tambémm existiram e existem programas para elevar e melhorar as condições da população.
    Mas o que dá para ver é ele não só governo para o segmento “pobre do país, e isso é governar para todos, e com boas idéias.
    Esse talvez não seja um governo ideal, mas diante dos anteriores é sim um avanço…..e que outros se sigam.

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